  beira da loucura
Descaminhos da paixo
Elisa Masselli

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Descrio da capa: A capa Apresenta em toda extenso a fotografia de uma duna de areia banhada pelo sol dando um tom amarelo alaranjado. Do lado esquerdo mostra
uma mulher de costas e cabelos loiros compridos. Ela usa um vestido de alas azul. No topo ao lado direito o nome da autora na cor marrom e no rodap direito o ttulo
do livro na cor branca.
Numerao das pginas: No rodap
Detalhes de paginao: No topo de cada pgina apresenta o ttulo de cada captulo especfico.
Fonte do arquivo: Arial 10
Verso do Office: MS Office 2003
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@@@@@@
Revisado por Maria Cristina S. Gomes

Reviso
Katya Las Ferreira Patella
Capa
Cler Mazalli
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Diagramao
Just Layout
1a  Edio
Outubro de 2008
20.000 exemplares
Publicao e distribuio
MENSAGEM DE LUZ EDITORA
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Sumrio
 beira da loucura 7
O socorro 17
Em busca da identidade 33
A vida continua 43
Visita do alm 51
Deus  quem sabe das coisas 59
A deciso de Jurema 73
Surpresas da vida 85
Dona Betina 95
A hora certa 111
A fora do destino 123
Momentos de desespero 145
A festa de So Jos 165
Conhecendo o passado 173
Lembranas de famlia 185
O reencontro 195
Voltando para casa 209
Novos caminhos  225
A consulta 239
Sndrome do pnico 259
Orai e vigiai 269
A Lei maior 277
Renunciando ao cu 287
Persuaso 297
A hora da verdade 303
Fuga inesperada 323
Lio de abnegao 333
A viagem 341
Longa espera 359
Difcil deciso 367
Eplogo 385


Prefcio
Cida, embora originria do Sul, foi encontrada quase morta no
interior da Bahia. Sem memria, teve que percorrer uma grande jornada
para descobrir quem havia feito tamanha maldade com ela e o
porqu. Durante essa jornada, aprendeu sobre si e sobre a vida. Passou
por momentos de depresso criados por ela e por espritos inferiores,
mas sempre teve ao seu lado amigos que a ajudaram no s a encontrar
os culpados por tanto sofrimento , como tambm a cura da depresso e
o caminho do amor e do perdo.




 Beira da Loucura


A Beira da Loucura
Daniel acompanhou Cida at a porta de seu quarto. Assim que ela
entrou, ele foi para o seu, deitou-se de costas e, com os olhos fixos no 
teto, ficou pensando em tudo o que havia acontecido naquele dia. 
Assim que Daniel se afastou, Cida fechou a porta. Encostou-se a ela 
e ficou olhando por todo o quarto para ver se no havia ningum. Seu 
corao batia forte e ela tremia muito. Estava com muito medo. Um
vulto de mulher que estava ao seu lado, rindo muito, disse: 
-  isso mesmo! Agora chegou a sua vez! Algum vai matar voc! 
Vai pagar pela traio! Por isso, no pode mais dormir! Precisa ficar 
acordada e vigiar! Desta vez voc no vai escapar! 
Cida no sabia o motivo de todo aquele medo. Sentia as pernas 
tremerem e no conseguia chegar at a cama. Aos poucos e, com 
dificuldade, pde se aproximar e caiu sobre ela. Mesmo deitada, 
continuou percorrendo o quarto com os olhos. S se acalmou um 
pouco, quando concluiu que no havia ningum ali. O vulto ao seu 
lado dizia: 
- Este  o nico lugar da casa em que voc estar protegida. No 
deve mais sair daqui. No deve ir a lugar algum! Nem mesmo com 
Daniel. Quem pode lhe garantir que ele tambm no faz parte de tudo 
o que lhe aconteceu? 
O medo que estava sentindo aumentou. Encolheu-se na cama, 
pensando: no vou mais sair deste quarto, nem mesmo com o Daniel. 
No o conheo, nem sei de onde surgiu. Quem me garante que ele no foi
mandado para me matar? Acontea o que acontecer, no sairei mais.
O vulto continuava rindo e falando:
- Isso mesmo! Voc no pode confiar em ningum! O Duarte
tambm  seu inimigo! Ele veio com essa histria de espritos s para
enganar voc! Isso no existe! Ele quer que voc confie nele e no sinta
medo, mas ele tambm quer lhe matar.
Cida, sem saber por que, sentiu medo e raiva de Duarte. Seu corpo
todo doa, como se tivesse levado uma surra, e estava tambm muito
suado, tanto que a roupa se prendia nele. Pensou: preciso me levantar, 
tomar um banho e trocar esta roupa. 
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 Beira da Loucura 
Foi o que fez. No armrio, escolheu uma roupa e se dirigiu ao 
banheiro. Assim que chegou  porta, o vulto continuou falando: 
- Voc no pode tomar banho. Quando estiver sozinha no 
chuveiro, algum pode vir com uma faca e matar voc. No se lembra 
daquele filme? 
Cida parou na porta. Lembrou-se de um filme a que havia assistido, 
voltou correndo para a cama, deitou e ficou olhando por todo o quarto. 
Estava em pnico. Levantou-se novamente e, correndo, foi at a porta, 
trancando-a. Voltou para a cama e ficou na posio inicial, por muito 
tempo. Algum bateu a sua porta. Da cama e na mesma posio em que 
estava desde que se deitara, amedrontada, perguntou: 
- Quem ? 
- Sou eu, a Emlia, posso entrar? 
O vulto, que durante todo o tempo ficou deitado ao seu lado, 
levantou e disse, rindo e gritando, com a voz estridente: 
- Tome cuidado com ela! Ela tambm est querendo matar voc! 
No deixe que entre! 
Cida no ouviu, mas sentiu medo de Emlia. Sentando-se na cama, 
gritou: 
- No vou abrir! Estou descansando! Vou descer logo mais! 
Emlia estranhou aquele tom de voz, mas, mesmo intrigada, se 
afastou, pensando: que ser que aconteceu? Ela deve estar mesmo muito 
cansada. Voltarei mais tarde. 
Ao passar pelo corredor, viu Daniel que, aps ter descansado, 
lia sentado em um sof no escritrio. Pensou em falar com ele, mas
resolveu que no, pensou: tu no vou incomod-lo. Ela no me pareceu
bem, mas pode ter sido s minha impresso. Logo mais irei at l para ver
se ela melhorou.
Foi em direo  cozinha para ver como estava a preparao do
jantar. Cida sentia sono e por vrias vezes tentou dormir, mas foi em
vo, o vulto de mulher no lhe dava paz. Cada vez que fechava os olhos,
o vulto gritava: 
- Cuidado! Abra os olhos! Algum pode entrar no quarto! Sabe 
que todos eles devem ter a chave! 
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 Beira da Loucura 
Cida abriu os olhos imediatamente. Em seguida, ficou olhando fixo 
para a porta. Ela no percebeu quanto tempo passou at ouvir outra 
batida  porta. 
- Quem ? 
- A Emlia! Est quase na hora do jantar! Voc precisa se preparar! 
O vulto rodopiava em volta dela, continuava rindo e gritando: 
- No a deixe entrar! Voc no pode comer! Eles colocaram veneno 
na sua comida! 
Imediatamente, Cida respondeu para Emlia: 
- Eu no estou com fome! Quero ficar aqui! Ainda estou cansada! 
- Voc no pode ficar sem comer! Deixe-me entrar! 
Cida gritou, alucinada: 
- No estou com fome! V embora! Deixe-me em paz! 
Emlia percebeu que a situao era grave, desceu rpido e foi at o 
escritrio. Entrou nervosa e disse: 
- Daniel! Est acontecendo alguma coisa com ela! 
Ele assustou-se ao v-la entrar daquela maneira, quase pulou do 
sof.
- O que aconteceu? A senhora est nervosa! 
Ela, muito nervosa, contou o que havia ocorrido. Assim que terminou 
de falar, ele saiu, subiu correndo a escada que levava aos quartos. 
Assim que chegou diante do quarto de Cida, tentou abrir a porta, mas 
percebeu que ela estava trancada. Bateu com fora, chamando: 
- Cida! Sou eu! Abra a porta! 
Cida levantou, ficou em p junto  cama. O vulto, que continuava 
rodopiando  sua volta, disse, rindo muito: 
- No abra a porta! Ele tambm faz parte da quadrilha! Ele foi 
mandado para encontrar voc e s fingiu que gostava de voc! No 
pode confiar em ningum! 
Cida, nervosa, comeou a andar por todo o quarto. Chorando 
muito, respondeu: 
- No vou abrir a porta! Voc tambm est querendo me matar! 
Ao ouvir aquilo, Daniel olhou para Emlia que, de olhos fechados e 
com as mos postas, parecia rezar. Ele, nervoso, perguntou: 
- Emlia, o que est acontecendo aqui? O que fizeram com ela, 
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 Beira da Loucura 
para que ficasse assim? 
Emlia abriu os olhos e respondeu:
- No sei! Quando vocs chegaram, pareceu-me que estava tudo
bem. Ela entrou no quarto e no falou com mais ningum.
- Mas deve ter acontecido alguma coisa! Algum deve ter-lhe dito 
ou feito algo que a assustou! Parece muito amedrontada! 
- Ela no falou com ningum, voc mesmo a acompanhou at o
quarto!
Ele tornou a bater  porta.
- Cida, sou eu, meu amor. Preciso entrar! Sabe que a amo 
muito... 
O vulto disse, nervoso:
-  mentira! Ele no gosta de voc! Ele faz parte da mesma
quadrilha! 
Mesmo sem ouvir a voz do vulto, Cida disse, gritando: 
- Voc est mentindo! Nunca me amou! Esteve o tempo todo 
fingindo! Assim como os outros, est querendo me matar! No vou 
mais sair deste quarto nem deixar ningum entrar aqui! Aqui dentro, 
sozinha, sei que estou protegida! 
Ele voltou a olhar para Emlia, que, assim como ele, estava abismada 
com tudo aquilo. Voltou a bater  porta e a dizer: 
- No diga isso, meu amor! Sabe que a amo! Voc no pode ficar 
a dentro para sempre! Tem que se alimentar! H muitos amigos para 
proteg-la! 
Ela se enterneceu, as lgrimas continuavam caindo. Foi at a porta. 
O vulto, rodopiando  sua volta, desesperado, comeou a gritar: 
- No abra a porta! Ele est mentindo! Ele s est esperando uma 
oportunidade para matar voc! Nem ele, nem ningum desta casa quer 
proteg-la! Todos querem matar voc! 
Cida parou novamente, voltou para a cama. Toda encolhida, gritou: 
- No vou abrir! V embora! Quero ficar em paz! 
Daniel tornou a olhar para Emlia, dizendo, desesperado: 
- O que vamos fazer?! H outra chave para esta porta? 
- H, est guardada no escritrio, vou pegar! 
- V, por favor. Enquanto isso eu vou telefonar para o hospital e 
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 Beira da Loucura 
ver se Ernesto ainda est l. Voc sabe o nmero? 
- Sei, mas est quase na hora do jantar, ele deve estar a caminho. 
- Mesmo assim vou tentar. Vamos? 
Desceram apressados. Enquanto caminhavam para o escritrio, 
Emlia falou o nmero do telefone. Ele guardou na memria. Assim 
que chegaram  sala, ele foi at o telefone e ela abriu a gaveta, onde sabia 
estar o molho de chaves. Procurou e no o encontrou, saiu do escritrio, 
foi at a cozinha. Leonora e a cozinheira, Genilda, estavam terminando 
de preparar o jantar. Emlia entrou apressada, perguntando: 
- Leonora! Voc sabe onde esto as chaves da casa? 
Leonora pensou por alguns instantes, depois respondeu: 
- L no escritrio, na segunda gaveta da escrivaninha. Por qu? 
- J procurei e no encontrei, precisamos abrir o quarto! Ela se 
trancou e parece que est com muito medo! 
Leonora comeou a tremer, enquanto perguntava: 
- Ela se lembrou de alguma coisa? 
- No sei. Disse que todos aqui esto querendo mat-la. 
- De onde tirou essa idia? 
- Tambm no sei, mas precisamos abrir aquela porta e ver como 
ela est. Vamos at o escritrio, provavelmente o Ernesto guardou as 
chaves em outro lugar, preciso que me ajude a procurar... 
Foram ao escritrio, procuraram, mas no encontraram. Leonora 
voltou para a cozinha, Daniel estava colocando o telefone de volta ao 
gancho. Emlia perguntou: 
- Conseguiu falar com Ernesto? 
- No, ele acabou de sair. Logo mais estar aqui. Vou l para cima 
e tentar fazer com que ela abra a porta. 
- No encontrei as chaves. O Ernesto deve ter trocado de lugar. 
Irei com voc. 
Subiram em direo ao quarto de Cida, que continuava sentada na 
cama com os olhos fixos na porta. 
Leonora, sabendo que Emlia e Daniel se dirigiram para o quarto, 
foi at a sala, pegou o telefone do gancho, discou um nmero. Do 
outro lado da linha, uma voz de mulher atendeu: 
- Al! 
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 Beira da Loucura 
- Dona Vanda, sou eu, a Leonora. Preciso falar depressa! Estou 
telefonando para dizer que h alguma coisa acontecendo. 
- Chame a Emlia, diga que preciso falar com ela. 
- Ela est l em cima batendo  porta do quarto! 
- V at l, diga que  urgente.
- Est bem, estou indo, mas no sei se ela vai querer atender.
Largou o telefone sobre a mesinha e foi at o andar de cima. Chegou 
perto de Emlia que estava ao lado de Daniel. Este continuava chamando 
por Cida que respondia, mas se recusava a abrir a porta. 
Leonora se aproximou e, baixinho, disse: 
- Dona Emlia, a dona Vanda est ao telefone e disse que precisa 
falar urgente com a senhora. 
Emlia se voltou, contrariada. 
- Diga a ela que agora no posso atender. 
- Ela disse que  urgente.
- Est bem, vou atender. 
Bateu de leve com a mo no ombro de Daniel e desceu, 
acompanhando Leonora. Pegou o telefone. 
- Al, Vanda, sou eu a Emlia, o que h de to urgente? 
- S queria convidar vocs todos para, amanh, virem jantar 
aqui. 
Contrariada, Emlia respondeu: 
- Voc acha que isso  urgente? 
Tentando dissimular o seu nervosismo, Vanda respondeu: 
- Claro que , Emlia! Se vierem, preciso providenciar tudo para 
que o jantar seja perfeito. 
- No posso lhe responder agora. Mais tarde eu telefono. 
- Por que no pode responder agora? 
- O Ernesto ainda no chegou, ele  quem tem que decidir. 
- Estou percebendo que a sua voz est diferente. Est acontecendo 
alguma coisa? 
Emlia ia contar, mas achou melhor se calar. Pensou rpido e 
mentiu: 
- Est tudo bem, s preciso falar com o Ernesto. Mais tarde, 
telefonarei e lhe darei uma resposta. 
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 Beira da Loucura 
- Tem certeza de que est tudo bem mesmo? A sua voz est 
estranha, Emlia! Parece que no est bem. 
Emlia, impaciente, respondeu: 
- Est tudo bem, s estou preocupada com o jantar. 
Agora, sem alternativa, Vanda disse: 
- Espero que esteja dizendo a verdade, mas se acontecer alguma 
coisa, por favor, me avise. Sabe que sou amiga de todos vocs, 
principalmente dela, por isso fico preocupada. No esquea que estou 
aqui para todo momento bom ou ruim. 
- Sei disso, Vanda, no se preocupe, no est acontecendo nada. 
Assim que Emlia colocou o telefone de volta no gancho pensou: 
eu mesma no sei o que est acontecendo, embora desconfie, mas no tenho 
certeza, preciso esperar a chegada do Ernesto e do Duarte, eles sabero o 
que fazer. Vanda e Incio no acreditam no espiritismo e a presena deles, 
descrentes como so, poder atrapalhar, se  que o problema da menina  
espiritual mesmo. Por isso menti. 
Fechou os olhos, dizendo em voz baixa: 
- Meu Deus, ajude-nos para que o meu pensamento no esteja 
certo. Se no for o que estou pensando, o Duarte conseguir cuidar 
dela sem maiores problemas. 
Vanda tambm colocou o telefone no gancho. Com o rosto 
crispado, pensou: Emlia est realmente preocupada, senti a sua voz um 
pouco alterada. Por que no me contou o que est acontecendo? Ser que 
ela desconfia de alguma coisa? 
Emlia voltou para junto de Daniel, que continuava insistindo em 
bater  porta. 
- Cida! No faa isso! Sou eu, Daniel! Abra essa porta! 
Emlia se aproximou, estava aflita, tocou no brao dele. 
- No insista mais, Daniel, se for o que estou pensando,  melhor 
deix-la sozinha. O Ernesto est chegando e o Duarte prometeu que 
viria jantar. Assim que eles chegarem, sabero o que fazer. Vamos at a 
sala esperar por eles. 
Daniel estava desesperado. 
- No podemos sair daqui, nem a deixar sozinha, Emlia! No 
sabemos o que est acontecendo! No sabemos o que ela poder fazer! 
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 Beira da Loucura 
- Enquanto ela estiver dentro do quarto, no far nada. A nica 
coisa que podemos fazer, neste momento,  pedir a ajuda de Deus e que 
o Ernesto chegue logo. Venha... 
Ele estava aflito, no sabia o que fazer. No queria deixar Cida 
sozinha, conhecia seus problemas, sabia o quanto ela havia sofrido e o 
quanto a amava. 
- Emlia, o que est acontecendo? Por que ela mudou assim to 
de repente! Hoje, passamos um dia tranqilo. Fomos ao hospital, ela 
reencontrou Duarte, ele nos levou at a clnica. Ser que ela ficou assim 
porque ele nos contou aquela histria de espritos que causam doenas 
mentais? Ser que ela se impressionou? 
- Duarte, alm de ser amigo deles desde a faculdade,  um 
excelente psiquiatra e se ele tocou nesse assunto, talvez seja por perceber 
que ela precisava tomar conhecimento. Logo mais ele estar aqui. Por 
enquanto, vamos rezar. 
- No sei at onde eu acreditei em tudo o que Duarte nos contou. 
No conversei com a Cida sobre isso, portanto, no sei se tudo aquilo a 
impressionou a ponto de ficar da maneira como est. Por isso no posso 
sair daqui, preciso ficar conversando com ela! 
- Isso no vai adiantar, Daniel. Ouvindo sua voz, ela ficar mais 
nervosa ainda. Vamos deixar que se acalme. Assim, quando o Ernesto 
chegar, poder tentar fazer com que ela mude de idia e abra a porta. 
- Acredita mesmo nisso? Mesmo sabendo de todos os problemas 
que ela enfrentou nestes ltimos tempos? 
- No s acredito, mas tenho certeza que nunca estamos ss, que 
h sempre um motivo para todos os problemas que aparecem em nossa 
vida. Deus est sempre, a qualquer momento, ao nosso lado. Acredito 
tambm que este seja o caminho do fim dos tormentos dela. Venha... 
Ele ainda tentou fazer com que Cida abrisse a porta. 
- Cida! Sou eu! O Daniel! Abra a porta! Sabe o quanto amo 
voc! 
Cida sob a influncia do vulto, gritou: 
- V embora, deixe-me em paz! Quero ficar sozinha! 
Ele olhou para Emlia, que, aflita, disse: 
- Viu, no lhe disse que no vai adiantar ficarmos aqui. Ela est 
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 Beira da Loucura 
bem, s precisamos esperar Ernesto chegar. Ele a conhece,  seu irmo 
gmeo, saber como falar com ela. Vamos descer e esperar l embaixo. 
Ele, embora aflito, resolveu acompanh-la. 
Desceram e foram para o escritrio. Emlia fechou os olhos e pediu 
ajuda. Daniel ficou andando de um lado para outro. Naquele momento 
no poderiam fazer outra coisa. Apenas esperar. 
Cida, dentro do quarto, tambm andava de um lado para outro, 
com os olhos bem abertos. Estava com muito medo, no sabia bem 
do qu. Ao seu lado, o vulto de mulher continuava rodopiando, rindo 
muito e dizendo: 
- No pode acreditar nele! Ele tambm est mentindo! Todos querem 
matar voc! Mande-o embora e no abra a porta! 
Cida ouviu quando Daniel bateu  porta pela ltima vez. Depois, 
o silncio. Ela deduziu que ele havia ido embora. Sentiu um vazio, ia 
gritar, chamando por ele, mas o vulto falava sem parar, ainda rodopiando 
 sua volta. Dizia: 
- No pode chamar por ele! Tem que se lembrar de tudo o que 
eles fizeram com voc! Precisa se lembrar para ter a certeza de que 
nunca mais abrir essa porta! Como pode se esquecer de tudo o que lhe 
aconteceu? Aqui, neste quarto,  o nico lugar em que est protegida! 
Cida no ouvia a voz, mas sentia-se cada vez mais fraca, pensou: no 
sei por que estou assim. Sei que o Daniel me ama e o Ernesto, embora no 
o conhea muito bem, me pareceu sincero. Da Emlia no posso duvidar, 
ela  uma pessoa boa, de acordo com o que o Ernesto contou, fo i ela quem 
praticamente nos criou. Meu Deus! Por que no consigo me lembrar? 
O vulto continuou: 
Voc pode lembrar, sim! Lembra-se do dia em que o Neco a encontrou? 
Relembre! Volte para cama. No responda mais ao chamamento deles. 
Sente-se na cama e relembre! 
Com os olhos ainda presos  porta, Cida sentou-se na cama e 
lembrou-se daquele dia. As imagens passavam rapidamente por seu 
pensamento. 
15


 O Socorro 
Imediatamente, lembrou-se daquele dia em que abriu os olhos, mas 
foi obrigada a fechar novamente, pois o sol estava forte e bem no alto. 
Tentou se levantar, mas no conseguiu. Sentiu o corpo todo doendo e 
uma dor mais forte na cabea, o que fez com que se deitasse outra vez. 
Colocou a mo no local da dor, ela aumentou. Percebeu que havia um 
corte e que seus cabelos estavam secos e amontoados, talvez com sangue 
ressecado. Assustou-se e perguntou baixinho: 
- O que aconteceu? Onde estou? 
Colocou o cotovelo no cho e, apoiada nele, conseguiu levantar um 
pouco. Olhou para a frente, no viu nada, apenas uma imensido sem 
fim, uma terra cinza, quase sem vegetao. O desespero comeou a 
tomar conta dela. Outra vez tentou levantar, mas logo percebeu que 
no conseguiria. Sentiu muita sede e uma fraqueza imensa que a fez se 
deitar novamente. Ficou com muito medo, pois percebeu que as suas 
foras se esvaam e que provavelmente estivesse morrendo. Antes de 
desmaiar, ainda disse, baixinho: 
- Algum me ajude... 
No sabia por quanto tempo ficou ali desmaiada, quando ouviu 
uma voz distante: 
- Moa! Moa! Acorde. 
Lentamente, abriu os olhos. Viu diante de si o rosto de um homem 
que, aflito, tentava levant-la. Quis dizer algo, mas no conseguiu, a 
dor e a fraqueza a impediram. Fechou os olhos. O homem que estava 
ao seu lado percebeu a gravidade da situao. Com cuidado, tomou-a 
em seus braos e colocou-a sobre alguma coisa que ela no sabia o que 
era. Sentiu um movimento, sabia que estava sendo levada para algum 
lugar, mas no se importou em saber para onde. Sabia que estava sendo 
socorrida. Tranqila, fechou os olhos. 
Chegaram a uma casa pequena. O homem gritou: 
- Jurema! Jurema! Venha c! 
Com dificuldade, ela abriu os olhos e viu uma jovem senhora, sair 
correndo da casa. Assustada, perguntou: 
- Neco! Que aconteceu? Por que est gritando desse jeito? 
17


O socorro 
O homem apontou para trs. A mulher olhou e, ao v-la naquele 
estado, disse, assustada: 
- Neco do cu! Quem  essa moa? Que aconteceu? 
- No sei, ela estava deitada l no meio da caatinga. Tentei falar 
com ela, mas no consegui. Est muito machucada. 
- Meu Deus! A gente tem de lev-la para dentro. 
Com cuidado, ele pegou a moa novamente no colo e carregou-a 
para dentro da casa. Ela desmaiou outra vez. Neco, ajudado por 
Jurema, colocou-a em uma rede pendurada em um canto do quarto. 
Por um tempo, ficaram olhando para aquela moa. Horrorizaram-se 
com a situao dela, pois, alm de estar com hematomas pelos braos 
e pernas, seu rosto estava inchado, nos olhos, havia uma mancha preta 
e na cabea um enorme corte. Ficaram ali, parados, sem saber o que 
dizer ou fazer. Aps alguns segundos, Jurema foi at a cozinha. Pegou 
gua em uma moringa de barro e colocou-a em uma pequena bacia de 
alumnio. Depois, pegou um pano branco muito limpo. Foi na direo 
da moa, molhou o pano na gua e colocou sobre o corte que havia em 
sua cabea para que o sangue ressecado fosse amolecido. Em seguida, 
voltou para a cozinha, pegou uma caneca tambm de alumnio, colocou 
gua, voltou para o quarto e a levou em direo  boca da moa, que, 
instintivamente, a abriu. Jurema sentou em um banquinho junto  rede 
e, com pacincia, foi pingando a gua aos poucos e ela foi bebendo. 
A moa queria abrir os olhos, mas no conseguia. Aps fazer com 
que ela bebesse uma boa quantidade de gua, Jurema retirou o pano 
do ferimento, percebeu que o sangue j estava soltando. Molhando 
novamente o pano, foi limpando toda a rea ferida. Embora a moa 
houvesse bebido a gua, ainda permanecia desmaiada. Olhando para a 
moa, disse preocupada: 
- Neco, parece que ela no est bem.  preciso lev-la at o mdico 
l na cidade. 
- Tambm estou preocupado, mas do jeito que ela est, acho que 
no vai ser bom mexer com ela no. A gente tem de esperar mais um 
pouco para ver se ela reage. 
- Mas, Neco, quem  essa moa? Est muito machucada, quem fez 
isso com a coitada?


O socorro 
- No sei, mas foi uma maldade muito grande. Ainda bem que 
eu estava passando por l e a encontrei. Se ela ficasse mais um pouco 
naquele sol, com certeza ia morrer. 
- Ser que ela vai agentar? A gente no sabe o que aconteceu, 
nem sabe se ela est machucada por dentro. Vou ver se consigo tirar 
esse vestido dela. Est sujo e com muito sangue. Neco, v l fora e 
traga umas folhas de arnica. Vou colocar em cima do corte da cabea e 
tambm fazer um ch. A arnica vai tirar toda a inflamao. 
- Faz isso, Jurema. Vou l fora. Assim que terminar de trocar a 
moa, me chama. 
Neco saiu da casa. Em seu rosto, havia um ar de preocupao. Estava 
intrigado e curioso por saber o que havia acontecido com aquela moa. 
Foi at o fundo do quintal, pegou algumas das poucas folhas de arnica 
que ainda restavam no p. Voltou, sentou em um banco e ficou com os 
olhos parados. O sol ainda continuava forte. No horizonte, no havia 
nada, apenas algumas casas, mas bem distantes umas das outras. Ele 
pensou: no sei quem  essa moa, s sei que, quem bateu nela, fez com 
muita maldade. Por que fizeram isso? 
Jurema, com cuidado, foi tirando o vestido azul que a moa estava 
usando. Depois, colocou-lhe um vestido estampado e franzido. 
A moa tentou reagir. Algumas vezes, abriu os olhos e tentou sorrir, 
mas adormeceu em seguida. Jurema, assim que percebeu que nada mais 
poderia fazer, a no ser esperar, saiu da casa e sentou-se ao lado de Neco. 
Percebeu que ele, assim como ela, estava preocupado. 
- Neco, o que a gente vai fazer? 
- No sei, Jurema, estou aqui pensando. 
- A gente precisa levar essa moa at a cidade. Quem sabe algum 
a conhece. 
- E...quem sabe, Jurema, mas no pode ser agora, ela no vai 
agentar uma viagem de quase duas horas em cima da carroa. A gente 
vai precisar esperar que ela melhore. 
Jurema pegou as folhas de arnica e entrou na casa. Foi em direo  
moa. Assim que se aproximou, viu que ela estava com os olhos abertos 
e tentava ver onde estava. Sorrindo, perguntou: 
- Parece que a moa acordou. Como voc est? Que lhe 
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O socorro 
aconteceu? 
A moa olhou para ela, querendo tambm saber onde estava e quem 
era aquela mulher que lhe sorria. No respondeu e, com a voz fraca, 
perguntou: 
- Onde estou? 
- Est aqui na nossa casa. O meu marido encontrou voc, cada 
l na caatinga, mas de onde voc ? O que lhe aconteceu? Quem lhe 
machucou desse jeito? 
Ao ouvir aquilo, a moa levou a mo at a cabea. Era a ltima 
coisa de que se lembrava, da dor que sentiu na cabea. Assustada, 
respondeu: 
- No sei o que aconteceu. S me lembro da dor e de estar cada 
sem conseguir me levantar. 
- Qual  o seu nome? 
Ela ficou pensando por alguns segundos. Depois, chorando, 
respondeu: 
- No sei! No sei qual  o meu nome! 
Jurema ficou assustada com aquela resposta, perguntou: 
- Como no sabe o seu nome? 
Agora, a moa estava em desespero e com a voz ainda fraca, quase 
gritou: 
- No sei! No me lembro! Como pode ser isso? 
- Fique calma. Logo vai se lembrar. A ferida na sua cabea  muito 
feia. Logo vai sarar e vai se lembrar de tudo. 
Neco, do lado de fora da casa, quando ouviu os gritos, entrou 
correndo. 
- Jurema! Que est acontecendo? Por que ela est gritando? 
Jurema, tambm assustada com tudo aquilo, respondeu: 
- No sei! Ela disse que no sabe o que aconteceu, nem qual  o 
seu nome! 
- Como no sabe? 
- No se lembra! No sabe! 
Ele olhou para a moa. Disse, nervoso: 
- Moa, encontrei voc jogada na caatinga e a trouxe aqui para 
casa. No venha agora com essa histria. No brinca com a gente. 
20


O socorro 
Ela estava desesperada. Respondeu chorando: 
- No sei quem sou, o que aconteceu e nem qual  o meu nome! 
No sei! 
Eles perceberam que ela estava dizendo a verdade, embora no 
entendessem o que estava acontecendo. Jurema disse: 
- Est bem, no precisa ficar nervosa. Est com fome? 
Ela demorou um pouco para responder, tambm estava intrigada e 
no entendia o que acontecia. Depois, respondeu: 
- Estou com muita sede e tambm com dor na cabea. 
- Vou lhe dar mais um pouco de gua. Depois, vou preparar 
um caldo quente e um ch de arnica para ver se essa dor passa. Fica 
tranqila. No fim, sempre d tudo certo. 
Assim que ela tomou mais um pouco de gua, calada, sorriu e 
fechou os olhos. Jurema olhou para Neco, fez um sinal e os dois saram 
do quarto. Foram para a cozinha. L tambm no havia muita coisa. 
S uma pequena mesa, com duas cadeiras, um armrio para colocar 
a loua e uma espcie de pedestal, onde estavam penduradas algumas
panelas de alumnio, muito brilhantes. Sentaram-se.
- Neco, parece que ela est dizendo a verdade, mas o que a gente 
vai fazer? 
- Tambm j estive pensando nisso, no sei como vai ser. Agora, 
a gente precisa esperar que ela melhore. Depois, descobrir quem  e 
ajud-la a voltar para casa. 
- Voc viu que ela no  daqui do Nordeste? 
- No! Por que est dizendo isso, Jurema? 
- Voc no falou muito com ela, por isso no viu, mas ela no fala 
como a gente, no. Ela fala igual s pessoas l do Sul. 
- Tem certeza disso? 
- Claro que sim. Ela no  daqui, no. Tem outra coisa. O vestido 
que estava usando  muito bonito, o pano  muito bom. No  igual 
quele que a gente usa por aqui no. A mo dela  macia, nas duas h 
um sinal de anel ou aliana. 
- Acha que ela  gente rica? Como apareceu aqui? Vindo de to 
longe? 
- Nem imagino, mas ela logo vai se lembrar de tudo e assim a 
21


O socorro 
gente vai saber o que aconteceu. 
- Tomara que sim. Vou l fora pegar gua e uns jerimuns para voc 
fazer o caldo. 
- Vai, sim. 
Neco saiu. Jurema estava mesmo intrigada e pensando: quem  essa 
moa? O que est fazendo aqui to longe de casa? Ser que foi assaltada na 
estrada? Que ela no  daqui tenho certeza, mas agora no adianta ficar
imaginando. A gente vai ter mesmo  que esperar que ela sare epossa contar
tudo. Vou preparar um caldo para ela. 
Foi at o quarto onde a moa estava. Olhou, ela continuava 
dormindo. Seu rosto estava tranqilo. Jurema ficou olhando, mas no 
conseguia entender: o que aconteceu com essa moa to bonita? Ela tem os 
cabelos claros e os olhos azuis. No  mesmo destas bandas, no, mas como 
chegou at aqui? E nesse estado? Toda machucada, por que levou uma surra 
to grande? 
A moa se mexeu um pouco, mas logo ficou quieta e, ainda 
dormindo, levou a mo at a cabea e, em seu rosto, Jurema viu uma 
expresso de dor. 
- Moa, acorde. Precisa comer alguma coisa. 
Ela abriu os olhos, olhou para aquela estranha que a chamava, 
disse: 
- No sei onde estou, nem quem sou, mas obrigada por me 
socorrer. 
- No fique aflita. Tudo vai se arranjar, logo vai se lembrar. Agora 
precisa se alimentar. Fiz um caldo de galinha. Por enquanto, no pode 
comer muito. A gente no sabe por quanto tempo est sem comer. 
- Obrigada, senhora. 
- Meu nome  Jurema e o do meu marido  Neco. Foi ele quem 
encontrou voc cada l na caatinga. Agora vou lhe dar o caldo. 
A moa tentou se levantar. Fez um movimento brusco, quase caiu 
da rede. Jurema comeou a rir, enquanto dizia. 
- , parece que a moa no  mesmo destas bandas, no. No sabe 
levantar da rede. 
Ela voltou a se deitar e, agora, mais confiante, disse, sorrindo: 
- No sei de onde sou, mas acho que nunca dormi em uma rede 
22


O socorro 
mesmo. 
- No se preocupe, vai se acostumar. A gente acostuma com tudo 
de bom e de ruim. 
Jurema foi at a cozinha, voltou com uma colher e o caldo que 
estava dentro de uma tigela. Sentou no banquinho, que havia do lado 
da rede, e comeou a levar a colher at a boca da moa, que sorriu num 
sinal de aprovao. 
- Est muito bom. 
Jurema, calada, sorriu e continuou alimentando-a. Antes de terminar 
o caldo que havia na tigela, a moa disse: 
- Desculpe, mas no estou conseguindo comer mais. 
- No fique aflita com isso, est muito fraca. Logo, a fome volta e 
vai ser como era antes. 
Uma lgrima comeou a descer pelo rosto da moa. 
- Como era antes? Quem sou eu? 
Jurema, com carinho, passou a mo sobre os seus cabelos. 
- Agora no deve se preocupar com isso. Precisa ficar mais forte, 
depois tudo vai se arranjar. Procure descansar. A ferida da sua cabea j 
est bem melhor, logo vai sarar. Vou para a cozinha. A gente tambm 
est com fome. 
Ela sorriu. Jurema saiu do quarto. Estava entrando na cozinha, 
quando Neco chegou. 
- Como ela est? 
- Parece bem, mas no conseguiu comer muito e est aflita por no 
saber quem  nem de onde veio. Quase caiu da rede. Ela nunca dormiu 
em rede, no.  preciso esperar para ver o que acontece. A comida est 
pronta, quer comer? 
- Quero sim. Tomara que ela se lembre logo e fique boa para a 
gente poder lev-la  cidade. 
- Neco, a gente vai precisar esperar mais uns dias. Ela no est em 
condies de viajar.  muito longe. No  fcil nem para gente que tem 
sade, imagine para ela. 
- Voc tem razo. A nica coisa que a gente pode fazer  comer, 
dormir e esperar que a vontade de Deus seja feita. 
- Isso mesmo, Neco, isso mesmo...
23 


O socorro
Comeram, depois foram juntos para o quarto. Em outro canto,
havia uma outra rede. Antes de se deitarem, Jurema deu uma ltima 
olhada, viu que a moa dormia tranqila, colocou a mo em sua testa e 
percebeu que ela no estava com febre. Deitaram-se e adormeceram. 
J era noite alta quando acordaram com um grito. Pularam da rede 
e foram at onde a moa estava. Viram que ela dormia, mas se debatia 
muito enquanto dizia com a voz embargada: 
- No faam isso! No fiz nada! Socorro! Socorro! 
Jurema segurou-a pelos ombros, dizendo: 
- Moa! Acorde! Voc est sonhando! 
Demorou um pouco, mas finalmente ela abriu os olhos. Quis se 
levantar e quase caiu da rede novamente. Jurema segurou-a, dizendo: 
- Fique calma! Foi apenas um sonho! Est tudo bem. Voc est 
aqui com a gente. 
Ela chorava muito, estava com os olhos arregalados, como se estivesse 
vendo algo aterrorizante. Disse: 
- No sei o que sonhei, s me vi sendo surrada, mas no vi por 
quem. Meu Deus! Quem sou eu? Que me aconteceu? Por que aquelas 
pessoas estavam me batendo daquela maneira? 
- Foi s um sonho. Espere que vou lhe preparar um ch. Logo vai 
adormecer de novo. 
Olhou para Neco que, como ela, tambm estava assustado. 
Caminhou at a cozinha. Ainda havia um pouco de brasa no fogo. 
Pegou uma caneca, colocou um pouco de gua e preparou um ch 
de erva cidreira. Quando voltou, a moa estava dormindo novamente. 
Sem saber o que fazer com o ch, olhou para Neco, tomou um gole e 
deu o resto para ele. Aps alguns minutos, tiveram a certeza de que ela 
estava mesmo dormindo, foram se deitar. 
O dia raiou, o sol estava forte, fazia muito calor, mas eles j estavam 
acostumados. Neco foi o primeiro a se levantar. Olhou para a moa
que continuava dormindo. Foi para o quintal, pegou alguns gravetos,
voltou para a casa. No fogo de lenha, ainda algumas brasas estavam
acesas. Colocou os gravetos, logo o fogo surgiu. Colocou sobre ele
uma chaleira com gua e, pensativo, voltou para o quintal. Sentouse 
no banco, ficou olhando para o cu que estava muito azul e sem 
24


O socorro 
nenhuma nuvem, pensou: quem ser essa moa? 
Jurema, quando acordou, no viu o marido na rede. Levantou-se, 
olhou para a moa que continuava dormindo. Foi para a cozinha e 
depois para o quintal, sabia que Neco estava l. Encontrou-o pensativo. 
Aproximou-se, sentou-se ao seu lado, perguntando: 
- Neco, no que est pensando? 
- Em como essa vida  engraada. A gente estava aqui sozinho 
tocando a nossa vida. De repente, essa moa aparece, e a gente fica sem 
saber o que fazer com ela. Por que ser que eu tive de passar por aquela 
estrada, naquela hora? 
- Tem razo, mas quem sabe isso  Deus. Se Ele mandou essa moa 
para c, a gente vai ter que cuidar dela e ajud-la. 
- Sei disso, por isso estou preocupado. A gente quase no tem mais 
comida e vai precisar ir embora. 
- , e vai ser como sempre. A gente vai l para casa do tio. Fica l 
at a chuva voltar, depois volta e comea tudo de novo. A gente planta, 
cria animal, a chuva no vem, a gente tem que ir embora de novo. At 
quando isso vai durar, Neco? 
- No sei, Jurema, no sei. S Nosso Senhor Jesus Cristo e So 
Jos sabem. 
-  isso mesmo. A gente no pode fazer nada, s seguir o nosso 
destino. 
- Sabe, Jurema, a gente podia ir l para o Sul. Muitos dos nossos 
amigos j foram e parece que deu certo. L, ao menos, h trabalho e o 
que comer. A gente aqui no tem nada. 
- Nem sei o que dizer, s vezes tambm tenho vontade de ir 
embora, mas tenho medo.  uma terra estranha, a gente no sabe como 
eles vivem l. E se a gente no se acostumar. Alm do mais, no quero
deixar esta terra, esta cidade, onde a nossa menina est enterrada. 
- Voc acha que a alma dela est aqui, Jurema? 
- Claro que est, Neco! Ela no ia abandonar a gente, no! 
- No sei, no. S que, se no chover, a gente vai ter que fazer 
alguma coisa. Aqui no d para ficar, no d no. 
Enquanto eles conversavam, a moa abriu os olhos. Estava sentindo se
mais forte. Lembrou-se do ferimento da cabea. Levou a mo at
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O socorro 
o local, percebeu que estava com um curativo. No sabia o que era, 
mas parecia ser um pedao de tecido. S sabia que agora j no sentia 
tanta dor. Olhando a sua volta, reconheceu onde estava. Lembrou-se,
vagamente, do sorriso de Jurema. No sabia quem era aquela mulher
que a tratou como se a conhecesse. Quis se levantar, mas lembrou-se 
de que no estava em uma cama. Levantou-se com cuidado. Devagar, 
foi para a cozinha. No havia ningum l. Saiu da casa, viu marido e 
mulher conversando. Aproximou-se, dizendo: 
- Bom-dia! 
Jurema e Neco assustaram-se. No pensaram que ela iria levantar-se 
sozinha. Achavam que ela ainda estivesse dormindo. Jurema levantouse 
e caminhou em sua direo, tentando segur-la. Sorrindo, ela disse: 
- No precisa se preocupar. Estou bem, um pouco fraca, mas 
muito bem. A minha cabea quase no est doendo mais. 
Mesmo assim, Jurema segurou-a e fez com que sentasse no banco, 
enquanto dizia: 
- Que bom, moa. Vai ver como logo vai ficar boa de verdade. A 
ferida  muito grande, mas eu coloquei um pano com uma erva quente, 
logo vai sarar. 
- No sei como agradecer. Vocs salvaram a minha vida. 
- No foi a gente, no. Foi Deus que fez o Neco passar quela 
hora, naquele lugar. Fique a sentada, quietinha, vou l fazer o caf 
e uns bolinhos de farinha. Ainda bem que a gente ainda tem umas 
galinhas que botam ovo. J volto. 
A moa, calada, sorriu. No conhecia aquela gente que a acolheu, 
mas estava sentindo-se muito bem ali, e protegida. Porm, pensava: 
protegida do qu ou de quem? 
A dvida e a curiosidade permaneciam em sua mente, e se perguntava: 
de onde eu vim? Quem sou eu? O que me aconteceu? Por que algum fez 
essa maldade comigo? Por que no me lembro de quem fui?
Novamente, uma lgrima comeou a cair sobre o seu rosto. Neco,
percebendo que ela estava chorando, perguntou: 
- Por que a moa est chorando? 
- Estou chorando, porque no sei quem sou, nem de onde vim. 
S sei que levei uma surra muito grande, mas no sei por que ou por 
26


O socorro 
quem. 
- Como a Jurema disse: assim que ficar melhor, vai se lembrar de 
tudo. No adianta chorar, no. 
Jurema voltou da cozinha, no momento em que Neco estava dizendo 
essas palavras. Ao ouvir o que ele disse, falou: 
-  isso mesmo, moa, no precisa ficar preocupada. Logo essa 
ferida da cabea vai sarar e a moa vai lembrar de tudo. Por enquanto, 
precisa s tentar comer para ficar forte. Depois, Nosso Senhor Jesus 
Cristo vai dar um caminho para a gente e para a moa tambm. 
Ela Ficou calada por um instante, depois disse: 
- Jesus Cristo... Jesus Cristo? 
- A moa no sabe quem  Jesus Cristo? 
Ela pensou, mas no soube o que responder. Ela j ouvira falar de 
Jesus Cristo, mas, naquele momento, no sabia quem era. Respondeu: 
- J ouvi falar nesse nome, mas no sei quem ! 
Os dois se olharam. Estavam, agora, mais intrigados. Acharam que 
ela devia estar esquecida mesmo. Como algum no sabia quem era 
Jesus? Jurema, embora intrigada, disse: 
- Est bem, moa, quando voc melhorar, eu vou lhe contar quem 
 Jesus, mas, por enquanto, s tem que ficar forte. Tem outra coisa, j 
que no sabe o seu nome, a gente vai ter que lhe dar um. No d para 
ficar chamando voc de moa. Que nome gostaria de ter? 
Outra vez, ela ficou pensando, mas no sabia o que responder. No 
sabia que nome queria para si. Jurema percebendo que ela estava com
dvida, disse:
- J sei! A gente vai cham-la de Cida!
- Cida? 
- Isso mesmo. Nossa Senhora Aparecida  a me de Jesus. Assim 
como a moa, ela apareceu um dia do nada, num rio. O povo deu o 
nome de Nossa Senhora Aparecida. Por isso, a gente vai cham-la de 
Cida. Gostou? 
Ela respondeu, sorrindo: 
- Cida! Gostei! Meu nome  Cida! 
Jurema olhou para Neco que tambm olhava para ela. Os dois 
sorriram, pois perceberam, pela primeira vez, um pouco de felicidade 
27


O socorro 
no rosto daquela estranha. A moa se levantou e saiu andando pelo 
terreiro. Jurema foi atrs dela, dizendo: 
- Vou l na cozinha, passar o caf. O Neco deixou a gua fervendo. 
Quer vir tambm? 
- Se no se incomodar, queria ficar aqui, tentando me lembrar.
- Ento, fique, quando o caf estiver pronto, trago um pouco para
voc.
Assim dizendo, Jurema entrou na casa. Cida comeou a andar e
olhar para aquele lugar, que via pela primeira vez, pois, quando chegou,
 estava quase desmaiada. Andou uns dez metros, prestando ateno  
paisagem. Do lado direito da casa, a uns cinco metros de onde estava, 
viu uma plantao no muito verde. Muitas das folhas estavam 
amareladas. Um cavalo e uma vaca pastavam por ali. No meio do 
terreiro, algumas galinhas ciscavam. Uma delas ciscava, acompanhada 
de pintinhos que, pelo jeito, eram recm-nascidos. Junto ao cavalo, viu 
uma carroa. Voltou-se para casa. De fora, parecia ser maior do que era 
por dentro. Conseguiu ver a cozinha e o quarto, havia mais uma janela 
que estava fechada. Pensou: aquela janela que est fechada deve ser de 
outro cmodo. 
Notou que toda a casa estava pintada de branco e as janelas, de azul, 
o que lhe dava uma boa aparncia. Ela no lembrava-se, por dentro, a 
casa era tambm pintada de branco. No havia prestado ateno, mas 
tinha quase certeza de que o cho era de algum material vermelho. Tudo 
aquilo, para ela, era muito estranho: por mais que eu tente, no consigo 
me lembrar de ter visto uma paisagem como esta. No entendo como tudo 
isso est acontecendo. Como algum pode esquecer de quem ?
Novamente, uma lgrima comeou a cair por seu rosto, que agora
estava quase que totalmente preto e muito inchado. Com a mo, tentou
secar a lgrima, sentiu muita dor. Lembrou-se de que seu rosto estava
ferido. Estava ainda com a mo no rosto, quando ouviu: 
- Est chorando de novo? 
- Desculpe. A senhora e seu marido tm sido to bons para 
mim, s que no me conformo de no conseguir me recordar do que 
aconteceu. Se eu no me recordo, como no me esqueci das palavras? 
Como consigo falar?


O socorro 
- No sei, moa. Mas no precisa me chamar de senhora. No sou 
muito mais velha que voc. A gente no sabe como  a nossa cabea por 
dentro, no  mesmo? Agora, voc vai tomar caf e comer bolinhos. 
No  muito, mas  tudo que tenho. Depois, voc vai l para dentro 
descansar. Quando estiver melhor, a gente vai at l  cidade, para ver 
se alguma pessoa conhece a moa. Est bem assim? 
- Vocs vo fazer isso mesmo? Tem razo, algum pode ter-me 
visto! 
- Isso mesmo. S que a cidade fica longe daqui e para voc agentar, 
vai ter que estar mais forte. E precisa esperar todo esse seu machucado 
desaparecer, certo? 
- Est timo. Agora, estou sentindo um pouco de esperana. 
- A esperana  a nica que no pode morrer nunca. Se no fosse 
a esperana, o sertanejo no conseguia viver aqui, no. 
- Por que est dizendo isso? 
- Est vendo aquela plantao? A gente limpou o terreno, semeou, 
cuidou de tudo com a esperana de que o milho, o feijo, o jerimum 
e o aipim crescessem, e assim o Neco podia vender l na cidade. Com 
o dinheiro que ia conseguir, a gente se alimentava, comprava sementes 
e comeava tudo de novo, mas acho que, este ano, no vai dar certo, 
no.
- Por que est dizendo isso? 
- Porque a chuva no veio. A gua est se acabando. Veja como as 
folhas esto ficando amareladas. Logo, tudo aqui vai ser s poeira e a 
gente vai ter que ir embora, at a chuva voltar. 
- Est dizendo a verdade? Vocs no vo conseguir colher nada do 
que plantaram? 
- Se a chuva no vier, a gente no vai conseguir mesmo... 
Agora foi a moa quem viu uma lgrima correndo pelo rosto de 
Jurema. Disse com a voz enternecida: 
- Voc est muito triste com isso, no ? 
Jurema, enxugando com a mo a lgrima, respondeu: 
- Estou, sim. Gosto daqui.  a minha casa, o meu cho. Tenho 
medo de que o Neco resolve de vez e a gente vai embora l para o Sul. 
- Ele quer ir embora daqui? 
29


O socorro 
- Quer. A gente j sofreu muito tentando ficar, mas desta vez ele 
no vai agentar, vai querer ir embora. Eu vou ter que ir junto. Vai ser 
muito difcil, mas acho que no vai ter outro jeito, no. 
- No sei o que dizer, Jurema. Mesmo que quisesse, no sei como 
ajudar. 
- S tem que ficar boa para a gente ir para cidade, ver se encontra 
a sua famlia.  s isso que pode fazer. Quem sabe, Deus tem pena da 
gente e faz a chuva chegar. 
- , quem sabe. Como voc disse, a esperana  a ltima que 
morre. 
- E isso mesmo, moa. Se a gente tiver que ficar aqui, a gente vai
ficar. Tantas vezes a gente j estava com tudo pronto para ir embora e a
chuva chegou, no foi, Neco?
Neco, que havia se aproximado, respondeu:
 - Foi, sim. A chuva chegou a tempo de a gente no perder tudo 
que tinha plantado. Sabe, Cida? Aqui  assim mesmo. A gente nunca 
sabe o que vai acontecer. S Jesus Cristo e So Jos sabem. 
Os dias foram passando. Jurema continuou cuidando dos ferimentos 
de Cida. Ela, por sua vez, tinha momentos de extremo desespero, 
querendo se lembrar do seu passado, mas no conseguia. Nessas horas, 
Jurema, pacientemente, dizia: 
- Fique calma, Cida. Assim que estiver bem forte, a gente vai para
a cidade e algum deve ter visto voc por ali. A, tudo vai ficar mais
fcil. 
Ela se acalmava, pois sabia que aquela era a nica coisa que poderia 
fazer. O ferimento da cabea sarou. As manchas escuras do rosto 
sumiram. S a, Jurema e Neco conseguiram v-la como realmente era. 
Jurema disse, surpresa: 
- Neco! Olha como ela  bonita! Olha s o tamanho dos olhos 
dela! E a cor, ento?!  bem azul! Olha os dentes! Tudo perfeito! A boca 
parece que foi desenhada! Cida! Voc  mesmo muito bonita! Acho que 
voc no tem ainda nem trinta anos! 
Ela, sem graa, no soube o que dizer, apenas sorriu. Assim que 
perceberam que ela estava bem, e que poderia viajar, combinaram 
que, na manh seguinte, iriam at a cidade. Aquilo encheu de alegria 
30


O socorro
o corao de Cida, que pensava: Indo at a cidade, talvez eu encontre o
meu caminho.  impossvel que ningum me conhea nem tenha me visto.
 Como o combinado, na manh seguinte levantaram-se, ainda de 
madrugada. Precisavam partir antes que o sol raiasse. A distncia at 
a cidade no era muito grande, mas como iriam na carroa, a viagem 
se tornava demorada. Assim que o sol nascesse, o calor se tornaria 
insuportvel. Na carroa, havia um banco, onde os trs sentaram e 
lentamente se dirigiram para a cidade. Cida levava em seu corao, 
uma enorme esperana. Jurema olhava-a, tambm. Queria que ela 
encontrasse a sua famlia. Disse: 
- Cida, se Deus quiser, a gente vai encontrar algum que a conhece. 
Fique tranqila. Aproveite para olhar a paisagem. Agora, no est muito 
bonita, porque j faz muito tempo que no chove, mas quando a chuva 
chega, tudo aqui fica muito bonito, cheio de verde. 
- Estava fazendo isso. Como  triste ver tanta planta seca. Mas 
tambm estou com medo de chegar  cidade e no encontrar ningum 
que me conhea. Se isso acontecer, o que farei? Para onde irei? 
- No sei se vai encontrar algum, mas, acontea o que acontecer, 
voc est com a gente e vai ficar at quando quiser, no  mesmo, 
Neco? 
Neco estava quieto, ouvindo. Tambm estava pensando no que 
aconteceria se ningum conhecesse aquela moa. Ao ouvir a pergunta 
de Jurema, respondeu: 
-  isso mesmo, moa, no precisa se preocupar. Assim que a 
gente chegar  cidade, vou falar com meu tio. Ele sempre tem uma 
casa esperando pela gente. Sabe que, quando tem seca, a gente vai e fica 
at a chuva voltar, mas, mesmo assim, voc vai ficar com a gente, at 
quando quiser. 
Ela sorriu agradecida. Sentia-se impotente, no sabia o que fazer 
nem para onde ir. Pensou: ainda bem que encontrei estas pessoas que me 
acolheram. No sei se, algum dia, me lembrarei de todo o meu passado, mas 
de uma coisa tenho certeza, jamais me esquecerei deles. 
Lembrou-se daquilo que Jurema lhe disse um dia: 
- Cida, no sei, no, mas voc no  daqui e do jeito que fa la e com o 
vestido que chegou aqui, parece ser gente rica...


O socorro 
- No sei como agradecer aos dois. Jurema, voc se lembra do dia 
em que disse que eu parecia ser rica? 
- Claro que me lembro e ainda continuo achando. 
- Pois bem, se isso for verdade e se, um dia, eu me lembrar de 
quem sou e, se realmente eu for rica, pode ficar certa de que nunca me 
esquecerei do que esto fazendo por mim. Nunca! 
Jurema arregalou os olhos e disse: 
- Que  isso, Cida? Ns no estamos com voc por causa disso! 
- Nunca pensei isso! Quando vocs me acolheram, sei que foi s 
porque so boas pessoas, mas se eu puder ajud-los, claro que farei! 
Neco disse, bravo: 
- A gente no precisa de nada, moa. A gente vive muito bem. A 
nica coisa de que a gente precisa  de chuva, nada mais. 
- Sei disso, vocs entenderam mal, no quis ser ingrata nem os 
ofender. Nunca poderei pagar o que esto fazendo por mim, s quis 
dizer que, se puder, vou ajud-los, s isso... 
Jurema percebeu que Cida estava perturbada e que o marido estava 
nervoso. Calma, disse: 
- Vamos deixar o dito pelo no dito. A gente s precisa chegar  cidade 
e ver o que acontece. No fim, tudo d sempre certo. 
Cida ouviu-a e se calou. O mesmo fez Neco, que ficou olhando 
para frente, conduzindo o cavalo e a carroa. 
32


Em Busca de Identidade 
Neco continuou pensando e guiando o cavalo que, lentamente, puxava 
a carroa. Cida seguia quieta. No tinha nada a dizer, s sentia 
uma vontade enorme de chegar quela cidade que, para ela, era desconhecida. 
Para quebrar o silncio, Jurema disse: 
- Sabe, Cida, o tio Dorival  um homem muito bom. Ele tem uma 
loja grande na cidade. A cidade  pequena, no tem muito trabalho, 
por isso, a maioria dos homens foi para outro lugar, em busca de uma 
vida melhor para a famlia. As mulheres, para terem algum dinheiro 
antes que o marido volte, fazem renda e bordam. O tio Dorival compra
todo o material de que elas precisam. Quando o trabalho est pronto,
ele paga e envia tudo para o resto do Brasil, principalmente para o Sul.
O trabalho  muito bonito, voc vai ver.
- Voc tambm faz esse trabalho, Jurema?
 Neco olhou para Jurema, antes que ela respondesse. Ela, com um
olhar triste, como se tivesse lembrado alguma coisa, respondeu:
- Eu bordava roupas de criana e fazia as rendas que usava nelas,
mas hoje, no fao mais e nunca mais vou fazer.
- Por qu?
- Um dia eu conto, mas no vai ser hoje. Hoje, vamos ver se a
gente descobre quem voc  e de onde veio.
Cida percebeu que ela no queria continuar aquele assunto. Ficou
curiosa para saber por que Jurema no queria mais fazer aquele trabalho,
que parecia ser to lucrativo. Porm, se calou. Depois de alguns minutos,
avistaram a cidade. Jurema disse:
- Olhe l, Cida! L est a cidade! Ainda bem, j estou cansada de 
ficar sentada aqui nesta carroa. Meu corpo est doendo! 
- Eu tambm estou cansada e muito aflita para chegar. 
- J estamos chegando. Logo, tudo vai ficar melhor... 
- Espero que sim. Sinto que, nesta cidade, encontrarei o meu 
destino. 
Chegaram a uma rua estreita. Cida, curiosa e esperanosa, foi 
olhando tudo. Percebeu que as caladas eram estreitas, por onde 
somente uma pessoa poderia passar. Havia tambm algumas lojas de 
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Em Busca de Identidade 
comrcio. Jurema disse: 
- Esta  a rua principal da cidade. Aqui  que a gente encontra 
tudo de que precisa. 
- Qual  o nome desta cidade? 
- Ela se chama Fundo do Carim e fica no Estado da Bahia. Se 
a gente viajar de carro umas quatro horas, a gente chega a Salvador, 
Capital da Bahia. 
- Voc disse que eu no falo como as pessoas daqui, que 
provavelmente eu seja do Sul. Como vim parar aqui? 
- Tambm j pensei muito nisso, mas no encontrei a resposta. 
Quem sabe, aqui, a gente encontra essa resposta. No  mesmo? 
- ... quem sabe... 
Neco parou a carroa em frente a uma porta grande. Desceu e 
ajudou-as a descer tambm. Entraram pela porta. Era uma loja, onde 
ela percebeu que havia muitas coisas para serem vendidas. Assim que 
entraram, um senhor que estava atrs de um balco, com os braos 
abertos, andou na direo deles. 
- Neco! Jurema! Que bom que esto aqui! Estava pensando em 
vocs! Sabia que chegariam a qualquer momento! 
- Como vai, tio? O senhor percebeu que faz tempo que no chove, 
por isso pensou isso? 
- Foi, sim, meu filho. Mas voc sabe que no precisa se preocupar. 
A sua casa est sempre l a sua espera. Pode vir quando quiser. 
- Eu sei, tio. O senhor sempre disse isso, mas, no, desta vez, a gente 
veio por outro motivo. Ainda tem um pouco de gua e a plantao no 
secou por todo, ainda tem chance de chover e, se isso acontecer, ainda 
vai dar para recuperar tudo. 
- Vocs so mesmo teimosos. No precisariam morar to longe e
em uma casa simples como aquela. A casa que tenho aqui, possui todo
o conforto, vocs poderiam morar nela para sempre. Voc me ajudaria
aqui na loja e, voc, Jurema, poderia bordar e fazer aquelas rendas que
faz to bem.
Imediatamente, Neco olhou para Jurema. Ela, antes que ele dissesse
algo, com uma sombra de tristeza nos olhos, disse:
- Tio, o senhor sabe que nunca mais vou fazer esse trabalho.
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Em Busca de Identidade
- Sei, sim, Jurema. Na ocasio, voc me disse isso, mas j se passou
tanto tempo...
- Pode ter passado para o senhor, mas, para mim, parece que foi 
ontem. Naquele dia, eu prometi, e vou cumprir a minha promessa. 
- Est bem, Jurema, no precisa ficar triste. S quero que fique 
certa de que, quando quiser, pode voltar. Sabe que sempre terei muito 
trabalho para voc. Sabe muito bem que voc foi e ainda continua
sendo a minha melhor bordadeira e rendeira. Mas, Neco, se no veio
at aqui por causa da casa, por que veio?
- Esta moa aqui  a Cida. Eu a encontrei cada e ferida na caatinga.
Ela estava desmaiada, depois que acordou, no se lembrava de nada, 
nem do seu nome. 
Dorival arregalou os olhos em direo  Cida, perguntando: 
- No se lembra de nada mesmo? Nem do seu nome ou de onde 
veio? 
- No, por isso viemos at aqui. Quem sabe algum da cidade 
pode ter-me visto ou me conhea. - respondeu, tmida. 
- Eu no conheo voc, no, mas acho que a gente deve andar a 
pela rua e perguntar. 
- O senhor no precisa ir no, tio! Tem muito trabalho aqui na 
loja.
- Que  isso, Neco? Claro que vou. Conheo todos aqui na 
cidade! 
- Se o senhor quiser, vai ser muito bom. 
Dorival deu algumas ordens para o Chico, um dos empregados da 
loja, depois saiu. Cida notou que a rua era longa e, que no final dela, 
havia uma igreja que tambm no era muito grande. O som de um alto 
falante tocava uma msica, que para ela era estranha. Seguiram pela rua, 
entraram em todas as lojas e bateram em todas as portas, perguntando 
se algum a conhecia. Todos os receberam muito bem, pois Dorival 
era muito respeitado por eles. Depois de percorrerem toda a rua, sem 
encontrar algum que a conhecesse, chegaram  porta da igreja. Cida, 
do lado de fora, ficou olhando. Havia uma pequena escada com quatro 
degraus. Do primeiro degrau, Jurema perguntou: 
- Cida, quer entrar na igreja e conversar com o padre?
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Em Busca de Identidade
- Gostaria, quem sabe ele me conhece.
Entraram. A igreja era simples, s tinha um pequeno altar e um 
corredor central, por onde eles caminharam. Algumas pessoas estavam 
ajoelhadas. Cida olhava tudo aquilo, tentava se lembrar se algum dia 
estivera em um lugar como aquele, mas no conseguia. Foram em 
direo aos fundos da igreja. Do lado direito, havia uma porta. Dorival 
foi  frente e bateu. De dentro, ouviu-se uma voz. 
- Pode entrar. 
Dorival abriu a porta e, um aps o outro, foram entrando. Um 
padre os recebeu com um sorriso. 
- Dorival! Neco e voc, Jurema? H quanto tempo no via voc 
aqui na igreja! 
Jurema, beijando sua mo, disse: 
- A sua bno, padre. Faz muito tempo mesmo, mas hoje vim por 
uma razo especial. 
- Sempre existe uma razo especial para se recorrer a Deus. Posso 
saber que razo  essa? 
- A gente veio por causa desta moa. O Neco a encontrou 
desmaiada na caatinga e ela no sabe quem  nem de onde veio. Quem 
sabe o padre j a viu por aqui. 
O padre olhou para Cida demoradamente. 
- No, eu nunca a vi por aqui. Moa, no se lembra mesmo de 
nada? 
Agora, j desesperada por perceber que aquela viagem havia sido 
intil, ela respondeu com lgrimas escorrendo por seu rosto. 
- No, padre! No me lembro de nada, nem do meu nome... 
- Estranho. J li alguma coisa a esse respeito. O nome dessa doena 
 amnsia e geralmente acontece quando existe um trauma ou uma 
batida muito forte na cabea. 
Jurema disse com entusiasmo: 
- Ento foi isso! Quando ela chegou, tinha um corte muito feio 
na cabea. 
- Pode ter sido isso mesmo, mas, minha filha, no se preocupe. De 
acordo com aquilo que li, da mesma maneira que existe o esquecimento, 
a qualquer momento, tudo pode voltar sem que menos se espere. Logo
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Em Busca de Identidade
vai ficar bem, mas o ideal seria que consultasse um mdico. Aqui na
cidade tinha o doutor Evaristo, mas ele morreu j faz quinze dias e, 
at agora, no veio outro para ocupar o seu lugar. O prefeito at j
construiu um pronto-socorro, mas a cidade  muito pobre. Por isso,
 os mdicos no querem vir para c. O prefeito j comunicou as 
autoridades, precisamos s ter esperana. Logo, outro mdico vir. A 
poder se consultar com ele, isto , se at l no recuperar a memria. 
- O doutor Evaristo morreu? 
- Morreu, Jurema, vocs no sabiam? Morreu do corao e foi de 
repente. Tambm, ele j estava muito velho. 
- A gente no sabia no, padre. Ele foi um bom homem. 
- Foi sim, Jurema. - Neco disse, com tristeza na voz. 
Cida, ao ouvir aquilo, olhou para eles que, em seu rosto, puderam 
ver desespero. Jurema abraou-a, dizendo: 
- No fica assim, Cida. Como o padre disse, vai se lembrar logo. 
- Mas quando? Quando? 
- Minha filha, ns no sabemos. Sei que deve estar aflita, 
como qualquer pessoa ficaria na sua situao. Deve ser terrvel. Por 
enquanto, no pode fazer nada, alm de esperar e confiar na bondade 
de Deus. Pelo seu jeito de falar, voc  do Sul, no ? 
- No sei. Nem imagino de onde eu vim... 
- Acalme-se. Deus est ao seu lado. Tudo vai ficar bem, no ,
Jurema?
-  isso mesmo, padre. Cida, a gente vai voltar para casa e na
semana que vem, se no chover, a gente volta, no , Neco? 
Neco continuava intrigado com tudo aquilo. Ele, assim como 
Jurema, havia nascido e sido criado ali naquela cidade. No tinha muito 
estudo, sabia mais ou menos assinar o seu nome e ler alguma coisa. Por 
essa dificuldade, no se interessava em ler jornal. Por isso, tambm, no 
tinha muita informao do que se passava no resto do mundo. Tinha 
conscincia de que no sabia muito de nada, mas de uma doena como 
aquela ele jamais ouvira falar. Pensou: 
Ser que essa moa no est fingindo? Ser que ela no est fugindo da 
polcia e inventou toda essa histria? 
Estava to distrado que no ouviu quando Jurema perguntou. Ela,


Em Busca de Identidade 
percebendo que ele no havia escutado, perguntou novamente: 
- No  Neco? 
- O que voc disse, Jurema? 
- No  verdade que a semana que vem a gente volta? 
- , Jurema, acho que  isso que a gente tem de fazer. Tio, se at a 
semana que vem no chover, a gente pode mudar de vez para c? 
- Claro que sim, a casa de vocs est l. Podem vir quando 
quiserem. 
Saram da igreja. Cida, agora, estava desesperada, pois percebeu 
que aquela viagem havia sido intil. Jurema e Neco notaram que ela 
fazia fora para no chorar. Jurema abraou-a, dizendo: 
- Cida, no precisa se desesperar. Est com a gente e vai ficar at 
que se lembre de tudo. Com a gente, est protegida, no  mesmo, 
Neco? 
-  sim, moa. Pode ficar sossegada. Junto com a gente, no vai 
acontecer nenhum mal. 
Com as mos, ela tentou enxugar uma lgrima e disse: 
- Est bem. Como disse o padre, vamos esperar.  s o que posso 
fazer. 
- Bem, j que a gente precisa esperar, vamos at l em casa para 
o almoo. A Laurinda vai ficar muito feliz em saber que vocs esto 
aqui. 
- A gente no pode, tio. A gente no quer dar trabalho. 
- Que  isso, Neco? Trabalho coisa nenhuma! Agora  quase meiodia
e vocs no podem ir embora sem comer. Ainda mais com esse sol
que est fazendo! No tem conversa, vamos almoar l em casa. 
Vendo que no havia alternativa, concordaram. Despediram-se 
do padre e foram para a casa de Dorival. A casa, embora simples, era 
confortvel. Ele era uma das pessoas que possua bens naquela cidade. 
Por isso, sua casa tinha de tudo, at um aparelho de televiso. Na 
cozinha, espaosa, havia uma mesa grande e o fogo que, embora fosse 
de lenha, no era igual ao de Jurema. Era fechado e sobre ele havia uma 
chapa de ferro, onde as panelas eram colocadas. Por mais que Cida 
tentasse, no conseguia se lembrar de ter visto algo igual. Continuou 
olhando tudo, at ouvir a voz de Laurinda, perguntando: 
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Em Busca de Identidade 
- Mas quem  essa moa, Jurema? 
-  uma amiga nossa, tia. Vou contar para a senhora a histria 
dela. 
Contou tudo. Laurinda tambm se admirou com aquela doena, 
da qual nunca ouvira falar. Percebendo que Cida estava muito triste, 
disse: 
- Olhe, moa, logo voc vai se lembrar de tudo, mas enquanto isso 
no acontece, vamos comer? 
Cida sorriu e, com a cabea, concordou. Almoaram e ningum 
pde negar que a comida estava muito boa. Aps o almoo, foram at 
a sala e sentaram-se em um sof. Jurema perguntou: 
- Tia! Como esto as crianas? 
- Esto bem. Continuam estudando em So Paulo. A Liliane vai se 
formar em Medicina. Disse que assim que terminar o estudo vai voltar 
e trabalhar aqui. O Eliseu quer ser engenheiro. 
- Os dois so bons filhos, no  mesmo? 
- So, sim, Jurema. Nunca tive nenhum trabalho com eles. Mas, 
voc no pensa mesmo em ter outros filhos? 
Novamente, Cida percebeu aquela sombra nos olhos de Jurema e 
de Neco. 
- No quero mais filhos, tia. No quero sofrer de novo. 
- Voc sabe muito bem que tambm sofri muito quando a 
Dalvinha morreu, mas agora pode ser diferente. Voc  ainda muito 
moa, Jurema. Os filhos trazem muita alegria para a gente. S porque 
aconteceu aquilo com a sua menina no quer dizer que vai acontecer 
de novo... 
- No sei, mas no quero nunca mais sentir tudo aquilo outra vez. 
 bom deixar como est. Eu e o Neco vivemos muito bem sozinhos, 
no  mesmo, Neco? 
Como sempre, Neco no prestava muita ateno na conversa. 
Demorou um pouco para responder, ainda mais sobre aquele assunto. 
Ele tambm sofrera muito quando a sua filhinha morreu. Assim como 
Jurema, tambm achava que ela havia morrido por falta de socorro, 
por morarem naquele lugar distante, onde sabia que plantaria, mas no 
sabia se colheria. 
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Em Busca de Identidade 
-  isso mesmo, Jurema. A gente vive muito bem, s ns dois. 
Mas, agora, acho que est na hora de a gente ir embora. No quero 
chegar em casa de noite. 
- Voc tem razo, Neco. A gente precisa ir embora. Tia, antes 
disso, posso mostrar a sua casa para a Cida? 
- Claro que pode, Jurema! 
Jurema, sorrindo, pegou na mo de Cida e foi lhe mostrar a casa. 
Laurinda e Neco ficaram conversando. 
- Neco, vocs podem ficar aqui at amanh. No precisam ir 
embora hoje. Sem as crianas aqui, tem muito espao, podero ficar 
bem. 
- No, obrigado, tia, mas a gente precisa ir mesmo. Na semana 
que vem, se no chover, a gente volta para ficar de vez ou at eu 
conseguir convencer a Jurema de a gente ir para o Sul. 
- Est pensando mesmo nisso? 
- Estou, sim, tia. A nossa vida aqui  muito difcil. Quem sabe l, 
a gente vai ter mais sorte ou pelo menos uma vida um pouco melhor 
do que esta que tem aqui. 
- Pensando assim, acho que voc tem razo, mas vocs poderiam se 
mudar aqui para a cidade, ir morar naquela casa que o Dorival reservou 
para vocs. A Jurema podia voltar a bordar e voc a trabalhar com o 
Dorival na loja. Mas, enfim, voc  quem sabe. No entendo por que 
fazem questo de continuar morando no stio. 
- A senhora sabe que aquelas terras so da famlia da Jurema, j faz 
muito tempo. 
- Sei, est bem, mas sabe que, quando quiser,  s vir. A casa est 
pronta para receber vocs. 
- Sei disso, tia. Por isso, no estou preocupado. Quem sabe a 
chuva chega e a vou poder colher, mas, se no chover esta semana, a 
plantao vai se perder toda, a no vai ter jeito no. 
Jurema e Cida voltaram para sala. 
- Dona Laurinda, a sua casa  muito bonita e grande! - disse 
Cida, entusiasmada. 
- Grande demais, s para mim e para o Dorival, por isso, falo para 
voc, Jurema. Se no quiser morar l naquela casa, pode vir morar aqui. 
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Em Busca de Identidade 
- Est bem, tia, vou pensar. 
Despediram-se, saram e subiram na carroa. 
Durante a viagem de volta, Cida estava desesperada, pois sabia que, 
talvez, nunca mais se lembrasse de quem era, mas intimamente agradecia 
por ter encontrado aquelas pessoas. Quando chegaram ao stio, j eram 
quase seis horas da tarde. Neco soltou o cavalo da carroa e lhe deu um 
pouco de gua para beber. Cida e Jurema entraram e foram preparar as 
lamparinas para iluminar a casa, pois logo mais iria anoitecer. No fogo, 
algumas brasas estavam acesas. Jurema colocou mais lenha e logo o fogo 
estava completamente aceso. Em um instante, o feijo, o arroz e alguns
pedaos de galinha estavam prontos.
Comearam a comer. Cida sempre estranhou a maneira como eles
 comiam. Pegavam a farinha, misturavam ao arroz e feijo e com a mo 
faziam pequenos bolinhos. Como tudo para ela era estranho, aquela 
maneira de comer tambm era. Ela no sabia como, mas sabia usar 
o garfo e a faca e tinha certeza de que nunca havia comido daquela 
maneira. Jurema, algumas vezes, j havia tentado lhe ensinar, mas ela 
no se ajeitava e continuou comendo com o talher. Terminaram de 
comer, foram dormir. 
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 A Vida Continua 
No dia seguinte, Neco preparou o caf e, assim que Jurema se levantou, 
ele disse: 
- Jurema, j que a Cida vai ficar mais tempo aqui, ela no pode 
continuar dormindo no nosso quarto. Estive pensando e acho que vou 
abrir o outro quarto. Com algumas madeiras que tenho l no terreiro, d 
para fazer uma cama. Assim, ela no vai precisar ficar com medo de cair 
da rede. Voc pega umas palhas de milho e faz um colcho. Que acha? 
- Vai abrir o quarto que era da nossa menina? 
- Vou, sim. A gente precisa de um quarto para a Cida dormir e 
estive pensando que no  bom a gente pensar tanto na nossa menina.
Ela foi embora mesmo e no vai voltar. Fiquei pensando tambm
naquilo que a tia disse. Ser que no  bom a gente ter outro filho? 
- Nem pensar, Neco! Nunca mais vou passar por tudo aquilo! Voc 
sabe o quanto a gente esperava dela, e que at j tinha pensado num 
jeito de arrumar um irmo para ela, mas agora no quero mais! E se o 
outro ficar doente como ela ficou? E se no der tempo de a gente chegar 
 cidade? No! No quero! 
- Est bem, se no quiser, no vou obrig-la. Estou dizendo isso, 
tambm no sei se quero passar por tudo aquilo de novo, mas que a
gente precisa de outro quarto, a gente precisa.
- A gente no vai para casa do tio l na cidade? 
- S vai se no chover, Jurema. Por isso, amanh mesmo vou 
preparar o outro quarto. Vai que chove! 
Cida, que estava no quarto, ouvia os dois conversando na cozinha. 
Pensava: 
Estou causando problemas para eles, e isso eu no queria. Eles foram 
muito bons, me acharam e me trataram muito bem. So meus amigos. 
Preciso fa lar agora, antes que mudem a vida por minha causa. 
Enquanto eles conversavam, ela entrou na cozinha e os 
interrompeu: 
- No quero atrapalhar a vida de vocs. Antes de isso acontecer, 
vou-me embora. J fizeram muito por mim. 
- Que nada, Cida! A gente s est encontrando um jeito de voc 
43


A Vida Continua 
ficar bem. No est causando problema, no. Tambm, aonde voc vai? 
No conhece ningum aqui! 
- Sei disso, Jurema, mas j fizeram tanto por mim... 
- A gente no fez nada que no pudesse fazer. No fique preocupada. 
Acho que o Neco tem razo. A gente precisa de um quarto, e tem um. 
S no queria mexer porque foi o quarto da nossa menina, mas ele est 
certo. Embora com o corao apertado, preciso entender que ela no 
vai voltar mais. Neco, faa isso. Amanh, prepare a cama que eu e a 
Cida vamos fazer o colcho. 
Neco saiu enquanto pensava: 
H muito tempo estou tentando ver a Jurema conformada com a morte 
da Dalvinha, porm, no podia fazer muito, pois eu mesmo no estou 
conformado. Agradeo a Deus por ter enviado essa estranha, no sei se ela 
est dizendo a verdade, se est mesmo esquecida, mas a Jurema se apaixonou 
por ela, nem sei por qu. Eu tambm gosto dela. Parece to humilde e 
amedrontada. Quem sabe se, com a presena dela aqui, aos poucos, a gente 
consegue se libertar dessa dor e saudade que sentimos da nossa menina. 
Agora tem outra pessoa na casa para proteger, que no  criana, mas at 
parece que . 
Jurema, percebendo que Cida estava preocupada, disse: 
- Cida, voc nunca dormiu na rede, mas lhe garanto tambm que 
nunca dormiu em um colcho macio, como esse que a gente vai fazer. 
Cida, sem perceber, sorriu. Tambm estava com muito medo de sair 
de l, pois no saberia para onde ir e o que fazer. Jurema, ao ver que 
estava tudo bem, ficou mais tranqila. Abraou Cida, sem nada dizer. 
Apenas pensou: 
Quem  essa moa? Por que a gente gosta tanto dela e quer proteg-la? 
No sabia a resposta, mas tambm no se importava. 
- Bom, o que a gente tem que fazer agora,  ir dormir. Amanh vai 
ser outro dia. Ora se vai... 
Ao amanhecer, Neco foi para o quintal e pegou algumas madeiras. 
Foi em direo ao galpo que havia ao lado da casa. L, ele tinha pregos 
e ferramentas. Com um serrote, martelo e alguns pregos, comeou a 
fazer uma cama tosca. Jurema pegou um lenol branco, dobrou ao 
meio e, com uma agulha de mo, costurou dois lados, deixando um 
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A Vida Continua 
deles aberto, por onde ela e Cida colocaram palha seca de milho. Esse 
trabalho durou o dia inteiro. Quando j estava quase escurecendo, 
Neco, de dentro da casa, chamou as duas. Assim que elas chegaram, 
ele, com uma chave que tinha na cintura, abriu a porta. Entraram. Cida 
se emocionou ao ver um bero, armrio, alguns bichinhos e bonecas 
feitas com palha de milho. Algumas bonecas tinham roupinhas que 
provavelmente haviam sido costuradas por Jurema. Ela ficou parada 
sem saber o que fazer. O quarto estava muito limpo. Jurema devia 
limpar sempre. Ela olhou para eles e percebeu que lgrimas caam de 
seus olhos. Aps olhar por um instante, Neco disse: 
- Bem, Jurema, chegou a hora de a gente tentar esquecer tudo o 
que passou e comear uma vida nova. A gente nunca vai esquecer a 
nossa menina, mas, agora, a gente precisa do quarto para essa moa que 
ningum sabe de onde veio, mas que est aqui. Vai me ajudar a tirar 
tudo daqui? 
Jurema, enxugando uma lgrima, respondeu: 
- Est bem, Neco, a gente vai ajudar voc. O que vai fazer com o 
bero? 
- Vou levar l para o barraco. Vai ficar ali at quando a gente for 
de novo para cidade. Depois, vou dar ao padre. Quem sabe, ele no tem 
l uma criana precisando de um bero. 
-  sim, Neco. A gente vai fazer isso. Cida, ajude-me a levar tudo 
l para fora. Depois, a gente traz a sua cama aqui para dentro. 
Cida no respondeu, apenas consentiu com a cabea. 
Neco saiu. Jurema, com cuidado, foi tirando e dobrando a colcha
e o lenol do bero. Depois, tirou toda roupinha que havia no guarda-roupa
e colocou dentro de algumas caixas que Neco lhe trouxe.
Enquanto fazia isso, ficou calada e pensando: 
Neste momento, tenho de entender que  preciso fazer isso. A minha
menina foi embora mesmo e essa moa precisa de ajuda. Meu Deus, por
que levou a nossa menina? Por que manda agora essa estranha e por que a 
gente gosta tanto dela? 
Assim que ela terminou de tirar a roupa da cama, Cida ajudou a 
levar as caixas para o barraco. Depois, pegou uma vassoura e comeou 
a varrer, embora quase no houvesse poeira. 
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A Vida Continua 
Enquanto Neco levava o bero para o galpo, seu corao batia 
forte, lembrando-se das vezes em que colocara sua menina para dormir. 
Um caroo se formou em sua garganta e ele fez um esforo imenso para 
no chorar. 
Chegou ao barraco. Agora, estava longe de Jurema, poderia, assim, 
deixar sua tristeza explodir. Comeou a chorar e a lembrar: 
O dia em que a gente casou fo i o dia mais feliz da nossa vida. A gente 
planejou tanto, veio morar aqui. Fazia muito tempo que no tinha seca. 
A gente plantou junto e pensava em ver a casa cheia de criana. A Jurema 
queria muitos filhos e eu tambm, porque na nossa casa tinha muita gente.
Meu pai dizia:
- Uma casa, para ser feliz, tem que ter muita gente. Eu conhecia a 
Jurema desde criana e sempre dizia que ia me casar com ela. Quando a 
gente se casou, a Jurema tinha dezesseis anos e eu dezoito. A gente era muito 
criana, mas se gostava muito. A Jurema demorou um pouco para esperar 
criana. A gente j estava casado h mais de um ano, quando ela disse:
- Neco, acho que estou esperando criana!
No sei dizer o que senti. S sei que fiquei muito feliz. Assim que soube 
que a nossa criana ia chegar, eu fiz o quarto junto do nosso e a Jurema 
fez toda a roupinha, com bordado e renda. Ela trabalhava aqui neste 
barraco. O trabalho dela era muito procurado, por isso o tio pagava bem 
e nunca faltava trabalho para ela. Durante todo o tempo em que a gente 
esperou a criana, ela trabalhou. Todo tempo ficava falando em como ia 
ser a criana. 
- Neco! No que voc est pensando? 
Ele ouviu a voz de Jurema, engoliu seco e respondeu: 
- Na nossa vida e em tudo que a gente j sofreu... 
- Tem razo e, hoje, a gente est tirando a tristeza do corao, est 
tentando deixar de sofrer. A gente tem de cuidar dessa moa, at ela se 
lembrar quem  e de onde veio. Vou ajudar voc a levar a cama l para 
o quarto. 
Ele pegou de um lado da cama e ela do outro. Cida chegou e os 
ajudou. Ela ainda no estava conformada com aquela situao, mas 
sabia que no poderia fazer nada. S agradecer quelas pessoas e esperar, 
como o padre havia dito, o dia em que, do nada, sem saber como, se 
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A Vida Continua 
lembraria de tudo. 
Neco, tentando demonstrar que estava tudo bem, disse: 
- Cuidado a vocs duas! No deixem a cama cair. Se quebrar, no 
tem mais madeira para fazer outra! 
- Que  isso, Neco? A gente  mulher, mas  forte. No  mesmo, 
Cida? 
- Isso mesmo, Neco! Voc  que tem de ter cuidado. Com ns 
duas, no h problema. 
Chegaram  porta do quarto. Colocaram a cama no cho. Precisaram 
virar a cama para que ela entrasse. Seguindo as instrues de Neco, logo 
a cama estava dentro do quarto. Enquanto ele a colocava no lugar em 
que iria ficar, Cida e Jurema foram buscar o colcho que estava no 
quintal. Logo a cama estava no lugar. Jurema colocou um lenol branco 
e um travesseiro que tambm tinha feito, de palha de milho. Mexendo 
no colcho e no travesseiro, disse: 
- Olha como est macio, Cida! 
- Est macio mesmo! Acho que agora vou dormir muito bem, sem 
medo de virar e cair, como acontecia com a rede! 
- O Neco tinha razo, voc precisava mesmo de uma cama. Agora, 
a gente s precisava que a chuva chegasse para tudo ficar bem. 
- E eu de me recordar do meu passado. Depois que o padre disse 
aquilo, estou com tanta esperana. Acho que logo vou me recordar. 
- Vai sim, vai sim. Agora, vou l para cozinha preparar a comida. 
- Vou ajudar voc. 
Saram do quarto. Neco foi para o quintal, guardou o cavalo e 
fechou o barraco. Naquele momento, Cida sabia que, assim como 
Jurema e Neco, que estavam tentando deixar o passado para trs, ela 
precisava fazer o mesmo. Precisava aceitar, porque, assim como a deles, 
sua vida tambm precisava continuar. 
Acordaram no dia seguinte. Cida estava sentindo-se muito bem. 
Pela primeira vez, desde que chegou, dormiu tranqila e sem medo. 
Neco e Jurema conversavam na cozinha: 
- , Neco, acho que a gente vai ter que ir, mesmo, para a cidade. 
Isso d uma tristeza, no d? 
- D, sim, mas estive pensando muito. Voc j sabe que no tem
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A Vida Continua 
outro jeito, no. A gente vai e, dessa vez, no quero mais voltar. Cansei 
dessa vida. Vou escrever para o Dod. Faz muito tempo que ele est l 
no Sul. Vou perguntar se d para a gente ir para l. 
- No, Neco! Eu no quero sair daqui! 
- Sei que no quer. Eu tambm no quero, mas no tem mais jeito, 
no. A gente vai para casa do tio, fica l por um tempo, depois a chuva
vem e a gente comea tudo de novo, e a a seca volta. No d mais,
Jurema. Estou cansado dessa vida. 
- Mas, Neco! Aqui  a nossa terra! A nossa casa! O que a gente vai 
fazer l no Sul? 
- No sei. Por isso  que vou escrever para o Dod e perguntar o 
que a gente pode fazer. 
- Eu no quero ir, mas se voc acha que tem que ser assim, eu vou. 
Fao qualquer coisa, s no quero ficar longe de voc... 
- Tambm no quero ficar longe. A gente s vai, se der para os 
dois irem. 
Jurema ficou parada, olhando para o marido. No sabia o que dizer. 
Sempre soube que esse dia chegaria, mas tinha a esperana de que 
demorasse muito. 
- Est bom, se no tiver outro jeito, a gente vai. Mas e a Cida? O 
que a gente vai fazer com ela? 
- Ela vai junto. A gente sabe que ela  l do Sul. Quem sabe, ela 
consegue encontrar a famlia, no ? 
Cida estava no quarto escutando tudo. Uma luz de esperana passou 
por sua cabea. Aquela era sim uma soluo para o seu caso, pensou: 
quem sabe, no Sul, conseguirei descobrir quem sou e de onde vim. Ser, que 
tenho pai, me e irmos? No posso continuar assim. Preciso me lembrar! 
Por que isso est acontecendo comigo? 
Levantou-se, abriu a porta e entrou na cozinha, onde eles 
conversavam. 
- Bom-dia. 
- Bom-dia, Cida. Dormiu bem? 
- Dormi muito bem, Jurema. A cama  mesmo confortvel. Preciso 
confessar que  bem melhor dormir nela do que na rede. 
- A gente sabe. Dormir na rede  s para quem tem costume. No 
48


A Vida Continua 
quer tomar caf? J est pronto.
- Quero, sim, desculpem, mas no pude deixar de ouvir o que
falavam. Pretendem mesmo ir embora para o Sul?
- A gente estava conversando sobre isso. Parece que a chuva no
 vem mesmo. A gente j passou por isso antes, mas, agora, j falei  
Jurema que no d mais. 
- Eu vou mesmo junto com vocs? 
- Claro que vai! Imagine, Neco, se a gente vai abandon-la? Nem 
pensar! No  mesmo? 
-  isso mesmo, Cida. Aonde a gente for, voc vai junto. 
- Ainda bem. No sei o que faria sem vocs. No tenho idia do 
que fazer da minha vida. 
- Por enquanto voc no vai fazer nada, s vai tomar caf. 
Cada um pegou um copo de caf e foram tomar no quintal. 
Tomando o caf, Cida pensou: Definitivamente, a vida continua 
mesmo.



 Visita do Alm 
Outro dia passou, amanheceu novamente. Cida abriu os olhos, espreguiou-
se na cama, olhou  sua volta e sentiu-se feliz. Agradeceu a 
Deus por ter uma cama confortvel e aqueles amigos. Levantou-se, saiu 
e viu Jurema que estava abanando a mo para Neco que se distanciava 
com a carroa. 
- O Neco no vai tomar caf? 
- J tomou, ele acorda sempre muito cedo, faz e toma caf. Foi ver 
se encontra um pouco de gua, pois a nossa est acabando. 
Neco abanou a mo para as duas que estavam na porta da casa. 
Assim que ele desapareceu, Cida disse: 
- Jurema, voc no quer ir embora daqui, no ? 
- No quero, no... 
- Por qu? 
- A gente no sabe como  l. S sabe que a cidade  muito grande 
e que eles falam diferente. 
- S isso? 
- Tambm aquilo que os amigos contam. Um amigo da gente foi 
para o Sul e, depois de um tempo, voltou, veio todo bonito, com roupa 
nova, um rdio de pilha e culos escuros. Disse que est muito bem, 
que trabalha na construo e que mora nela. Disse ao Neco para ir l, 
pois tem bastante servio. O Neco ficou todo animado. Mas eu ainda 
tenho muito medo. Faz um bom tempo que o Dod, outro amigo, 
foi. A gente no sabe como ele est. Ele  nosso amigo desde criana e 
 o melhor amigo do Neco. Por isso, o Neco vai escrever para ele e, se 
ele disser que tem trabalho, a gente vai mesmo e seja tudo o que Deus 
quiser... 
- Voc disse que vai me levar junto. Estou feliz, pois, quem sabe, 
eu encontre algum que me conhea. 
- Isso mesmo, Cida. A vai ficar tudo certo, no  mesmo? 
- Eu no agento mais essa cabea oca. Parece que comecei a viver
no dia em que cheguei aqui. Antes disso, no tem nada.
-  estranha essa sua doena, como pode ser? 
- No sei... no me lembro de ter ouvido falar nisso, mas tambm
51


Visita do Alm
no me lembro de nada. Ser que o padre tinha razo quando disse que
a qualquer momento eu vou me lembrar de tudo? 
- No sei, mas o padre deve saber o que est dizendo. Para ser 
padre teve que estudar muito. Ele no  ignorante como a gente, no. 
- Tomara que seja verdade. 
- Por qu? Voc no est feliz aqui com a gente? No gosta da 
gente? 
Cida sorriu enquanto passava a mo carinhosamente no cabelo de 
Jurema e respondeu: 
- No  nada disso, Jurema! S que preciso saber quem sou e de 
onde vim. S isso. 
- Ainda bem. No sei quem voc , nem de onde veio, s sei que 
gosto muito de voc... 
- Eu tambm gosto muito de voc e tambm no sei por qu. 
- Est bem, mas chega de prosa, vamos andar por a e ver se a gente 
encontra algum ovo para comer. Quando o Neco voltar, vai estar com 
muita fome. 
Saram e ficaram um bom tempo procurando pelos ovos. Assim 
que encontraram, foram juntas preparar o almoo. No tinha muita 
coisa, mas a comida de Jurema era feita com tanto carinho que parecia 
se multiplicar. Terminaram o almoo. Foram para o quintal esperar 
Neco voltar. Assim que saram, viram que ele estava chegando. Ele se 
aproximou. Elas correram para junto da carroa e o ajudaram com as 
latas de gua. Jurema perguntou: 
- Conseguiu gua, Neco? 
- Consegui, s que est barrenta. Vai precisar ferver e coar. 
- ... a gente tem de fazer isso. A Liliane ensinou. 
Neco retirou as latas da carroa e elas as levaram para dentro. Depois, 
ele levou a carroa para os fundos do quintal. Desatrelou o cavalo e o 
amarrou no tronco de uma pequena rvore. Era a nica que resistia a 
seca. Sentou-se em um banco ao lado do barraco. Ficou ali, olhando 
para o horizonte e pensando. Cida e Jurema continuavam dentro da 
casa, colocando a gua em baldes de alumnio brilhantes. Quando 
terminaram de guardar toda a gua, Jurema disse: 
- No sei no, Cida, mas parece que o Neco no est bem, no. 
52

Visita do Alm 
- Por que est dizendo isso? 
- Eu conheo o Neco j faz bastante tempo e sei quando ele est 
pensando. Acho que aconteceu alguma coisa que o deixou desse jeito. 
- No percebi nada. 
- Mas eu sim. Vou l falar com ele. Venha tambm. 
Cida acompanhou-a. Assim que chegaram junto dele, Jurema 
perguntou: 
- Neco, o que aconteceu? 
- No aconteceu nada, s estou um pouco atrapalhado da cabea. 
- Como assim? 
- Quando sa para buscar gua, aconteceu uma coisa estranha. 
- Que coisa? 
- No caminho, fui olhando com tristeza para toda aquela terra 
seca, pensei: Por que acontece sempre isso? Essa terra  a minha terra! Foi 
onde nasci! Gosto daqui! Por que tenho que ir embora? O que vou fazer l 
no Sul? No sei nada de l! Nunca sa daqui, a no ser quando era ainda
um rapazinho e fui com meu pai para Salvador.
- Sem perceber, eu estava rindo, lembrando-me daquele dia e de
como fiquei assustado quando cheguei l.
- Ficou assustado com o qu, Neco? 
- Com toda aquela gente que ia e vinha. Nunca tinha visto aquilo 
antes. E, quando vi, numa loja, uma caixa de dentro da qual um 
homem falava, levei um susto maior ainda. O homem da loja disse que 
era a televiso. Fiquei encantado. Queria uma, mas o homem disse que 
precisava ter luz eltrica e a gente no tinha. Meu pai viu a tristeza na 
minha cara. 
- No fica triste, meu filho. A gente no tem luz eltrica, mas tem a 
luz do sol e no tem nada mais bonito. O progresso est chegando  nossa 
cidade e logo, logo, a gente vai ter, l em casa, essa caixa que fala. 
- Aquela lembrana me deixou muito feliz e, ao mesmo tempo, 
com muita saudade e tristeza, pois meu pai morreu sem ver na nossa 
casa uma televiso. At hoje, a luz eltrica no chegou nem a caixa que 
fala. Ele era meu amigo. Tentou me ensinar tudo o que sabia. Ele me 
disse o mais importante naquele dia que a gente estava sentado em 
embaixo de uma rvore. 
53


Visita do Alm 
- Olha, meu filho, agente  pobre e vive nesta terra que s vezes  seca, 
mas quando a chuva chega, no tem terra mais bonita nesse mundo todo. 
Voc ainda  muito pequeno, mas quando crescer, no esquece nunca que a 
pobreza no  desculpa para agente fazer coisa errada. Deus do cu  quem 
sabe por que a gente nasceu aqui e pobre. Algum motivo deve ter. Voc tem 
que ser sempre honesto e, se puder ajudar algum, deve ajudar, mas nunca 
prejudicar. Vive bem a sua vida. 
- Meu pai era muito inteligente. Sempre que ia  cidade comprava 
jornal. No sabia ler, mas ficava olhando as figuras e tentava adivinhar 
o que estava escrito. Quando fiquei com a idade de ir para a escola, 
ele, sempre que podia, caminhava a p junto comigo, por mais de 
uma hora. Assim que eu entrava na escola, ele ficava do lado de fora, 
esperando que eu sasse. Enquanto a gente voltava, eu contava tudo o 
que eu tinha aprendido. Eu contava e ele ficava feliz. Quando chegava 
a casa, pegava um jornal velho e perguntava que letra era aquela que 
estava ali. Eu falava e ele ia juntando e fazendo uma palavra. Jurema! 
Por que ele teve que morrer to cedo? Queria que ele estivesse aqui para 
me ajudar a escolher o caminho que a gente precisa seguir... sei que ele 
nunca quis sair daqui, mas agora, perdoa, pai, no tem jeito no. Sabe, 
Jurema, quando me lembrei de tudo isso, comecei a chorar. Voc acha 
que homem pode chorar? 
- Todo homem desta terra, diz que no, No sei, mas acho que 
sim, porque homem tambm tem sentimento, igual  mulher, no  
mesmo! 
- No sei se pode, mas eu chorei de saudades do meu pai. Depois, 
sequei a lgrima com a barra da camisa e fui seguindo na direo do 
aude. No sabia se, quando eu chegasse l, ainda ia encontrar gua, 
mas tinha que tentar. Se no encontrasse, a gente ia ter que, amanh 
mesmo, ir embora para casa do tio Dorival. Cheguei no aude, tinha 
muita gente l que, assim como eu, tentava pegar alguma gua. Parei 
a carroa, tirei as latas de trs dela, fui at a margem. A pouca gua 
que tinha era barrenta, mas no tinha outro jeito, eu tinha que pegar 
aquela mesma. Fui colocando um pouco de gua em cada lata, mas 
s at a metade, porque sabia que, com o balano da carroa, se ela 
estivesse muito cheia, a gua ia cair e isso eu no queria. No podia 
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Visita do Alm 
desperdiar. Assim que coloquei todas as latas em cima da carroa, 
olhei para as outras pessoas que tambm estavam buscando aquele 
lquido precioso. A maioria carregava lata e balde nos ombros. At 
criana ajudava os pais. Pensei: No sei do que estou reclamando, eu 
ainda tenho cavalo e carroa. 
Enquanto eu pegava a gua, Ciclone, o meu cavalo, bebia daquela 
mesma gua. Subi novamente na carroa e peguei o caminho de volta. 
A lembrana do meu pai me deixou triste, mas, ao mesmo tempo, me 
deixou sossegado. Sentia um bem-estar que eu no conseguia explicar. 
Voltei a pensar nele e comecei a conversar em pensamento, como se ele 
estivesse ali: Pai, sei o quanto o senhor amou esta terra. Sei que o senhor 
jamais ia sair daqui, mas pode ver que no tem outro jeito. Aqui sempre fo i 
assim e vai ser para sempre. Como eu queria ver tudo verde e poder colher 
a minha plantao... 
Neco contava o que tinha acontecido, mas ele mesmo no sabia 
que, enquanto pensava no pai ao seu lado, na carroa, um vulto o 
acompanhava e sorrindo lhe disse: 
- Sei tudo o que est sentindo, meu filho. Muitas vezes, passei por isso, 
mas sempre alguma coisa acontecia e eu continuava aqui. Existem mistrios 
no cu, que quando a gente est vivo no conhece. Quando a gente morre, 
esses mistrios so esclarecidos e se descobre que muitas vezes a gente sofre 
sem necessidade. Ningum sabe como  a vida, mas posso lhe dizer que tudo 
est sempre certo e que cada um est no lugar em que deve estar. Amo voc, 
meu filho. Voc ainda vai passar muita coisa, mas vou estar sempre ao seu 
lado. Fique sossegado. 
- Vocs no vo acreditar, mas pareceu que ouvi a voz do meu pai 
dizendo umas coisas bonitas. No ouvi, mas senti como se ele estivesse 
l do meu lado. Parece que fiquei louco! Comecei a conversar com ele 
no meu pensamento e parecia que ele respondia.
- Pai, onde o senhor est? Ser que existe mesmo um cu como o senhor
falava?
- Claro que existe, meu filho! Voc no sabe, mas est no cu, quando
est ao lado da sua Jurema a quem ama tanto. Est no cu, no momento em
que vai colher o que plantou. Est no cu, nos momentos de esperana que
sente em relao  vida. Est no cu, agora, neste momento em que deixa 
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Visita do Alm 
seu esprito livre. Muitas vezes, a gente, aqui mesmo na Terra, est no cu 
e no percebe. 
- Sabe, pai, tenho muitas saudades suas. Queria que estivesse aqui do 
meu lado. Sei que o senhor era muito inteligente e que sabia muita coisa da 
vida, por isso, ia saber mostrar um caminho para eu seguir. 
- Tambm tenho saudades, por isso, estou aqui, mas o caminho  seu. 
Voc  quem tem que escolher. Eu s posso ficar ao seu lado, seja ele qual 
for. 
Assim dizendo, ele se aproximou do rosto do filho e o beijou. Neco 
disse para elas que o ouviam atentamente: 
- Teve uma hora que senti que o meu pai me beijava. Ento, pensei:
Nossa! Parece que o meu pai est aqui! Estou at conversando com ele... Eu
no estava assustado, apenas ri de mim mesmo. Senti depois, como um 
ar fresco se afastando. Por um momento, achei que ele estivesse indo 
embora. Por isso estou assim. No vi o meu pai, mas acho que ele estava 
do meu lado. No sei bem o que aconteceu, s sei que, depois disso, 
no tenho medo de mais nada. Fiquei bem. Sei que preciso decidir a 
minha vida e  isso que vou fazer. No quero ir embora daqui, mas, se 
precisar, se no tiver outro jeito, a gente vai. 
Neco terminou de contar o que tinha acontecido. Elas estavam 
impressionadas. Jurema disse: 
- Nossa, Neco! Estou toda arrepiada! Ser que o seu pai veio 
mesmo falar com voc? 
- No sei, mas acho que sim. Ele sabe que eu no quero ir embora, 
mas senti que, se precisar ir, ele no vai ficar triste. 
- Credo, Neco! Vamos parar de falar dessas coisas! Do contrrio, 
eu no vou conseguir dormir. Voc sabe que tenho medo de 
assombrao! 
Cida tambm ouviu a histria que Neco contou. Assim como 
Jurema, ficou impressionada, mas calou-se. Ela no entendia nada 
daquilo. Neco, rindo, disse: 
- Jurema, pare com isso! Meu pai no  assombrao e se ele veio 
me ver, foi porque sentiu saudade, s isso. Vamos entrar que estou com 
fome. 
-- No sei no, Neco, mas todo mundo que morre vira assombrao 
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Visita do Alm 
e eu no gosto de falar nessas coisas. 
- E se fosse o seu pai ou a sua me, ia ter medo tambm? 
- Credo, Neco! Do meu pai e da minha me, no! Eles no iam 
querer me fazer mal! 
- Voc acha que o meu pai ia? 
- Acho que no, mas mesmo assim no quero ver nenhum deles! 
Cruz credo. 
- E se fosse a Dalvinha? Voc ia querer ver? 
- Eu gostaria de v-la sim... queria peg-la no colo de novo... Neco, 
ser que ela vem visitar a gente? 
- No sei, mas seria bom se ela viesse, no seria? 
- Seria sim, Neco. Seria sim... 
Ao lado deles, sem que vissem, estava o pai de Neco com uma 
menina ao seu lado. Ela se aproximou primeiro de Jurema, depois de 
Neco e os beijou carinhosamente. Disse: 
- Eu gosto muito da senhora, me e do senhor tambm, pai. Me, no 
chore no, eu estou aqui sempre que posso. 
Parecendo sentir aquele beijo, Neco disse: 
- Jurema, acho que senti um beijo, ser que foi dela? 
- No sei no, mas acho que senti tambm. Neco, ser que depois 
que a gente morre fica mesmo andando por a. Ser? 
- No sei, Jurema, mas se for assim,  muito bom. J pensou se 
a gente, depois que morrer, puder visitar todo mundo de que a gente 
gosta? 
Jurema no respondeu, apenas sorriu. 
O pai de Neco disse para a menina: 
- Eles nem imaginam o quanto a gente fica do lado deles. Eu tambm 
no imaginava. Foi preciso eu morrer para descobrir. Agora, a gente precisa 
ir, sabe que temos muito a fazer. Vamos embora? 
- Eu no queria, mas o senhor tem razo, vov, a gente tem muito a 
fazer. Posso dar mais um beijo neles? 
- Claro que pode. 
A menina aproximou-se novamente e tornou a beij-los. Em seguida, 
pegou na mo do av e os dois desapareceram. 
Jurema, ainda sentindo o beijo, disse. 
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Visita do Alm 
- Vamos parar de falar nessas coisas e vamos comer. Faz tempo que 
a comida est pronta. 
Neco e Cida concordaram com ela, entraram e foram almoar. 
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 Deus  Quem sabe das Coisas 
Depois do almoo, Jurema disse: 
- Cida, agora, o Neco vai fazer um braseiro l fora e a gente vai 
ferver toda essa gua. No  muita, mas vai dar at a gente preparar 
tudo para ir  cidade. 
- Temos que ir mesmo, Jurema? Tenho medo, pois j me acostumei 
aqui. Entretanto, na cidade, talvez encontre algum que me conhea. 
-  verdade, mas a gente no sabe nada da vida nem o que vai 
acontecer hoje, muito menos amanh. De repente, a vida muda, no 
 mesmo? 
-  mesmo... olha o meu caso... o que ser que me aconteceu? 
- A gente no sabe, mas, como disse o padre, voc logo, logo vai se 
lembrar de tudo. Agora, no adianta ficar pensando nisso. A gente tem 
 que ferver e coar toda essa gua. 
Cida ficou calada. Levantou-se, tomou caf e foi ajudar Jurema 
com a gua. Ficaram em silncio por alguns minutos. Ela quebrou o 
silncio, dizendo: 
- Jurema, posso lhe fazer uma pergunta? 
- Claro que pode! O que ? 
- No sei se voc vai ficar triste ou no vai querer falar sobre esse 
assunto. Se assim for, eu entenderei, mas gostaria de saber como foi que 
a sua menina morreu. 
Jurema parou no alto a mo, onde segurava uma panela com gua, 
olhou bem para Cida, os seus olhos se encheram de gua. Ao v-la 
naquele estado, Cida se arrependeu de ter tocado naquele assunto, mas 
j estava feito. Tentou contornar: 
- Se isso vai deix-la triste, no precisa contar nada.  apenas 
curiosidade, s isso... 
- Voc tem razo, Cida, no gosto de falar desse assunto, mas 
ele no sai da minha cabea. Minha menina, no ms que vem, ia 
fazer cinco anos, mas foi embora e nunca mais vai voltar.
- O que aconteceu?
Jurema, que estava em p colocando a gua no balde, sentou-se em
uma cadeira e disse:
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Deus  Quem sabe das Coisas
- Cida, sente-se a, vou contar tudo... a gente ficou muito feliz
quando eu soube que ia ter uma criana. O Neco aumentou mais um 
quarto e fez aquele bero que voc viu. Todo o tempo eu passei muito 
bem. No ltimo ms, antes de a criana nascer, eu fui para casa da 
tia Laurinda. Voc sabe como ela gosta da gente. No dia em que ela 
percebeu que a criana ia nascer, mandou chamar a dona Teresa, que  
a parteira da cidade. Ela tem mais ou menos cinqenta anos, j ajudou 
muita criana a nascer. Depois, a tia mandou o Chico chamar o Neco, 
que tinha ficado aqui no stio para cuidar de tudo. O Neco veio, chegou 
um pouco antes de a menina nascer. No demorou muito, ela nasceu e 
era linda. Tinha muito cabelo, a tia at brincou: 
- Nossa! Essa menina  muito cabeluda! Nunca vi uma criana nascer 
com tanto cabelo! O cabelo dela vai ser forte e bonito! 
- Enquanto dona Teresa cuidava de mim, a tia deu banho na 
menina, vestiu, enrolou em um cobertor e ela ficou bem durinha. 
Quando peguei a menina no colo, senti uma emoo que no sei como 
explicar. No entendia como uma coisinha daquela tinha sado de 
dentro de mim. Ela abria e fechava os olhinhos. Fiquei com medo de 
segurar no colo e deix-la cair. A tia brincou: 
- Pode pegar, ela no vai quebrar, no! 
- Eu sabia que a tia entendia do que estava falando, mas eu 
continuava com medo. Naquele momento, aquela criana era a coisa 
mais importante da minha vida. Devagar, o Neco chegou perto da 
cama e me beijou na testa. Depois, olhou para a menina que estava nos 
meus braos, abrindo e fechando os olhinhos. Ele tambm no teve 
coragem de pegar a menina no colo. Dona Teresa guardou o material 
que usou em uma maleta e disse  tia tudo o que ela tinha que fazer 
para cuidar de mim e da menina. Eu fiquei calada. Estava encantada 
com a minha menina e no conseguia deixar de olhar para ela. Tia 
Laurinda acompanhou dona Teresa e deixou-nos sozinhos. Neco estava 
com os olhos cheios de gua. A menina chorou. Chorou no, deu um 
grunhido. A gente comeou a rir. Ele disse: 
- Ela  muito bonita, no? Parece com voc... 
- No sei, no... A tia disse que ela est vermelha e inchada, mas que 
amanh vai ficar melhor e a gente vai poder ver o rostinho dela direito.
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Deus  Quem sabe das Coisas
Disse que s daqui a uns meses  que vamos poder ver mesmo como ela vai
ficar. Disse que, por enquanto, ela  igual a toda a criana quando nasce.
- Acho que a tia no est certa, no! Ela  linda!
- Eu no disse nada, s ri. Tambm achava que era a mais bonita
do mundo. Depois de um tempo, Neco perguntou:
- Que nome a gente vai dar para ela? 
- Pensei um pouco, depois respondi: 
- Queria que ela tivesse o nome da minha me: Dalva. Eu acho muito 
bonito e voc? 
- Tambm gosto. Est certo, vou l no cartrio para registrar e 
aproveitar para contar para todo mundo que ela nasceu. 
- No consegui deixar de ficar feliz vendo a felicidade dele. Ele 
saiu correndo do quarto. Eu fiquei ali com a Dalvinha no colo. A tia 
voltou e a colocou no bero que tinha sido dos filhos dela. Eu estava 
muito feliz, no me lembrava mais da dor que tinha sentido. Fiquei 
na casa da tia quase um ms. Ela me ensinou a dar banho, trocar e 
at como dar de mamar. Eu no sabia de nada. O Neco voltou antes 
aqui para o stio. Estava quase chegando a hora de colher a plantao. 
Naquele ano, choveu muito e a gente estava feliz com tudo. Ainda mais 
com a nossa menina. 
Cida acompanhava as palavras de Jurema e percebeu que, enquanto 
ela contava, seus olhos estavam distantes, nem parecia que estava ali 
sentada  sua frente. De repente, Jurema parou de falar. Cida, tambm 
emocionada, disse: 
- Ouvindo tudo isso que est me contando, vendo a emoo que 
sentiu ao pegar sua Dalvinha no colo, fico pensando: ser que tambm 
j vivi essa emoo? Ser que, um dia, j tive um ou mais filhos? Se eu 
tive filhos, eles devem estar sentindo a minha falta. No sei a minha
idade, mas, pela aparncia, no sou muito velha, por isso, se tiver algum
filho, ele ou eles devem ainda ser crianas. Como  triste no se saber o
que se foi ou fez na vida...
Quando terminou de dizer essas palavras, estava chorando.
Jurema percebeu que, logo, ela estaria desesperada, como sempre
ficava quando se lembrava da sua situao. Sabia que ela ia comear
a chorar e que ficaria vrias horas chorando sem conseguir parar.


Deus  Quem sabe das Coisas 
Tentando evitar que aquilo acontecesse, disse: 
- Cida! No vai comear a chorar! Voc no queria saber o que 
aconteceu com a minha menina? 
- Quero sim, mas  que no consegui evitar. Ser que tive filhos? 
- A gente no sabe. Mas j lhe disse que no adianta ficar aflita. 
Logo, vai se lembrar. S tem que ter pacincia. Agora, vou continuar 
contando o resto. 
Cida ajeitou-se melhor na cadeira em que estava sentada e ficou 
olhando para Jurema, que continuou: 
- Quando cheguei aqui com a menina, j sabia como tratar dela. 
A tia tinha me ensinado tudo. Cuidei dela com todo o carinho. Neco 
ficou bobo com ela. Cada gracinha que ela fazia era motivo para a 
gente rir muito. Antes de ela nascer, eu bordava e fazia renda para o 
tio Dorival. Algumas vizinhas de outros stios aqui perto vinham para 
c, elas tambm trabalhavam para o tio. A gente terminava o trabalho, 
depois o Nco levava l para o tio, entregava e trazia mais. Foi por isso 
que o Neco fez o barraco e colocou aquela mesa com uns bancos de 
cada lado. Enquanto a menina crescia, ficava dentro de uma caixa que 
eu forrei com palha de milho. Ela no tinha ainda um ano quando 
comeou a andar. Era muito esperta. Com dois anos, j falava quase 
tudo. Eu continuei trabalhando e ela ficava por ali, brincando e correndo 
atrs das galinhas. Neco cuidava da plantao e voltava logo para ficar 
com ela. Passeava com ela no cavalo. Ela era toda a nossa felicidade. 
Jurema parou de falar, sentiu na garganta como se fosse um caroo. 
Sua voz quase sumiu. Lgrimas corriam por seu rosto. Cida ficou 
preocupada com a sua aparncia. 
- Jurema, voc no est bem, vamos mudar de assunto. Deixe esse 
para outro dia. 
- No, se eu no contar agora, no conto nunca mais. A lembrana 
di, mas eu preciso enfrentar, no tem mesmo jeito... a minha menina 
no vai voltar nunca mais. A tia, que era madrinha dela, j estava 
preparando a festa do aniversrio. Os filhos dela j tinham crescido, 
por isso, ela fazia tudo para Dalvinha. Eu tinha terminado de bordar 
um vestidinho que ela ia usar na festa. Fiz aquele vestido com muito
carinho. Era azul. Como todos os dias, eu estava no barraco bordando
62


Deus  Quem sabe das Coisas
e ela brincava por ali, onde eu pudesse v-la. Enquanto eu bordava,
ia conversando com as outras mulheres. A gente, entre um ponto e
outro, ficava de olho nela. Eu, por um momento, me distra, por isso,
demorei para sentir a falta dela. Quando percebi, chamei, mas ela no
respondeu. A gente levantou e foi ver onde ela estava. Ela estava deitada
no lado do barraco, onde a gente no podia ver. Quando vi que ela 
estava cada, comecei a gritar e correr para junto dela. Chorando e 
gritando, me abaixei: 
- Dalvinha! O que voc tem? Abre os olhos! 
- Chamei, chamei, mas no adiantou. Ela no abria os olhos. 
Enquanto eu estava ali, uma das mulheres foi chamar o Neco, que veio 
correndo. Ele tambm se abaixou, colocou a mo no pescocinho dela 
e disse, nervoso: 
- Est respirando, mas parece que est desmaiada, vou levar minha 
menina para a cidade. O Doutor Evaristo vai saber o que fazer! Jurema, 
vamos logo! 
- Pegou a Dalvinha no colo e foi para junto da carroa. Eu o 
acompanhei. Ele me devolveu a menina e, rpido, atrelou o cavalo. 
Samos em disparada, o mais rpido que o cavalo conseguia. No 
caminho, ela acordou. Quando me viu chorando, perguntou com a 
voz baixa e fraca: 
- Me, por que est chorando? 
- Por nada, minha filha... por nada... voc est bem? Est sentindo 
alguma dor? 
- No, no est doendo nada. 
- Est bem. Ento, fica bem quietinha, a gente j est chegando. 
- Assim que a gente entrou na cidade, o Neco foi direto para casa 
do doutor Evaristo. Entrou correndo, levando a Dalvinha no colo. Ela 
estava acordada, mas muito fraquinha, quase no conseguia ficar com 
os olhos abertos. O doutor Evaristo, que estava atendendo uma moa, 
se assustou quando viu Neco entrando daquela maneira. 
- Neco! Que aconteceu? 
- A minha menina, doutor! A minha menina est muito ruim.
- O doutor Evaristo olhou para Dalvinha e, por seus olhos, percebi
que ele estava assustado. Ele mandou o Neco colocar a Dalvinha na
63


Deus  Quem sabe das Coisas 
mesa. Abriu sua roupinha e colocou aquele aparelho que os mdicos 
usam para ouvir o corao. Ela abriu os olhos, olhou para mim e para 
o Neco, sorriu e fechou os olhinhos. O doutor comeou a apertar o 
peitinho dela e soprar na sua boquinha, mas no adiantou. Ela no 
acordou mais. 
Jurema parou de falar. Suava muito, sua testa estava toda molhada 
e seus olhos tambm. Cida, tambm, no conseguiu evitar as lgrimas. 
Jurema, mesmo chorando, continuou falando: 
- O doutor ficou por muito tempo fazendo aquilo, at que, 
finalmente, disse: 
- No tem jeito, ela se foi mesmo.
- Desesperada, perguntei:
- Como assim, doutor? 
- Neco, chorando muito, foi que me respondeu: 
- Ela morreu, Jurema! Ela morreu! 
- Eu, que nunca tinha visto ningum morrer na minha frente, 
fiquei ali, parada, sem poder me mexer nem falar. No conseguia 
acreditar naquilo que estava acontecendo. O Neco chorava muito, mas 
eu no. Fiquei parada, como se aquilo fosse um sonho. Naquela manh, 
a minha menina tinha acordado como todos os dias. Tomou caf e foi 
brincar. Agora, aquele homem vinha dizer que ela estava morta! Aquilo 
no era verdade, no estava acontecendo! 
Jurema, agora, estava em prantos, no conseguia se controlar. 
Vendo-a naquela situao, Cida, sem saber o que fazer, levantou-se, 
estava dando a volta ao redor da mesa para chegar junto de Jurema, 
olhou para a porta, viu Neco que estava parado na porta de entrada. 
Ele no chorava, mas a expresso do seu rosto era de muito sofrimento.
Jurema continuava chorando. Cida abraou-a. Neco no disse nada,
saiu correndo em direo ao barraco. Cida ficou abraada  Jurema
por um bom tempo, at que ela parou de chorar e, aos poucos, foi 
se recompondo. Depois, ela tomou um copo com gua que Cida lhe 
ofereceu. Enquanto conversavam, no viram que Neco estava ali parado. 
Enquanto Cida socorria Jurema, viu que ele saiu correndo. Assim que 
Jurema se recomps, foram atrs dele. Ele correu at o lugar, onde 
Dalvinha desmaiou pela primeira vez. Ajoelhou-se e colocou o rosto 
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Deus  Quem sabe das Coisas 
no cho. No conseguia disfarar a dor que sentia. Cida percebeu que, 
assim como Jurema, ele tambm sofreu muito naquele dia. Percebeu 
que a dor que sentiam era imensa. Ele estava ali, ajoelhado, quando elas 
se aproximaram. Jurema abaixou-se, colocou a cabea na cabea dele, 
perguntando: 
- Neco, o que voc est fazendo a ajoelhado? 
- Eu ouvi quase tudo que voc conversou com a Cida. Lembrei-me 
daquele dia e vi voc chorando. No sei o que fazer para voc esquecer.
No gosto de ver voc triste, Jurema...
Ela fez com que ele se levantasse, abraou-o, dizendo: 
- Tambm no gosto de lembrar, mas no sei como fazer isso. 
Eu tento, mas no consigo. No acredito at hoje que Deus fez uma 
maldade dessas com a gente. A gente no merecia... no merecia no... 
Ele abraou-a com muita fora, dizendo: 
- Jurema, sabe que no adianta ficar assim... ela foi embora para 
sempre. A gente agora vai ter que ir para a cidade e depois para o Sul. 
Assim que a gente chegar l, vamos ter outra criana. 
- No, Neco! No quero outra criana! 
- Por que no? Eu no quero mais pensar nisso, Jurema! Perdi a 
minha menina, foi porque Deus quis, mas agora, o que me deixa mais 
triste,  ver que, at agora, voc no aceita. Eu tambm senti a morte 
dela, mas sempre soube que tinha sido a vontade de Deus. Voc no, 
Jurema! No se conforma e vive dizendo que se a gente no morasse 
to longe da cidade, tinha dado tempo de salvar a nossa menina. Eu 
sei que voc pode estar certa, mas sei que no adianta ficar sofrendo. 
A nica coisa que posso fazer  pedir para Deus ajudar a gente e fazer 
voc esquecer ao menos por um dia... a gente  ainda muito moo e 
pode ainda ter outros filhos. Meu Deus, ajude a agente! 
Ele pedia aquilo, mas sabia que ia ser muito difcil ter outro filho. 
Ela, chorando, disse: 
- Voc sabe que eu no quero outro filho, Neco. Sabe que o doutor 
Evaristo me deu aquele comprimido para eu no ficar esperando 
criana. 
- Sei, mas, Jurema, no toma mais essa coisa! A gente no sabe
bem o que ! A gente tem que deixar na vontade de Deus. Ele  quem
65


Deus  Quem sabe das Coisas
sabe das coisas.
Ela, tristemente, respondeu:
- Sabe, Neco, s vezes no sei se Deus existe mesmo. Se Ele existe,
por que levou a nossa menina? 
- No sei, mas agora no tem mais jeito. Ela foi embora e no vai 
voltar mais. A gente pode ter outra criana. 
- No! No quero! J disse que no quero! A gente vive muito 
bem, s ns dois sozinhos!
Vendo que ela estava nervosa e que no adiantava continuar, ele 
enxugou o rosto. 
- Est bem, no vamos mais falar nisso... 
Ele sabia que seria intil continuar com aquela conversa. Abraados, 
entraram no barraco. Cida foi para casa. Assim que entrou, foi para 
o seu quarto. Entrou, olhou para o lugar em que estava a cama que 
Neco havia lhe feito. Imaginou que ali, um dia, existiu um bero, 
onde Dalvinha dormia. Tentou imaginar o rostinho da menina. 
Olhou para a parede, viu um crucifixo, ficou olhando para aquele 
homem pregado na cruz. Ela no se lembrava dele, mas Jurema havia 
lhe contado a sua histria. 
- Nosso Senhor Jesus Cristo  o filho de Deus. Ele foi um homem muito 
bom. No precisava, mas nasceu aqui na Terra, para ensinar a gente a s
fazer o bem. Ensinou o caminho para a gente ir para o cu e morreu na
cruz para salvar a gente do inferno. S no sei, porque ele levou a minha
Dalvinha... 
Cida ficou olhando para a cruz. De repente, ficou triste, lgrimas 
surgiram em seus olhos e desceram por seu rosto. Disse, baixinho: 
- Senhor Jesus, no sei bem quem o Senhor . S sei o que a Jurema me 
contou. Ouvindo a histria da Dalvinha, fico pensando: ser que tambm 
tive filhos? Ser que tambm perdi algum? Senhor Jesus, a Jurema disse que 
o Senhor pode tudo, ajude-me a lembrar. Preciso saber quem sou e de onde 
vim. Ajude-me, Senhor... 
Ficou olhando para Ele, por um bom tempo. Depois, deitou-se na
cama e ficou pensando: Ns estamos indo para o Sul. Senhor, faa com que,
quando chegarmos l, eu descubra quem sou. Sei que se ficar aqui neste
lugar, nunca conseguirei descobrir quem sou, a no ser, como o padre falou, 
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Deus  Quem sabe das Coisas 
que eu consiga me lembrar de repente, mas como? Quando? 
Embora desesperada, levantou-se novamente, tornou a olhar para o 
crucifixo e tomou uma deciso: No o conheo, mas se  como a Jurema 
disse, sei que vai me ajudar. Por isso, no vou mais chorar. No  justo, eles 
me ajudaram e continuam ajudando. L no Sul, tudo ser diferente. 
Saiu do quarto e da casa, viu Jurema e Neco que voltavam abraados 
do barraco. Ao v-los, sorriu, pensando: Eles se amam muito. Tomara 
que continuem sempre assim. So pessoas de bom corao. 
Jurema, ao chegar perto de Cida, percebeu que ela estivera chorando. 
Preocupada, perguntou: 
- Esteve chorando de novo, Cida? Por qu? 
- No fique preocupada, s fiquei emocionada com o que me 
contou, mas j passou. Apesar de tudo, estou feliz por estar aqui com 
vocs. 
- Agora que a gente chorou bastante, vamos continuar fervendo 
a gua? 
- Vamos, precisamos terminar de ferver logo, embora eu no esteja 
com fome, est quase na hora de preparar a comida. 
- Isso mesmo. Antes, voc vai l no terreiro e v se encontra mais 
ovo. S tem um pouco de arroz, feijo e farinha. Acho que no vai ter 
jeito no, a gente vai ter que ir embora mesmo... 
Neco, que estava um pouco distante, mas, mesmo assim, ouviu o 
que elas disseram. Aproximou-se, dizendo: 
- Sabe, Cida, no sei de onde voc veio, mas estou feliz porque est 
fazendo bem para a Jurema. 
Dizendo isso e antes que Cida dissesse algo, saiu em direo do 
barraco. 
Passaram-se alguns dias. A preocupao com a falta da chuva 
continuava. Eles insistiam em no sair dali. Todos os dias, Neco olhava 
para o cu tentando ver alguma nuvem que indicasse que choveria. 
Naquela tarde, estavam sentados do lado de fora da casa. Ele olhou 
para o horizonte e para o cu. 
- Jurema, no tem nenhuma nuvem, no vai chover, no. A gente 
vai mesmo ter que ir embora. Vou arrumar tudo o que preciso levar e, 
amanh bem cedo, a gente vai para a casa do tio. Depois, vou escrever 
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Deus  Quem sabe das Coisas 
para o Dod e ver o que tenho que fazer para ir para o Sul. Eu gosto 
muito desta terra, mas no tem mais jeito... 
- Estou vendo, Neco, que no vai ter outro jeito mesmo. Eu nunca 
quis sair daqui, mas, se Deus quer assim, o que  que se vai fazer, no 
 mesmo? 
Neco balanou a cabea, voltou para o barraco. Elas foram para a 
cozinha preparar o jantar. Cida trouxe alguns ovos que encontrou no 
terreiro. Jurema, com uma tampa de alumnio, avivava a lenha para 
que o fogo conseguisse aquecer as panelas. Neco, no barraco, olhou 
para algumas ferramentas que havia ali. Olhou para a mesa grande, na 
qual Jurema e as outras mulheres bordavam e teciam renda, sempre 
conversando e rindo. Lembrou-se de Dalvinha brincando por ali. 
Sabia que Jurema nunca mais voltaria a fazer aquele trabalho. Voltou 
para a casa, entrou na cozinha onde as duas estavam. Ao v-lo chegar, 
Jurema disse: 
- Neco, chegou na hora, a comida est pronta. Est com fome? 
Ele olhou para o fogo, viu a panela de arroz, feijo e a outra, onde 
Jurema misturava ovo com farinha. Respondeu: 
- Estou, sim, mas estou vendo que temos pouca coisa para comer. 
Por isso, estou cada vez mais certo de que a gente precisa ir embora 
mesmo. A gente vai para a cidade amanh bem cedo, por isso  bom 
voc ver o que quer levar. Sabe que no pode ser muito, s o que der 
para levar na carroa. 
Cida percebeu que Jurema ficou triste, enquanto ela sentiu uma 
sombra de esperana. 
- Est bem, depois que a gente almoar, vou ver isso. 
Durante a tarde fizeram exatamente isso. Cada um separou o que 
queria levar. A noite chegou, foram dormir. Neco e Jurema, tristes, por 
terem que abandonar aquela terra amada. Cida, por sua vez, alegre, 
pois uma nova esperana surgia. Antes de dormir; pensou: no Sul, vou 
encontrar algum que me conhea... 
Adormeceram. J estavam dormindo h muito tempo quando Cida 
acordou com um barulho. Abriu os olhos e ficou prestando ateno. 
Notou que Neco e Jurema tambm haviam acordado. Ouviu a voz de 
Jurema: 
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Deus  Quem sabe das Coisas 
- Neco!  chuva?! Est chovendo?! 
Neco gritou: 
-  sim, Jurema! Est chovendo! 
Cida sabia que o som que escutava era de gua caindo no telhado 
com muita fora. Abriu a porta do quarto. Neco e Jurema no estavam 
mais ali. Caminhou em direo da porta de entrada da casa que estava 
aberta. Quando chegou ali, parou, ficou olhando os dois que estavam 
l fora, choravam, se abraavam, danavam e riam muito. Eles estavam 
to felizes que no notaram quando ela chegou e ficou parada na porta. 
Jurema dizia, entre lgrimas e sorrisos: 
- Neco! Agora a gente no vai mais precisar ir embora! Essa chuva 
forte vai molhar toda a plantao! No  mesmo? 
Neco, igual  Jurema, no conseguia disfarar a sua emoo. Pulando 
e danando, disse: 
- Isso mesmo, Jurema! Se continuar assim, por mais uns dias, vai 
encher o aude. 
Ele levantou-a e comeou a rodopiar com ela nos braos. 
Cida os olhava. Sabia que eles queriam a chuva, mas nunca imaginou 
ver uma cena como aquela. Eles estavam molhados, mas no paravam
de rir, danar e correr. De repente, Neco ajoelhou-se, dizendo:
- Obrigado, meu Deus! Obrigado, meu So Jos!
Cida, na realidade, no conseguia distinguir, se eram pingos de 
chuva ou lgrimas que corriam, pois seu rosto estava molhado. Neco 
saiu correndo em direo da plantao. Jurema olhou para a porta de 
entrada da casa. Ao ver Cida, gritou: 
- Vem, Cida! Vem ver a bno que Deus mandou para a gente! 
Est chovendo! A gente no vai mais precisar ir embora! Est chovendo 
muito! Ainda vai dar para salvar a colheita! Bendito seja Deus! 
A felicidade que viu no rosto de Jurema emocionou-a. Sabia que ela 
no queria sair dali. Entretanto, ela, sabia que sair daquele lugar, era a sua 
nica esperana que lhe restava. Mesmo assim, no pde deixar de ficar 
feliz ao ver a felicidade deles. 
- Venha, Cida! Venha comigo at a plantao! Amanh, a gente 
vai ter que desarrumar tudo o que arrumou hoje para ir embora! Est 
chovendo muito! A gente vai salvar a colheita! Obrigada meu Jesus, e 
69


Deus  Quem sabe das Coisas 
obrigada meu So Jos. Obrigada por trazer a chuva e deixar a gente 
continuar aqui. 
Cida no sabia o que dizer, apenas acompanhou Jurema. Foram 
encontrar Neco, que estava ajoelhado junto  plantao. Com as 
mos, ele acariciava as folhas. Jurema ajoelhou-se junto a ele e tambm 
comeou a acariciar as folhas. Cida ficou olhando e pensando: Como 
eles amam esta terra! 
Ficaram ali, por muito tempo, at que Jurema disse: 
- Neco, a gente est todo molhado. Acho bom a gente entrar e se 
trocar. Se voc ficar doente, no vai conseguir cuidar da plantao. Vou 
fazer um ch para esquentar. 
Ele se levantou, olhou com carinho para ela. 
- Est certo. Voc tem razo. 
Entraram. Cida, em silncio, acompanhou-os. Trocaram a roupa. 
Jurema preparou o ch e os serviu. Continuou chovendo durante a 
noite inteira. 
Neco acordou, aps preparar o caf. Foi para o quintal, olhou para o 
cu. A chuva, um pouco mais fraca, continuava a cair. Respirou fundo, 
sentiu o cheiro da terra molhada. Voltou para casa. Cida e Jurema j 
haviam acordado e estavam conversando. Entrou, dizendo: 
- Jurema, a chuva e o cheiro da terra molhada, me trazem uma 
felicidade muito grande. S de pensar que, ao menos por enquanto, a 
gente no vai precisar deixar esta terra! S sei falar: obrigado, meu Jesus, 
obrigado, meu So Jos. Obrigado por trazer a chuva e deixar a gente
continuar aqui.
- Neco, sempre lhe disse que Deus  quem sabe das coisas! A gente
no sabe nada, mesmo! Olha s! A gente pensou que tinha perdido 
tudo! Que no tinha mais nada para fazer! Tudo bobagem! Quem sabia 
das coisas era Deus! Ele mostrou quem  que manda em tudo! At na 
chuva!
Ele comeou a rir e, abraados, entraram em casa. Ele, tomando um
gole de caf, disse:
- Jurema, voc sempre teve razo quando falava essas coisas. Agora,
vou at a cidade comprar os mantimentos que esto faltando. A gente j
pode fazer uma conta l no tio, porque, quando colher, vai ter dinheiro
70


Deus  Quem sabe das Coisas
para pagar.
Cida o interrompeu: 
- Por que voc no fez isso antes, Neco? Acredito que seu tio no 
ia se importar de lhe dar o alimento de que precisava. 
- No ia mesmo, Cida, mas eu no queria. Eu no sabia se ia poder 
pagar. Ele at que insistiu, mas eu no queria no. Agora j sei que 
posso pagar, por isso vou l. 
-  isso mesmo, Cida, a gente no gosta de ficar devendo. A tia 
Laurinda quis ajudar, mas a gente no quis no. 
Cida no quis continuar com aquela conversa. Ela os conhecia h 
pouco tempo, no entendia, no sabia o que eles pensavam ou como 
agiam. S sabia que eles a haviam salvado, quem sabe at da morte e, 
por isso, era muito grata. 
Neco fez assim como havia dito. Atrelou o cavalo na carroa e 
foi para a cidade. Elas ficaram colocando de volta aos seus lugares 
as roupas e tudo o que haviam colocado em caixas para a mudana. 
Mais tarde, ele voltou. Agora estava tudo bem. Eles iriam recomear 
novamente. E, Cida, seguiria ao lado deles. 
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 A Deciso de Jurema 
Em poucos dias, a plantao voltou a ficar saudvel. Neco e Jurema 
no conseguiram esconder a alegria. Nos primeiros dias, Cida acompanhou 
a felicidade dos dois, mas, com o passar do tempo, uma tristeza 
imensa comeou a tomar conta dela. Ficava pelos cantos pensando: 
Nunca mais vou Lembrar, e agora, ficando aqui para sempre, no lembrarei 
mesmo. Do que adianta continuar vivendo assim? O melhor que tenho a 
fazer  me matar! Assim, sem saber o meu passado, no quero continuar 
vivendo. Porm, como posso fazer isso, sem complic-los? 
Ficava calada, pensando em uma maneira de se matar. Neco e 
Jurema, envolvidos no trabalho, a princpio, no notaram. Eles a 
convidavam para ajud-los com a plantao. Ela ia, mas os seus olhos 
estavam sempre distantes e sem brilho. Em uma manh, Neco disse: 
- Vou at a cidade. A comida est acabando e est quase na hora 
de colher. Preciso comprar sacos de estopa, para colocar a colheita e 
levar para o tio. 
Jurema pensou por alguns segundos. Disse: 
- Quero ir com voc. Preciso conversar com a tia. 
- Conversar o qu? 
- Nada, no, coisa de mulher. 
- Est bem, pode se preparar. 
Jurema sorriu e disse: 
-- Cida, voc tambm vai com a gente? 
Ela demorou um pouco para responder. Seus olhos, como nos 
ltimos dias, estavam distantes. Respondeu: 
- Eu no estou com vontade de ir. Posso ficar aqui? 
- No, voc no pode ficar aqui sozinha. Voc vai com a gente. 
L na cidade, converso com a tia Laurinda e com o padre. A gente se 
distrai. Quem sabe o padre tem alguma notcia para voc. 
- Acredita nisso, Jurema? 
- No sei, mas quem sabe, no  mesmo! 
Cida no queria ir. O que queria mesmo era ficar ali parada, s 
olhando para o horizonte, tentando lembrar ou encontrar uma maneira 
de se matar, mas disse: 
73


A Deciso de Jurema 
- Est bem, irei. Quem sabe alguma coisa acontea... 
Neco atrelou o cavalo na carroa. Sentou-se no banco e, 
acompanhado por elas, seguiu em direo  cidade. Durante a viagem, 
Cida permanecia calada, s respondendo as perguntas de Jurema. No 
sentia nada, aquele vazio a acompanhava. Enquanto Neco e Jurema 
conversavam, ela pensava: Nunca mais vou me lembrar do meu passado... 
continuarei assim para sempre. Como posso continuar assim? Seria melhor 
que eu morresse... para que viver, sem saber quem sou ou de onde vim? 
Preciso encontrar uma maneira de me matar e vou encontrar... 
Enquanto pensava, seus olhos estavam parados em um ponto 
qualquer. Jurema, embora conversasse com Neco, percebeu que ela no 
estava bem. Ela tambm j havia notado a tristeza, seu abatimento e 
olheiras. Pensou: Essa menina no est bem. Est distante, parece at que 
quer morrer. Meu Deus, no posso deixar isso acontecer. 
Assim que chegaram, Neco parou a carroa em frente ao armazm 
do tio. Desceram. Cida estava to distante que no notou que haviam 
chegado. Jurema disse: 
- Vem, Cida. A gente chegou. 
Parecendo que voltava de muito longe, ela disse: 
- Nem percebi. A viagem no demorou muito. 
- Demorou o mesmo tempo de sempre. Voc  quem estava 
distrada, em que estava pensando? 
- Em nada, s na minha vida e tentando lembrar... 
- Precisa parar de pensar nisso. J lhe disse que, na hora certa, vai 
se lembrar de tudo, mas venha, vamos conversar com o tio. 
Sem muita vontade, ela desceu da carroa e acompanhou Jurema. 
Neco j estava dentro do armazm, conversando com o tio. 
- Ento, Neco, como vai a sua plantao? 
- Muito bem, tio. A chuva chegou com tempo de a gente no 
perder tudo. Est quase na hora de colher. 
- Isso  muito bom, mas o que veio fazer aqui na cidade? 
- Preciso de alguns sacos de estopa para colocar os jerimuns e tudo 
o que vou colher. 
- Isso no tem problema Chico, venha at aqui! 
Chico, que se encontrava do outro lado do balco, aproximou-se. 
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A Deciso de Jurema 
Dorival disse: 
- Leve o Neco l para os fundos e lhe d todos os sacos de estopa 
que desejar. 
- Est bem, venha, Neco. 
Quando Neco estava se dirigindo para os fundos do armazm, Cida 
e Jurema entraram na loja. Ao v-las, Dorival abriu um sorriso. 
- Bom-dia, Jurema, no sabia que voc tambm estava aqui! 
- Bom-dia, tio, vim junto com o Neco. 
- E voc, moa! Est bem? Lembrou-se de alguma coisa? 
Antes que Cida respondesse, Jurema disse: 
- No tio, ela no lembrou, no, mas est bem. No , Cida? 
- Estou bem, sim... 
- Tio, preciso saber se o senhor ainda tem trabalho para me dar. 
Cida e Dorival arregalaram os olhos ao verem Jurema dizer aquilo. 
Ele, prontamente e feliz, respondeu: 
- Claro que tenho! Voc sempre foi a melhor! Seus trabalhos so 
perfeitos! 
Ela, como se estivesse dizendo a coisa mais sem importncia, falou: 
- Ento, tio, pode preparar, vou levar tudo o que o senhor tiver. 
Dorival no conseguiu esconder a sua felicidade. No entendia o 
que estava acontecendo, pois Jurema, desde que Dalvinha morreu, 
jurou que nunca mais tornaria a bordar ou fazer renda. A ltima roupa 
que fez foi aquela com a qual a menina havia sido enterrada. Ele no 
entendia, mas tambm no queria entender, s o que lhe interessava 
 que ela voltaria a bordar e que tambm era um sinal que a dor e a 
mgoa por ter perdido a filha haviam passado. Feliz, disse: 
- Vou mandar preparar agora mesmo. Ontem, chegou um pedido 
muito grande. Voc resolveu voltar a trabalhar na hora certa! 
Enquanto conversavam, Cida foi para a porta do armazm. Olhou 
para a rua, muitas pessoas iam e vinham. Aquela era a rua principal. 
Ela no conhecia muito, mas podia perceber que havia poucas ruas na 
cidade. O alto-falante preso no poste tocava uma msica alegre. Ela saiu 
do armazm e comeou a andar. Olhava todas as pessoas que passavam 
por ela. Tentava encontrar um rosto conhecido, mas foi em vo. Parou 
diante da igreja, ficou olhando por alguns minutos, depois resolveu 
75


A Deciso de Jurema 
entrar. Entrou e viu algumas pessoas ajoelhadas, rezando. Sentou-se em 
um dos bancos e olhou para o altar. Na primeira vez em que foi  igreja, 
no havia prestado muita ateno, pois estava querendo falar com o 
padre. Agora, olhou para tudo com calma. Havia uma imagem de um 
santo que ela no conhecia. E do outro lado, aquele homem pregado na 
cruz. Ela no sabia por que, mas sentiu uma enorme vontade de chorar. 
Disse, baixinho: 
- Jesus, no sei se realmente o Senhor existe, mas ajude-me... no o 
conheo muito bem, mas a Jurema disse que o Senhor nasceu na Terra, 
s para nos salvar. Faa com que eu me lembre de quem fui e de onde 
sou. Eu preciso saber, do contrrio, sinto que vou enlouquecer e fazer 
uma bobagem. Esse pensamento de morte no sai da minha cabea... 
No percebeu quando o padre saiu de uma porta ao lado do altar. 
Ao v-la, aproximou-se, dizendo: 
- Bom-dia, minha filha. Por que est chorando? 
Ela levantou os olhos e respondeu: 
- Bom-dia, padre. Estou chorando porque no consigo me 
conformar com a minha situao. Estou ficando cada vez mais 
desesperada. No consigo lembrar! Devo ter uma famlia, todos tm! 
Ser que tenho pai, me ou irmos! Ser que tenho noivo ou marido? 
Ser que tenho filhos! Padre, no estou conseguindo viver assim! No 
sei mais o que fazer! 
- Entendo a sua situao, deve mesmo ser terrvel, porm, Deus 
pode tudo e sabe o que faz. Eu lhe disse outro dia e vou repetir: a 
qualquer momento, lembrar. E tudo voltar ao normal. Quando o 
tempo passar, depois de se recordar do seu passado, achar graa disso 
que viveu. 
- Ser, padre, que isso vai acontecer? Desde aquele dia em que o 
senhor conversou comigo, tive esperana, mas j se passou tanto tempo 
e, por mais que tente, no consigo me lembrar de nada. Parece que 
nasci naquele dia em que o Neco me encontrou jogada l na caatinga. 
No estou suportando mais. Em meu pensamento, sinto vontade de 
me matar. Eu no ouo, mas parece que tem algum sugerindo isso o 
tempo todo. No sei o que fazer...
- Nem pense nisso! A vida  um bem precioso! Nada nem ningum
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A Deciso de Jurema
nesse mundo  maior do que ela. Logo tudo vai se resolver, apenas
tenha f. Jesus est sempre ao nosso lado e manda seus anjos para nos
ajudar, tenha calma. O tempo ruim, como o bom, passa logo. No viu 
o que aconteceu com a chuva? Quando menos se esperava, ela chegou, 
o mesmo vai acontecer com a sua memria. No dia em que menos 
esperar, ela voltar. Tenha f em Deus, Ele pode tudo. Para Ele, no 
existe a palavra impossvel. 
- No sei, padre, mas, se Ele existe mesmo, acho que Ele me 
esqueceu... 
- Nada disso! Ele no esquece ningum, somos todos seus filhos
amados. Ele est sempre ao nosso lado.
Ela percebeu que ele estava preocupado, porm, no se dava conta 
do motivo da sua preocupao. 
Ele notou que ela estava entrando em uma depresso profunda. 
Por sua experincia, sabia que aquilo era muito perigoso. Sabia que as 
pessoas em depresso podem praticar qualquer loucura, at mesmo se 
matar. No momento, no soube o que dizer ou fazer. Ficou aliviado 
quando ouviu: 
- Cida! Ainda bem que est aqui! Voc me deixou preocupada! 
Cida e o padre voltaram-se e viram Jurema que, furiosa, estava 
dizendo isso: 
- Como voc pde sair sem me avisar, Cida? 
Um pouco sem jeito, Cida respondeu: 
- Desculpe, Jurema, sem perceber, sa andando e vim parar aqui na 
igreja. Estava conversando com o padre. 
- Est bem, mas no faa mais isso! Sabe que fico aflita! Vai que 
voc sai por a e no sabe mais voltar! Quer ficar perdida? 
- Claro que no, mas isso no tem perigo, esqueci-me do passado, 
mas do presente lembro-me muito bem. Sinto muito, desculpe. Nunca 
mais farei isso... 
- Acho bom! 
Jurema, mais calma e aliviada, disse: 
- Est bem. Agora, a gente tem que ir embora. O Neco j est 
esperando na carroa. Ele tambm est preocupado! Bom-dia, padre, 
desculpe, fiquei muito nervosa quando ela desapareceu e at me esqueci 
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A Deciso de Jurema 
de cumprimentar o senhor! 
- Bom-dia, Jurema, no se preocupe com isso, estvamos apenas 
conversando. Eu disse que logo vai se recordar. 
- Eu falo isso todo dia, padre, mas ela no acredita. Vamos, Cida? 
Despediram-se do padre e saram. Foram encontrar Neco, que 
estava sentado na carroa, esperando-as e pensando: que ser que deu 
na Jurema? Por que quer voltar a bordar e a fazer renda? Disse que nunca 
mais ia fazer isso, que a ltima roupa que fez fo i aquela com que a nossa 
menina fo i enterrada. No sei, no, qual  a idia dessa mulher. Mas, de 
qualquer forma, isso  bom. Assim, ela se distrai um pouco e, quem sabe, 
esquece a nossa menina e pensa em ter outro filho. Tomara, Deus. 
Elas se aproximaram da carroa Jurema disse: 
- Pronto, Neco. Ela estava conversando com o padre. Agora, a
gente j pode ir.
 Subiram na carroa e iniciaram o caminho de volta. Chegaram ao 
stio. Depois que desceram, Neco desatrelou o cavalo, ele precisava 
tomar gua. Jurema disse: 
- Neco, a gente precisa arrumar o barraco para eu comear a 
trabalhar. 
- Est bem, vou levar o cavalo para descansar e volto logo. 
Enquanto ele foi, Cida e Jurema comearam a descarregar a carroa. 
Jurema disse, feliz: 
- O tio deu muito trabalho, a gente vai levar quase um ms para 
aprontar tudo. 
Estranhando, Cida perguntou: 
- A gente? O Neco tambm borda? 
- No! Quem vai bordar e tecer renda vai ser eu e voc. 
- Eu? Mas eu no sei bordar, muito menos tecer renda! 
- Sei disso, mas vai aprender. 
- No vou conseguir... 
No perceberam quando Neco se aproximou e pde ouvir as ltimas 
palavras de Jurema, que continuou dizendo, nervosa: 
- Vai conseguir, sim. J faz muito tempo que est com a gente. 
Todo esse tempo teve casa e comida, agora no d mais. Se quiser 
dormir e comer, vai ter que trabalhar e ganhar o seu dinheiro. Voc 
78


A Deciso de Jurema 
sabe que a gente no tem dinheiro. 
Jurema disse isso com a voz firme. Cida, desconhecendo-a, 
perguntou: 
- Por que est me tratando assim, Jurema? O que foi que fiz? 
- Voc no fez nada, esse  o problema! Fica a, pelos cantos, 
sofrendo, com d de voc mesma. Faz isso porque no sabe quanto custa 
um teto e um prato de comida. Est na hora de trabalhar e descobrir 
que, para se viver, tem que se pagar! Se quiser, tudo bem, se no quiser, 
pode ir embora agora mesmo! 
Cida e Neco no estavam acreditando naquilo que ouviam. Jurema, 
que foi sempre to gentil e carinhosa, agora, da maneira como falava, 
parecia ser outra pessoa. Na frente deles, estava uma Jurema que eles 
no conheciam. Neco, assustado, perguntou: 
- Jurema! O que est acontecendo? Por que est dizendo essas 
coisas? 
- No est acontecendo nada, Neco! Cansei de dar de comer para 
essa moa e ela ficar chorando pelos cantos! Isso  falta do que fazer. 
Cida, voc  quem vai decidir a sua vida. Tem de escolher! Aprenda a 
bordar e a tecer renda ou pode ir embora agora mesmo! 
- Eu no tenho para onde ir... 
- Ento, vai ter que se esforar para aprender o trabalho. 
- Vou tentar, mas acho que no vou conseguir... 
- Vai conseguir, sim! Para comear, pode ir levando e 
desembrulhando os pacotes que o tio deu. Eu e o Neco vamos para 
casa. A gente tem muito para conversar. 
- Est bem... 
Com o rosto ainda crispado, continuou: 
- Neco, venha comigo! 
Ele acompanhou-a, raivoso, pois no conhecia aquela mulher que 
estava l na sua frente. Entraram em casa. Antes de entrar, Jurema olhou 
para fora e viu Cida levando, para o barraco, os pacotes. Dentro da 
casa, ela comeou a rir e, abraando-se em Neco, perguntou: 
- Gostou do jeito com que falei com ela, Neco? 
Neco, cada vez mais surpreso, respondeu: 
- Desde que a gente chegou  cidade e voc pediu trabalho para 
79


A Deciso de Jurema 
o tio, no entendi nada e muito menos agora, por que quer voltar a 
trabalhar e por que falou com ela daquele jeito? Voc no gosta mais 
dela, Jurema? 
- Claro que gosto! Por isso mesmo  que estou fazendo isso! 
- No estou entendendo... 
- Ora, Neco, voc sempre no ouviu dizer que "cabea vazia  o 
ninho do diabo". 
- Ouvi muitas vezes... 
- Ento, essa moa est sem ter o que fazer, por isso, s fica 
pensando. Se continuar assim, vai acabar ficando doente, quem sabe 
at vai fazer uma besteira. Foi por isso que resolvi comear a bordar de 
novo e fazer com que ela borde tambm. Voc sabe que, para bordar, 
 preciso concentrao, h at uns pontos de bordados que precisamos 
contar. Quando ela aprender, vai ficar prestando tanta ateno que no 
vai ter tempo para pensar bobagem, voc vai ver. 
Neco ficou calado, ouvindo tudo o que ela dizia. Quando ela 
terminou, ele disse: 
- Eta mulher esperta! Voc tem razo mesmo. Ainda bem, pensei 
que tinha endoidado! 
- No endoidei, no! No sei por que, mas gosto muito dessa 
moa. A gente precisa ajud-la e o jeito que encontrei foi esse. Tomara
Deus que d certo... 
- Acho que vai dar, Jurema... acho que vai dar... 
- Vai dar certo, sim! Vamos l fora ver o que ela est fazendo? No 
diga nada nem se importe se eu ficar brava com ela. Sabe que  preciso 
fazer isso. 
- Pode deixar, agora que j sei qual  a sua vontade, vou ficar 
calado e at ajudar voc. 
Saram e foram ao encontro de Cida, que no sabia por que Jurema 
havia mudado tanto com ela. Continuava levando os pacotes. Fazia 
isso pensando: Por que ser que a Jurema est agindo assim? O que fiz 
para ela ficar to brava? O que vou fazer? Nunca vou aprender a bordar, 
muito menos a tecer renda. Pensei muito em como me matar, mas em ir 
embora nunca! Mas, agora, acredito que vai ser preciso eu ir embora sim. 
Ela tem razo, j estou h muito tempo aqui sem fazer nada. Eles foram 
80


A Deciso de Jurema 
muito bons, me salvaram, me deram um teto e alimento e no so ricos. 
Pensando s no meu problema, nem percebi que estava atrapalhando, que 
estava sendo um peso para eles. Preciso decidir o que vou fazer com a minha 
vida... 
Jurema e Neco aproximaram-se. Ele foi para a carroa e retirou 
os sacos de estopa que o tio havia lhe dado. Mesmo de longe, ficou 
prestando ateno em Jurema e no que ela dizia: 
- Ento, Cida, j pegou todos os pacotes? 
Um pouco desajeitada e com os olhos baixos, respondeu: 
- S falta este. No sei onde colocar, a mesa est cheia. 
- Est bem. O Neco vai arrumar o barraco e deixar a prateleira 
vazia. Logo tudo vai estar no lugar, e a gente vai poder comear o 
trabalho. 
- Eu no vou conseguir, Jurema... acho que nunca fiz isso. 
- Sempre tem a primeira vez, Cida. Est assustada  toa. Vai ver
como  fcil.
- E se eu no conseguir?
- Vai ter de ir embora. A gente no pode continuar a sustent-la.
Na parte da manh, a gente vai ajudar o Neco na plantao. Ele vai
precisar de muita ajuda.  tarde, a gente vai fazer o trabalho do tio.
Est disposta? 
- Vou tentar, no sei se vou conseguir, mas vou tentar... 
- Acho muito bom! 
Neco, embora estivesse um pouco distante, podia ouvir o que 
Jurema estava dizendo. Permanecia de costas e ria muito. Mesmo sem 
estar olhando, imaginava a expresso do rosto dela. Cida no entendia 
muito bem o que estava acontecendo, mas sabia que no havia outra 
maneira, a no ser aceitar o que Jurema lhe propunha, pois, naquele 
momento, no tinha para onde ir. 
Aps terem limpado o barraco, os trs desembrulharam os pacotes 
e colocaram tudo na prateleira. Jurema pegou um retalho de pano 
branco e disse: 
- Cida, sente aqui, agora, vou ensin-la a bordar. Primeiro, vai 
aprender o ponto mais fcil, depois, com o tempo, vou ensinar os 
outros.


A Deciso de Jurema 
Cida, embora no acreditasse que conseguiria, prestou ateno em 
tudo que Jurema lhe ensinava. Um pouco desajeitada, enfiou a linha 
na agulha e, vagarosamente, comeou a seguir as instrues. Durante 
muitos dias, foi aprendendo vrios pontos, bordando no retalho, at 
que Jurema lhe disse: 
- Voc est perfeita! No lhe disse que no era difcil? 
-  difcil, sim, Jurema! Nunca pensei que conseguiria! 
- Mas conseguiu e est muito bom. Por isso, voc agora vai pegar 
esta blusa, pode ver que est riscada,  preciso s acompanhar o risco. 
Vai comear aqui, com o ponto sombra. Quando terminar, vai ver 
como vai ficar bonita. 
Ela pegou aquele tecido, que depois de bordado, se transformaria 
em uma blusa e, por alguns segundos, segurou-o nas mos. Depois 
disse: 
- Est bem, vou tentar e prometo que farei o melhor possvel. 
- No tenho dvida disso. Vamos l, comece. 
Lentamente comeou. A princpio, devagar, mas  medida que 
o bordado foi aparecendo, foi se encantando com o trabalho. Logo, 
estava bordando com desenvoltura, sob os olhos felizes de Jurema e de 
Neco, que, de vez em quando, passavam por ali. 
Os dias foram passando, pela manh, elas ajudavam Neco na 
colheita. E,  tarde, bordavam. Enquanto Cida bordava, Jurema tecia 
renda. 
Com as chuvas, a terra ficou molhada e conseguiram salvar parte 
da plantao. Tudo que era colhido ia sendo colocado nos sacos de 
estopa. Separaram uma parte para o consumo e, Neco levou a outra 
para a cidade, onde seria vendida. Ao voltar em uma dessas vezes, estava 
contente e, sorrindo, disse: 
- Jurema, todo mundo est muito alegre, l na cidade. No 
domingo, vai ter uma festa para agradecer So Jos pela chuva. Prometi
para a tia que a gente vai.
Os olhos de Jurema brilharam:
- Claro que a gente vai, Neco. Imagina se vou perder uma festa 
dessa! Cida, voc vai ver que festa bonita! Vou pegar aquele vestido 
bonito com que voc chegou! Vai ter que ir bem bonita. Todo mundo 
82


A Deciso de Jurema 
veste a melhor roupa que tem. Voc vai ver! 
Cida levantou os olhos do bordado e, com a agulha no alto, 
disse: 
- Jurema, no queria ir. Sabe que no gosto de ficar no meio de 
muita gente. 
- Tem de ir! So Jos  o protetor da lavoura, quando no chove, o 
sertanejo fica pedindo todos os dias pela chuva, quando a chuva chega, 
a gente tem que agradecer. Voc vai ver como a festa  bonita. 
Ela baixou os olhos e continuou bordando. Sabia que no adiantaria 
argumentar. Quando Jurema queria uma coisa, ela conseguia. Jurema 
no a esperou dizer nada, levantou, saiu do barraco e entrou em 
casa. Abriu uma gaveta da cmoda e retirou o vestido azul, que estava 
guardado desde o dia em que Cida chegara. Durante todo aquele 
tempo, ela s se vestiu com roupas que Jurema havia lhe dado. Neco 
entrou e viu Jurema ali, com o vestido na mo, perguntou: 
- O que est fazendo a, parada com o vestido dela na mo? 
- Estou pegando para ver se est bom. Ela vai com ele na festa. 
Estou tambm pensando que ela deve ser filha de gente rica. Como 
apareceu aqui nesse fim de mundo? O que ser que aconteceu? Ser que 
ela no vai se lembrar nunca, Neco? 
- J pensei muito nisso, mas no adianta. Se ela esqueceu mesmo, 
a gente vai ter que esperar. Como o padre disse: um dia, ela vai lembrar, 
a gente tem s que ter pacincia. 
-  isso mesmo, no adianta querer adivinhar... a gente tem que 
esperar mesmo. Vou lavar de novo, ficou muito tempo guardado, mas o
que importa mesmo  que a gente vai  festa, no  mesmo, Neco?
-  isso mesmo, Jurema. Vou l para a plantao. 
Saram, Neco foi para a plantao e Jurema para o barraco. Com o
vestido na mo, aproximou-se, dizendo:
- Cida, olha o seu vestido! Eu estava pensando no que pode ter 
acontecido a voc. Ser que nunca vai lembrar? 
Uma lgrima se formou nos olhos de Cida. 
- No sei, Jurema, j cansei de tentar lembrar. Desde que comecei
a bordar, no tenho pensado muito nisso, pois fico contando os pontos.
Sei que, se errar, vou estragar o trabalho.
83


A Deciso de Jurema 
Jurema comeou a rir: 
- Foi essa a minha inteno. Foi por isso que quebrei uma promessa 
e voltei para o trabalho. Sabia que, enquanto contasse os pontos, no ia 
ter tempo para pensar em mais nada. 
Cida arregalou os olhos: 
- Por isso voc fingiu que estava brava? E disse que eu teria de ir 
embora? 
- Foi isso mesmo! Percebi que voc estava muito triste e que, se 
continuasse daquele jeito, ia acabar ficando doente. Sabia que a nica 
soluo era fazer voc trabalhar, parece que o meu plano deu certo. 
- Deu, sim. Estou bem melhor e resolvi no tentar mais lembrar. 
Como o padre disse:  preciso esperar que a qualquer momento minha 
memria vai voltar.
-  isso mesmo. Enquanto isso no acontece, a gente vai continuar
com o trabalho. Preciso lhe dizer que estou tambm muito feliz por
ter quebrado a minha promessa e voltado a trabalhar. O trabalho s 
faz bem. Agora, a gente vai se preparar para a festa! Voc vai gostar,  
sempre muito bonita! 
Cida ficou calada, voltou os olhos para o bordado e continuou o 
seu trabalho que estava lhe fazendo tanto bem. 
84

 Surpresas da Vida 
O dia da festa chegou. Embora, a princpio, Cida no quisesse ir, 
com o passar dos dias e vendo toda empolgao de Jurema e Neco, se 
entusiasmou tambm. Logo pela manh, colocou o vestido azul que 
Jurema havia lavado e passado. Sentiu-se estranha com ele. Desde que 
chegou, s havia usado saias e vestidos estampados e rodados. Aquele 
vestido, embora no fosse muito justo, se moldava em seu corpo. Era 
diferente de tudo o que ela havia visto por ali e, como Jurema dizia, era 
de um tecido muito bom. Ficou tentando lembrar-se, novamente, de 
quem era, mas logo afastou o pensamento. Aquele dia seria de festa, 
s isso, no queria estrag-lo com pensamentos tristes. Jurema e Neco 
tambm se esmeraram na vestimenta. Jurema prendeu os cabelos longos 
e negros. Colocou o melhor vestido que tinha. Neco colocou uma 
cala branca, que s usava em ocasies especiais como aquela. Foram 
para a cidade. Enquanto seguiam por aquela estrada empoeirada, Cida 
ia apreciando a paisagem e pensando: Como tudo est diferente. Que milagre 
a chuva fez. Tudo agora est verde e bonito. Meu Deus! O que estou 
fazendo nesta terra? Por que vim parar aqui? 
Embora se fizesse essas perguntas, sabia que no encontraria 
respostas, pelo menos no naquele momento. Desviou o pensamento. 
Jurema, sempre atenta, perguntou: 
- Viu, Cida, como tudo est bonito? Viu o que a chuva fez por 
estes lados? 
- Era nisso que eu estava pensando, Jurema. Tudo mudou 
mesmo... 
-  por isso que a gente precisa agradecer  So Jos. E pedir para a 
seca no voltar nunca mais. A gente sabe que ela vai voltar, mas tomara 
que demore muito tempo... 
- Tomara mesmo... 
Chegaram  cidade. Neco, como sempre fazia, parou a carroa em 
frente  loja do tio e, a p, caminharam em direo a sua casa, que ficava 
do outro lado da rua. L tambm estava tudo diferente. A loja e todo 
o comrcio estavam fechados. A rua estava enfeitada com bandeirinhas 
feitas de papel colorido. A msica no poste era alegre e as pessoas 
85


Surpresas da Vida 
danavam ao som dela. O sino da igreja tocava sem parar. Cida no se 
lembrava de j ter visto algo igual. Chegaram  casa do tio. Entraram e 
foram recebidos com muita festa por ele e por Laurinda que, abraando 
Jurema, disse: 
- Que bom que vieram, Jurema! Fiquei muito feliz quando o 
Dorival disse que voc tinha voltado para o trabalho, isso  muito 
bom! 
- Tambm acho, tia. S agora descobri que o trabalho, alm de me 
dar dinheiro, d tambm muita satisfao. 
- Isso mesmo e tambm mostra que voc est deixando o passado 
para trs e, quem sabe, agora, resolva ter outro filho. 
O rosto de Jurema se crispou e, nervosa, disse: 
- Nunca! No quero mais filho, tia! O Neco sabe disso! Trabalhar  
uma coisa, mas voltar a passar por tudo aquilo de novo, nunca mais! 
- Est bem, no precisa ficar nervosa desse jeito. Hoje  dia de 
festa, a gente tem que deixar toda a tristeza bem longe. 
-  isso mesmo, Jurema, j concordei com voc, a gente no vai 
mais ter filho. 
Jurema olhou para ele, mas ficou calada e fez o possvel para voltar 
ao normal. Ela, tambm, no queria estragar aquele dia. Laurinda, um 
pouco desconsertada com a reao de Jurema, disse: 
-  isso mesmo, vamos conversar e tomar um caf, at a hora de a 
gente ir para a igreja assistir  missa.
Ficaram ali conversando sobre a chuva e a colheita. Quando faltavam 
dez minutos para o comeo da missa, foram para a igreja. A rua estava 
cheia de gente que se dirigia para a pequena igreja. Ao ver toda aquela
multido, Cida pensou: Quantas pessoas tm aqui! So tantas que, com
certeza, no cabero na igreja. Ser que nenhuma delas me conhece?
De fato, isso aconteceu. Muitas pessoas ficaram do lado de fora. Dois 
alto-falantes foram colocados em frente  igreja, outros pendurados nos 
postes. Assim, as pessoas puderam acompanhar a missa atravs deles. 
Depois da missa, foi feita uma procisso. Cida, surpresa, emocionada e 
feliz, acompanhou-a. As pessoas rezavam, cantavam e carregavam velas 
acesas em suas mos. Crianas vestidas de anjo seguiam sozinhas ou 
acompanhadas por seus pais. Novamente, ela sentia que nunca em sua 
86


Surpresas da Vida 
vida havia visto algo igual, mas estava gostando. As pessoas demonstravam 
muita f. Algumas seguiam de joelhos, outras carregavam uma cruz nas 
costas. A f era emocionante. Depois que a procisso terminou, foram 
para as barracas de jogos e comidas que haviam sido montadas em volta 
da igreja. Comeram, jogaram e se divertiram muito. Pela tarde, estavam 
todos cansados. Neco disse: 
- Est na hora de a gente ir embora.  preciso chegar antes que a 
noite aparea. 
Cida e Jurema tambm estavam cansadas. O dia havia sido muito 
agitado. Despediram-se dos tios e voltaram. Durante a volta, Cida estava
feliz e emocionada por ter visto tanta felicidade nos rostos daquelas
pessoas to sofridas e pobres. Nunca havia visto algo igual quilo. Disso
tinha certeza, mas tambm sabia que nunca mais esqueceria. Quando
chegaram a casa, j estava comeando a escurecer. Embora cansados, 
estavam felizes. Antes de entrar, Neco foi para perto da plantao, 
olhou tudo e agradeceu por Deus ter permitido que eles continuassem 
por mais um tempo naquela terra que tanto amavam. 
No dia seguinte pela manh, tudo voltou ao normal. Neco na 
plantao, Cida e Jurema trabalhando pela manh na lavoura e, a tarde, 
no barraco. Tudo estava normal. Algumas vezes, Cida tentava lembrar,
mas logo era obrigada a voltar para o bordado e contar os pontos.
Como em todas as manhs, aps tomarem caf, cada um ia cuidar de 
seu trabalho. Aquela manh foi como as outras. Cida e Jurema estavam 
na lavoura ao lado de Neco, preparando a terra para um novo plantio. 
De repente, Jurema ficou amarela, suando muito e abaixou-se no cho. 
Cida percebeu, gritou para Neco: 
- Neco! A Jurema est desmaiando! 
Ele, que estava de costas, voltou-se e, ao ver o estado da mulher, 
correu para ela. Abaixando-se, passou a mo por seu rosto. Jurema 
abriu os olhos. Ele perguntou: 
-- O que voc est sentindo, Jurema? 
Ela, com a voz fraca, respondeu: 
- No sei, fiquei tonta de repente. Estou quase desmaiando... 
Ele, desesperado, sem saber o que fazer, olhou para Cida, gritando: 
- Corre l dentro, pega o vinagre! 
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Surpresas da Vida 
Ela correu, tambm estava atrapalhada, pois tudo aconteceu de 
repente. Pegou o vinagre, voltou correndo. Neco, com a cabea de 
Jurema em seu colo, dizia: 
- Jurema, abre os olhos... o que voc tem? 
Ela, embora com o corpo amolecido, no estava desmaiada e podia 
perceber tudo o que estava acontecendo. Tentou abrir os olhos, mas o 
peso deles e de seu corpo eram enormes. Apertou a mo de Neco sem 
nada dizer. 
Cida e Neco ficaram esfregando o vinagre por todo rosto, mos e 
ps dela. Alguns minutos depois, ela abriu os olhos, e como se nada 
houvesse acontecido, comeou a se levantar, sob o olhar abismado dos 
dois. J de p, disse: 
- O que foi isso que me aconteceu? Neco, estou assustada! Senti 
que ia morrer e agora no estou sentindo mais nada! 
Neco, aliviado, percebeu que a cor havia voltado ao rosto dela. 
Disse: 
-  melhor a gente ir  cidade e conversar com o tio. E, se for preciso, 
a gente vai at Salvador. No tem mais mdico aqui na cidade. 
Jurema estava se sentindo muito bem, nem parecia que tudo aquilo
havia acontecido. Ela olhou para Cida, que estava ainda com a garrafa
de vinagre na mo e branca como papel e, sorrindo, disse:
- Cida! J passou, pode levar o vinagre de volta. 
Depois, olhou para Neco, que ainda sem entender o que havia 
acontecido, tambm olhava para ela. Com os olhos arregalados e 
parecendo que se lembrava de algo, disse nervosa: 
- Neco! Voc se lembra daquele dia em que senti mais ou menos 
isso e que a gente foi falar com o doutor Evaristo e ele disse que eu
estava esperando criana?
Neco tambm arregalou os olhos. No conseguiu dizer nada.
Depois, perguntou: 
- Jurema! Ser que voc est esperando criana? 
- No, Neco! Mas se for, vou tomar um ch, no quero mais ter 
criana! 
Os olhos de Neco se iluminaram. 
- No diz isso, Jurema! Se Deus mandou outra criana para a 
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Surpresas da Vida 
gente, ela tem de nascer... 
- No quero, Neco! Voc sabia que eu no queria mais! Voc  o 
culpado! A gente tem que ir l na cidade! O Z, da farmcia vai me dar 
um remdio e saber se estou esperando criana e, se estiver, vou falar 
com a dona Betina. Ela conhece uma poro de ervas! Deve conhecer
uma para eu tirar essa criana! No quero mais criana! A gente vai
agora
mesmo  cidade!
Neco, embora triste, no discutiu. Conhecia a mulher e sabia que, 
quando ela decidia fazer algo, nada nem ningum, conseguia fazer com 
que mudasse de idia. Ainda tentou argumentar: 
- Jurema, a chuva chegou, a nossa plantao deu um bom dinheiro 
e parece que a chuva vai continuar. A gente j pode ter outra criana... 
- No quero, Neco! A gente no sabe se a chuva vai continuar, no 
sabe se tudo no vai voltar a ser como antes, s sabe que vai continuar 
morando aqui. E se acontecer com essa criana o que aconteceu com 
a Dalvinha? A gente no vai ter tempo de socorrer e ela tambm vai 
morrer! No quero passar por tudo aquilo de novo! No quero! J lhe 
disse que no quero! A gente vai, agora mesmo,  farmcia falar com o 
Z e, se for preciso, com a dona Betina tambm. Cida! Voc vai com 
a gente. 
Cida ficou calada, apenas balanou a cabea concordando e com a 
garrafa de vinagre na mo voltou para a casa. Ela no estava entendendo 
o porqu daquela reao de Jurema e pensou: Eu no sei por que ela no
quer outra criana? Eu sem saber se algum dia tive uma criana! E se tiver? 
Como gostaria de poder lembrar... 
Enquanto se preparavam para ir  cidade, Neco foi atrelar o cavalo 
na carroa. Ele estava triste, pois queria muito outro filho, mas sabia 
tambm que Jurema no mudaria de idia. Logo, todos estavam
prontos. Desta vez, durante a viagem, ficaram calados. Neco, triste, por
saber que seu filho no nasceria. Jurema, nervosa, no querendo aquela
 criana e Cida, tentando se lembrar do seu passado e tentando saber se, 
um dia, havia tido uma criana. Quando Neco entrou na rua principal 
da cidade, Jurema, que at agora permanecia calada, disse: 
- Neco, pare em frente da casa da tia. Quero falar com ela. 
Ele, calado, continuou dirigindo o cavalo e parou em frente  casa da 
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Surpresas da Vida 
Laurinda. Elas desceram e entraram na casa. Neco foi para o armazm 
conversar com o tio. Laurinda, quando as viu, abriu um sorriso. 
- Jurema, Cida! Que bom que vieram! Mas hoje no  dia de o 
Neco vir  cidade! Aconteceu alguma coisa? 
- Aconteceu, sim, tia! Acho que estou esperando criana! 
O rosto de Laurinda se iluminou: 
- Que bom, Jurema! A gente vai ter outra criana na famlia! 
Jurema disse gritando e fora de si: 
- No! A senhora sabe que no quero ter outra criana! 
- Eu sei disso, mas se Deus mandou, voc tem de aceitar... 
- A senhora sabe o que aconteceu com a minha Dalvinha... 
- Ora, Jurema, isso no vai acontecer de novo! Se Deus mandou 
outra criana para voc  porque Ele sabe que agora vai ser diferente! 
Mas voc tem certeza disso? Est mesmo esperando criana? 
- No tenho certeza, mas hoje senti aquilo que senti quando estava 
esperando a Dalvinha, fiquei tonta e quase desmaiei. Por isso, no posso 
esperar mais tempo. 
- Espere mais um pouco, Jurema. Quem sabe muda de idia! Uma 
criana deve ser sempre bem-vinda. 
- No adianta tia, eu no quero! Vim aqui, porque lembrei que 
um dia a senhora disse qualquer coisa sobre a dona Betina, que ela 
conhecia muitas ervas. 
- Falei, sim. Ela  filha de ndio e conhece todas as ervas, mas por 
que est dizendo isso? 
- Preciso falar com ela. Quem sabe ela conhece alguma erva para 
tirar essa criana! 
- Deve conhecer, mas no acha que devia esperar um pouco 
mais? 
- No, tia, se estiver mesmo esperando, quanto mais tempo passar, 
pior.
- Est bem, vou com voc at l. 
- Obrigada, tia. Preciso resolver logo esse assunto. 
- Est bem, depois do almoo a gente vai. Mas no acha que, enquanto 
o Dorival no vem almoar, voc devia passar no Z da farmcia. Ele deve 
ter um jeito de saber se voc est esperando ou no... 
90


Surpresas da Vida 
- Vou, sim. Quando a gente veio, ia primeiro passar l, mas, depois, 
decidi vir direto falar com a senhora. Mas, se achar melhor, posso ir. 
- Acho, sim... 
Cida, calada, acompanhou a conversa das duas. Seu peito estava 
apertado e ela no sabia o porqu. Pensou: Ser que algum dia passei por 
um momento como este? 
Jurema e Cida foram falar com o farmacutico. Era um senhor 
sorridente, parecia estar de bem com a vida. Ao v-las, disse: 
- Bom-dia, dona Jurema! Posso ajudar em alguma coisa? 
Jurema, nervosa, respondeu: 
- Pode, sim. 
Contou a ele tudo o que havia se passado. Terminou, perguntando: 
- Acha que estou esperando criana? 
- Parece que sim, mas acho que precisa esperar mais um pouco 
para ter certeza. Conhece o seu corpo, no ms que vem, s precisa 
prestar ateno. 
- Mas, no ms que vem, vai ser tarde! No quero essa criana! O 
senhor no tem algum remdio para tir-la?
Ele, prontamente, respondeu:
- No tenho, no. Acredito em Deus e acho que s Ele tem o
direito de dar e tirar a vida...
Com muita raiva, Jurema disse:
- Foi isso o que ele fez com a minha Dalvinha! Ele me deu a 
menina e depois a tirou! No vou deixar que Ele faa isso de novo! No 
vou!
- Sei o que aconteceu com a sua filhinha, acompanhei tudo, mas 
acho que, agora, Ele est devolvendo ela para a senhora... 
- No acredito nisso! E se o senhor no puder me ajudar, vou 
procurar em outro lugar! 
- Faa como quiser, mas acho melhor pensar bem. Se estiver 
esperando uma criana, ela est viva dentro da sua barriga e, se tirar, vai 
cometer um crime... pense bem... 
Jurema no respondeu, estava brava e nervosa. Com a mo, deu 
sinal para Cida e saram dali. Ela foi  frente e Cida acompanhou-a. 
Seguiram direto para casa de Laurinda. Assim que entraram, Jurema 
91


Surpresas da Vida 
disse: 
- Tia, ele no quis ajudar! No tem outro jeito no, a gente tem 
que ir falar com a dona Betina! 
- Quer mesmo fazer isso, Jurema? 
- Claro que quero! Essa criana no vai nascer. Ele disse que, se 
eu tirar, estou cometendo um crime, mas crime pior cometeu Deus 
quando me tirou a Dalvinha! 
- Deus sempre sabe o que faz! 
- E eu sei o que fao! No vou passar por tudo aquilo de novo! 
No vou mesmo! 
- O Neco sabe disso? Ele est de acordo? 
- Claro que ele sabe, no est de acordo, ele quer ter outro filho. 
At parece que se esqueceu de tudo que a gente passou. 
- Ento, Jurema... deixa essa criana nascer... desta vez vai ser 
diferente... voc vai ver... 
Jurema disse, nervosa: 
- J disse que no quero! A senhora vai me ajudar ou no? Se no 
quiser, nem precisa me dizer onde a dona Betina mora, eu encontro o 
caminho! 
- Est bem, se  assim que quer. Conheo a dona Betina, sei que 
ela vai ajudar voc... 
- Onde ela mora? 
- Em um stio l perto da encruzilhada. Fica uma meia hora de 
carroa. A gente podia ir no carro do Dorival, mas l no tem estrada 
para carro. A gente vai precisar do Neco, onde ele est? 
- L no armazm, conversando com o tio. 
- Ento, vamos at l? Ele precisa levar a gente. 
- Est bem. 
Realmente, Neco estava conversando com o tio: 
- Pois , tio. Ela no quer essa criana de jeito nenhum. No sei 
o que fazer. Eu queria tanto outra criana, mas o senhor sabe o quanto 
eu gosto dela... 
- Neco, meu filho, no fica assim, tudo vai se resolver. Ela agora 
est conversando com a Laurinda e ela sabe muito bem conversar com 
a teimosa da sua mulher...
92


Dona Betina 
- A Jurema respeita muito a tia Laurinda, quem sabe ela consegue 
tirar isso da cabea dela. Olhe l, elas esto chegando. 
Dorival olhou para o rosto da esposa e, por sua expresso, percebeu 
que ela estava contrariada. Notou que Jurema estava com o semblante 
crispado. Disse para Neco: 
- , Neco... acho que a Laurinda no conseguiu convencer a 
Jurema, parece que ela est mesmo decidida. 
- Parece mesmo, tio. No vai ter jeito, no, ningum vai conseguir 
fazer essa mulher mudar de idia, no vai, no. 
Aproximaram-se, Jurema disse, nervosa: 
- Neco, a gente precisa ir a um lugar e voc vai ter que levar a gente 
de carroa, porque l no tem estrada para entrar carro. 
- Onde ? 
- Na casa da dona Betina, fica l na encruzilhada. 
- Tem certeza de que  isso mesmo que quer, Jurema? 
- Claro que tenho certeza e no quero que voc fale nada! J tomei 
a minha deciso! 
Ele olhou para Dorival, dizendo: 
- , tio, como o meu pai dizia: a vida  cheia de surpresa. No 
pensei que a gente ia ter outro filho. Nem que eu ia ser obrigado a fazer 
isso, mas no tem outro jeito. Vou levar a Jurema aonde ela quiser ir. 
Dorival, calado, sorriu. 
Laurinda disse: 
- Primeiro, a gente vai almoar, a comida j est pronta, depois a 
gente vai. 
Todos concordaram, menos Jurema, que queria ir naquela hora 
mesmo, mas, diante da vontade de todos, concordou. 
Foram almoar e assim que terminaram, Jurema disse: 
- Neco, agora a gente j pode ir! 
Neco, desanimado e calado, saiu da casa, no que foi seguido por 
elas. Mais ou menos meia hora depois, chegaram a um stio cercado por 
uma cerca de trepadeiras muito verde. Desceram da carroa Neco abriu 
um porto e entraram. Caminharam menos de vinte metros, chegaram 
a uma pequena casa feita de madeira. Por todo o caminho e em volta 
da casa, havia muitas flores e ervas plantadas. O aroma que vinha delas 
93


Surpresas da Vida 
era muito bom. Cida disse:
- Tia Laurinda! Que cheiro bom tem aqui...
- So das plantas dela, dizem que aqui tem remdio para tudo.
- O cheiro  bom mesmo...
Cida continuou olhando tudo e pensando: como, em um lugar igual
a este, pode existir algum ou uma erva que mate uma criana?
Ao mesmo tempo, ela no entendia aquele Deus que, segundo
todos, havia levado a filhinha da Jurema e agora queria que ela aceitasse
outra criana. Nem entendia por que Ele fez com que ela perdesse a
memria. 
94

Dona Betina 
Faltando mais ou menos trs metros para chegar  porta da casa, 
Laurinda bateu palmas, gritando:
-Dona Betina! A senhora est a?
No obteve resposta. Caminharam at a porta que estava aberta.
Laurinda voltou a chamar: 
-Dona Betina! 
-Estou aqui! 
Olharam em direo de onde vinha a voz. Viram uma senhora com 
os cabelos negros, lisos, longos, um pouco grisalhos no alto da cabea, 
com um sorriso largo e dentes muito brancos. Ao ver Laurinda, disse, 
admirada: 
- Dona Laurinda! Que bom ver a senhora por aqui! Faz muito 
tempo! 
- Faz sim, dona Betina! A ltima vez que vim aqui, foi quando 
aquela dor nas juntas ficou muito forte. 
-Ela voltou? 
- No, graas a Deus. Aquele ch que a senhora me deu foi um 
santo remdio, a dor sumiu para sempre. 
-Ainda bem, mas, se no  por causa da dor, por que est aqui, o 
que deseja? 
Laurinda, apontando para eles, disse: 
- Essa aqui  a Jurema, minha sobrinha, este  o Neco, marido 
dela, e esta  a Cida, que mora com eles, mas quem precisa falar com a 
senhora  a minha sobrinha Jurema. Ela est com um problema. 
Dona Betina olhou para todos, mas para Jurema olhou de cima 
abaixo. Fixando profundamente seus olhos, disse: 
-A moa no parece ter nenhum problema... 
-Mas tenho e s a senhora pode me ajudar! -Jurema disse, aflita. 
- Conte que problema  esse, antes  melhor a gente se sentar. 
Vamos at aquela mesa. 
Dirigiram-se para uma mesa que ficava embaixo de um barraco 
aberto e coberto por ramas de chuchu. Em volta da mesa, havia bancos 
feitos de madeira. Sentaram-se. Jurema disse: 
95


Dona Betina 
- Dona Betina, acho que estou esperando criana e no quero. A 
tia Laurinda disse que a senhora conhece todas as ervas. Quero saber se 
a senhora tem uma para me livrar desta criana. 
Continuando com o olhar fixo nela, Betina, calmamente, disse: 
-Conheo mesmo muitas ervas e tambm conheo uma que pode 
ajudar voc. Se tomar o ch hoje  noite, amanh, bem cedo, j estar 
livre do seu problema. 
Jurema disse, entusiasmada: 
-  isso mesmo o que quero! Mas, se eu no estiver esperando 
criana? Se for um engano? 
- No h problema. Se no estiver esperando criana, nada vai 
acontecer. Pode tomar o ch sem medo. Agora vou buscar. 
Dona Betina levantou-se e entrou em casa. Eles permaneceram 
quietos, acompanhando-a com os olhos, s Jurema parecia feliz com 
aquela situao. 
Neco, em silncio, fazia uma prece: meu Deus! Meu So Jos! Meu 
Jesus!No a deixe matar a minha criana... no deixe... 
Dona Betina voltou, trazendo em suas mos um ramo de uma erva 
muito verde. Olhou para Jurema sorrindo e disse: 
-Aqui est. Com essa erva, vai se livrar logo de seu problema. Pode 
pegar. Faz um ch e, esta noite, antes de dormir, toma um copo cheio e 
bem quente. Depois de doze horas, tudo vai estar resolvido. 
Jurema pegou a erva que ela lhe oferecia, dizendo: 
- Obrigada, dona Betina. A senhora me livrou de uma grande 
aflio. 
-S quero lhe perguntar uma coisa. Voc  ainda moa e seu marido 
tambm, por que no quer essa criana? 
Jurema queria sair dali o mais rpido possvel, mas, diante daquela 
pergunta, respondeu: 
-Vou contar tudo para a senhora, sei que no fim vai entender. 
Contou tudo, desde o momento em que se casou, que Dalvinha 
nasceu e morreu. Contou todo o sofrimento que ela e Neco sentiram e 
que, por isso, no queria outro filho. 
Dona Betina ficou olhando para ela e para Neco. Percebeu nos olhos 
dele a grande angstia que estava sentindo. Voltou o olhar para Jurema 
96


Dona Betina 
e disse: 
-Depois de tudo o que me contou, acho que tem mesmo razo em 
no querer outro filho. Pode levar a erva e tome direitinho. 
-Obrigada, quanto custa? 
-No vou lhe cobrar nada, pode levar. 
Jurema, com a erva em uma mo, estendeu a outra para dona Betina 
que ela pegou e, segurando firme, disse: 
- Sabe, moa, entendo o seu sofrimento, mas acredito que a gente 
nasce e morre muitas vezes. 
-O que a senhora est dizendo? No entendi. 
- Mas  muito fcil de entender. Deus, que  um Pai muito bom, 
no ia deixar a gente viver aqui na Terra s um pouco de tempo, 
sofrendo e, depois que morresse, acabar com tudo. A gente nasce, vive, 
aprende e depois volta para Deus. A, volta outras vezes, at que a gente 
aprende tudo o que precisar aprender. 
-Continuo no entendendo. 
-Quando uma criana nasce morta ou morre depois de um tempo 
que nasce a gente fica muito triste, mas tudo tem uma resposta. 
-A senhora est me dizendo que tem uma resposta para Deus ter 
levado a minha Dalvinha? 
-Isso mesmo... 
-No, para isso no pode ter resposta! Foi uma maldade de Deus!
-No foi.Eu acredito, que a gente, quando est l no cu, antes de
nascer, escolhe a vida que vai ter aqui na Terra.
- Est dizendo que eu e o Neco escolhemos nascer nesta terra seca 
e com tanta pobreza? 
- Foi isso mesmo... vocs escolheram, assim como eu escolhi viver 
aqui e plantar as minhas ervas... 
-No consigo acreditar nisso! Ningum ia querer viver desse jeito,
no! Se eu pudesse escolher, tinha querido ser rica e viver com todo 
conforto ou, ao menos, em um lugar que tivesse chuva e que a gente 
pudesse sempre plantar e colher. 
-Mas a gente sempre planta e colhe... 
-Continuo no entendendo! Neco, voc est entendendo? 
-No, mas estou gostando. A senhora pode continuar? 
97


Dona Betina 
- Posso. Nascer pobre ou rico, em uma terra boa ou ruim, tudo 
 escolha da gente mesmo. A gente s nasce no lugar em que pode 
aprender. Vocs esto aprendendo o valor da terra boa e com gua. 
Esto dando valor para cada gota de gua que vem do cu. Deus  
um Pai amoroso, mas justo. Ele d de acordo com aquilo de que a 
gente precisa... 
-A senhora est dizendo que eu pedi para ter a minha Dalvinha? E 
que, depois, pedi para ela morrer? 
-No sei, mas isso pode ter acontecido, como tambm no. 
-Como assim? 
- Quando a gente volta l para o cu depois de morrer, vai saber 
tudo o que fez de bom e tudo que fez de mau. A, pede uma chance 
para voltar de novo e consertar tudo o que fez de errado. A gente est l, 
protegida, junto com muitos amigos, por isso, fica fcil pedir qualquer 
coisa. Por estar protegida, acha que pode consertar tudo o que fez de 
errado em uma s vida. Por isso escolhe uma vida difcil. Os amigos 
chamam a nossa ateno para isso ou aquilo, que eles acham ser demais, 
mas a gente acha que vai conseguir, por isso, muitas vezes quando est 
perto de nascer, percebe que vai ser difcil cumprir aquilo que prometeu 
e pede para voltar. Isso acontece com muita criana que nasce morta ou 
morre ainda muito pequena. 
-A senhora est dizendo que a minha Dalvinha ficou com medo 
e quis morrer? 
-No sei, pode ter sido isso ou outra coisa tambm, Deus  quem 
sabe. Mas posso lhe garantir que, se isso aconteceu, foi porque Deus 
quis sim e foi bom para vocs. Aprenderam a reconhecer o valor de 
se ter um filho. Quem sabe, em uma outra vida, no quiseram ou, se 
tiveram, abandonaram. No sei, mas para sua menina, deve ter sido
bom.  melhor voltar e no cumprir o que se prometeu do que ficar e
se desviar do caminho, levando mais dvidas.
-Como acontece tudo isso? 
- Quando a criana volta, porque teve medo, os amigos j esto 
esperando, conversam muito e ela pode mudar alguma coisa daquilo 
que planejou. Da, ela pede uma outra chance e quase sempre  
concedida. Ento, ela volta de novo. Agora com um caminho mais fcil 
98


Dona Betina
para percorrer.
Jurema estava com os olhos arregalados, olhou para os outros, 
percebeu que tambm olhavam para ela. Parou o olhar em Neco que 
estava de cabea baixa e de olhos fechados. Ele ouviu atentamente tudo 
o que dona Betina disse. No entendia nem acreditava naquilo, mas
pensava: ela est dizendo que a Dalvinha pode estar querendo voltar! Meu
Deus! Como pode ser isso?
Todos haviam entendido e pensado o mesmo que ele. Jurema disse, 
assustada: 
-Isso no pode ser verdade! A gente, quando morre, vai para o cu 
ou para o inferno, no tem volta no! 
Betina sorriu e disse: 
- Voc pode ter razo.  tudo muito complicado mesmo, mas 
acredito em tudo o que eu disse. Acredito no Pai Supremo. Sei que Ele 
 bom e justo, s quer o bem da gente. 
- O que vocs esto achando de tudo isso? -Jurema perguntou, 
intrigada. 
Eles no responderam. Assim como ela, estavam abismados e 
pensativos. Sem obter resposta, ela se voltou novamente para dona 
Betina que a olhava tranqilamente: 
-Isso no pode ser! A senhora est inventando tudo isso... 
-No estou inventando... estou dizendo s aquilo em que acredito,
mas isso tudo pode ser mesmo uma besteira, voc no precisa acreditar.
J lhe dei a erva, v para casa e tome direito. Amanh, seu problema vai 
estar resolvido. 
Jurema estava nervosa, aquilo tudo era muito novo e estranho. 
Olhou para Neco, tentando encontrar apoio, mas ele continuava de 
cabea baixa. Nervosa, perguntou: 
-Neco, o que a gente faz? 
Ele levantando a cabea, respondeu: 
-No sei, Jurema, voc  quem sabe, mas tudo o que ela disse pode 
ser verdade. E se a nossa Dalvinha est mesmo querendo voltar? A gente 
no vai querer mat-la, no  mesmo? 
Jurema olhou para Laurinda, depois olhou para a erva que estava em 
sua mo. Ficou por um instante pensando. Depois, estendendo a mo 
99


- No sei se o que a senhora disse  verdade, mas como o Neco 
disse, pode ser. No vou tomar este ch, no. Se no for a Dalvinha, vai 
ser outro, mas que vai nascer, vai mesmo! 
Dona Betina pegou a erva de volta. No disse nada, apenas elevou o 
pensamento para o alto e agradeceu a Deus. 
-Neco, ser que  a Dalvinha que est querendo voltar? 
- No sei, Jurema, mas, se for, vai ser bem recebida, no vai? A 
gente vai dar todo o amor do nosso corao para essa criana. 
-A gente vai dar sim, Neco, vai mesmo... 
Cida e Laurinda ficaram caladas, tentando parar de chorar. Laurinda 
disse: 
-Jurema, no disse que a dona Betina ia ajud-la? Se essa criana 
for a Dalvinha ou no, no interessa, a gente vai am-la, muito! Ora 
se vai! 
Jurema, abraada em Neco, olhou para dona Betina. 
- Dona Betina, ser que Deus vai me perdoar por aquilo que eu ia 
fazer? 
- Claro que vai, Ele perdoa sempre. Ele  nosso Pai. Os pais, aqui 
da Terra, no perdoam sempre aos filhos? Imagine Ele, que  Pai de 
todos ns, que criou o cu, a terra e todo o resto! 
-Obrigada, mais uma vez. Agora, a gente tem que ir, no , Neco? 
A gente precisa voltar para nossa lida e esperar a nossa criana. 
Dona Betina sorriu e pegou na mo de todos. Quando pegou a de 
Cida, segurou-a por mais tempo, depois disse: 
- Moa, estou vendo um vu cobrindo a sua conscincia. No sei 
dizer por que ele est a, mas posso lhe dizer que tudo tem sempre um 
motivo. Por isso, no precisa se preocupar, logo, logo, esse vu vai sumir 
e tudo vai ficar claro. 
Cida perguntou, esperanosa: 
-A senhora est vendo o meu passado? Sabe quem sou e de onde 
vim?
-No moa, mas estou vendo o seu futuro, ele lhe dar um encontro 
com voc mesma. 
-Mas, e o meu passado, vou me lembrar dele? 
100


Dona Betina 
- Tudo na vida vem na hora certa. Para voc, ela tambm vai 
chegar. No pense no passado, mas em tudo o que pode fazer pelo 
futuro. Deus acompanhe vocs e, sempre que quiserem, podem vir 
me visitar. Quando essa criana nascer, quero que a tragam at aqui. 
Vai fazer isso, Jurema? 
-Claro que a gente vai! A senhora pode esperar! 
-Est bem, Jurema! Estarei esperando. 
Saram dali, com o corao leve e uma imensa alegria. At Cida 
estava bem, acreditou naquilo que dona Betina disse. No vou mais 
tentar me lembrar, vou dar tempo ao tempo. Como ela disse: tudo tem hora 
certa...
Quando chegaram ao porto, voltaram-se e acenaram, dando adeus.
Dona Betina respondeu o aceno e pensou: obrigada, meu Deus, por essa
inspirao e para que eu pudesse dizer as palavras certas. Que essa criana 
seja bem-vinda... 
Aps se acomodarem novamente na carroa, seguiram viagem. Neco 
era o mais feliz. 
- Agora, sim, Jurema, voc vai voltar a ser a mulher alegre que 
sempre foi. Desde que a Cida chegou, voc j mudou muito. Primeiro, 
quis voltar a trabalhar, tudo bem que foi s para ajudar a Cida, essa 
moa que a gente no sabe quem , nem de onde veio, mas que serviu 
para trazer um pouco de vida para voc. Agora, voc aceitou ter outra 
criana. Vamos pedir a Deus que Ele deixe essa criana vir com sade 
para a gente ser feliz. 
- Neco, ser que tudo o que ela falou  verdade? Ser que a gente 
morre e nasce de novo? Isso tudo  loucura, no pode ser. Se eu tivesse 
vivido outra vez, claro que ia me lembrar. Acho que essa mulher no  
certa da cabea, no... 
- No sei se ela  certa ou no, mas o que ela disse at pode ser 
verdade. S assim a gente podia mesmo acreditar na bondade de 
Deus. 
Muito curiosa, Jurema perguntou para Laurinda: 
-Tia, faz tempo que a senhora conhece a dona Betina? 
-Faz sim. A primeira vez foi quando o Dorival ficou triste pelos cantos,
sem saber o motivo. Fui falar com o doutor Evaristo. Ele me disse:
101


Dona Betina,
-Eu no entendo disso que o Dorival est sentindo. Acredito que deveria
lev-lo  dona Betina, ela entende disso e muito bem.
-No comeo, o Dorival no queria ir, mas depois de eu e o doutor
insistirmos muito, ele resolveu aceitar e a gente foi at ela. Quando a
gente chegou l, ela disse:
-Bom-dia! Que bons ventos trazem vocs at aqui?
- Eu e o Dorival ficamos impressionados, porque ela no conhecia
a gente, mas, mesmo assim, estava sorrindo e parecia feliz de ver a
gente ali. Mandou a gente sentar naquele mesmo banco. Olhou para
o Dorival, s que parecia que os olhos dela estavam olhando por trs
dele. Perguntou:
-Por que voc est to triste assim? Sei que a saudade  triste, mas voc
precisa tentar esquecer e seguir o seu caminho. No sabe que Deus, nosso
Pai, cuida da gente, perdoa e est sempre esperando a gente voltar? Ele no
quer nada, s que a gente siga o caminho do bem e da luz.
-A gente no estava entendendo nada. Ela falava, mas parecia que
no era com a gente. O Dorival me olhou, no disse nada, mas eu sabia
que ele estava pensando o mesmo que eu. Ele ia dizer para ela que no
sabia por que estava triste, mas ela parecia que no estava vendo a gente.
Continuou falando:
- Sabe, Deus no se importa com o que a gente fez de certo ou de
errado, ele est sempre disposto a perdoar. O passado passou e, tudo o que
voc fez ou algum lhe fez,, ficou para trs. Hoje, esse moo aqui tem um
outro caminho e voc deve tambm procurar o seu. No pode continuar ao
lado dele...
-O Dorival no se conteve, estava nervoso, queria sair dali. Aquela
mulher parecia louca, disse nervoso:
- A senhora me desculpe, no estou entendendo nada do que est
dizendo. Vim aqui, porque a minha mulher e o doutor Evaristo disseram
que a senhora pode me ajudar, mas, pelo que estou vendo, a senhora no
pode fazer isso. Obrigado por tudo, mas agora a gente tem que ir embora.
-Ela pareceu no ouvir o que o Dorival disse, continuou falando:
-Sei que o abandonou quando ele era criana, mas, hoje, ele j  um
homem feito e tem o seu caminho para seguir, assim como voc tem o seu.
No precisa ficar triste nem pedir perdo, porque s Deus pode perdoar
102


Dona Betina
e Ele perdoa sempre. V... siga o seu caminho, no fique perdendo mais
tempo. Ele est bem e vai ficar melhor sabendo que voc est bem.
-Parecia que ela no via que a gente estava ali. Continuou olhando 
para aquele lugar. Eu e o Dorival no sabamos o que fazer. A gente 
no estava entendendo, mas percebia que alguma coisa estranha estava 
acontecendo. Passando um tempo, os olhos dela se voltaram para o 
Dorival. Disse: 
- Vocs podem ir embora, agora, est tudo bem. 
-O Dorival me olhou, eu no entendi, mas perguntei: 
- Como est tudo bem? A senhora no vai dar um ch para ele beber? 
- No preciso, ele vai ficar bem. 
- Dorival, nervoso por ter perdido o seu tempo, disse, mais nervoso 
ainda: 
- Laurinda! Vamos embora, a gente no tem mais nada para fazer 
aqui! 
A gente ia saindo, quando ela disse: 
- Moo, voc vai ficar bem, mas para isso, vai ter que perdoar do 
fundo do corao. Quem estava ao seu lado era a sua me. Ela estava triste, 
pedindo perdo por t-lo abandonado, quando voc era criana. 
-Ao ouvir aquilo, Dorival me olhou com os olhos arregalados e, 
assim como ele, tambm fiquei estarrecida. Ele, agora quase fora de si, 
perguntou? 
- Como a senhora sabe disso? Quem contou? 
-Com aquele sorriso que vocs viram, ela respondeu: 
-Eu no sabia, quem me contou foi a sua me.
-Mas a gente nunca comentou isso com ningum! Meu pai proibiu,
nem a Laurinda sabia! Quando ela foi embora, meu pai disse para todo
mundo que ela havia ido para So Paulo se tratar e depois ele disse que ela
havia morrido l.
-O Dorival estava dizendo a verdade. O que eu sabia era isso, que
sua me tinha morrido em So Paulo. Mas a dona Betina com o mesmo
olhar disse:
- Sabe que no  verdade. Voc sabe que, durante todos esses anos,
ficou culpando sua me por isso e, sempre que se lembra dela, sofre e sente
muita raiva...
103


Dona Betina 
- Isso  verdade... nesses ltimos dias, tenho pensado muito nela 
e sentindo muita raiva. Ela abandonou a gente, eu e meus irmos. Eles
eram pequenos, por isso acreditaram na histria que meu pai contou. Eu
era grande e ela, antes de ir embora, veio se despedir. Ela disse que tinha
encontrado um outro caminho e que por isso precisava ir embora.
Laurinda continuou falando:
- Eu fiquei ali, parada, vendo os dois conversarem. Tudo aquilo 
para mim, era novidade. Dona Betina continuou:
-Foi isso mesmo que aconteceu, ela foi embora com um outro homem
e ficou com ele por muito tempo, mas nunca foi feliz completamente, pois
sempre se culpava por ter abandonado vocs. Faz algum tempo que ela
morreu realmente. Depois da morte, o arrependimento foi maior e, por
isso, ela vivia ao seu lado, pedindo perdo. A tristeza que voc sentia no
era sua, era dela. Mas, agora, no precisa se preocupar. Hoje, ela entendeu
que no pode continuar do seu lado, que precisa ir embora e entender
tudo aquilo que aconteceu. Ela foi embora muito bem acompanhada. Pode
ficar sossegado. S no fique com dio ou raiva dela. A gente no tem o
direito de julgar ningum. Deus  quem sabe das coisas. S Ele pode julgar
e condenar.
-Dorival, abismado com aquilo, comeou a chorar. Ela o abraou,
dizendo:
-No precisa chorar. Agora est tudo bem. Voc tem um longo caminho
para percorrer. Ela tambm. Agora vai entender e, se Deus quiser, parar de
sofrer. Deus  Pai e nunca abandona a gente. Volta para sua casa, continue
trabalhando e sendo o bom pai e marido que . Que Deus o abenoe. 
-Ele ficou ali por um bom tempo abraado quela mulher que at 
pouco tempo julgava louca. Depois, a gente foi embora e ele voltou a 
ser o Dorival de sempre alegre e feliz. 
Cida, Jurema e Neco ouviram atentamente Laurinda contando tudo 
aquilo. Foi Jurema quem disse: 
-Nossa, tia! Ela sabia de tudo mesmo? 
- Sabia, sim, coisas que at eu no sabia. Mais tarde, ela contou 
para gente que, desde criana, podia ver as pessoas que tinham morrido 
e, com o tempo, aprendeu a conversar com elas. Por isso, eu sabia que 
ela ia poder ajud-la. Ela  uma mulher maravilhosa. 
104


Dona Betina 
- mesmo... se ela pode ver, ento ela viu a minha Dalvinha e sabe 
que ela quer voltar. No  mesmo? 
-Isso eu no sei, mas quem sabe? 
-Parece que essa mulher sabe muita coisa mesmo. Eu no acreditei 
muito naquela histria de nascer de novo. Ser que  verdade? Onde j 
se viu uma coisa como essa! 
Laurinda, sorrindo, falou: 
- Eu tambm no acreditava, mas, daquele dia em diante, sempre 
que algum precisava, eu acompanhava at a dona Betina e ela conversava 
muito. Ela disse que Deus no ia criar a gente para viver s sessenta ou 
oitenta anos e depois tudo se acabar. Ela disse que no tem ningum 
na Terra que pode dizer que  feliz o tempo todo, que todas as pessoas
tem momentos de felicidade e de tristeza. Ela disse, tambm, que tanto
num momento como no outro a gente deve aprender e agradecer. Ela
tambm disse que a gente foi a maior criao de Deus, por isso, Ele
tem muita pacincia. Disse que s para gente, Ele deu entendimento e
oportunidade de escolher o caminho que quer seguir.
-Como assim?
- Ela disse que, quando Deus criou a gente, Ele deu tambm a
inteligncia e o pensamento. Assim, a gente pode sempre escolher. Ela
disse que isso se chama livre-arbtrio.
-  muito complicado. Quer dizer que  a gente quem sempre
escolhe?
Cida, que ouvia em silncio a conversa, interferiu:
- Eu no acredito nisso! Se for assim, vai me dizer que eu escolhi
ter esquecido tudo da minha vida? Eu escolhi ficar perdida assim sem
saber nada?
Laurinda percebeu que ela estava nervosa. Respondeu:
-Isso eu no sei, mas a dona Betina sempre disse que h um motivo
para tudo e que a gente est sempre aprendendo.
- No acredito nisso! Quando o Neco me encontrou, eu estava
muito ferida! Com certeza algum fez aquilo! Um homem ou mais!
Vivos! No foi Deus! Acreditam mesmo que eu tenha escolhido isso
para mim? Ser que eu escolhi? Como uma pessoa pode fazer algo como
aquilo? Bater muito em outra e depois deixar jogada para que morra?
105


Dona Betina 
Sim, pois se o Neco no tivesse me encontrado, eu estaria morta. Isso 
no  vontade de Deus, nem minha!  maldade pura! Eu no escolhi 
isso para mim! Isso  pura inveno dessa mulher! 
- No sei lhe dizer se  verdade ou no. Ela diz as coisas, voc
acredita ou no. Eu acredito, porque acho que tem muito de verdade.
Tem tanta gente que sofre muito aqui neste serto, mas, nem por isso, 
todas so pessoas boas, algumas at so ms. Do jeito que aprendi, 
a gente nasce, cresce, morre e vai para o inferno. Isso no  justo. J 
pensou nas pessoas que sofrem tanto aqui e, quando elas morrem, 
ainda vo para o inferno? Isso, sim, que no seria justo. Ela disse que 
Deus sempre d uma oportunidade para a gente encontrar o caminho 
do bem e da luz. 
- No sei, no, acho tudo isso muito confuso. S sei que no 
posso ter escolhido tudo. A Jurema diz que eu devo ser de famlia rica. 
Acredita mesmo que eu escolhi esquecer tudo e viver aqui? 
- Isso eu no sei, mas quem  que sabe, no ? Agora  melhor 
a gente deixar tudo isso para l. Antes de vocs irem embora, acho 
melhor a gente tomar um lanche. J est tarde! 
S a, Neco interferiu na conversa. 
-Tia, a senhora tem razo. A gente no pode ficar at muito tarde. 
A gente precisa voltar para o stio. 
Foi o que fizeram, tomaram o lanche e pegaram o caminho de 
volta. 
Durante o caminho, por um bom tempo, seguiram calados. Jurema 
foi a primeira a falar: 
-Sabe, Neco. Estou feliz por ter conversado com a dona Betina, j 
pensou? Eu ia matar uma criana que pode ser a nossa Dalvinha! 
- Eu fiquei mais feliz ainda, Jurema. Logo a gente vai ter outra 
criana correndo pelo stio. J pensou como isso vai ser bom? 
- S tenho medo de ela ficar doente e a gente no ter tempo de 
socorrer, como aconteceu com a Dalvinha... 
- Isso no vai acontecer. Um raio no cai duas vezes no mesmo 
lugar. A gente no pode pensar assim. Desta vez vai ser diferente. 
Jurema perguntou: 
-Cida, o que voc achou de tudo o que a gente escutou? 
106


Dona Betina 
-No sei, mas parece tudo uma bobagem. Essa histria de a gente 
escolher e de livre-arbtrio. Se Deus existe mesmo, Ele no me deu 
escolha. Estou aqui nesse lugar, distante de tudo e de todos, sem saber 
quem fui e de onde vim. Que escolha eu tenho? Como posso decidir a 
minha vida? 
-Puxa! Parece que voc no gosta da gente! 
-No  isso, Jurema! Gosto muito de vocs, se no fosse por vocs, 
eu estaria morta! Estou feliz por essa criana que vai nascer. Vocs 
merecem, mas estou triste por no conseguir me lembrar nem poder 
escolher a vida que quero. No tenho opo e isso  muito ruim. Eu 
queria me lembrar de tudo e poder escolher um caminho para seguir. 
- Dona Betina disse que para tudo tem uma hora certa,  s voc 
esperar. Vai ver como logo vai lembrar, mas, agora, a gente precisa 
pensar na criana que vai nascer e precisa preparar a roupinha dela. 
Voc vai me ajudar? 
Cida sorriu. Ela gostava muito daquelas pessoas, muito mais de 
Jurema. Respondeu: 
- Claro que vou, Jurema! Alis, voc pode deixar tudo por minha 
conta. Sabe muito bem que estou bordando e tecendo renda como voc 
ou at melhor! 
-Neco, olha s isso! Ela est achando que  melhor do que eu! 
Ele sorriu, mas no disse nada. Estava feliz demais. Ia ter novamente 
uma criana e era tudo o que queria. 
Quando chegaram a casa, j estava anoitecendo. Elas foram para a 
cozinha preparar o jantar, que agora era farto. Neco foi dar gua para 
o cavalo que estava cansado. Enquanto o cavalo bebia a gua, Neco o
acariciava e pensava: como  bom viver neste lugar. Aqui a gente tem tudo
de que precisa para ser feliz. Com a chuva e, agora, com essa criana que
vai nascer, a gente no precisa de mais nada. Se foi essa a vida que escolhi,
fiz uma boa escolha. Obrigado, meu Deus.
Ele no viu, mas, ao seu lado, sentado em banquinho, estava seu pai 
que sorria feliz por ver o filho to tranqilo. Disse: 
-Meu filho, como estou feliz por ver voc assim. Voc sempre foi bom 
e merece isso que est acontecendo na sua vida. O pior j passou. A chuva
chegou e, com ela. a fartura. Essa criana que vai nascer, vai lhe trazer 
107


Dona Betina 
muita felicidade. Deus o abenoe. 
Naquele momento, Neco lembrou-se do pai: Pai, se o que aquela 
mulher disse for verdade, o senhor no partiu para sempre e a gente ainda 
vai se encontrar. Quero que o senhor saiba que estou muito feliz vendo essa 
terra toda verde e com a criana que est vindo. Pai, se puder me ouvir, 
saiba que sinto saudade...
Uma lgrima surgiu nos olhos do velho senhor. Estava feliz pelo 
filho, acariciou o seu cabelo, dizendo: 
- Tambm estou feliz, meu filho, at agora tem cumprido tudo o que 
prometeu, espero que continue assim. Deus o proteja. 
Neco passou a mo pelos cabelos, parecia que algum estava 
mexendo neles. Ficou ali por mais algum tempo, lembrando-se de 
quando era criana e de tudo que havia feito junto com seu pai. Pai, 
estou com muita saudade, gostaria de ver o senhor de novo. Ser que um 
dia vou conseguir isso? 
-Vai, meu filho, claro que vai. Mas agora precisa cuidar da sua famlia. 
Eu tambm preciso ir embora. Tenho muito o que fazer. Adeus. 
Assim dizendo, desapareceu. Neco prendeu o cavalo, depois, entrou 
em casa. Ao ver que o jantar estava pronto, disse:
-Jurema, esse cheiro est muito bom. Vai demorar muito?
-No, j est quase pronto.
Jantaram e foram dormir. Eles estavam em paz, ao contrrio de
 Cida, que se virava de um lado para o outro sem conseguir dormir, 
pensava: eu no tenho escolha, no tenho livre-arbtrio e, se Deus existe 
mesmo, Ele me esqueceu. 
Estava revoltada com a sua situao, queria lembrar, mas no 
conseguia. Cansada, adormeceu. Sonhou que estava em um lugar, onde 
as pessoas, vestidas de branco e com uma mscara tambm branca sobre 
a boca, andavam de um lugar para outro. Queria conversar, mas elas 
pareciam no v-la. Acordou quase caindo da cama. Assustada, pensou: 
que lugar estranho era aquele? Quem eram aquelas pessoas? 
No obteve resposta, mas, como estava sonolenta, logo voltou a 
dormir. Sonhou novamente, s que, desta vez, estava em outro lugar, 
com sombras ao seu lado. O lugar era feio e ela estava com medo. 
Quando comeou a entrar em desespero, querendo fugir e no sabendo 
108

Dona Betina 
para onde ir, dona Betina surgiu e sorrindo disse: 
-No precisa ficar com medo. Logo, todas as sombras desaparecero e 
um sol lindo brilhar em sua vida. Tudo tem um motivo e voc descobrir, 
porque est passando por tudo isso. 
Acordou pulando na cama, como se estivesse voltando de algum 
lugar. Estava suando, mas se sentiu tranqila, ficou pensando: quem 
ser essa dona Betina? 
109



 A Hora Certa 
O tempo foi passando. Jurema estava realmente esperando uma 
criana. Logo, para a felicidade dela e muito mais do Neco, sua barriga 
comeou a crescer. Ele, durante todo o dia, a acariciava muitas vezes. 
Com a chuva constante e com todo aquele verde, muitas pessoas que 
haviam ido embora retornaram para suas terras. A cidade cresceu. Um 
novo prefeito foi eleito. Ele construiu um pequeno pronto-socorro.
Contratou um mdico, que veio de Salvador. Era muito jovem, o que
 fez com que as pessoas duvidassem de sua capacidade, mas, aos poucos,
ele foi conquistando a todos. Jurema ia todos os meses at o pronto-socorro,
queria estar bem, pois sua criana precisava nascer com sade.
Sempre que a via, o mdico lhe dizia:
-A senhora est muito bem, dona Jurema, continue tomando as 
vitaminas e sua criana vai nascer saudvel.
- tudo o que quero, doutor, que ela tenha muita sade...
Laurinda, por sua vez, tambm estava ansiosa para que a criana 
nascesse. Assim como Jurema e Neco, ela tambm sofreu muito com a
morte da Dalvinha. Em uma das vezes em que Jurema foi ao pronto-socorro,
ela foi tambm. Enquanto Jurema entrou para ser examinada,
ela ficou do lado de fora, conversando com Cida:
-Cida, por que no conversa com o doutor a respeito do seu caso?
 Quem sabe, ele diz alguma coisa. Pode lhe receitar um remdio ou falar 
de algum tratamento. 
-No sei, ser que ele entende disso? 
-Tambm no sei, mas no custa tentar. Assim que a Jurema sair, a 
gente entra e conversa com ele. 
Foi o que fizeram. Assim, Jurema e Neco saram, Laurinda contou o que 
pretendia e entraram novamente. Dentro do consultrio, Laurinda disse: 
-Desculpe, doutor, a gente ter entrado assim, mas  que esta moa 
tem um problema e, quem sabe, o senhor possa ajudar. 
Ele olhou para Cida e, sorrindo, disse: 
-Que problema uma moa bonita como essa pode ter? 
Cida, sentindo-se confiante, respondeu: 
-Estou com um problema muito srio e no sei como resolver. 
111


A Hora Certa 
-Ento, conte. 
Ela contou tudo do que se lembrava, desde quando acordou na 
caatinga e foi socorrida por Neco. Ele ouviu-a atentamente. Ficou 
olhando-a, depois disse: 
-No sou um especialista, mas, de acordo com que aprendi, voc 
deve ter passado por maus momentos. Deve ter sofrido muito. Sofreu 
um choque muito grande e o seu inconsciente resolveu apagar tudo 
para no sofrer mais. 
-Est dizendo que eu quis e quero esquecer? 
- No, estou dizendo que foi o seu inconsciente, e voc no tem 
controle sobre ele. 
-Ento! Nunca mais vou me recordar? 
-Assim como foi algo de muito ruim que fez voc esquecer, quando 
passar novamente por outro momento de extremo perigo, talvez volte a 
se lembrar, seno de tudo, ao menos de alguma coisa. 
-Terei que passar por algo ruim novamente? 
- Como j lhe disse, no sou um especialista, porm, pelo pouco 
que aprendi a esse respeito, acredito que sim.
-Se depender disso, ela no vai lembrar nada, doutor. Ela mora at 
hoje com a gente. L no tem problema algum. A gente a protege como 
se fosse nossa filha, no  mesmo, Cida? 
-  sim, Jurema, se depender disso, vai ser difcil mesmo. Mas, o 
senhor no tem algum remdio que possa me receitar? 
- No, para isso que est sentindo, no tenho. Seria bom que 
consultasse um psiquiatra, talvez ele encontre uma maneira de ajudar 
voc. 
-Como posso fazer isso? Aqui na cidade no tem nenhum! 
-Sinto muito, s mesmo na Capital. No tem uma maneira de ir 
at l? 
-No, no tenho. Vivo de favor na casa da Jurema e do Neco. Eles 
salvaram a minha vida e esto at hoje me dando todo apoio, mas so 
pessoas com pouco recurso. No sei o que fazer, estou acreditando que 
ficarei assim para o resto da vida. 
- Se no tem como se tratar, pode vir aqui uma vez por ms. 
Poderemos conversar e, talvez, surja uma luz. 
112


A Hora Certa 
-O senhor acredita mesmo? 
-No sei, vou telefonar para um amigo meu que  psiquiatra, quem 
sabe ele possa ajudar, mesmo que seja a distncia. Volte no prximo 
ms e eu terei uma resposta... 
-Est bem, doutor, obrigada. 
Saram dali, outra vez, ela sentiu que uma nova esperana surgia 
em seu corao. Laurinda e Jurema tambm sentiam a mesma coisa. 
Laurinda disse: 
- Vou conversar com o Dorival, quem sabe ele pode pagar o seu 
tratamento e, se for preciso, eu vou com voc para a Capital. No pode
continuar assim.
-Obrigada, tia Laurinda, mas no pode ser agora. A Jurema vai ter
a criana, quero estar aqui quando ela nascer.
Jurema sorriu:
- Isso mesmo, tambm quero ir com voc, s que assim com este
barrigo vai ser difcil. Deixe a minha criana nascer. Depois, a gente
faz o que for preciso. Por enquanto, voc vai se tratando com o doutor
Campelo, at ele falar com o amigo.
Cida sorriu e pensou: J faz tanto tempo que estou dessa maneira.
Poderei continuar por mais um pouco de tempo.
Despediram-se de Laurinda e voltaram para o stio. A vida continuou. 
Cida, no ms seguinte, voltou com Jurema. Assim que o mdico a viu, 
disse: 
-Tentei falar com o meu amigo, mas ele foi para o exterior participar 
de um congresso e fazer um curso. No sei quanto tempo vai demorar, 
assim que voltar, falarei com ele. 
- Est bem, doutor, j estou me acostumando com a vida da 
maneira como est. Gosto da Jurema e o que mais est me importando 
 que a criana dela nasa bem. 
-Ainda bem que est assim. Tenha certeza de que, quando menos 
esperar, vai se lembrar de tudo. 
-Assim espero... 
Continuou consultando-se todos os meses. Sempre que voltava 
dessas consultas, sentia-se melhor. Todas as manhs, faziam a mesma 
coisa: Neco ia para a lavoura, ela e Jurema para o barraco. O trabalho 
113


A Hora Certa 
era muito, pois, alm de bordarem para Dorival, preparavam o enxoval 
da criana. A cada pea de roupinha que terminava, Cida se encantava 
e dizia feliz: 
-Olhe Jurema! Como ficou bonito. 
-Ficou mesmo, voc borda muito bem. Essa minha criana vai ter 
tudo do que precisar. Deus queira que ela venha com sade. 
- Vir! Pare de pensar nisso, Jurema! Essa criana vai ser forte e 
bonita! 
-Sei que voc tem razo, mas no consigo me esquecer da Dalvinha, 
tenho medo de que acontea o mesmo com esta, tambm. 
-No vai acontecer, Jurema. Vai ser uma criana linda! 
- Tomara. Amanh a gente tem de ir  cidade conversar com o
doutor Campelo. Voc gosta dele, no , Cida?
Cida, no conseguindo disfarar, respondeu: 
-Ele  um homem bonito, mas no sente nada por mim. Para ele, 
sou s uma paciente. 
-Ser que  s isso mesmo? No sei no. Ele olha para voc de um 
jeito... e voc, tambm, olha para ele de um jeito... 
-Que jeito, Jurema? Ele me olha da mesma maneira que olha para 
voc! 
Cida ficou muito nervosa. Jurema comeou a rir. 
-Fique calma, Cida, no precisa ficar nervosa! Olhe, a minha me 
sempre dizia que a gente s fica brava quando  verdade. 
-Que verdade? Est dizendo que estou gostando dele? 
-No sei, no... Mas acho que sim... 
-Deve estar louca, Jurema! Como gostando? S gosto de conversar 
com ele, nada mais, nem sei se ele  casado! 
-Acho que no estou louca, no... j vi o jeito que voc olha para 
ele... 
Cida largou o bordado que estava em sua mo, saiu correndo do 
barraco e entrou em casa. Jurema continuou ali, sorrindo. 
Em seu quarto, Cida deitou na cama e comeou a chorar enquanto 
pensava: como apaixonada? S gosto de conversar com ele... sei que, muitas 
vezes, durante o dia, eu penso nele, no seu rosto e no seu sorriso, mas no 
estou gostando dele! A Jurema est louca mesmo. 
114


A Hora Certa 
Neco, que estava cuidando do cavalo, viu quando ela saiu correndo. 
Ficou curioso. Foi at o barraco. Jurema estava sentada bordando. Ele 
se aproximou, perguntando: 
-Jurema, vi a Cida sair correndo daqui, o que aconteceu? Vocs 
brigaram? 
Jurema olhou para ele e, sorrindo, respondeu: 
- No aconteceu nada, Neco, a gente no brigou, no. Ela s 
descobriu que est gostando do doutor. 
Neco, ao ouvir aquilo, sentou-se no banco, perguntando: 
-Ela est gostando do doutor?! Ela descobriu?! Como ela contou? 
-No contou, quem descobriu foi eu... 
-Voc? Como? 
-Eu vi como ele olha para ela, e ela para ele. Ela fala o tempo todo 
nele. 
-Fala como? 
-Que ele  bonito, que fala bem, que os olhos dele brilham e outras 
coisas mais... 
-Fala isso, ?! 
-Fala, sim. O que voc acha? 
-Acho que ela est gostando mesmo... Isso  bom, no , Jurema? 
-  muito bom, Neco. Desde aquele dia que voc a trouxe aqui 
para casa, gostei muito dela e quero que seja feliz. Se eu estiver certa, 
ele tambm est gostando dela... 
-Ser, Jurema? 
-A gente vai amanh at l, vou prestar mais ateno. 
-E a gente vai ver. Voc no vai falar com ela? 
-Agora no, vou deixar que fique um pouco sozinha. Ela precisa
pensar, acabou de descobrir e deve estar fazendo uma poro de
perguntas para ela mesma. Vou esperar um pouco e, depois, se ela no
vier, eu vou at l.
Enquanto isso, Cida continuava deitada em sua cama e pensando:
ser que a Jurema tem razo? Ser que estou mesmo apaixonada? Se for 
verdade? O que posso lhe oferecer? Uma mulher sem memria que no sabe 
quem , nem se j teve um marido. Isso no pode ser! 
Jurema deixou passar mais de uma hora. Depois foi at o quarto, 
115


A Hora Certa 
Cida continuava deitada e chorando. Ela se aproximou, dizendo: 
-No precisa ficar assim, se estiver gostando dele e ele de voc, vai 
ser muito bom. Voc precisa de uma companhia e ele me parece ser um 
homem bom. 
- Isso nunca vai acontecer, Jurema... no sei se ele gosta de mim, 
mas, mesmo que isso seja verdade, eu nunca poderia ter nada com ele. 
No sei quem sou. Nem de onde vim... 
-Isso no vai atrapalhar. Se tiver que ser, vai ser. 
-Como no vai atrapalhar, Jurema? Nem sei se sou casada! 
- No precisa chorar, Cida. Amanh, a gente vai at l e voc vai 
poder ter certeza. 
-Eu no vou mais l! 
-Como, no? Voc precisa continuar o tratamento! 
-Esse tratamento no est aj udando em nada... s fico l conversando 
com ele, mas no tenho muito o que dizer. No me lembro de nada... 
-Acho que voc devia ir, mas, se no quiser, eu no vou insistir. 
Assim que minha criana nascer, a gente vai encontrar um jeito de levar 
voc para a Capital. L, voc vai falar com aquele mdico amigo dele 
ou outro que trata dessas doenas da cabea. 
-Vamos deixar como est, Jurema. No quero mais me consultar 
com ele. 
Jurema, no querendo insistir, saiu dali. Cida continuou pensando: 
ser que ela est certa? Em uma coisa ela tem razo, isso que estou sentindo 
 realmente muito estranho. No me lembro de ter sentido nada parecido. 
Mas, mesmo que seja verdade, sei que no dar certo, no posso continuar 
pensando nele, pois ele me trata apenas como cliente... disso, tenho certeza, 
nunca demonstrou nada alm disso. Tambm, no tenho nada para lhe 
oferecer, nem mesmo um nome. Mas por que no consigo afastar da minha 
mente o seu rosto e o seu sorriso? Embora a Jurema tenha dito que ele gosta 
de mim... no acredito, ela est delirando... 
Ficou ali por muito tempo. Depois, voltou para o barraco. Sentouse, 
pegou uma pea de roupa e comeou a bordar. Jurema no disse 
nada, mas Cida percebeu que ela a estava olhando. No tocaram mais 
naquele assunto no restante do dia. 
No dia seguinte, como em todos os dias, Neco acordou cedo, fez o 
116


A Hora Certa 
caf e foi para o quintal preparar o cavalo. Estava preocupado, pois a
hora de a criana nascer estava se aproximando. Jurema havia passado
bem durante todo o tempo, mas a cada dia que se aproximava o
nascimento da criana, ele ficava mais ansioso e preocupado: acho
melhor levar a Jurema l para a casa da tia. A gente mora muito longe e, se 
ela passar mal de noite, como vai ser? Vou falar com ela. Sei que no quer. 
Disse que s vai um ms antes de a criana nascer e que est bem. Eu no 
quero, mas no consigo me esquecer da Dalvinha e fico pensando que se a 
gente morasse na cidade, ela no tinha morrido. 
Jurema tambm acordou e se levantou. Estava bem e, quando 
pensava em algo ruim, lembrava-se daquilo que dona Betina disse: 
-Pode ser a sua filhinha que est querendo voltar. 
Ao pensar isso, sentia um novo nimo e afastava os pensamentos 
ruins. 
Cida, que foi dormir muito tarde, no ouviu o barulho deles quando 
levantaram. Ela no dormiu bem. Aquilo que Jurema lhe disse fez com 
que ficasse preocupada. Estava com medo de que Jurema estivesse certa. 
Sentia que gostava de ficar conversando e olhando para o doutor. Ele 
era jovem e bonito, com os cabelos negros, olhos claros, pele tambm 
clara e barba, embora, sempre bem feita, negra e espessa. Ele tinha 
um sorriso bonito, seus dentes eram perfeitos e muito brancos. Tudo 
aquilo ela havia notado, mas no percebeu que estava se apaixonando, 
embora pensasse nele durante o dia todo e ficasse ansiando para o dia 
da consulta chegar. Pensou muito. Mas, sabia tambm, que mesmo que 
Jurema estivesse certa ao dizer que ele tambm gostava dela, esse amor 
jamais seria possvel, no antes que ela conseguisse se lembrar do seu 
passado. At l, jamais poderia se comprometer com ningum. Por isso 
decidiu que no voltaria mais para a consulta. 
Jurema tomou o seu caf e foi para o quintal conversar com Neco. 
Ele estava terminando de atrelar o cavalo na carroa. Ela aproximou-se, 
dizendo: 
-Bom-dia, Neco. Voc j est pronto para a gente ir?
-J, s faltam vocs.
-A Cida disse que no quer mais ir se consultar com o doutor. Ela
ainda est dormindo.
117


A Hora Certa
-Quando ela lhe disse isso, Jurema?
-Ontem, acho que ela descobriu que gosta mesmo dele e por isso 
no quer mais ir l. 
-Por que no? 
-Ela disse que no sabe se antes j teve um marido. 
-Acho que ela tem razo, mas e se nunca mais se lembrar? Vai ficar 
sozinha para sempre? 
-No sei, mas a gente no pode fazer nada. A vida  dela. Tambm, 
a gente no sabe se ele gosta dela, no  mesmo? 
-... a gente no pode fazer nada. Agora, est na hora de ir. A gente 
no pode deixar o doutor ficar esperando. 
-Est bem, mas antes vou acordar a Cida e ver se no quer mesmo 
ir com a gente. 
Jurema foi para a casa, entrou no quarto e percebeu que Cida 
continuava dormindo. Tocou suavemente em seu ombro. 
-Cida, acorde, a gente tem que ir  cidade... 
Cida abriu os olhos e disse: 
-Bom-dia, Jurema, eu lhe disse que no vou. No posso mais olhar 
para ele. Vai voc com o Neco, eu ficarei aqui trabalhando. No se 
preocupe, estou bem. 
- isso mesmo o que voc quer? Acha que isso  o certo? 
- isso mesmo. No sei se ele sente alguma coisa por mim, tambm, 
no quero descobrir.  melhor cortar o mal pela raiz. 
-Se  assim que voc quer, est bem, a gente j est indo. 
-Podem ir, ficarei bem. Vou levantar e bordar. 
Jurema percebeu que no adiantaria insistir. Saiu do quarto e foi 
encontrar Neco, que j estava do lado da carroa. Assim que ela chegou 
perto, ele ajudou-a a subir. Foram embora para a cidade. Durante o 
caminho, ela disse: 
-Sabe, Neco, como disse a dona Betina, no adianta insistir com 
ela, porque a hora certa, sempre chega. 
Cida ficou por mais um pouco de tempo deitada. Estava preocupada, 
queria tirar a imagem dele de sua cabea, mas no conseguia. Ela, 
que at agora vivera bem e no tinha preocupao alguma, a no ser 
tentar lembrar, percebeu que, naquele momento, o que mais precisava 
118


A Hora Certa 
acontecer era justamente isso, lembrar-se do seu passado, para poder 
continuar a sua vida. Sabia, entretanto, que, talvez, isso nunca 
aconteceria. Levantou-se, tomou caf e foi para o barraco. Comeou 
a bordar.  medida que ia contando os pontos, foi esquecendo-se de 
tudo. O trabalho naquele momento era o melhor que poderia ter-lhe
acontecido. Jurema e Neco chegaram a cidade e foram para o pronto-socorro.
O doutor Campelo, ao v-los, abriu um sorriso.
-Dona Jurema! Como est a nossa criana?
-No sei, doutor, mas parece que ela est bem e eu tambm. 
-Isso  muito bom. Sente-se aqui, vou examin-la. 
Ela se sentou, ele auferiu a sua presso, depois pediu que deitasse, 
ouviu o corao da criana e disse satisfeito: 
-Est tudo bem, essa criana vai nascer forte. 
-Ainda bem, doutor, o senhor sabe que a gente mora longe, por 
isso, estou pensando em deixar a Jurema aqui na casa do meu tio, at o 
dia de a criana nascer, o que o senhor acha? 
- Se quiser, pode fazer isso, mas ainda  muito cedo. A criana 
parece bem e a dona Jurema tambm. Acho que deveria fazer isso, 
quando faltar um ms para o nascimento. Por enquanto no  preciso. 
Jurema, sorrindo, disse: 
- Vou fazer isso, doutor. No quero ficar muito tempo longe do 
Neco e do stio. 
-No se preocupe, est tudo bem, mas... E a Cida? Ela no veio? 
Jurema prestou ateno nos olhos dele quando fez essa pergunta. 
Notou que eles brilharam mais. Respondeu: 
-No, ela no veio. Disse que esse tratamento no est ajudando 
em nada, por isso no quis vir. 
Ele, nervoso, perguntou: 
-Como o tratamento no est ajudando? Ela no pode parar agora! 
Precisa continuar com as nossas conversas e talvez surja algo que a faa 
se lembrar! 
-No sei no, doutor, mas ela disse que no vem mais. 
- Isso no est certo, a senhora precisa convenc-la de que o 
tratamento  bom e que assim que o meu amigo voltar para o Brasil, 
falarei com ele. Porm, at l, ela precisa vir aqui e falar comigo! 
119


A Hora Certa 
-Vou tentar, mas acho que ela no vem mesmo... 
- uma pena, pois eu gosto muito de conversar com ela.
Jurema olhou para Neco, no disse nada, apenas sorriu. Despediram-se
do mdico e saram. Jurema estava radiante.
-Voc viu, Neco, como ele ficou nervoso, quando viu que ela no 
veio? Ele tambm est gostando dela! Eu no disse?! 
- Jurema, tambm vi. O que vai acontecer agora? 
-No sei, no, mas sempre ouvi dizer que do destino a gente no
escapa, no.  bom deixar tudo nas mos de Deus, no  mesmo,
Neco?
-Acho que sim. Agora a gente vai dar uma passadinha no armazm 
do tio e depois vai embora. Ela est sozinha l em casa. 
-Vamos fazer isso, enquanto voc vai ao armazm, vou  casa da tia 
conversar um pouco com ela. 
Foi o que fizeram. Depois de conversarem com os tios e avisarem 
que Jurema voltaria e ficaria com eles at o nascimento da criana, 
voltaram para o stio. Cida continuava no barraco. Assim que ouviu 
o barulho da sineta do cavalo, saiu correndo para esper-los. Neco e 
Jurema desceram da carroa. Cida, ansiosa, perguntou: 
-Jurema, est tudo bem? 
-Est tudo bem, Cida. O doutor me examinou e disse que eu estou 
bem e que a criana est forte. 
-Ele perguntou por que eu no fui para a consulta? 
Jurema olhou para Neco, que olhava para ela. Respondeu: 
- Claro que perguntou e ficou muito bravo porque voc no foi. 
Vou lhe contar tudo. 
Cida, ansiosa, perguntou: 
-O que ele disse? 
- Disse que voc no pode parar o tratamento e que assim que o 
amigo dele voltar, ele vai saber como ajud-la. 
-S isso? 
- O que mais voc queria? Ele disse que, das conversas com voc, 
pode, de repente, aparecer qualquer coisa e voc se lembre de tudo. 
-S isso? 
-Foi s isso, o que voc queria que ele dissesse, que est apaixonado 
120


A Hora Certa 
e que quer se casar com voc? 
Cida, nervosa, respondeu: 
-No  nada disso, s pensei que ele fosse dizer algo mais... 
-Pois no disse. Voc preparou a comida? 
-Preparei, sabia que chegariam com fome. 
-Ento, vamos comer. Estou com fome mesmo. 
Entraram em casa. Cida no conseguia esconder sua frustrao. 
No ntimo, pensava que ele fosse sentir realmente a sua falta, porm, 
no como mdico e sim como algum que se interessasse por ela, de 
uma maneira diferente. Jurema e Neco divertiam-se com a cara que 
ela estava fazendo. Almoaram. Jurema foi se deitar. Neco foi para a 
lavoura e Cida voltou para o barraco. 
121



 A Fora do Destino
Aps o expediente, doutor Campelo foi para sua casa. Estava cansado,
pois durante o dia todo havia atendido muitos pacientes. Entrou na
pequena residncia que o Prefeito lhe ofereceu quando decidiu vir para 
Carim. A casa ficava na rua principal e bem perto do pronto-socorro.
Tomou um banho, foi at a cozinha e abriu algumas panelas que estavam
sobre o fogo. Sorriu, pensando: Antonieta  mesmo uma tima
 cozinheira. Que bom que est comigo. 
Fez um prato com arroz, feijo e um pedao de carne assada. Sentouse 
em uma das cadeiras que havia em volta da mesa e comeou a comer. 
Enquanto comia, pensava: como vim parar em um lugar como este? Tive 
vontade de ser mdico quando eu tinha doze anos e a minha me ficou 
doente. Vi a dedicao do mdico que tratou dela, mas vi tambm que 
foi em vo. Ela morreu e no houve nada que ele pudesse fazer. Naquele 
dia, eu decidi que me tornaria mdico e que faria tudo para vencer a 
morte. Ao menos tentaria, com todas as minhas foras. Estudei muito para 
isso. Lembro-me de como meu pai ficou desesperado com a morte dela. 
Apesar de ser um fazendeiro muito rico, no conseguiu evitar que aquilo 
acontecesse. Quando eu disse a ele que queria ser mdico, ficou preocupado. 
Disse assustado: 
- Voc  o meu nico filho! Precisa tomar conta da fazenda. Sabe que 
j estou velho e que, a qualquer momento, poderei morrer! 
- O senhor no  velho, ao contrrio, para sua idade est muito bem. 
Quero ser mdico para poder evitar que as pessoas morram. 
-Voc no pode fazer isso! Quem vai cuidar da fazenda se eu morrer? 
- O senhor no vai morrer. Alm do mais, no vai demorar muito 
tempo para eu me formar. Mas, se isso acontecer, o que no acredito, o 
Otaviano, o capataz,  de confiana, ele cuidar de tudo. No deve ficar 
preocupado. Ainda vai se orgulhar do filho que tem. Serei um grande 
mdico, o senhor ver. Primeiro, quero ser um clnico geral, depois, quero 
fazer especializao em ginecologia e obstetrcia, quero ajudar muitas 
crianas a virem para o mundo. 
- Voc tem certeza disso? No quer mesmo cuidar da fazenda? 
- Tenho certeza, quero estudar e ser um mdico. 
123


A Fora do Destino 
- Voc ainda muito criana, com o tempo talvez mude de idia... 
Eu no mudei. Terminei o ginsio, depois o colegial e fui para a capital 
estudar. Faz seis anos que me formei. Durante esse tempo todo, trabalhei
primeiro como residente em um grande hospital. Quando minha residncia 
terminou, ainda continuei l, aprendi na prtica tudo o que havia 
aprendido na teoria. H pouco tempo, julguei-me competente, resolvi que 
montaria o meu consultrio e faria especializao. Antes disso, voltaria 
para a fazenda. 
Terminou de comer. Levantou-se, colocou o prato dentro da pia. 
No dia seguinte, Antonieta lavaria e cuidaria da casa e das roupas dele. 
Era uma senhora de quarenta e poucos anos, estava com ele desde o dia 
em que chegou e o seu amigo Prefeito contratou-a. Ele estava satisfeito 
com ela. 
Foi para o quarto. Estava muito cansado, at para ler. Deitou-se 
de costas, colocou as mos sobre a cabea, ficou olhando para o teto e 
pensando: fuipara afazenda pretendendoficar no mximo dois meses, depois 
iria para So Paulo e montaria o meu consultrio, pois, agora, j me sentia 
capacitado para atender qualquer emergncia. A minha inteno era que, 
enquanto eu atendesse no meu consultrio, faria, tambm, especializao 
em ginecologia e obstetrcia. Mas, antes disso, precisava ir para a fazenda 
e me recuperar de todos os anos em que trabalhei na emergncia. Meu 
pai ficou feliz quando cheguei, pois, desde que parti para a faculdade, s 
voltei algumas vezes e por pouco tempo. Agora, eu voltava para ficar muito 
mais tempo. Era quase noite quando cheguei. Aps abraar-me muito e 
jantarmos, ele disse: 
-Meu filho, que bom que est aqui! Agora,  um mdico! Estou muito 
orgulhoso de voc! 
- Eu tambm tenho orgulho do senhor, mas ficarei s por dois meses, 
depois voltarei para a capital e prosseguirei no meu caminho. 
-No vai ficar para cuidar da fazenda? 
-No, pai, o senhor sempre soube que eu no ficaria aqui. 
-Fico triste com isso, mas tudo bem, o Otaviano continuar cuidando 
de tudo. O Donato fez a mesma coisa com o pai dele. 
- Que fez o Donato? 
- Vocs cresceram juntos, mas ele tomou outro caminho, tornou-se um 
124


A Fora do Destino
poltico e hoje  Prefeito em Carim. Parece que est se saindo muito bem.
Ele se casou, enquanto voc continua solteiro. 
- O Donato? Um poltico? Nunca pensei nisso! Achei que ele seria um 
fazendeiro como o pai. 
-Pois no foi. Assim como voc, ele no quis continuar na fazenda. 
-Ns tivemos uma infncia muito boa,papai... corramos, nadvamos 
no rio, cavalgvamos e subamos em rvores. Estou com muita saudade 
daquele tempo e dele tambm. Antes de ir embora, vou para Carim lhe 
fazer uma visita. 
-Faa isso, meu filho. Ele vai ficar muito contente. 
-Sei que vai e eu, muito mais.
Campelo levantou-se, foi at a cozinha, pegou gua em uma
moringa de barro, tomou. Estava quente, foi at a janela, algo o estava
incomodando, mas ele no sabia o que era. Olhou para a rua que, 
naquela hora, estava com pouco movimento. Respirou o ar quente que 
vinha de fora. Voltou para o quarto e para a cama. Deitou e, novamente 
de costas, colocou as mos sobre a cabea. Ficou olhando para o teto e 
continuou pensando: No sei por que estou me lembrando tanto daquele 
dia. No sei o que est acontecendo. 
Tentou desviar o pensamento, mas no conseguiu: quando faltava 
uma semana para eu ir embora, resolvi vir at aqui encontrar o meu
amigo. Ficaria alguns dias. Quando cheguei, fui para a sua casa, onde
me informaram que ele estava na Prefeitura, fui at l. Nunca esquecerei
a felicidade com que ele me recebeu. Assim que entrei em seu gabinete, ele
levantou-se para me receber, abraou-me.
-Doutor Campelo, est aqui! Quanta honra! No estou acreditando!
- Ora, Donato! Achou que eu viria at a casa do meu pai e no faria 
questo de ver o meu amigo como Prefeito? Nunca pensei que se tornaria 
um poltico! Sempre achei que continuaria na fazenda cuidando de tudo! 
- , sempre achei isso tambm, mas a vida tem seus meios para nos 
conduzir e levar para onde ela quer. Mas, sente-se. 
Eu sentei, estava feliz por estar diante do meu amigo de infncia. 
- Como isso aconteceu, Donato? 
- Vou lhe contar. Um ano depois que voc foi estudar na Capital, eu 
tambm fui. Assim como voc, queria ser mdico. Estava feliz e confiante 
125


A Fora do Destino 
que seria um bom mdico, mas quando eu me vi diante de um corpo e o 
professor abrindo-o, no suportei, desmaiei. Naquele dia, eu percebi que 
nunca poderia ser mdico, pois no suporto ver sangue. Para felicidade 
do meu pai, retornei para a fazenda. A, encontrei a Valria, voc lembra 
dela?
- Claro que sim, aquela menina feia, filha do Coronel Galdino? 
-Ela mesma, s que, quando a revi, no acreditei. Ela se transformou em 
uma moa muito bonita e educada. Assim que a vi, fiquei apaixonado. 
-No acredito, Donato! 
-Pode acreditar, foi isso mesmo que aconteceu. Comeamos a namorar. 
Eu vinha todos os finais de semana para c. 
- Voc viajava quase quatro horas para v-la? 
Donato, rindo, respondeu: 
-, meu amigo, o que o amor no faz. Comecei a conhecer a cidade e 
ver que, embora pobre, havia muito que poderia ser feito para melhorar. O 
que mais me preocupou foi que, se alguma pessoa ficasse doente, no havia 
um pronto-socorro para o primeiro atendimento. Aquilo me incomodava, 
pois um colono da fazenda do meu sogro ficou doente, e por falta de 
assistncia, morreu. 
-Foi mesmo? Por isso resolveu se candidatar? 
- Sim e o meu primeiro ato como Prefeito foi construir o pronto-socorro.
-Meus parabns! Mas, o casamento, quando foi?
- Um ano depois de rever Valria, resolvi me casar. Ela  adorvel,
 voc vai ver. Deixei a fazenda do meu pai nas mos dos meus irmos e vim
morar aqui. Percebendo o muito que eu poderia fazer pela cidade, resolvi
aceitar o convite do partido ao qual meu sogro  filiado. Alm disso, ele 
muito respeitado. Candidatei-me e fui eleito Prefeito.
-Muito bem! J fez algo pela cidade, alm do pronto-socorro?
-Ainda estou estudando alguns projetos, mas  difcil, pois a cidade,
realmente, no tem muito dinheiro. Ela nasce e morre com as chuvas,
 mesmo assim, com a ajuda de alguns fazendeiros amigos do meu pai e do 
meu sogro, consegui construir s o pronto-socorro. Est pronto e ficou uma
beleza. Vamos at l? Poder ver com seus prprios olhos.
- Vamos, estou curioso para ver.
 126


A Fora do Destino 
Samos e fomos para o pronto-socorro. Chegamos a uma casa no
muito grande Donato estava orgulhoso de sua obra, por isso falava com
 entusiasmo:
- Veja, esta sala ser o consultrio mdico! Nesta outra, a sala de
enfermagem e aquela, ser usada para pequenas cirurgias.
Eu me encantava com o entusiasmo do meu amigo e por ver que, 
embora fosse muito simples, o pronto-socorro possua todo o necessrio para
um atendimento de urgncia.
-Est muito bom, Donato! Muito mesmo! Aqui, a pessoa poder ter
 um bom atendimento. Parabns, meu amigo!
- Sei que tem tudo para um bom atendimento, mas estou com um
problema muito srio.
- Que problema?
-Prefeito! Prefeito! Ajude-me!
Eu e o Donato olhamos espantados para o homem que entrava gritando
e correndo em nossa direo. Donato perguntou:
- Que aconteceu?
O homem respondeu, desesperado:
-A minha mulher est tendo criana e a parteira no deu conta. Ela
disse que s um mdico pode ajudar!
Olhei para Donato, perguntando:
- Onde est o mdico da cidade?
-Esse  o meu problema, no tenho mdico.
Sem pensar ou esperar, sabendo que a situao era grave, perguntei
para o homem: 
- Onde ela est? 
-L fora na carroa, junto com a dona Teresa. 
- Vamos l, vou ajudar sua mulher, precisamos traz-la para dentro. 
Samos correndo e trouxemos a mulher para a sala de cirurgia. Quando 
terminei de deit-la, percebi que o caso era grave. Como j havia passado 
por muitas situaes como aquela no hospital, passei a mo por sua cabea, 
dizendo: 
- Agora, precisa ficar calma, sou mdico e a sua criana vai nascer 
muito saudvel. 
Olhei para uma senhora que estava ali, tremendo muito. Perguntei:
127


A Fora do Destino 
-A senhora deve ser a parteira, no ? 
-Sou, sim, doutor, j ajudei muita criana a nascer, mas dessa eu no 
estou dando conta, no! 
- Muito bem, agora, vou precisar da sua ajuda. Esta criana vai 
nascer! Aqui, nesta sala, temos tudo do que precisamos. Est disposta a me 
ajudar? 
- T, Doutor! Claro que t! 
-Est bem, vamos comear. 
Olhei para o marido e Donato que estavam ali parados e assustados. 
Eu, calmo, disse: 
-Agora, vocs dois podem sair da sala e no se preocupem, ela e a 
criana ficaro muito bem, no , me? 
Diante do meu sorriso e da tranqilidade que demonstrei, a jovem 
senhora disse para o marido: 
-Pode ir, Z, eu vou ficar bem e a nossa criana tambm. 
O marido beijou sua testa e, acompanhado por Donato, saiu. Assim 
que saram, examinei a moa e percebi que a criana no estava na posio 
correta para nascer e, como j havia passado muito tempo, eu no teria 
como fazer com que ela chegasse  posio correta. Tanto a me como a 
criana estavam sofrendo muito. Olhei para um armrio de vidro e percebi 
que ali havia remdios e aparelhos cirrgicos. Disse: 
-No temos muito tempo, preciso fazer uma cesariana. Tudo bem, 
me?
Ela, com uma expresso de muita dor, respondeu: 
- Tudo bem, doutor, ajude a minha criana... 
-Fique tranqila, a sua criana vai ficar bem e a senhora tambm. 
Ela sorriu e fechou os olhos. Perguntei para a senhora que veio 
acompanhando o casal: 
- Como  mesmo o seu nome? 
- Teresa, doutor. 
-Pois bem, Teresa, voc precisa pegar estes aparelhos que vou lhe dar e 
esterilizar. Enquanto isso, aplicarei a anestesia. 
Prontamente, ela fez o que pedi. Depois de aplicar a anestesia, comecei 
a cirurgia. Logo o choro de uma criana se fez ouvir. A jovem estava 
anestesiada da cintura para baixo, por isso estava consciente. Eu, com a 
128


A Fora do Destino 
criana nas mos, disse para ela, que chorava e sorria: 
-Aqui est a sua criana,  um menino, ele  grande e est bem. 
Coloquei a criana por um minuto em seu colo, depois entreguei-a para 
a parteira, que cuidou dela enquanto eu terminava a cirurgia. Quando 
terminei, disse para a jovem me: 
-Agora, a senhora vai ficar aqui por algumas horas, depois poder ir 
para sua casa. Preciso que faa isso, porque aqui no tem enfermeira para 
cuidar da senhora e da criana, mas a Terezafar isso, no far? 
- Fao, doutor, claro que fao. Ela vai ficar deitada at quando o 
senhor mandar. 
-A senhora vai para casa, mas dever ficar em repouso por dois ou trs 
dias. Depois, aos poucos, ficar bem para cuidar do menino. 
- Obrigada, doutor, pensei que ia morrer ou perder a minha 
criana... 
- Passou por maus momentos, mas agora est tudo bem. A senhora 
viver e a sua criana tambm. 
Fechei os olhos e, virado para o canto da parede, agradeci a Deus, por 
todo o tempo em que trabalhei na emergncia do hospital. Sim, pois eu 
ainda no era cirurgio, mas j havia passado muitas vezes por aquela 
situao. Graas a isso, consegui salvar aquelas duas vidas. Sa da sala. 
Donato e o pai da criana me esperavam ansiosos. Sorrindo eu disse para 
o pai: 
-Sua criana nasceu e  um menino! 
-Eu sei que nasceu doutor, ouvi o choro dele, mas a minha mulher, 
como est? 
-Passou por maus momentos, mas agora est bem, s precisa de alguns 
dias de repouso. 
Ele pegou a minha mo e disse, enquanto tentava beij-la: 
-Doutor, eu no tenho dinheiro para pagar, mas, na semana passada, 
nasceu um leitozinho e vou dar para o senhor. 
Comecei a rir e, impedindo que beijasse a minha mo, disse: 
-No fique preocupado com isso, eu estou apenas passando por aqui. 
Agora, pode entrar e ver a sua mulher e o seu filho. 
Ele entrou correndo para a sala. Olhei nervoso para o Donato e 
perguntei: 
129


A Fora do Destino 
-Donato! Voc disse que no tem mdico na cidade?! 
-Disse, havia o doutor Evaristo. Durante muitos anos, ele viveu aqui 
e atendeu as pessoas como pde. Ele era muito bom e respeitado. Sofreu 
ataque cardaco e morreu. Desde ento, a cidade ficou sem mdico. 
-Por que no contrata outro? Se eu no estivesse aqui, essa moa e a 
criana teriam morrido! 
-Depois que o pronto-socorro ficou pronto, tentei contratar um mdico,
mas a cidade  muito pobre e no pode pagar um bom salrio, por isso no
 consegui nenhum at agora. Por que voc no fica aqui, at eu conseguir 
outro? 
-Eu!? No, no posso! Trabalhei muito tempo no hospital, decidi que 
agora j posso montar o meu consultrio em So Paulo e fazer a minha 
especializao. Vim para a fazenda, somente para descansar, mas pretendo 
voltar no fim de semana. J estou na fazenda h quase dois meses e a 
faculdade vai comear, preciso fazer a matrcula. Desculpe, mas no posso,
a minha vida j est decidida. 
-Est bem, no posso lhe obrigar a viver neste fim de mundo. Porm, 
aqui tem muitas pessoas que precisam de voc. Nem que seja at eu conseguir 
um mdico. 
-No. Sinto muito, Donato, mas no posso. Teria que mudar todos os 
meus planos e a minha vida. 
-Est bem. Precisamos voltar para a Prefeitura e ver se est tudo bem. 
Depois, iremos para a minha casa, quero que reencontre a Valria. Ver 
como ela est linda! 
-Vamos, mas amanh, bem cedo, quero retornar para a fazenda, para 
me despedir do meu pai e partir. 
-Est bem, vamos. 
Samos em direo  Prefeitura. Depois, fomos para a casa de Donato, 
onde pude constatar que ele tinha razo. Valria, realmente, transformouse 
em uma linda mulher. Assim que me viu, ficou feliz, conversamos muito 
sobre a nossa infncia, contei a ela o que desejava fazer dali para a frente. 
Passei aquela noite e, no dia seguinte bem cedo, voltei para a fazenda do 
meu pai. Assim que cheguei contei a ele que Donato estava muito bem e 
contei tambm da jovem senhora e da criana. Quando terminei, ele me 
disse: 
130


A Fora do Destino 
- Veja s, meu filho. O Brasil  um pas to grande! H cidades que 
podem ser consideradas de primeiro mundo, mas ainda existem cidades 
como Carim que nem um mdico pode ter. Como tem gente que sofre 
neste pas...
- verdade, meu pai. Donato me fez uma proposta. 
- Que proposta? 
Contei a ele a proposta do Donato. Quando terminei, ele perguntou: 
-Por que no aceita? Tenho muito dinheiro, o suficiente para mant-lo 
l, mesmo que o salrio seja baixo. Fazendo isso, estar ajudando a muita 
gente! 
Fiquei nervoso: 
-No, pai! No posso! J decidi a minha vida! Vou para So Paulo, 
montar o meu consultrio e fazer a minha especializao! 
-J esperou tanto tempo, pode esperar um pouco mais! O Donato  
seu amigo e est precisando da sua ajuda! Alm dele, muitas outras pessoas. 
Outras iguais a essa moa que voc atendeu. Voc mesmo disse que se no 
estivesse l, ela e a criana poderiam ter morrido! 
- No, pai! Desculpe, mas no posso mudar os meus planos! No 
posso! 
Ele no insistiu e mudamos de assunto. Na sexta-feira seguinte, o 
Otaviano me levou para o aeroporto, onde eu tomaria um avio para So 
Paulo. Um amigo meu, que morava l, j tinha alugado um apartamento, 
eu s teria de encontrar um local para o meu consultrio e fazer a minha 
inscrio na faculdade. J estava tudo certo. Nada poderia me fazer mudar 
de idia.
Campelo levantou-se e foi para a cozinha. Estava com sede. Tornou
a pegar gua da moringa. O calor era imenso. Tentou parar de pensar 
e dormir, mas no conseguiu. As lembranas no saam de sua cabea. 
Retornou para o quarto, deitou-se novamente e continuou pensando 
naquele dia: 
Durante todo o tempo da viagem at o aeroporto, fiquei lembrando-me 
da jovem senhora e da felicidade que senti, quando peguei aquela criana em 
minhas mos. Fiquei pensando tambm na proposta de Donato. Quando 
chegamos ao aeroporto, eu e o Otaviano estvamos tirando as malas do 
carro, parei por um instante, pois senti uma espcie de vertigem. Encostei- 
131


A Fora do Destino 
me no carro. Otaviano assustou-se e, enquanto me segurava, perguntou: 
- O que voc tem? Est branco como papel! 
-No sei, talvez uma queda de presso,  melhor eu me sentar e esperar 
um pouco. 
Ele ajudou-me a sentar no banco do passageiro e deixou a porta aberta. 
Debrucei-me sobre os joelhos e fiz com que a minha cabea ficasse abaixo
deles. Aos poucos fui melhorando. Mas fiquei preocupado, como mdico eu
sabia que aquilo poderia ter vrios motivos e, tambm como mdico, eu
nunca me consultava com outro colega ou fazia qualquer tipo de exame.
Ainda assustado, ele perguntou: 
-Acha que est em condies de viajar? 
-No sei, vamos esperar mais um pouco. Se eu no melhorar, acredito ser 
melhor voltarmos. Depois, verei o que posso fazer com a minha passagem. 
Fiquei ali, sentado. Estranho... s agora estou percebendo que, enquanto 
estive ali sentado, parecia que uma voz me dizia: 
-Voc no pode ir embora, tem muito o que fazer em Carim. Precisa 
voltar para l. O seu destino est l. 
Em seguida, eu me lembrei da criana que havia ajudado a nascer, do 
sorriso da me e da felicidade do pai, querendo me dar um leito. Quando 
percebi que estava bem, disse para o Otaviano: 
-Estou bem, mas no quero mais viajar, quero voltar para a fazenda. 
Otaviano me olhou e, ainda assustado, perguntou: 
-Est bem mesmo? 
-Estou sim, mas no vou para So Paulo. No por enquanto. 
Ele ficou feliz com a minha deciso, pois gostava muito do meu pai 
e sabia o quanto ele queria que eu no fosse embora. Quando cheguei  
fazenda, meu pai, feliz e ansioso, perguntou: 
-Voc no viajou? 
-No, meu pai. Tomei uma deciso, vou para Carim. 
-Vai mesmo? Isso  muito bom! Ao menos ficar mais perto da fazenda 
e poder me visitar mais vezes! Tomou a deciso certa! 
-No sei se  a deciso certa, mas sinto que, se fosse embora, nunca me 
perdoaria por no ter ajudado aquelas pessoas. No vou ficar muito tempo, 
s at o Donato encontrar um outro mdico. 
-Vai ficar o tempo que for preciso. Deus sabe o que faz e se voc mudou 
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A Fora do Destino 
de idia to de repente, deve ter um motivo para isso. Tenho certeza de que 
l vai encontrar o seu destino. 
- Que destino que nada, pai! S estou adiando o meu consultrio e minha especializao por um tempo, mas pretendo retomar a minha vida 
o mais rpido possvel. 
-Est bem, no vamos discutir. Quando pretende ir? 
-Amanh bem cedo. Vou ver o que o Donato tem para me oferecer e 
deixar bem claro que no ser por muito tempo. 
-Faa isso, meu filho, e que Deus o abenoe. 
No dia seguinte bem cedo, no jipe da fazenda e acompanhado por 
Otaviano, sa da fazenda.
Enquanto ele dirigia, eu disse:
-No entendo o que est acontecendo comigo, Otaviano, nem porque
estou indo para Carim... isso estava totalmente fora dos meus planos,
parece to estranho!
-... A vida  mesmo assim, a gente no entende nada dela, mas no
fim tudo est e d sempre certo. Tudo tem de ser como tem de ser... 
Ele disse aquilo, com a simplicidade que s um homem simples como 
ele poderia dizer. Embora ele dissesse aquilo com tanta convico, eu 
me perguntava o porqu de tudo aquilo estar acontecendo. Assim que 
chegamos  cidade, pedi-lhe que fosse direto para a Prefeitura. Chegamos 
no exato momento em que Donato estava saindo. Assim que nos viu, disse, 
entusiasmado: 
-Voc no deveria estar em So Paulo? 
-Deveria sim, mas desisti. 
Donato, ao me ver, percebeu que eu havia aceitado seu convite. Mesmo 
assim perguntou: 
-Posso saber por que est aqui? 
-Estive conversando com meu pai e pensei muito na proposta que voc 
me fez. Disse que est com dificuldade para arranjar um mdico e que a 
cidade precisa com urgncia de um. Por isso, resolvi aceitar, s que no vai 
ser por muito tempo. 
Donato no conseguiu esconder a sua felicidade. Abraou-me, 
dizendo: 
-Meu amigo! No sei por que, mas eu sentia que voc pensaria melhor
133


A Fora do Destino
e voltaria. Conheo voc desde criana e sei que sempre gostou de ajudar.
Seja bem-vindo  nossa cidade. Aqui, ser feliz! 
- Realmente, as pessoas desta cidade precisam do meu trabalho, mas 
volto a lhe dizer que ser s por pouco tempo. O que voc tem para me 
oferecer? 
Donato ficou srio enquanto respondia: 
- O mximo que posso lhe oferecer so trs salrios mnimos, uma casa
e uma empregada domstica. Nada, alm disso. Voc aceita?
- Pensei por um instante, sabia que o salrio no seria muito, mas 
nunca imaginei que fosse to pouco. Pensei em desistir, pois teria chance de 
ganhar muito mais em So Paulo, mas respondi: 
- Est bem, no precisarei nada alm disso. Quando poderei me 
mudar? 
-Agora mesmo. Venha comigo, a Prefeitura tem uma casa que fica na 
rua principal. No caminho, falarei com a dona Antonieta, ela trabalha na 
Prefeitura e poder cuidar da sua casa e de voc. 
-Est bem, vamos. 
Viemos para esta casa, mudei naquele mesmo dia e comecei a trabalhar
no pronto-socorro. Logo fiquei conhecido e conheci as pessoas. J estou aqui
h quase oito meses, sei que ficarei por muito tempo, pois mdico algum,
 depois de estudar tantos anos e gastar uma fortuna na faculdade, vai querer
vir para uma cidade como esta, perdida no fim do mundo. Mas estou bem,
no tenho queixas, alm do mais, no tenho tempo para isso. O trabalho 
 muito. 
Levantou-se da cama novamente. Foi para a cozinha e tomou mais
um pouco de gua. Abriu a janela, olhou para a rua.
O calor est imenso, talvez seja por isso que no estou conseguindo 
dormir. Acho melhor andar um pouco. Assim, ficarei cansado e, quando 
retornar, conseguirei dormir. 
Foi o que fez, saiu da casa e comeou a andar sem destino. Quanto 
mais olhava aquela rua, menos entendia o que havia se passado em sua 
vida.
Por que ser que tive que vir para c? Estava com a minha vida toda
planejada e de repente ela mudou e tomou um rumo completamente 
diferente. O que vim fazer nesta cidade? 
134


A Fora do Destino 
Sem que esperasse, a imagem de Cida surgiu em seu pensamento. 
Ele caminhava e pensava: 
 uma moa to bonita, mas quem ser? Por que penso tanto nela? Estou 
querendo disfarar, porm j faz dias que os meus pensamentos tm sido s 
para ela. Ser que estou gostando dela? Acho que sim, pois fiquei muito 
triste quando a Jurema disse que ela no quer vir mais para a consulta. 
Tremi por dentro ao pensar que nunca mais poderei v-la nem conversar 
com ela. Depois disso, foi que senti essa depresso e essa insnia. Ser que 
estou apaixonado? Ser que foi por isso que mudei toda a minha vida? Ter 
sido para encontr-la? 
Pensando nisso, voltou para casa, deitou-se e adormeceu. 
No dia seguinte, Cida abriu os olhos, tambm no havia dormido 
bem. Acordou vrias vezes pensando nele. Seu corao batia forte, no 
se lembrava de ter tido um sentimento como aquele. Ainda na cama, 
espreguiou-se, seu pensamento estava confuso. 
O que  isso que est acontecendo? Por que no consigo pensar em outra 
coisa que no seja ele? Ser que, algum dia, senti algo parecido? Nem sei por 
que estou pensando nisso. A Jurema disse que ele tambm sente o mesmo, 
mas isso  coisa da cabea dela, at agora no percebi nada. Ele s  gentil 
e me trata como uma paciente. 
Levantou-se, Jurema estava na cozinha tomando o caf que Neco 
havia preparado. 
-Bom-dia. Pensei que fosse demorar mais tempo para acordar. 
-Bom-dia, Jurema, por que est dizendo isso? 
- Percebi que no dormiu bem, ouvi voc se virar muito na cama 
durante a noite. Teve um sonho ruim? 
-No, apenas no consegui dormir, estava sentindo muito calor. 
-Foi s isso? 
-Claro que foi s isso! O que mais poderia ser? 
-No precisa ficar nervosa, s estou perguntando... 
-No estou nervosa, s no gosto quando as pessoas no acreditam 
naquilo que falo! 
- Est bem, desculpe, s pensei que voc no conseguia dormir, 
porque no esquece o doutor. 
-De onde tirou essa idia? 
135


A Fora do Destino 
-J passei por isso e sei como ... 
- Pois no est acontecendo nada, ele  s o meu mdico, nada 
alm! 
- Est bem, est bem, j disse que no precisa ficar nervosa, quer 
tomar caf? 
-No! No quero! Vou para o barraco! Hoje h muito trabalho. 
Precisamos terminar a encomenda do seu tio, ele deu prazo at amanh, 
voc esqueceu? 
-No esqueci, Cida, mas voc tem tempo para tomar caf. 
-No quero! No estou com vontade! 
Dizendo isso, saiu nervosa. Jurema ficou ali sorrindo e pensando: 
Ela est doidinhapor ele... 
Cida foi para o barraco, pegou uma blusa que estava terminando 
de bordar, mas, por mais que quisesse, no conseguia esquecer o doutor. 
Sua imagem e seu sorriso no saam do seu pensamento. Ela estava 
assustada, no sabia o que fazer com tudo aquilo, estava nervosa por 
perceber que Jurema sabia o que estava acontecendo. 
Aps terminar de tomar o caf, Jurema foi para o barraco, sentouse 
e comeou a bordar, conversaram sobre vrios assuntos, menos sobre 
o doutor Campelo. Quando chegou a hora, ela voltou para a cozinha 
e foi preparar o almoo. Assim que terminou, foi at a plantao,
chamar Neco. Ele estava em p, com a enxada na mo. J havia colhido, 
preparado a terra e semeado novamente. Agora, estava tudo verde e 
crescendo. A chuva havia sido constante, e com ela, no havia no 
mundo, terra melhor que aquela. Jurema aproximou-se. Assim que ele 
a viu, disse: 
-Jurema, tomara Deus que a chuva continue. Se continuar assim, 
a colheita vai ser muito boa... 
-Vai, sim, Deus vai querer. A comida est pronta. Pode vir. 
-J estou indo. Voc est bem? 
-Estou bem. S um pouco pesada, esta barriga est muito grande. 
- ... Acho que vai ser uma criana bem grande, maior que a 
Dalvinha...
-Tambm acho, quando estava esperando a Dalvinha, no engordei 
tanto, mas venha!
136


A Fora do Destino 
Neco largou a enxada e abraado  Jurema, foi para casa. Estavam 
quase chegando, quando ele, olhando para o barraco e vendo Cida 
compenetrada no trabalho, perguntou: 
-Conversou com ela, Jurema? Descobriu por que ela no conseguiu 
dormir? 
-Conversei, mas ela disse que foi o calor, s que a gente sabe que 
no foi nada disso, no  mesmo? 
Neco no respondeu, apenas sorriu. Assim que passaram pelo 
barraco, chamaram Cida para o almoo. Ela levantou-se e os 
acompanhou. Almoaram em paz. Aps o almoo, como j estava 
fazendo h alguns dias, Jurema foi descansar. Gostava de ficar deitada, 
sonhando com a sua criana. Duas horas depois, ela se levantou. Cida 
estava no barraco e Neco na plantao. Jurema colocou gua no fogo 
para preparar um ch. Estava saindo da casa, quando viu um cavaleiro 
que se aproximava. Pela distncia em que ele estava, no conseguiu 
distinguir quem era, mas  medida que ele foi se aproximando, 
reconheceu-o: 
Doutor?! O que ser que ele est fazendo por aqui? 
Assim que chegou perto, desmontou e, sorrindo, disse: 
-Boa-tarde, dona Jurema, como a senhora est? 
-Estou bem, mas o que traz o senhor at aqui? 
-Fiquei preocupado com a senhora e vim ver como est passando. 
-Preocupado comigo? Por qu? O senhor recebeu o resultado dos 
meus exames? Est acontecendo alguma coisa com a criana? 
-No  nada disso! Fique calma, no recebi ainda o resultado mas, 
pelo exame que fiz, est tudo bem. 
-Ainda bem, o senhor me assustou, eu estou passando muito bem, 
mas a gente nunca sabe, no  mesmo? 
-  sim, mas no fique preocupada, a senhora e a criana esto 
bem. E os outros tambm esto bem? 
Jurema, percebendo qual era a sua verdadeira inteno, sorriu com 
ironia e respondeu: 
-O Neco est na plantao e a Cida est no barraco. Foi bom que 
o senhor veio, ela no est bem, no. 
-No est bem? O que ela est sentindo? 
137


A Fora do Destino 
-No sei no doutor, s sei que, esta noite, ela quase no dormiu. 
-No dormiu por qu? 
-Ela disse que foi porque estava muito calor, mas no sei no... 
Ele ficou nervoso e no percebeu o olhar de deboche dela que, 
apontando para o barraco, disse: 
-Ela est l no barraco, por que o senhor no vai at l? 
Sem nada dizer, ele foi at o barraco. Jurema ficou olhando, 
sorrindo e pensando: 
Ele est doidinho por ela...
Cida tentava concentrar-se no trabalho, mas estava sendo difcil. A
imagem dele no a deixava em paz. Estava com os olhos baixos, olhando 
para o trabalho, quando ouviu: 
-Boa-tarde, Cida, a dona Jurema disse que voc no est bem... 
Ao ouvir aquela voz, comeou a tremer e no conseguia acreditar 
que ele estivesse ali. Pensou ser um sonho e por isso no tinha coragem 
de levantar a cabea. Ele insistiu: 
-Boa-tarde, Cida! 
No tendo alternativa, tremendo muito e branca como papel, ela 
levantou a cabea, pensando: 
Meu Deus,  ele mesmo! 
Ficou olhando para ele sem nada dizer e, por mais que tentasse, a 
voz no saa. Ele, preocupado com a sua cor, aproximou-se, dizendo: 
-A Jurema tem razo, voc no est bem. 
Ao ver a preocupao em seu rosto e tentando recompor-se, disse: 
-Estou bem, Jurema est preocupada  toa. Foi ela quem mandou 
chamar o senhor? 
-No, no foi ela. Eu quis vir. 
-Por qu? 
- Para lhe perguntar: por que voc no quis ir ao pronto-socorro
me ver? Vim aqui para saber qual foi o motivo, saber se eu disse ou fiz
algo que a desagradou.
 - No, o senhor no fez nada, eu apenas acredito que no est 
adiantando, no est me ajudando. Depois de tantas conversas, eu 
Continuo sem recordar o meu passado. 
- Eu lhe disse que no seria fcil, precisamos esperar que o meu 
138


A Fora do Destino 
amigo volte do exterior para ter mais informaes, porm, at isso 
acontecer, poderemos continuar com as nossas conversas. 
Ela comeou a chorar. 
-No! No quero, no posso mais... 
-No quer? No pode mais, o qu? Por qu? 
-No sei! No sei! 
Dizendo isso, saiu correndo. A princpio, ele ficou parado, atnito,
sem saber o que fazer, depois correu atrs dela.
Neco, na plantao, percebeu quando o cavaleiro chegou. No sabia 
quem era, por isso foi para casa, quando viu Cida sair correndo e o 
doutor correndo atrs dela. Parou um instante, olhou para a porta da 
casa, Jurema estava ali em p e sorrindo. 
-Jurema, que aconteceu? O que o doutor est fazendo aqui? Por 
que a Cida saiu correndo do barraco e ele foi atrs? 
- Calma, Neco! Uma pergunta de cada vez. Ele est aqui, porque 
descobriu que gosta dela. Ela est correndo, porque tem certeza que 
tambm gosta dele, s isso... 
-O que a gente vai fazer, Jurema? 
-Nada, Neco... a gente no vai fazer nada, s vai esperar... 
-Esperar? 
-Isso mesmo, esperar e ver o que acontece. A gente agora vai entrar 
e tomar ch, s isso... 
Ele sabia que Jurema tinha razo, entrou e juntos comearam a 
tomar o ch. Campelo alcanou Cida. Conseguiu fazer com que parasse 
e, nervoso, disse:
-Pare! Precisamos conversar! 
-Ns no temos o que conversar! 
-Temos, sim, e foi para isso que vim at aqui!
Ela, ainda chorando muito, perguntou:
-Veio para qu? 
-Vim para dizer que descobri o porqu de eu ter vindo parar nesta 
cidade no fim do mundo! 
-Descobriu o qu? 
-Descobri o motivo de eu ter vindo parar neste fim de mundo! 
-Qual foi o motivo? 
139


A Fora do Destino 
-Voc disse que eu nada fiz para ofend-la, talvez o que eu v dizer 
agora possa mago-la. Se isso acontecer, peo perdo antecipadamente, 
mas preciso dizer! 
-Ofender?! O que vai dizer? 
- Existe uma tica profissional, que, diz que um mdico nunca 
pode se envolver sentimentalmente com um paciente, mas isso, embora 
no tenha sido a minha vontade, aconteceu. 
-No estou entendendo, o que est dizendo? 
- Estou tentando dizer que, embora seja seu mdico, esta noite 
descobri que estou completamente apaixonado por voc e que o motivo 
de eu ter vindo para esta cidade foi s para conhec-la! Foi o destino 
que me trouxe at aqui! 
Ela arregalou os olhos, aquelas palavras, embora sentisse medo, eram 
as que mais queria ouvir. Tomada de surpresa, se calou, no conseguiu 
responder. Ficou apenas olhando para ele. Ele segurou em seu queixo, 
obrigando-a a olhar em seus olhos. Perguntou: 
-Diga com sinceridade, no est sentindo o mesmo que eu? 
Ela tentou fechar os olhos e desviar o rosto, mas ele continuou: 
-No feche os olhos, apenas olhe em meus olhos e responda! 
-No posso, no posso! 
-No pode o qu? Responder? 
-Isso mesmo, no posso! 
-No pode por qu? 
- Por que no sei quem sou! No sei o que aconteceu no meu 
passado! No sei se, antes, j gostei de algum! No sei se tenho um 
marido! Filhos! Entende por que no posso responder? No sei se tenho 
esse direito! 
Ele soltou-a e se afastou, mantendo uma certa distncia: 
-J lhe disse que isso  s uma questo de tempo. De um momento 
para outro, voc se lembrar! Isso, agora, neste momento, no tem 
importncia... s preciso saber: est sentindo o mesmo que eu? 
- No sei! Acredito que sim, mas no pode ser! No, antes de eu 
descobrir quem sou! 
Ela no percebeu, mas seus olhos estavam abertos e olhando nos 
dele. Ficaram assim, olhando-se por alguns segundos e, mesmo contra 
140


A Fora do Destino 
a vontade dos dois, seus rostos foram se aproximando e os lbios 
tambm. Logo, estavam beijando-se com muito amor e carinho, como 
se estivessem reencontrando-se aps muito tempo. Jurema e Neco, da 
porta da casa, viam aquela cena e sorriam. Aps um longo beijo, seus 
rostos separaram-se, mas continuaram a se olhar. Ficaram assim por um 
longo tempo. Eles mesmos no entendiam o que estava acontecendo, 
mas sabiam que se amavam e muito. Ela foi a primeira a afastar o rosto, 
embora continuasse olhando para os olhos dele. 
-Isso no podia ter acontecido... 
-Por que no? Sei que amo voc e, aps este beijo, sei que me ama 
tambm! 
-No sei ao certo o que significa isso que estou sentindo, mas sei 
que nada poder existir entre ns, antes que eu recupere a memria e
saiba exatamente quem sou. No quero nem posso me arrepender de
uma deciso tomada sem pensar. No quero sofrer nem o fazer sofrer.
-Sei que voc tem razo, mas no suporto a idia de no a vir mais 
nem conversar com voc. No sei quem , mas isso no me importa. 
A nica coisa que sei  que amo voc e que nunca mais vou me separar 
de voc. Nem que seja apenas para conversarmos, como fazamos. Voc 
no quer mais ir ao meu consultrio, mas no pode impedir que eu 
venha at aqui! E eu virei! Pode ter certeza disso! 
-No sei se conseguirei ficar mais ao seu lado. S tenho medo de 
que, ao descobrir quem sou, venha a saber que tenho um outro algum, 
pois, se houver, deve estar sofrendo com a minha ausncia. 
-Mesmo que tenha um outro algum, mesmo que venha a recordarse, 
assim mesmo, nunca mais ser como antes. Tudo mudou em sua 
vida e na minha tambm. Se no quiser algo mais srio, tudo bem, mas, 
por favor, no me pea para deixar de v-la. 
-Est bem, mas voc tem que prometer que vai respeitar a minha 
vontade. 
-Prometo que s farei o que quiser. 
Ela sorriu e de mos dadas foram caminhando em direo a Jurema 
e Neco que, embora distantes, os observavam. Quando chegaram perto, 
Cida disse, sorrindo: 
- Est bem, Jurema, preciso concordar; voc estava com a razo. 
141


A Fora do Destino 
Ns estamos mesmo apaixonados. 
-Isso para mim no  novidade. Desejo toda a felicidade do mundo 
para vocs.
Campelo, colocando o brao sobre o ombro de Cida, disse:
-Ns seremos... Com certeza... 
Jurema olhou para Neco, dizendo: 
-Neco, olha que casal bonito eles so! No  mesmo? 
Ele, sem jeito, respondeu: 
-So, sim, seja tudo o que Deus quiser...
Campelo, nervoso, disse:
- Com tudo isso, esqueci que deixei o  pronto-socorro lotado de
clientes! Preciso ir embora. At mais. No dia da minha folga, voltarei.
 Jurema, rindo, disse: 
-Volta sim, doutor. A gente vai estar esperando. 
Ele deu um beijo na testa de Cida, montou no cavalo e saiu em 
disparada. Ela ficou olhando at que ele sumisse no horizonte. Jurema 
disse: 
-Cida, pode parar de olhar, ele sumiu! 
-Eu sei, Jurema, eu sei, mas no estou acreditando no que aconteceu 
aqui. No podia ter acontecido... 
-Mas aconteceu e agora no tem mais jeito, no. Voc vai ter que 
ficar junto com ele. No  mesmo Neco? 
Neco, enquanto andava em direo da lavoura, respondeu: 
-No sei de nada, no. No quero me meter nessa histria. No 
tenho nada a ver com isso. 
Jurema disse com ar de ironia: 
-Esse Neco... Esse Neco... Foi sempre assim, faz de conta que no 
quer saber das coisas, diz que no se importa com aquilo que no  da 
conta dele, mas est sempre com a orelha em p. 
Cida no ouviu o que ela disse. Ainda sentia em seus lbios o 
sabor daquele beijo. Para ela, foi como se fosse o primeiro, pois no 
se lembrava de ter tido outro em sua vida. Jurema, percebendo que ela 
estava com o pensamento distante, disse: 
- Cida, volta para Terra! No adianta ficar pensando. Tudo 
aconteceu porque Deus quis, agora,  s esperar e ver o que vem l na 
142


A Fora do Destino 
frente. Para todos os problemas da vida, s o tempo tem resposta.  
melhor a gente voltar para o barraco e terminar o trabalho. Assim, o 
Neco pode, amanh, levar para a cidade. 
Voltaram para o barraco. Enquanto Jurema tecia renda, Cida 
bordava. Tentava esquecer tudo o que aconteceu, mas foi em vo. O 
rosto dele no saa do seu pensamento: meu Deus, faa com que eu me 
recorde do meu passado. No permita que eu tenha um outro algum, ele 
teve razo quando disse que nunca mais ser como antes. Eu sinto que o 
amo e que ele  o homem da minha vida. Por favor, Deus, faa com que eu 
me recorde! Preciso disso! Agora mais do que nunca... 
Jurema percebeu em que ela estava pensando, disse: 
- Sabe, Cida, do destino ningum foge. Ele tem uma fora 
danada... 
Aps dizer isso, saiu do barraco, deixando Cida pensar naquilo que 
havia dito. 
Antes do jantar, terminaram a encomenda de Dorival e colocaram 
em caixas, pois no dia seguinte bem cedo, Neco iria para a cidade 
entregar. Sabiam que o Dorival estava esperando ansioso. Jantaram e 
foram se deitar. 
143



Momentos de Desespero Momentos de Desespero 
Era noite alta quando Jurema acordou. Ficou deitada na rede por 
mais algum tempo, depois se levantou. Foi at a cozinha, avivou as 
brasas do fogo e colocou gua em uma chaleira. Sentou-se em uma 
cadeira e ficou esperando a gua ferver. Estava assim quando Neco se 
aproximou. 
-Jurema, o que aconteceu? Por que se levantou? 
-Estou com uma dor estranha aqui nas costas... 
-Voc acha que  a criana? Acha que ela vai nascer?
Jurema comeou a  rir:
- Claro que no! Ainda no est no tempo. Falta mais de um
ms. Voc no lembra quando a Dalvinha nasceu? A dor no  nas 
costas, mas na barriga, Neco! Acho que dei mau jeito, s isso. Vou 
tomar um ch de cidreira e depois vou me deitar. Pode ir dormir, 
Neco, estou bem. 
Ele, sem ter opo e por estar cansado da lida, foi se deitar e
adormeceu. Jurema, aps preparar o ch, tomou-o e voltou para a rede.
Porm, durante a noite, acordou vrias vezes, ficou quieta, pois no 
queria assustar Neco. No dia seguinte, acordou e foi para a cozinha. 
Quando entrou, ele estava terminando de coar o caf. 
-Bom-dia, Neco. 
-Bom-dia, passou a dor nas costas? 
Ela mentiu: 
-Passou. Foi s um mau jeito mesmo. 
-Voc no quer ir comigo para a cidade e consultar o doutor? 
- No, ainda falta mais de um ms para a criana nascer e j lhe 
disse que a dor  na barriga, no  nas costas. Pode ir sossegado, vou 
ficar bem. 
- Voc sabe que tenho muita coisa para fazer na cidade e s vou 
voltar quase  noitinha. No quer mesmo ir comigo? Pode consultar o 
doutor e depois ficar na casa da tia, at eu terminar tudo o que tenho 
para fazer. 
-No vou, no. Estou muito pesada e o balano da carroa me faz 
mal. Pode ir sossegado, estou bem. Na semana que vem, tenho consulta 
145


Momentos de Desespero 
marcada com o doutor. Se ele achar melhor, fico na casa da tia de vez 
at a criana nascer. 
-Voc que sabe. Preciso ir. 
-V, Neco e no fique preocupado. Quando voc voltar, eu vou 
estar aqui do mesmo jeito. Sabe que no estou sozinha, a Cida est 
comigo. 
- Sei disso, mas se acontecer alguma coisa, ela no vai poder fazer 
nada, nem me chamar na cidade, porque no tem conduo. Voc sabe 
que o nosso vizinho mais perto fica a mais de quarenta minutos a p. 
Pense bem. No quer mesmo ir comigo? 
-No quero, Neco, vou na semana que vem. 
-Est bem, agora preciso ir. 
Cida acordou, foi para a cozinha no momento em que ele estava 
saindo. Ao v-la, disse: 
-Cida, estou um pouco preocupado... 
-Por qu, Neco? 
- Jurema passou a noite toda com dor nas costas. Quero lev-la 
comigo para a cidade, mas ela no quer ir. Voc sabe como essa mulher 
 teimosa... 
Cida olhou assustada para Jurema. 
-Jurema! No  melhor ir com ele? 
- Voc tambm, Cida? No tenho nada, deve ter sido um mau 
jeito, nada mais. J disse ao Neco que, quando a criana vai nascer, di 
na barriga e no nas costas. Tambm, falta ainda mais de um ms. V 
embora, Neco, fique sossegado. 
Neco, balanando a cabea num sinal claro de preocupao e 
desagrado, montou na carroa e foi embora. Apesar de naquele dia no 
haver trabalho do Dorival, pois Neco s retornaria mais tarde, foram 
para o barraco. Precisavam completar o enxoval da criana. Toda a 
roupinha estava sendo feita com extremo carinho. 
A dor que Jurema estava sentindo no passava, ao contrrio, 
aumentava a cada instante. Estava quase na hora do almoo, quando 
ela disse: 
-Cida, no sei no, mas a dor no passou e est ficando pior. Ser 
que a criana vai nascer? 
146


Momentos de Desespero 
Cida, apavorada, quase gritando, disse: 
- No sei, Jurema! No me lembro de ter tido uma criana, mas 
voc devia saber como ! J teve a Dalvinha! Acha que pode ser? Jurema! 
Voc tem que saber! Acha que ela vai nascer? 
- Pensava que sabia como era, mas, agora, estou achando que vai 
nascer sim... porque agora a dor est na barriga tambm... 
-Jurema! No diga isso! O que vamos fazer? O Neco s vai voltar 
 tarde! Ns no temos conduo! 
Jurema ia responder, mas a dor ficou mais forte e ela soltou um 
gemido alto. Depois de alguns minutos, conseguiu falar. 
-No sei, no, Cida, mas acho que vai nascer, sim. Mas quem sabe 
 s um mau jeito mesmo. Vou me deitar um pouco l na rede para ver 
se passa. 
-Vai, assim como voc, no acredito que seja a criana, ainda falta 
muito tempo. 
Jurema voltou para casa e foi se deitar. Cida acompanhou-a. Depois 
de acomod-la, saiu da casa. Olhou e s viu um horizonte deserto. 
De repente ouviu um grito de Jurema. Voltou correndo para dentro 
da casa. Com uma expresso de dor no rosto, Jurema disse: 
-A dor continua e est aumentando cada vez mais, Cida! Acho que 
a criana vai nascer mesmo. 
Elas foram entrando em desespero. Cida no sabia o que fazer. 
No podia deixar Jurema sozinha e ir buscar ajuda no vizinho mais 
prximo. Seu corao comeou a bater forte. Estava em pnico e a 
cada minuto que passava a dor de Jurema ficava mais forte, tanto que 
ela no conseguia deixar de gritar. Cida pressentia que o momento 
estava se aproximando, ficou andando de um lado para outro. Jurema, 
deitada na rede, se contorcia e, tentando no gritar para no deix-la 
mais assustada ainda, desesperada, sem saber o que fazer, chorando, em 
pensamento, comeou rezar: meu Deus do cu, minha Nossa Senhora, me 
ajude... no deixa nada de ruim acontecer com a minha criana... 
Cida, desesperada, no ouvia mais Jurema. Em seu pensamento, 
surgiu aquela cena do sonho, onde via homens vestidos de branco e 
com mscara na boca. O mesmo sonho, em que dona Betina aparecera 
e falara com ela. Por um momento, pareceu se lembrar de algum lugar 
147


Momentos de Desespero 
em que j estivera. Uma onda de confiana e esperana surgiu em sua 
mente e, gritando, disse: 
-Jurema, a sua criana vai nascer bem. Vai nascer e tudo dar certo, 
no acontecer nada de mal. S que voc no pode continuar na rede. 
Vou ajud-la, vai ficar deitada na minha cama. Venha! 
Abaixou-se, segurou Jurema pela cintura e levantou-a. No sabia 
explicar de onde vinha toda aquela fora, mas, em poucos minutos, 
Jurema estava deitada. Assim que a colocou na cama, disse: 
-Agora, voc vai ficar quietinha, vou sair, mas volto logo. 
-Aonde voc vai, Cida? Vai me deixar sozinha? 
- Claro que no! Vou preparar tudo para esperarmos a criana 
chegar! Fique calma, j volto! 
Assim dizendo, foi para a cozinha. No fogo, havia uma chaleira 
com gua quase fervendo. Jurema, antes de comear a passar mal, havia 
colocado para fazer o arroz. Cida pegou um caldeiro maior, encheu 
de gua e o colocou sobre o fogo, que estava com a brasa bem forte. 
Em seguida, foi para o barraco, pegou uma tesoura que usava para o 
bordado, voltou rpido para dentro da casa. Colocou a tesoura dentro 
da chaleira e deixou fervendo. Foi para o quarto. Jurema contorciase 
em dores. Cida acomodou-a melhor, tirou suas roupas, pegou uma 
toalha, colocou ao lado da cama e examinou Jurema. Embora com 
muita dor, Jurema no a estava reconhecendo, parecia que ela havia se 
transformado em outra pessoa. Ela agia, como se soubesse o que estava 
fazendo, como se tivesse feito aquilo muitas vezes. A dor ficou cada vez 
mais forte. Tranqila, Cida disse: 
-Est quase na hora. Fique calma, vai dar tudo certo. 
Dizendo isso, foi para a cozinha. Retirou a tesoura da chaleira e 
colocou-a enrolada em um pano de prato branco e muito limpo. Em 
seguida, lavou as mos com sabo de cinza, pegou uma bacia e colocou 
a gua. Com a tesoura enrolada no pano e a bacia, foi para o quarto. De 
uma mala, onde estavam as roupinhas da criana, retirou uma toalha. 
Colocou-se em posio de espera. Ficou conversando com Jurema, 
dizendo a hora em que ela deveria fazer fora ou parar e ensinou como 
deveria respirar. Mais ou menos uma hora depois, a criana nasceu. 
Jurema sorria e chorava. Cida, compenetrada, segurou firme a criana, 
148


Momentos de Desespero 
cortou o umbigo viu que era um menino. Enrolou-o na toalha e 
colocou-o sobre Jurema, dizendo, feliz: 
- um menino, Jurema!  um menino! 
Agora, as duas choravam. Jurema, feliz por poder ter o seu menino, 
e Cida, por ver que no final tudo deu certo. Por alguns instantes, 
enquanto cuidava de Jurema, deixou o menino sobre seu peito dela. 
Assim que a placenta foi expelida, cobriu Jurema, pegou o menino, 
lavou-o e vestiu-o. Jurema, em silncio, acompanhava os seus gestos. 
Aps lavar e vestir o menino, Cida devolveu-o para Jurema, dizendo: 
- Pronto, est feito! Ele nasceu e parece que est tudo bem, mas
assim que o Neco chegar, ele vai ter que voltar e levar voc para que o
doutor a examine.
Jurema, com ar de felicidade e espanto, disse:
-Coitado do Neco, nem imagina o que aconteceu aqui...
-  mesmo, Jurema, mas o que importa  que tudo est bem. Ele
vai ficar feliz quando conhecer esse menino lindo!
Jurema olhou para o menino, depois para Cida, perguntando:
-Cida, voc est bem?
 -Claro que sim, por que est perguntando? 
- Quando o menino estava nascendo, voc parecia outra pessoa, 
seu rosto mudou e o jeito de falar tambm. Que aconteceu? 
Cida ficou pensando por um instante, depois respondeu: 
-No sei, s sei que, naquele desespero em que eu estava, de repente, 
me vi em uma sala cercada por outras pessoas vestidas de branco e com 
uma mscara sobre a boca. Senti que eu sabia o que fazer para ajudar 
voc. No vi mais nada, s a maneira de ajudar esse menino nascer. 
No sei o que aconteceu, mas eu sabia exatamente o que deveria fazer. 
-Cida, ser que voc era mdica? 
Cida comeou a chorar. 
-No sei se era mdica, Jurema! S sei que sabia o que fazer! 
-No se lembra de mais nada? 
Antes de responder, tentando se lembrar, fechou os olhos. Depois, 
disse: 
- No! No me lembro de mais nada! Ah, meu Deus, at quando 
vai durar esse martrio? Preciso me lembrar! Deus! Eu preciso! 
149


Momentos de Desespero 
Essas palavras saram quase como um grito de dor. Ao perceber que 
ela estava nervosa novamente, Jurema disse: 
-No precisa ficar nervosa, o importante  que o meu menino est 
aqui e voc o ajudou a nascer. Voc vai se lembrar do resto mais tarde. 
-... voc tem razo, agora, fique quietinha a. Vou preparar um 
caldo de galinha bem forte e lavar essa roupa suja. Estou ali fora, se 
precisar de alguma coisa, basta chamar. Se conseguir, seria bom que 
dormisse um pouco. Deve estar muito cansada. 
- Estou mesmo, mas no sei se vou conseguir dormir. Estou 
louca para ver a cara do Neco quando ele chegar e conhecer o nosso 
menino. 
Cida sorriu enquanto pegava as roupas sujas. Estava saindo, quando 
viu ao longe, a carroa de Neco se aproximando e bem  sua frente, 
correndo muito, vinha tambm um cavaleiro. Ao v-lo, o seu corao 
comeou a bater mais forte. Disse baixinho: 
-O doutor veio com o Neco! Graas a Deus! 
Ao ver Cida com aquelas roupas sujas de sangue, apertaram o passo. 
O doutor veio em disparada, Neco, embora quisesse, no conseguiu 
acompanh-lo, pois o cavalo era mais lento. Assim que se aproximou, e 
enquanto desmontava, perguntou, assustado:
-Cida, o que aconteceu? Que roupas so essas?
Ela, com os olhos cheios de lgrimas, respondeu:
-O menino da Jurema acabou de nascer... 
-Nasceu? Mas no estava na hora! Como foi isso? 
- No sei, ela comeou a passar mal, eu entrei em desespero e, 
de repente, sabia o que fazer. O menino nasceu, mas foi Deus quem 
mandou o senhor at aqui. No sei se ela est bem. 
Antes que ela terminasse de falar, ele j estava no quarto ao lado de 
Jurema. 
- Dona Jurema, a senhora est sentindo alguma coisa? Alguma 
dor?
- No estou sentindo nada, doutor, e parece que o meu menino 
tambm no. 
- Vou examin-la para ver se est tudo bem, depois verei o 
menino. 
150


Momentos de Desespero 
-Est bem, doutor, mas acho que fui muito bem tratada. O senhor 
no sabe, mas acho que eu tive aqui uma boa mdica... 
Ele, que estava examinando-a, levantou os olhos, olhou para ela e 
depois olhou para Cida. 
- Depois vou querer saber essa histria, por enquanto, preciso 
examinar vocs dois. 
Neco conseguiu chegar. Entrou correndo e, desesperado, aproximouse 
da cama. Viu o doutor examinando Jurema e, ao lado dela, a criana. 
Ajoelhou-se junto a ela, quase chorando, disse: 
-Viu, Jurema! No lhe disse para ir junto comigo! Voc est bem? 
-Acho que eu devia ter ido sim e o nosso menino tambm acha 
isso!
-Menino? No foi a nossa Dalvinha que voltou? 
-Acho que no, mas isso no tem mais importncia. Olha como 
ele  bonito! 
Neco ficou olhando para o menino, sem ter coragem de peg-lo no 
colo. Jurema rindo, disse: 
- Neco, depois que o doutor examin-lo, voc pode pegar, ele 
no quebra, no. Ele  igual  Dalvinha e voc a pegava no colo. Pega 
sossegado, a Cida enrolou-o muito bem. Est durinho, durinho. 
Campelo sorriu, e quando terminou de examinar Jurema, disse: 
- Parece que est tudo bem com a senhora, agora vou examinar 
esse menino. 
Examinou bem o menino. 
- Com ele parece que tambm est tudo bem. Embora tenha 
nascido antes do tempo, est com um bom peso. No tenho balana, 
mas posso sentir seu peso na mo. Agora, s precisa ser bem alimentado. 
Neco, se no acontecer nada, quero que, na semana que vem, leve os 
dois para a cidade. Vou dar as instrues para que os dois sejam tratados 
aqui. No acho conveniente que faam uma viagem at a cidade. 
-Eu levo, doutor! Eu levo! 
Cida e Jurema estavam intrigadas com a presena dele ali. Foi 
Jurema quem perguntou: 
-Doutor, por que o senhor veio aqui? 
-Quando o Neco me disse que a senhora estava sentindo dores nas 
151


Momentos de Desespero 
costas, fiquei preocupado e resolvi vir com ele. No vim antes, porque 
s agora  tarde ele foi ao pronto-socorro. Felizmente, est tudo bem.
Olhando para Cida, continuou:
 -Agora quero saber exatamente o que aconteceu aqui. Voc pode 
me contar? 
Ela ficou vermelha, pois desde que se beijaram e ela teve certeza 
de que ele tambm a amava, sempre que pensava nele, seu corao 
batia tanto que chegava a doer. No conseguiu olhar em seus olhos. 
Ele insistiu: 
-Voc pode me contar o que aconteceu? 
No tendo alternativa, ela respondeu: 
-No sei o que aconteceu, fiquei nervosa e, de repente, me vi em 
uma sala com outras pessoas e sabia o que fazer. A nica coisa que me 
importava era ajudar a Jurema e a criana. 
Quando terminou de dizer isso, calou-se. Jurema continuou: 
- Ela fez tudo direitinho, me ajudou fazer fora e parar quando 
precisou. Doutor, acho que ela j foi mdica! 
-Tambm acredito nisso, pois s um profissional agiria da maneira 
como ela agiu. 
Cida arregalou os olhos, dizendo: 
-Ser? No sei! 
-No se lembrou de mais nada? 
-No! S daquela sala e das pessoas que estavam vestidas de branco 
e com uma mscara na boca. O que ser que aconteceu? 
- No momento de medo, desespero e tenso, o seu crebro agiu 
rpido e fez com que se lembrasse do que teria que fazer. Isso  muito 
bom, indica que, como falei, a qualquer momento se lembrar do 
passado. 
-Ser? 
- Claro que sim e isso precisa ser rpido para podermos decidir a 
nossa vida. 
Ela calou-se, ningum mais do que ela desejava que tudo fosse 
esclarecido. Sorriu, seu corao batia confiante. Ele, tambm sorrindo, 
disse: 
-Agora preciso ir embora. Cida, voc me acompanha at l fora? 
152


Momentos de Desespero 
-Claro que sim. Obrigada por tudo. 
Saram juntos. J ao lado do cavalo, ele, dando um beijo em sua 
testa, disse: 
-Sinto que o dia da nossa felicidade est chegando. No se esquea 
nunca de que amo voc. 
Ela, sorrindo feliz, disse: 
-No esquecerei, mesmo que queira. Tambm amo voc. 
Ele montou no cavalo e, acenando, deu adeus e partiu. Ela ficou 
novamente vendo-o sumir no horizonte. Assim que ele sumiu, entrou 
na casa e foi at o quarto. Jurema estava com o menino no colo e 
Neco olhava-o com ternura, sem poder esconder a felicidade. Cida 
aproximou-se, dizendo: 
-Jurema, ele  lindo mesmo, mas qual vai ser o seu nome? 
Olhando para Neco, Jurema disse: 
-Isso mesmo, Neco, que nome a gente vai dar para ele? 
-No sei, a dona Betina disse que era a nossa Dalvinha que estava 
nascendo, a gente ia dar o mesmo nome, e agora? A dona Betina 
mentiu? 
-No sei, no, Neco, mas tambm no faz mal. O nosso menino 
 lindo! 
-Isso ele  mesmo! Nunca vi um menino to bonito assim! 
Cida comeou a rir. Estava feliz por ver a felicidade daquelas duas 
pessoas de que tanto gostava e por haver ajudado no nascimento do 
menino. Feliz, tambm, por haver se lembrado de algo, que no sabia 
muito bem o que era, mas que lhe mostrava que tanto o padre quanto
Campelo tinham razo e que a qualquer momento se lembraria do
passado.
-Jurema, e se a gente colocar o nome do meu pai? 
Jurema ficou pensando e respondeu: 
- Joaquim?! No, Neco!  um nome muito pesado para uma 
criana! 
Ao ouvir aquilo, Cida no se conteve e comeou a rir alto. Quando 
conseguiu se conter, disse: 
-Ora, Jurema! Todo Joaquim adulto, um dia j foi uma criana! 
Jurema, nervosa por v-la rindo daquela maneira, disse: 
153


Momentos de Desespero 
- Eu sei, mas ainda continuo achando que  um nome muito 
pesado. Prefiro Rafael. No  mais bonito? 
Neco olhou para Cida, depois olhou para Jurema. Respondeu: 
-... acho esse nome bonito... 
-Jurema, eu tambm. 
Vitoriosa, Jurema disse: 
-J que vocs gostaram, o nome dele vai ser Rafael! 
Vendo a felicidade deles, Cida afastou-se, dizendo: 
-Preciso lavar a roupa e preparar o caldo. Esse menino vai precisar 
se alimentar, e para isso, Jurema, voc tem que ter um leite de qualidade. 
Portanto, precisa se alimentar bem. 
Jurema e Neco olharam para ela e balanaram a cabea em um sinal 
de aprovao. Ela, sorrindo, saiu do quarto.
Na cozinha, enquanto mexia com as panelas, comeou a pensar: a
lembrana que tive foi to real. Estava sim, naquela sala. Ser que fui
mdica um dia? Como  horrvel no saber quem sou! 
Logo teve que desviar a ateno para a panela. Assim que o caldo 
ficou pronto, colocou em um prato e levou para Jurema que comeu
tudo. Naquela noite, eles quase no conseguiram dormir. O menino
 acordou algumas vezes. Com pacincia, Jurema cuidou dele, sempre sob 
os olhos atentos de Cida e de Neco. Pela manh, Cida estava trocando o 
menino. Jurema a observava. Neco estava na cozinha preparando o caf 
e o ch que dariam ao menino. Ouviram o barulho de um carro que 
se aproximava. Neco saiu e viu que era o Jipe de Dorival. Assim que o 
carro estacionou, Laurinda desceu dele e, espavorida, disse:
-Neco! O doutor Campelo disse ao Dorival que a Jurema teve um
menino!  verdade?
-, sim, tia!  um menino lindo!
Ela, nervosa, entrou no quarto. O menino, sem roupa, estava sobre
a cama e Cida limpava-o com um algodo umedecido. 
-Jurema, como isso foi acontecer? Vocs duas aqui sozinhas! Voc 
est bem? Por que no foi l para casa? 
Jurema, percebendo o nervosismo da tia, respondeu:
-Fique calma, tia. Estou bem e o meu menino tambm, foi de
repente, no deu tempo de eu ir para sua casa. Mas est tudo bem. O 
154


Momentos de Desespero 
doutor disse ao Neco para me levar na semana que vem para ele me 
examinar. 
- E se acontecer alguma coisa? Vocs, aqui longe de tudo! Acho 
melhor levar voc e o menino l para casa! 
-No precisa, tia, estou bem e o doutor vai vir sempre aqui. 
-Ele pode vir, mas no vai ser por muito tempo, ele vai embora da 
cidade. 
Jurema, ao ouvir aquilo, olhou para Cida, que ficou branca como 
papel. Em seguida perguntou: 
- Como vai embora da cidade? Ele esteve aqui ontem e no disse 
nada! 
-Mas ele j sabe. O Prefeito contou para o Dorival que o doutor 
veio s por um tempo, at ele arrumar um outro mdico. O Prefeito 
arrumou um mdico recm-formado. Ele vai chegar por esses dias. 
-Um recm-formado? Acha que ele vai dar conta do trabalho? 
- Eu no sei, mas com o salrio que a Prefeitura pode pagar, s 
mesmo um recm-formado. O doutor Campelo vai para So Paulo
montar o seu consultrio.
-A senhora tem certeza disso que est dizendo? 
- Claro que tenho, Jurema, j faz dias que o Dorival me contou. 
Mas por que est estranhando? 
-Por nada, tia, s que gosto do doutor... 
Cida, a cada palavra que ouvia, mais nervosa ficava. Comeou a 
tremer tanto que no estava conseguindo vestir o menino. Jurema 
percebeu e perguntou: 
-Tia, d para a senhora terminar de vestir o menino e depois trazlo 
aqui para eu amamentar? A Cida est nervosa. 
-Nervosa por qu? 
-Ontem aconteceu muita coisa. Foi difcil para ela, depois eu conto 
tudo. Tambm nessa noite, a gente quase no conseguiu dormir. Cida, 
deixe o menino com a tia e v  cozinha tomar um ch de cidreira. 
Acho que est precisando... 
Sem nada dizer, Cida saiu, pois, nunca, precisou tanto ficar sozinha. 
Mas ao invs de ir para a cozinha, saiu correndo e, chorando, saiu da 
casa. Correu at se cansar e ajoelhou-se. Desesperada, pensou: ele me 
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Momentos de Desespero 
enganou! Sabia que ia embora e, mesmo assim, jurou que me amava! Eu, 
boba, acreditei! Por que ele fez isso? Nem sei por que estou perguntando! 
Ele viu que eu era uma pessoa sem memria e por isso me apegaria ao 
primeiro que me tratasse com carinho! E foi o que aconteceu! Como pude 
acreditar nele? Eu estava to feliz! Embora com medo de me lembrar do 
meu passado e descobrir que j era casada, sentia que o amava e que ele me 
amava tambm! Nunca mais vou olhar para a cara dele! Nunca mais! Ele 
no podia ter feito isso! Ele  um mdico! No posso fazer nada em relao 
 minha vida! No tenho para onde ir! Meu Deus! Por que eu no consigo 
lembrar? Que mal eu fiz para sofrer tanto? 
Neco, que estava na cozinha, no sabia o que havia acontecido no 
quarto, mas percebeu quando ela saiu correndo. Foi at a porta de 
entrada e viu que ela estava ajoelhada e com as mos sobre o rosto. 
Percebeu que ela chorava. Saiu da casa e caminhou em sua direo. Ao 
chegar perto, colocou a mo em seu ombro, dizendo: 
-Cida, o que aconteceu? Por que est chorando desse jeito? Algum 
disse alguma coisa que a ofendeu? 
Ela levantou a cabea e, com lgrimas, respondeu: 
-No foi isso, Neco! Foi ele! Foi ele! 
-Ele quem? O doutor? 
-Ele mesmo, me enganou! Mentiu! 
-Enganou como? Sei que ele gosta muito de voc. 
-Sabe como? Ele lhe disse? 
-No, mas vejo como ele olha para voc! S um homem que gosta 
muito, olha para uma mulher daquele jeito. 
-Tambm acreditei nisso, mas ele mentiu! 
-Mentiu, como? Quem lhe disse que ele mentiu? 
-A tia Laurinda disse que ele est indo embora da cidade. 
-Ela disse? E ele, disse isso tambm? 
-No, ele no disse e esse  o problema! Ele sabe que vai embora 
e ontem mesmo disse que me amava e que ficaria comigo at eu me
lembrar de quem era!
-Ento, se ele no disse nada  porque no vai embora. 
-Mas a tia disse! 
-A tia disse o que ouviu dizer! Foi ele quem disse para ela? 
156


Momentos de Desespero 
-No, foi o tio Dorival... 
-Est vendo? Ela ouviu dizer. S isso. Toda mulher tem um defeito 
muito grande, gosta de fazer drama de tudo. Com o homem  diferente, 
para ele  sim ou no. Acho que voc precisa parar de chorar, conversar 
com o doutor e depois ver o que vai fazer. No gaste suas lgrimas  
toa.
Cida estranhou a maneira como ele falava. J estava com eles h 
muito tempo e Neco sempre foi calado e reservado. Quem falava muito 
era Jurema, mas ele se limitava apenas a responder e dificilmente dava 
uma opinio. Estranhando a postura dele, perguntou: 
-Acha mesmo isso, Neco? 
-Claro que acho. Sou homem e sei como a mulher pensa. Enxugue 
o rosto e venha tomar caf. 
Ajudou-a a se levantar e acompanhou-a. Ela no estava acreditando 
muito naquilo que ele havia dito, mas, desejava ardentemente que fosse 
a verdade. Quando voltaram para o quarto, Laurinda havia terminado 
de trocar o menino e ele mamava ferozmente. Neco e Cida ficaram 
parados na porta. Jurema contou para a tia tudo o que havia passado no 
dia anterior e na lembrana que Cida teve e como a ajudou. Laurinda 
ficou admirada. 
-Foi mesmo, Jurema? Ela se lembrou de mais alguma coisa? 
-Foi, tia, s que no se lembrou de mais nada no e por isso est 
nervosa. 
-Coitadinha, deve ser muito ruim estar na situao dela. 
-O padre e o doutor disseram que ela vai se lembrar e que  s uma 
questo de tempo. 
- ...parece que esse dia est perto. Tomara que seja logo... ela  
uma boa moa. 
-, sim, tia e eu gosto muito dela. 
-J deu para perceber. Voc voltou, novamente, at a bordar e a 
fazer renda... 
-No comeo, fiz isso por ela, mas foi a melhor coisa que poderia 
ter acontecido na minha vida. Ela chegou em boa hora. 
- Vou lhe confessar que, algumas vezes, cheguei at a ficar com 
cimes. O Dorival at brigou comigo. 
157


Momentos de Desespero 
Jurema comeou a rir. 
-Cimes, tia? No pode ser, pois desde que a minha me morreu 
e eu me casei com o Neco, a senhora foi, , e vai ser a minha melhor 
amiga e eu gosto muito da senhora. 
-Foi isso que o Dorival me disse! Sou mesmo uma boba, mas depois 
que os meus filhos foram embora, sabe o quanto me apeguei a vocs! 
-Sei disso, tia, e agradeo muito. 
Jurema estava entretida falando com a tia e no percebeu Cida e 
Neco parados na porta do quarto. Olhou, e os viu l. Ao ver os olhos 
de Cida, vermelhos, perguntou: 
-Cida, est tudo bem com voc? 
- Est, sim, o Neco conversou comigo e agora estou bem. Vou 
preparar o almoo. 
Jurema no disse nada, apenas olhou para o Neco e sorriu. Depois 
olhou para Laurinda, dizendo: 
-Viu, tia? Estou bem, ela cuida muito bem de mim e do menino 
tambm. O Neco est aqui e por um bom tempo no vai se afastar, no 
 mesmo, Neco? 
-  sim, Jurema. Agora vou para a plantao, se precisar,  s 
chamar. Tchau, tia. 
-Tchau, Neco. Falando em almoo, preciso ir. Levantei cedo e vim 
logo para c. J que est tudo bem e voc no quer ir l para casa, vou 
indo, mas qualquer coisa que acontecer,  s mandar me chamar que 
venho em seguida. 
-Est bem, tia, mas preciso que a senhora avise o tio Dorival que o 
trabalho vai atrasar um pouco, porque, por um bom tempo, s a Cida 
vai trabalhar. 
-Vou avisar, mas sei que ele j sabe disso. O importante, agora,  
que voc fique bem e o nosso menino tambm. 
Deu um beijo no rosto de Jurema, passou a mo na cabea do 
menino e saiu. Despediu-se de Cida, saiu da casa, onde Chico a esperava 
junto ao Jipe. Assim que Jurema ouviu o barulho do carro se afastando, 
chamou Cida que estava na cozinha. Ao ouvi-la, correu em direo ao 
quarto. Assim que chegou, parou na porta, Jurema perguntou: 
-Voc ficou triste com aquilo que a tia contou, no foi? 
158


Momentos de Desespero 
- Fiquei, pois nunca imaginei que ele estivesse mentindo ou 
brincando. Acreditei mesmo quando ele disse que me amava... 
- Antes de qualquer coisa, voc precisa falar com ele. S a, vai 
poder ver se ele estava mentindo mesmo. 
-Foi o que o Neco disse... 
-O Neco disse isso? 
- Disse, tambm estranhei, mas ele disse e por isso me acalmei. 
Nem parecia ele. Parecia ser outra pessoa... 
- Deve de ter sido outra pessoa mesmo! O Neco nunca fala nada! 
Sempre quer saber de tudo, mas nunca fala nada, ele no quer que 
ningum diga que ele  curioso, mas que , isso ele ! 
Jurema disse isso com ar de deboche no rosto. Cida, rindo da 
expresso dela, disse: 
-No sei o que aconteceu, mas ele falou e eu fiquei calma. Agora 
s me resta esperar e ver se o doutor vem at aqui. Alis, nos ltimos 
tempos, o que tenho feito  s esperar. Estou esperando o dia em que 
vou me recordar de tudo. Nesse dia, se acontecer, serei a pessoa mais 
feliz deste mundo. 
- Esse dia vai chegar e  isso mesmo que tem que fazer. S depois de 
falar com ele  que vai saber. No sei, no, tambm estou estranhando 
ele no ter te contado, tenho certeza de que ele gosta de voc, a gente 
v pelo jeito que ele olha para voc. Agora, coloque o menino no bero. 
Vou descansar um pouco. 
-Est bem. 
Cida pegou o menino, beijou sua testa e colocou-o no bero. Jurema 
sorriu e fechou os olhos. 
Cida voltou para a cozinha. No sabia o que fazer, enquanto mexia 
nas panelas. Ficou pensando: ser que ele me enganou? Se fez isso, por 
que ter sido? No vejo motivo algum a no ser que estivesse querendo se 
divertir, mas o que ganharia com isso? Ele falou com tanta sinceridade. 
Meu Jesus, por que no consigo lembrar? Que fiz nesta Terra para merecer 
isso? Jesus! Preciso de um caminho para seguir e sinto que isso s poder vir, 
de acordo com a Jurema, se for de Sua vontade. 
Aquele dia terminou e durante os outros a rotina da casa mudou. 
Agora, todas as atenes eram para o menino."Dois dias depois, Jurema 
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Momentos de Desespero 
levantou-se e voltou ao barraco. Tudo corria bem, ela e o menino 
estavam timos. S Cida sentia os dias se arrastando. O doutor no 
voltou mais e ela temia ser verdade o que Laurinda dissera e ele at j 
houvesse ido embora da cidade. Um dia antes de o menino completar 
uma semana, Neco disse: 
-Jurema, amanh, a gente tem de ir  cidade ver o doutor. 
-Acho que no vai precisar, estou bem, e o menino tambm... 
-Sei disso, mas ele disse para que eu levasse voc e at marcou dia, 
a gente vai. 
Jurema temia aquele dia, no por ela, mas sim por Cida, pois no 
sabia se o doutor j havia ido embora, mas vendo que Neco no ia 
aceitar que ela no fosse, disse: 
-Est bem, a gente vai. Cida, voc vai tambm? 
Cida, com os olhos apreensivos, olhou para ela. No sabia se queria 
ir, mas, ao mesmo tempo, precisava tirar aquela dvida. Respondeu: 
-Vou sim, Jurema. Preciso ir, s assim poderei ficar em paz. 
-Est bem. Neco, a gente vai e seja tudo o que Deus quiser. 
No dia seguinte, antes de clarear, j estavam a caminho. Assim que 
chegaram  rua principal da cidade, Neco parou a carroa em frente ao 
pronto-socorro. Cida pegou o menino dos braos de Jurema, enquanto
Neco a ajudava a descer. Em seguida, Neco tambm ajudou Cida a
descer. Entraram no pronto-socorro. L dentro, o Prefeito conversava
 com um rapaz vestido de branco e, ao v-los, disse: 
-Neco, como vai? Fiquei sabendo do nascimento do seu filho! 
-Ele nasceu, sim, Prefeito. Est aqui. 
O Prefeito olhou para o menino e, sorrindo, disse: 
- um menino! Este aqui  o doutor Larcio, ele  o novo mdico 
da cidade. 
Ao ouvir aquilo, Jurema e Neco olharam para Cida, que estava 
esttica, quase sem cor. Larcio, alheio a tudo, disse: 
- Hoje  o meu primeiro dia aqui no pronto-socorro e esse lindo
menino vai ser o meu primeiro paciente! Vamos at o consultrio?
 Jurema, sem saber o que fazer diante daquela situao e vendo o 
estado de Cida, respondeu: 
-Est bem, doutor. Cida, voc vem com a gente? 
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Momentos de Desespero 
Tremendo muito e com os olhos cheios de gua, respondeu: 
- Desculpe, Jurema, mas, enquanto voc e o Rafael forem se 
consultar, prefiro ir at a igreja. Preciso pensar... 
-Tem certeza de que  isso o que quer? 
-Tenho e no fique preocupada, estou bem, s preciso pensar... 
-Est bem, assim que terminar aqui, vou at l para encontr-la. 
Cida sorriu e saiu do pronto-socorro. J na rua, deixou que as
lgrimas cassem por seu rosto. Andava em direo  igreja e, agora,
 chorava copiosamente. No podia evitar os soluos. Pensava: por que 
ele fez isso comigo? Eu acreditei nele! Tambm, o que uma pessoa que no 
sabe quem  nem de onde veio tem para oferecer? Ele deve estar muito feliz! 
O que vou fazer? 
Chegou  igreja, entrou. Havia poucas pessoas ajoelhadas que 
rezavam. Ela tambm ajoelhou-se, no sabia como rezar, apenas disse 
baixinho: meu Jesus, a Jurema disse que o Senhor tem todo o poder, que 
veio  Terra s para ensinar o verdadeiro caminho, mas que caminho  esse? 
Que caminho  o meu, se nem sei quem sou? Por que permitiu que eu fosse 
enganada dessa maneira? Por que est fazendo isso comigo? 
Enquanto ela rezava, chorando, um vulto de mulher se aproximou, 
sentou-se ao seu lado, colocou o brao em seu ombro, encostou a cabea 
em sua cabea e, acariciando seus cabelos, disse: 
-Minha irm, fique calma... sei que tem muitas perguntas e, para 
voc, parece que no h respostas, mas no  assim, tudo tem a hora 
certa. Um dia, saber por que tudo isso est acontecendo. Sim, Jesus 
nasceu aqui na Terra somente para ensinar o caminho, mas tambm 
para que tivssemos um tempo de aprendizado. Fique calma, pois 
nunca eu, voc nem ningum estamos ss. Sempre temos ao nosso 
lado amigos que nos querem muito bem e ajudam-nos em momentos 
difceis como este pelo qual est passando. Vim de longe para ficar ao 
seu lado e ficarei enquanto me for permitido. 
Cida no ouviu o que ela disse, mas sentiu um bem-estar enorme. 
Com as mos, secou os olhos. No entendia, mas, de repente, sentiu 
que estava protegida. Continuou ali por um bom tempo, sem rezar, 
falar nem pensar na sua vida. Apenas ficou admirando a cruz que estava 
pendurada no altar. 
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Momentos de Desespero 
Estava ali distrada por muito tempo. No percebeu que algum se 
ajoelhou ao seu lado e que a estava observando. De repente, ouvi uma 
voz:
-Posso saber por que no falou comigo l no pronto-socorro?
Ela ouviu, mas no quis acreditar, pensou:  ele? No! Devo estar
 sonhando! Ele no foi embora?! No me abandonou?! 
A voz continuou: 
- No quer falar comigo? Parece que est nervosa, o que 
aconteceu? 
Ela voltou-se e, entre lgrimas, respondeu: 
-Pensei que tivesse ido embora da cidade sem se despedir... 
-Por que pensou isso? 
- Chegou um novo mdico para ficar em seu lugar... eu o 
conheci... 
-Realmente, chegou um novo mdico, mas no para ficar no meu 
lugar, vamos trabalhar juntos. Eu no disse que havia descoberto a 
razo da minha vinda para esta cidade? No disse que isso s aconteceu 
para que eu pudesse conhecer voc? Acreditou mesmo que eu poderia 
ir embora sem dizer nada? 
Ela continuava chorando, s que sorria tambm. 
-Ento, voc no me abandonou? 
-Claro que no! Estou e vou ficar aqui, at o dia em que consigamos 
desvendar o seu passado e assim possa ir para onde eu for. J adiei os 
meus planos de carreira, alm do mais, esta cidade ainda precisa de 
um mdico. O doutor Larcio  um bom mdico, mas ainda  jovem, 
precisa aprender muito. Estarei aqui para lhe dar toda a assistncia de 
que precisar. Antes de vir para c, conversei com a Jurema e com Neco, 
eles me contaram tudo e esto preocupados com voc. Acho melhor 
irmos at eles. Que acha? 
-Senti tanto medo... 
-Sei disso, voc fez o que as pessoas do mundo inteiro normalmente 
fazem, sofreu por antecipao, imaginou tudo, menos que eu nunca a 
abandonaria. Mas, agora, espero que confie no meu amor. Vamos? 
Abraados saram da igreja. Ela, por muito tempo, no sentia aquela 
sensao de felicidade. Encontraram-se com Jurema e Neco que estavam 
162


Momentos de Desespero 
do lado de fora do pronto-socorro e que ao v-los chegando abraados,
respiraram, aliviados.
 Quando chegou junto deles, Campelo disse: 
-Vocs pretendem voltar para o stio agora?
Jurema respondeu: 
-No, a gente vai at a casa da tia, ela vai querer ver o Rafael. 
- Preciso voltar para o pronto-socorro, mas, na hora do almoo,
irei at l.
-V, sim, doutor, a tia vai ficar feliz se o senhor almoar l com a
 gente. 
Ele sorriu, passou a mo com carinho no rosto de Cida e entrou no 
pronto-socorro...
Foram para a casa de Laurinda que, como sempre, ficou feliz por
 v-los. 
Sorrindo, junto a eles, tambm vinha o vulto da mulher que estivera 
na igreja. Ela estava acompanhada por um outro vulto de mulher que 
disse: 
- Irene, parece que agora ela est bem. Ela no ouviu voc, mas 
sentiu a sua presena. 
-Sim, mal sabe que estou ao seu lado, h muito tempo e que ficarei 
at quando tudo seja esclarecido e ela entenda que Jesus existe sim e que 
est sempre dando toda a assistncia de que precisamos. Mas, agora, 
est na hora de irmos embora. Por enquanto est tudo bem. 
Realmente estava tudo bem. Eles passaram o resto do dia na cidade. 
Almoaram na casa de Laurinda. O doutor Larcio constatou que Jurema 
e o pequeno Rafael estavam muito bem. Cida e o doutor conversaram 
muito. Estavam felizes. J estava quase anoitecendo quando voltaram 
para o stio. Naquela noite, aps vrios dias, ela conseguiu dormir 
tranqila. Com a chegada do doutor Larcio, Campelo teria mais
tempo para visit-la, podendo assim ficar mais ao seu lado.
163



 A Festa de So Jos 
Rafael, para a felicidade de todos, crescia saudvel. A festa de So 
Jos estava chegando novamente. A cidade, como em todos os anos, 
estava em alvoroo, preparando-se para ela. Naquele ano em especial, 
o povo s tinha que agradecer, pois houve muita chuva, o que fez com 
que todos tivessem tido boa colheita. Como no podia deixar de ser, 
Jurema preparou a roupa de todos para que pudessem apresentar-se 
bem. Preparou, em especial, uma roupa para Rafael. No domingo em 
que a festa seria realizada, acordaram cedo. Antes das dez horas da manh, 
j estavam na cidade. Encontraram-se com Laurinda e Dorival e 
almoariam por l mesmo. Comeriam iguarias que moradoras da cidade 
haviam preparado. Precisavam e queriam fazer isso, pois o dinheiro 
arrecadado seria todo doado para a igreja. Cida estava feliz, pois, desde 
aquele dia na igreja, em que pensou que o doutor a havia abandonado, 
resolveu que no ficaria mais ansiosa por se lembrar do passado. 
Resolveu confiar no que o padre e ele disseram: a qualquer momento, 
suas lembranas voltariam. Confiou no amor do doutor, que, como 
lhe prometera, continuou na cidade trabalhando, ajudando e dando 
assistncia ao doutor Larcio. 
Um dia antes da festa, ele disse para Larcio: 
-Amanh, haver muitas pessoas aqui na cidade e ns dois queremos 
participar da festa. Vamos fazer assim: eu fico aqui at as trs da tarde e 
depois voc fica at as oito da noite. 
Larcio concordou e, no dia seguinte, fizeram como o combinado. 
Cida sabia que seria assim, por isso almoou ao lado de todos, mas 
estava ansiosa pois s trs horas poderia ficar ao lado dele. Depois 
de almoarem em uma das barracas, foram para a casa da Laurinda, 
porque Rafael precisava dormir. Cida os acompanhou. Jurema foi para 
o quarto com Rafael. Cida ficou na janela da sala olhando as pessoas 
passarem de um lado para o outro da rua. A todo instante, olhava para 
o relgio. Quando faltavam vinte minutos para as trs horas, Jurema 
voltou do quarto, dizendo: 
- Cida, j est quase na hora de o doutor sair do pronto-socorro,
 vou trocar o Rafael e a gente pode ir encontr-lo, e tambm ao Neco
165
 

A Festa de So Jos 
que ficou passeando com o tio. 
- Est bem, Jurema, tambm vou me preparar, quero ficar bem 
bonita. Voc sabe como o dia de hoje vai ser importante na minha 
vida. 
Jurema sorriu: 
-Sei, sim, claro que sei! 
Jurema voltou ao quarto, Cida acompanhou-a. Diante de um 
espelho, ajeitou os cabelos, deu um belisco no rosto para que ficasse 
vermelho. Estava feliz. Embora ainda no houvesse se lembrado do 
seu passado, sentia que Campelo era o amor de sua vida e tinha quase 
certeza de que nunca antes existira outro. Olhou seu rosto, gostava de
se admirar, pois sabia que era uma bela mulher, e sorriu ao lembrar-se
do que Campelo, no stio, lhe dissera alguns dias atrs:
- Cida, no podemos continuar assim, no quero estar com voc s 
por alguns dias na semana. Quero estar todos os dias, quero que fique em 
casa quando eu sair para o trabalho e saber que estar l quando eu voltar. 
Quero me casar com voc. 
Ao ouvir aquilo, ela olhou fixo em seus olhos, dizendo: 
-No podemos fazer isso, no sei quem sou, nem se j tive um marido, 
nem sei o meu nome! Como poderemos nos casar? 
- Sei que  impossvel nos casarmos, sei que, a qualquer momento, 
poder lembrar, como, tambm sei, que talvez nunca mais lembre. Por isso, 
precisamos decidir a nossa vida. 
-Mas... e se... descobrir que j tenho um marido? 
- Se isso acontecer, decidiremos o que fazer, mas, at l, viveremos 
juntos e seremos felizes. 
Ela ficou sem saber o que dizer, assim como ele, tambm queria ficar 
ao seu lado. Queria ter uma vida de marido e mulher, mas o medo de se 
arrepender fez com que dissesse: 
- Tambm quero ficar com voc, mas  uma deciso difcil de tomar. 
Preciso de alguns dias. 
- Tenha todos os dias de que precisar, mas, por favor, no demore 
muito. 
Ele foi embora, seu corao estava feliz, mas sua cabea estava inquieta, 
como decidir aquilo? Conversou com Jurema, contou tudo o que ele havia 
166


A Festa de So Jos
dito. Aps ouvi-la, ela disse:
-Olha, Cida, eu e o Neco, nos casamos no cartrio e na igreja tambm.
A gente j se conhecia fazia muito tempo, mas se no tivesse sido assim, a 
gente ia ficar junto do mesmo jeito, porque a gente se gostava muito. Acho 
que o doutor tem razo e se voc nunca mais lembrar? Vai ficar sozinha 
para o resto da vida? No pode, no! Acho que voc devia ir morar com ele 
e, se um dia se lembrar e descobrir que j tem outro marido, a  sim vai ter 
que escolher com quem quer ficar. At l, seja feliz do lado do doutor, vocs 
se gostam de verdade, no  mesmo? 
Cida ficou pensando. Ela estava com a razo, no poderia deixar de 
viver. Resolveu: 
-Jurema, voc tem razo, no dia da festa, vou dizer que resolvi ir 
morar com ele, e seja tudo o que Deus quiser. 
-Isso mesmo, Cida! Assim  que tem de ser. 
Ela se afastou, foi olhar Rafael. Cida ficou pensando: hoje, assim que 
encontr-lo, vou lhe dizer a minha deciso, sei que ficar feliz. 
-Cida, estamos prontos, olha como o Rafael est bonito!
Ao ouvir a voz de Jurema, Cida voltou de seus pensamentos, olhou
para ela e para Rafael. No pde deixar de dizer:
-Ele est lindo! Vem, nenm, com a tia.
 -Pegue-o e vamos embora, o doutor j deve estar saindo do pronto-socorro.
Daqui a uma hora vai comear a procisso!
 Com Rafael no colo, Cida acompanhou Jurema. Caminhavam em
direo ao pronto-socorro que ficava no comeo da rua, ao contrrio
da igreja, que estava no fim. Iam andando, quando se depararam com
dona Betina, que ao v-las, disse, sorrindo:
 -Dona Jurema, que bom ver a senhora! Esse  o seu menino? Est 
muito bonito! 
Cida e Jurema, ao v-la, lembraram-se daquele dia em que foram at 
a sua casa para que ela ajudasse Jurema a no ter aquela criana. Jurema, 
ao ver dona Betina, sentiu um aperto no corao, respondeu: 
- ele sim, dona Betina, e s est aqui graas  senhora. Preciso lhe 
agradecer muito. Mas como sabe que ele  um menino? 
-Qual nada, minha filha, no precisa agradecer. Ele est aqui pela 
vontade de Deus. Dona Laurinda contou-me que ele havia nascido. 
167


A Festa de So Jos 
Voc me parece muito feliz. 
-Estou, sim, este menino  a minha vida! A gente s tem uma dvida. 
Quando a gente foi na sua casa, a senhora disse que era a minha Dalvinha que 
estava voltando, mas nasceu um menino, ento no foi ela quem voltou? 
Dona Betina comeou a rir. 
- Eu no disse que era ela que estava voltando, eu disse que os 
espritos pedem para voltar e que poderia ser ela. Mas tambm vai que 
ela decidiu vir no corpo de um menino! A gente nunca sabe! Mas parece 
que isso, agora, no tem muita importncia, no  mesmo? A senhora 
est contente com o seu menino, no est? 
-Estou sim. Graas a Deus! Desculpe se ainda no voltei l na sua 
casa para lev-lo, ainda no deu tempo. Mas vou levar! 
-Qual nada. No precisar pedir desculpa, nem o levar, no. Eu s 
queria ver a carinha dele, j vi e  bonito mesmo! 
Olhou para Cida e perguntou: 
-E voc, moa, como est? 
Ela no queria ficar triste naquele momento. Sorrindo, respondeu: 
-Estou muito bem, dona Betina. Resolvi recomear a minha vida 
e deixar o passado para trs. 
-Faz bem, minha filha. A vida no pra nunca e tudo o que acontece 
 sempre a vontade de Deus. 
-Tambm estou pensando assim. Mas, vamos indo? J est quase 
na hora da procisso. 
- Vamos, sim, mas antes eu preciso encontrar o Neco. Ele deve 
estar com o tio l na loja. O tio deu muitas prendas para o padre. 
- Eu tambm vou indo. Moa, tenha f, no final d tudo certo! 
At mais. 
-At mais, dona Betina. 
Dona Betina continuou andando. Cida e Jurema caminharam em 
direo ao pronto-socorro. A rua estava repleta de pessoas. No rosto de
cada uma, podia-se ver a felicidade que sentiam. Jovens casais passavam
abraados, outros cantavam acompanhando a msica que saa de altofalantes
 presos nos vrios postes de luz que existiam na rua. Cida tambm 
estava naquele clima, lembrou-se do ano anterior e da ltima festa a que 
compareceu e que foi sua primeira. Lembrou-se de como chegou naquele 
168

A Festa de So Jos 
dia e na esperana que sentia de encontrar algum que a conhecesse, o 
que no aconteceu, mas aquilo no a incomodava mais. Encontrou o 
amor da sua vida e ele, s ele, lhe bastava. Jurema cumprimentava uma 
ou outra pessoa. Cida caminhava, mantendo os olhos na direo do 
pronto-socorro. Queria estar ao lado de Campelo o mais rpido possvel,
precisava contar-lhe o que tinha decidido. Ao v-lo aparecer no meio da
multido e ao perceber que ele tambm vinha em sua direo, abanou os
braos, sorrindo, feliz. Ele, ao v-la, tambm fez o mesmo e caminhou
rpido. Cida estava quase chegando perto dele, quando um homem que
vinha bem  sua frente, acompanhado por uma mulher, ao ver Cida,
gritou:
- Ester!  voc mesma? No pode ser! Faz quase dois anos que voc
desapareceu! O Ernesto tem procurado por voc em todo lugar! Colocou at 
um detetive! Esto todos desesperados! O Incio nem se fala, coitado. 
Ao ouvir aquilo, Cida arregalou os olhos. Por trs dos ombros do 
homem, viu Campelo que, ao ouvir aquilo, tambm havia parado. O 
homem, sem se dar conta do que estava acontecendo, continuou: 
- Ester! Por que desapareceu? Sua famlia toda est desesperada a 
sua procura! 
Ela, que estava com Rafael no colo, comeou a tremer. Jurema, 
percebendo o seu nervosismo, disse: 
- Cida, me d o menino. Voc precisa conversar com esse 
homem... 
Ela entregou o menino e, assustada, perguntou: 
- O que est acontecendo? No conheo esse homem nem as 
pessoas de quem ele est falando! 
-Como no me conhece, Ester? Sou o Messias! Trabalho para a sua 
famlia h quase vinte anos! Fui motorista do seu pai at ele morrer, 
depois continuei sendo seu motorista e do seu irmo! 
Aps passar o susto, Campelo deu um passo  frente e abraou 
Cida.
- O senhor tem certeza do que est dizendo? Tem certeza que a 
conhece? 
-Claro que sim! Quando fui trabalhar para a famlia, ela era ainda 
uma menina de oito ou nove anos! Eu a vi crescer! No  ela, Jandira? 
169


A Festa de So Jos 
Uma senhora que o estava acompanhando, surpresa e assustada, 
respondeu: 
-No estou acreditando, mas  a Ester, sim! 
Ele, entusiasmado, continuou: 
- Voc  mdica, assim como o seu irmo e so donos de um 
hospital em So Paulo. Esse hospital foi construdo por seu pai e pelo 
pai do Incio! 
Cida, no entendendo ou no querendo entender, disse: 
-Eu no os conheo! 
Campelo, tambm confuso, disse: 
- Fique calma. Acredito que teremos muito para conversar e que 
chegou  hora de conhecermos o seu passado. Senhor, o melhor que 
temos a fazer  irmos para minha casa. L conversaremos. 
-Enquanto vocs vo para l, eu vou procurar o Neco. Ele precisa 
saber o que est acontecendo. -confusa, Jurema falou: 
Campelo olhou bem nos olhos de Cida, depois para Jurema. 
- Bem pensado, Jurema, quanto a voc, Cida, fique calma. O 
senhor quer, por favor, nos acompanhar? Creio que logo tudo ficar 
esclarecido. 
- Vou, sim, claro que vou. O doutor Ernesto no vai acreditar 
quando eu contar que ela estava aqui, logo aqui, nessa cidade onde eu 
nasci. Ele procurou tanto! 
-Sendo assim,  melhor irmos, moro logo ali. 
Todos acompanharam Campelo. Jurema saiu rpido em busca de 
Neco. Ele estava sentado em uma mesa perto de uma das barracas
onde era servida carne seca com farinha, conversando e tomando uma 
cerveja. 
-Neco, tio, no vo acreditar no que aconteceu! 
Olharam, espantados, para ela. Neco levantou-se, assustado, pois 
percebeu que Jurema estava muito nervosa. 
-Jurema, o que aconteceu? 
Ela, em poucas palavras, contou. Neco olhou para o tio.
-Tio, o que o senhor est achando?
- Acho que o mistrio vai terminar. Jurema, voc disse que eles
foram para a casa do doutor? 
170


A Festa de So Jos 
- Isso mesmo, tio. Neco, acho que a gente precisa ir l tambm, 
no  mesmo? 
- No sei, no. Acho que isso no  da nossa conta. Quando ela 
descobrir quem , vai embora e nunca mais vai se lembrar da gente. 
-Quem falou isso, Neco? Voc a achou. A gente cuidou dela e ela 
at ajudou o Rafael a nascer. No vai esquecer a gente, no! 
-Voc no disse que o homem  o motorista da casa dela, Jurema? 
-Disse... 
-Ento ela deve ser de famlia rica! Acha que vai se importar com 
a gente? 
-No sei, Neco, mas acho que a gente tem que ir para l e ver se 
o que o homem disse  verdade. Tambm para mim, no  novidade, 
desde que ela chegou, eu sempre disse que ela era gente rica. 
-Est bem, a gente vai. Tio, o senhor quer ir? 
- No, Neco, vou ficar por aqui. Acho que essa conversa  s de 
vocs, mas no se esquea de me contar o que acontecer l. 
-Eu conto, tio. 
Saram em direo a casa de Campelo. Bateram a porta, ele abriu, 
entraram. Cida, o homem e a senhora estavam sentados em volta da
mesa. Campelo lhes mostrou cadeiras, onde se sentariam. O silncio era 
imenso. Ningum sabia como comear, estavam esperando por Neco e 
Jurema. Agora, no havia mais motivo para protelar a conversa. 
Campelo tambm se sentou, segurando firme a mo de Cida. 
Disse: 
-Cida, imaginei esta situao muitas vezes, mas nunca pensei que
poderia ser to dolorosa. Finalmente, encontrei a mulher da minha
vida e sinto que estou prestes a perd-la.
No estranhou aquelas palavras, porque o mesmo estava acontecendo
com ela. Desejou ardentemente lembrar-se de quem era, mas, naquele
momento, estava com medo de que ao saber do seu passado perderia
Campelo para sempre. Queria sair dali, voltar para o stio e ficar
escondida, at que aquele homem fosse embora. No queria mais se 
lembrar, queria continuar sendo a Cida, amiga de Jurema e do Neco e
a mulher de Campelo. Embora, aquilo fosse o que mais desejasse, ela
sabia que no seria mais possvel. Teria de enfrentar a verdade.
171



 Conhecendo o Passado 
Todos estavam sentados e olhando para Messias, que disse: 
-Antes de comearmos, preciso telefonar para o Ernesto e contarlhe 
que a encontrei. Sei que ficar feliz e que vir at aqui, o mais 
rpido que conseguir. Ester, ele sofreu muito e ainda sofre por no ter 
conseguido encontrar voc! 
-Sinto muito, mais no consigo me recordar dele, nem de qualquer 
outra pessoa que mencionou. 
- No entendo o que lhe aconteceu, mas agora tudo ficar bem. 
Est aqui e voltar para sua casa.
Campelo, ainda segurando a mo de Cida, disse:
-Ainda  cedo para decidirmos isso. Penso que ser melhor, como o 
senhor disse, ir telefonar para esse Ernesto. Quando voltar, nos contar 
tudo o que sabe. A resolveremos o que fazer. Por enquanto, ela ficar 
aqui ao nosso lado. No tenho telefone aqui em casa, mas, na praa, h 
um, que  comunitrio. Pode ir, depois volte para nos dizer o que ele 
decidiu e para continuar nos contando tudo. 
- Est bem, estou indo agora mesmo. Jandira, voc vai ficar aqui 
ou vem comigo? 
Jandira, com uma expresso estranha no rosto, respondeu: 
-Vou com voc. 
Assim dizendo, levantou-se e acompanhou o marido. J na rua, 
disse, nervosa: 
-Messias, vamos embora, no ligue para o Ernesto,  melhor deixar 
tudo como est.
Messias se admirou:
-Est louca, Jandira? O Ernesto vai ficar feliz, voc sabe o quanto 
ele tem procurado a Ester! 
-Ela perdeu a memria, no se lembra de nada e parece feliz. Alm
do mais, parece que est com esse Campelo. Para que mudar isso?
Vamos deixar como est, ser melhor para todos! 
- No podemos fazer isso! Ns a encontramos! Est dizendo que 
ela perdeu a memria! Pode ser, mas assim como eu, sabe que ela no 
pertence a este mundo! Ela teve e tem outra vida! Ela sempre teve todo 
173


Conhecendo o Passado 
conforto! No precisa continuar vivendo aqui nesta cidade pobre! No 
entendo por que est agindo assim! Quando chegamos  casa da famlia, 
e ela era ainda uma criana, voc gostava dela, mas de repente mudou, 
no sei o que aconteceu. Voc nunca me contou. O que aconteceu para 
que deixasse de gostar dela? 
Jandira estava irritada, queria voltar para casa e esquecer que haviam 
encontrado Ester. No queria contar para o marido o porqu da sua 
mudana em relao a Ester, mas temia que o marido no aceitasse 
a sua idia. Sabia que a volta de Ester para casa poderia lhe causar 
problemas, mas nunca poderia contar a ele nem a ningum o que havia 
acontecido. Nervosa, respondeu: 
- No aconteceu nada, nem deixei de gostar dela, foi voc quem 
colocou isso na cabea. Simplesmente aceitei o seu desaparecimento! 
Agora, no acho certo afast-la desta vida, onde parece que est feliz! 
-Eu no sei, mas deve ter acontecido algo que no quer me contar, 
pois, quando ela desapareceu, voc foi a nica pessoa que pareceu no 
se importar nem ficou admirada. Isso me causou muito espanto. Mas, 
enfim, embora no seja o seu desejo, vou telefonar para o Ernesto, 
contar tudo, ele saber o que fazer. Eles tm esse direito. Sinto muito se 
 contra, mas eu acho ser o correto! 
Ela, percebendo que seria intil continuar, ficou calada. Chegaram 
ao telefone. Havia muitas pessoas ao lado dele, o que os fez esperar.
Na casa de Campelo, Cida, chorando, dizia:
-Jurema, no quero ir embora. Estou com medo. No conheo esse 
homem nem as pessoas de quem ele falou. So a minha famlia, estou 
feliz aqui e quero ficar com vocs, principalmente com voc, doutor. 
Terminou de dizer essas palavras olhando, desesperada, para ele. 
Jurema, tambm nervosa, disse: 
-Voc no vai embora, Cida, assim, sem a gente saber para onde e 
 sim da nossa famlia. A gente no vai deixar voc ir embora de jeito 
nenhum! S se quiser! A gente nem sabe se esse homem est dizendo a
verdade! No  mesmo, Neco? 
Desta vez, Neco demorou para responder. 
- No sei, no. Cida, sabe quanto a gente gosta de voc. 
Principalmente eu, pois, depois que voc chegou, a Jurema voltou a 
174


Conhecendo o Passado 
viver, quis trabalhar e at quis ter o nosso Rafael, mas, assim como a 
gente gosta de voc, o seu Messias disse que na sua outra casa, l no Sul, 
tem muita gente que gosta de voc e que est sofrendo por sua causa. 
Se o que ele disse  verdade, no acho certo voc deixar esse seu irmo 
sofrendo. Acho que voc devia ir sim. Doutor, o senhor no acha que 
estou certo?
Campelo, ainda segurando a mo de Cida, respondeu:
- Cida, ele tem razo. Voc precisa ir. No  justo deixar o seu 
irmo sem notcias, alm do mais, estando em um local do seu passado, 
poder acontecer algo que faa com que recupere a memria e, quem 
sabe, descobrir o que lhe aconteceu e por que fizeram aquela maldade 
que quase a matou. 
-Tenho medo que, ao recuperar a memria, esquea vocs... 
- Isso  um risco que todos teremos que correr. Como ningum, 
sabe o quanto a amamos, mas no  justo que continue assim. Quero, 
para minha mulher, algum que saiba exatamente o que est fazendo. 
Antes, a queria de qualquer maneira, mas, agora, com a possibilidade 
de t-la inteira, sem problemas, sinto que assim, s assim, poderemos 
ter uma vida tranqila. 
-Se eu me esquecer de voc?
Diante daquela pergunta, Campelo sorriu.
- Isso no vai acontecer, mas se acontecer, eu a reconquistarei 
novamente. 
-E se eu j tiver um outro algum? Marido, filhos? 
-Viu como voc est especulando? Por isso ter de ir e conhecer 
essas pessoas que a amam tambm. Se existir um outro algum em sua 
vida, teremos de resolver, mas s quando chegar a hora. Por enquanto, 
vamos esperar o seu irmo que, com certeza, vir para c. Vamos esperar 
o senhor Messias voltar e saber o que ele decidiu. S tem algo que est 
me incomodando.
-O qu? 
- Ele disse que o seu irmo e o Incio estavam preocupados e a 
procuravam. Quem  esse Incio? 
- No sei, mas est vendo como vai ser difcil? Se ele for o meu 
marido?! Que vamos fazer? Eu amo voc e no quero nunca mais ficar 
175


Conhecendo o Passado 
longe... 
- Sei que vai ser difcil, mas tambm foi difcil voc ficar sem 
memria. Assim que ele voltar, saberemos quem  Incio. S depois de 
termos a certeza de que ele  o seu marido, pensaremos no que fazer. 
Tambm, no quero, nunca mais, ficar sem voc, mas isso tudo s ser 
resolvido quando soubermos tudo sobre o seu passado. Fique calma... 
Embora ele pedisse, ela no conseguia ficar calma. 
- Voc tem razo, vou tentar ficar calma, mas antes, queria lhe 
pedir algo. 
-O qu? 
- Se eu tiver que ir, irei, mas no queria ir sozinha, voc me 
acompanha? 
-Vamos ver como tudo vai acontecer. Depois de falarmos com o 
seu irmo, decidiremos o que fazer. Por enquanto, fique calma, sabe que 
amo voc e, acontea o que acontecer, estarei ao seu lado at quando 
desejar. 
Rafael comeou a chorar, Jurema pediu licena para Campelo e foi 
para o quarto amament-lo. Cida, Campelo e Neco permaneceram na
sala. Estavam ansiosos. Aquele dia fora esperado durante muito tempo,
mas nunca poderiam imaginar que seria to doloroso. O silncio era 
imenso, cada um tentava viver aquele momento da melhor maneira 
possvel. Cida, embora estivesse com medo, no seu ntimo queria saber 
a verdade. Campelo quebrou o silncio. 
-Embora sabendo que, com toda a revelao do seu passado, posso 
perd-la para sempre, mesmo assim, tambm quero e preciso saber o 
que lhe aconteceu. 
Neco, tambm preocupado com a situao, continuou: 
-Doutor, eu tambm estou preocupado com tudo isso, o senhor sabe 
o quanto Jurema se apegou  Cida. Sei que, se ela for embora, a Jurema 
vai sofrer muito. Mas sei tambm que isso vai ter que acontecer. 
-Voc tem razo, mas no podemos fugir disso. 
Estavam conversando quando ouviram uma batida na porta. 
Campelo levantou-se e a abriu. Messias e Jandira entraram. No rosto 
dela, podia-se notar que no estava feliz com aquela situao. Messias 
disse, sorrindo:
176


Conhecendo o Passado
-Conversei com Ernesto. Ele ficou radiante e quase no acreditou
que eu havia encontrado a Ester. Disse que amanh bem cedo vir para
Salvador. Alugar um carro e, l pelas quatro horas da tarde, estar aqui.
Disse que ia telefonar para o Incio e ver se ele quer vir junto. Claro
que ele vai querer.
Cida continuava calada, no sabia o que dizer. O que queria mesmo
era sair de l correndo e ir para o stio, pois sabia que ali estaria protegida.
Queria fugir daquele desconhecido que estava na sua frente, dizendo
aquelas coisas, antes to esperadas, mas que, agora, lhe causavam muito
medo. Campelo disse:
- Precisamos ter pacincia e esperar at amanh. Depois de
tomarmos conhecimento de como tudo aconteceu, poderemos tomar
uma deciso. Senhor Messias, s preciso que o senhor nos d todas as
informaes que sabe a respeito de Cida.
-Contarei tudo que sei. Respondendo a um anncio de jornal, fui
falar com o doutor Francisco, o pai da Ester. Ele me recebeu em seu
consultrio. Eu e ele conversamos muito. Disse a ele que era recmcasado,
que havia chegado do Nordeste e que precisava de um lugar
para morar. No tnhamos filhos e no tivemos at hoje. Aps me ouvir
atentamente, ele disse:
-Tenho duas crianas, como sabe, sou mdico e, por isso, muitas noites
preciso atender pacientes ou ir para o hospital. No posso deixar as crianas
sozinhas. J tentei vrias vezes encontrar algum para ficar com elas, mas
no encontrei ningum em que eu pudesse confiar. Talvez com o senhor d
certo. Como precisa de um lugar para morar, quero lhe propor que venha
morar em minha casa. Sua esposa poder cuidar das crianas. O quarto de
vocs ser dentro da casa, assim poderei sair para trabalhar sossegado.
-Para mim est bom, mas, desculpe a pergunta, sua esposa tambm 
mdica?
-No, ela ficou doente e morreu quando as crianas ainda no tinham
quatro anos. Isso me causou muita tristeza, pois embora eu seja mdico, no
consegui evitar que isso acontecesse.
-Sinto muito.
- Eu tambm, pois amava a minha esposa e sei que era amado por
ela. At hoje, no entendo por que Deus permitiu que isso acontecesse.
177


Conhecendo o Passado
ramos felizes e tnhamos duas crianas lindas, mas, enfim, a vida tem
que continuar e tenho ainda duas crianas para cuidar. O senhor aceita a
minha proposta? Acredito que, desta vez, poder dar certo. 
-Doutor, no que depender de mim e da Jandira, sei que dar certo. 
-Est bem. Poder ir  minha casa, hoje mesmo?
- S preciso conversar com a Jandira, sei que ela ficar contente com
esse trabalho, no s por termos um lugar para morar, mas porque ela
tambm, poder trabalhar.
- Est bem, l pelas seis horas da tarde, estarei em casa. Converse 
com a sua esposa. Este  o meu endereo e aqui tem o meu carto. Estarei 
aguardando uma resposta, pessoalmente, se for positiva; caso contrrio, 
telefone. 
- s seis horas da tarde, chegamos  casa do doutor Francisco. 
Ficamos encantados, pois nunca havamos visto uma casa daquele 
tamanho. Ela fora construda no centro de um terreno grande e em sua 
volta havia um jardim muito bem cuidado. Eu e a Jandira nascemos 
e fomos criados aqui, j sabem como  esta cidade. Ela  pequena. 
Sempre fomos pobres e moramos em casas pequenas. Quando vimos 
o tamanho da casa, nos assustamos. Um pouco receoso, toquei a 
campainha. Minutos depois, a porta da frente se abriu. O doutor 
Francisco apareceu, ao nos ver, sorriu e veio em nossa direo. Assim 
que se aproximou, disse: 
-Senhor Messias! Pensei que no viesse! 
-Eu disse ao senhor que viria. 
- Vamos entrar? Essa deve ser a sua esposa.
- sim, o nome dela  Jandira.
-Muito prazer, senhora, meu nome, como deve saber,  Francisco. 
-Jandira, envergonhada, no disse nada, apenas sorriu. Ele seguiu 
na nossa frente. Fez com que entrssemos na sala e que nos sentssemos. 
Assim que nos sentamos, de uma porta surgiram duas crianas e uma 
moa. Ao v-los, ele disse: 
--Estes so os meus filhos, Ernesto e Ester, so gmeos e a razo da minha 
vida e, tambm, das minhas preocupaes. Esta  a Emlia, trabalha aqui 
desde muito antes de a minha esposa falecer, mas h poucos dias recebeu 
a notcia de que sua me no est bem e ter que viajar para o Nordeste. 
178


Conhecendo o Passado 
Disse que ficaria at que eu encontrasse algum para tomar o seu lugar e 
cuidar das crianas. Parece que encontrei. 
-Emlia no disse nada, apenas sorriu. Ele continuou: 
- Senhor Messias, o senhor ser o meu motorista e da casa. Embora 
eu tenha carro, detesto dirigir. O senhor ter que me levar ao hospital e 
alguns dias ao consultrio. Ter de levar as crianas para a escola e, com a 
sua esposa, fazer as compras da casa. No fique preocupado, pois os horrios 
no so os mesmos. 
-Eu estava encantado, no s com a casa, mas com a figura daquele 
homem, que, embora fosse um doutor, nos tratava de igual para igual e 
com muito respeito. Continuou dizendo: 
-A senhora, dona Jandira, cuidar das crianas e far a nossa comida. 
O resto do trabalho ser feito por outras pessoas que a senhora conhecer. 
-Jandira, muito nervosa, disse: 
-Doutor, eu no sei cozinhar. S sei fazer comida muito simples. 
- No precisa ficar preocupada com isso, a nossa comida tambm  
simples. S espero que o seu tempero seja bom. A Emlia ficar mais alguns 
dias e lhe ensinar tudo o que gostamos de comer. Agora, Emlia, mostre a 
eles o quarto em que ficaro. 
- Emlia nos acompanhou at o andar superior. Ela e as crianas 
entraram de volta por aquela porta de onde haviam sado. Ela nos 
mostrou todos os quartos. Primeiro, o do doutor Francisco, depois o 
da menina, do menino e, por ltimo, aquele que seria o nosso. Quando 
entramos no nosso quarto, no conseguimos esconder o nosso espanto. 
Era um quarto amplo, com uma cama de casal enorme. Todo decorado, 
tinha at cortina! Jandira quase desmaiou, pois nunca pensou que, um 
dia, fosse dormir em um quarto como aquele. Ester! Voc no se lembra 
daquele dia? 
-No, infelizmente, no, mas continue, por favor. 
Daquele dia em diante, ficamos morando ali e, aos poucos, fomos 
nos acostumando com tudo, principalmente com as crianas. Como 
nunca tivemos filhos, ns os considervamos como se fossem nossos 
filhos. O doutor Francisco, junto com o doutor Loureno, o pai do 
Incio, compraram um hospital. Ambos eram de famlia com muito 
dinheiro. O doutor Francisco quis que eu estudasse, pois, no sabia 
179


Conhecendo o Passado 
falar direito. Estudei e aprendi. Aps mais ou menos dois anos, a me 
de Emilia morreu, ela retornou para casa e continuou cuidando das 
crianas. Elas cresceram, estudaram e se formaram mdicos. No dia 
da formatura, eu e a Jandira, acompanhando o doutor Francisco e a 
Emlia, fomos v-los receber os diplomas. Voc, Ester, sempre foi a mais 
estudiosa e esperta. Feliz nos disse: 
-Viram, no disse, sempre, que era melhor que eles dois? Minhas notas 
foram melhores! 
-O doutor Francisco pegou em sua mo e a beijou, dizendo. 
-Parabns, minha filha, e a vocs tambm. Estou feliz, por ver os meus 
filhos formados, sei que sabero honrar essa profisso que, com certeza, deve 
ter sido enviada por Deus. Neste dia, a nica tristeza que sinto  no ter a 
me de vocs aqui para que ela pudesse sentir a mesma felicidade que estou 
sentindo. 
Enquanto ele falava, Ester olhava para Jandira que lhe parecia, 
tambm, estar se lembrando do passado, mas, em seu rosto, notou que
havia um que de raiva. Messias estava to empolgado que no percebeu.
Continuou falando: 
- Foi um dos dias mais felizes da nossa vida. Ver os trs, ali e 
formados!
Campelo o interrompeu:
-Os trs? No eram s os dois? 
- Esqueci-me de dizer que o Incio tambm foi criado junto com 
eles, eram e so amigos inseparveis. Os trs comearam a trabalhar no 
hospital do doutor Francisco e do doutor Loureno. Depois que eles se 
formaram, eu e a Jandira comeamos a chamar os trs de doutor, mas 
eles, assim como o doutor Francisco, no deixaram. Disseram que ns 
os havamos criado e no teria cabimento mudar o nosso tratamento 
em relao a eles. 
Cida que ouviu tudo em silncio, disse: 
-Parece que meu pai foi um bom homem. 
-Coloca bom nisso! Foi o melhor pai, mdico e amigo que conheci! 
 uma pena que voc no se lembre dele, mas vai lembrar! 
-E o meu irmo, como ? 
-Igualzinho ao pai. Tambm  um homem de bem. 
180


Conhecendo o Passado 
-Ele  casado? 
-No, est fazendo especializao, quer ser cardiologista. 
-E eu? Sou mdica mesmo? 
-  sim, e das boas, tambm estava fazendo especializao, s que 
queria ser obstetra. Dizia sempre que adorava ver uma criana nascer. 
Neco disse: 
-Foi por isso que ajudou o meu Rafael a nascer! 
Ao ouvir aquilo, Campelo disse: 
- Neco, foi por isso que ela no teve problema algum e parece 
que agora, mais do que nunca, tenho de fazer a minha especializao. 
Preciso estar  altura dela. 
Cida ainda tinha mais uma pergunta para fazer, embora estivesse 
com medo da resposta: 
-E eu? Sou casada? Tenho filhos? 
- No, voc tambm no se casou. Namorou algumas vezes, mas 
nada srio. Eu e a Jandira pensvamos que voc se casaria com o Incio, 
mas estvamos enganados, ele casou com a Vanda e parece que voc 
ficou muito feliz. 
Cida, aliviada, olhou para Campelo que apertou a sua mo. 
Sorriram. Jurema, no conseguindo disfarar sua felicidade com aquela 
notcia, disse: 
- Bem, se ela no  casada, acho que agora, j est quase tudo 
acertado. Est na hora da procisso, a gente tem que ir. 
Campelo levantou-se, dizendo: 
-Tem razo, Jurema. S amanh saberemos o resto. Vamos para a 
procisso. 
Saram. Jurema, Neco, Messias e Jandira seguiram na frente, 
conversando. Cida e Campelo ficaram para trs, caminhando de mos
dadas. Ele, embora tenso, disse:
- Estou preocupado, mas ao mesmo tempo, feliz por saber que 
poder reencontrar a sua famlia e muito mais por saber que voc no 
casada nem tem filhos, por isso, nosso amor ser possvel.
- Tambm estou aliviada, no sei se estou feliz ou assustada por 
conhecer o meu passado, j havia me conformado em no saber quem 
era. Agora, embora esteja curiosa, no consigo me ver longe da Jurema, 
181


Conhecendo o Passado 
do Neco, do Rafael e, principalmente de voc. 
-Eu compreendo, mas ser melhor conhecermos a verdade. Talvez 
o seu irmo possa nos esclarecer o que aconteceu e por que fizeram
aquela maldade, deixando-a quase morta e jogada na caatinga.
- Tambm sinto isso. Por que algum me faria aquilo? Que ser 
que fiz? 
- No est fazendo a pergunta certa. No deve perguntar o que 
fez, mas o que fizeram a voc. No me parece que voc seja uma pessoa 
ruim. 
- Tambm acredito que no, mas no podemos nos esquecer de 
que no sabemos nada do meu passado. 
- Tem razo, mas agora no  hora para pensarmos nisso. Vamos 
para a procisso, o povo est mesmo animado! 
Ele tinha razo, as pessoas caminhavam em direo  igreja. Em 
seus semblantes, podia-se notar a felicidade. Seguiram por duas quadras 
da rua. Encontraram com Dorival e Laurinda, que se aproximaram. 
Laurinda perguntou: 
-Jurema, o Dorival me contou.  verdade que apareceu um homem 
que conhece a Cida? 
- verdade, sim, tia. Parece que ele  um homem bom, quer levla 
embora, mas a gente ainda no deixou. Sabe l, se ele est dizendo a 
verdade, no  mesmo? 
-Ele no vai levar mesmo! Imagine se a gente vai deixar! Ela s vai 
se for acompanhada por um de ns. 
- Isso mesmo, tia, mas parece que o doutor vai junto com ela. A 
gente descobriu que ela no  casada, ento, os dois podem ficar juntos. 
Isso  bom, no  mesmo?
-  sim. Quando o Dorival chegou em casa me contando o que
voc tinha dito, fiquei at arrepiada. Como pode? O homem encontrla
aqui? Nesta cidade perdida do mundo! 
-No sei no, tia, mas acho que,exatamente pelo fato de a cidade
estar perdida no mundo, a famlia no a encontrou. O homem disse
que eles procuraram muito. Venha, vou apresent-los para a senhora. 
Esperaram pelos outros que vinham logo atrs e que caminhavam 
conversando. Laurinda estava muito curiosa. Jurema sabia disso. 
182


Conhecendo o Passado 
-Senhor Messias, esta  a minha tia, Laurinda, assim como a gente, 
sempre foi preocupada com a Cida e quer conhecer o senhor e a sua 
mulher. 
Messias se voltou e, com um sorriso, disse: 
-Muito prazer, senhora, estou feliz por encontrar a Ester e tambm 
feliz por saber que ela esteve em boas mos. Obrigado em nome da 
famlia. 
-No precisa agradecer, no, moo. A gente gosta muito dela, por 
isso, ela s vai sair daqui se a gente tiver certeza de que tudo o que o 
senhor est dizendo  verdade. Fizeram uma maldade muito grande 
com ela, a gente no sabe quem foi, nem qual foi o motivo, por isso a 
gente tem que tomar cuidado. Vai ver se no foi o senhor quem mandou 
fazer aquilo com ela! 
Ele, com um olhar enrgico, disse: 
-Por favor, nem pense nisso! Vi essa menina crescer!  como se fosse 
minha filha! O irmo dela vai chegar amanh. Ele poder esclarecer 
tudo. 
Laurinda, amuada e desconfiada continuou: 
-Vamos ver. Como a gente vai saber se ele  irmo dela mesmo? Ele 
pode ser o bandido que fez tudo aquilo! 
-No sei como ele far, mas, com certeza, encontrar uma soluo. 
De uma coisa eu sei, ele no sair daqui sem ela.
-Acho que o senhor tem razo.  bom a gente deixar para amanh.
Agora, est na hora da procisso e a gente tem muito que agradecer a 
So Jos. 
-Vim at aqui exatamente para isso. Minha famlia tambm est 
agradecida pela chuva do ano inteiro. Tambm quero participar da 
procisso e agradecer. 
Dizendo isso, pegou no brao de Jandira, que ouviu tudo, e saram 
caminhando em direo  igreja. Chegaram  praa que a rodeava. A 
populao estava toda aglomerada, muita gente se apertava junto  
porta. Fizeram como um corredor, por onde passaria a imagem de So 
Jos, sobre um andor todo enfeitado. Todos cantavam emocionados. 
O padre surgiu na porta e, em seguida, a imagem, que foi aplaudida. 
Crianas vestidas de anjos seguiam na frente. Cida e os demais no 
183


Conhecendo o Passado 
conseguiam esconder a emoo. Muito mais Cida, pois estava vivendo 
um momento esperado, que agora, porm lhe causava medo. Com 
lgrimas nos olhos, disse baixinho: 
-Meu So Jos, no o conheo, mas sei que  milagroso, ajude-me 
nesta hora. 
Saram e foram acompanhar a procisso. 
184

 Lembranas de Famlia 
Messias, por telefone, contou para Ernesto que havia encontrado 
Ester. Ernesto, assim que desligou e com o telefone ainda na mo, contou 
para Emlia que o olhava ansiosa. Perguntou: 
-O que o Messias disse? Ele encontrou a Ester? 
-Sim, na cidade em que nasceu e foi passar frias. 
-Obrigada, meu Deus! 
-Ele disse que ela est sem memria. 
-Como sem memria? 
- No sei, ele no explicou direito, mas disse que ela no o 
reconheceu e nem a Jandira... 
-Meu Deus do cu! Ele vai traz-la de volta? 
-No! Disse que as pessoas que esto com ela no a deixaro vir, 
antes que eu v at l e prove que ela  minha irm. 
-Voc vai? 
- Claro que sim, vou ligar agora mesmo para o Incio, sei que 
gostar de ir tambm. 
Ligou imediatamente para a casa de Incio que, ao ouvir o telefone 
chamando, atendeu: 
-Al! 
-Incio, sou eu o Ernesto! 
-Que aconteceu? Por sua voz, parece que est nervoso! 
-O Messias acabou de telefonar. Ele est passando frias na cidade 
em que nasceu e voc no vai acreditar, mas ele encontrou a Ester! 
-Encontrou?! Como? Onde? Por que ela desapareceu? 
-Ele disse que ela perdeu a memria e que as pessoas que esto com 
ela no querem deixar que ela venha com ele. Por isso, amanh bem 
cedo, estarei embarcando para Salvador! Trarei a minha irm de volta! 
Nem acredito que isso esteja acontecendo. 
Disse estas ltimas palavras chorando. Incio tambm estava nervoso. 
Gostava muito dela e, assim como ele, procurou-a por todos os lugares, 
desde aquele dia em Salvador. Por isso, emocionado, perguntou: 
-Perdeu a memria? Como? O que aconteceu? 
- O Messias no esclareceu muita coisa, s pediu que eu v at l 
185


Lembranas de Famlia 
para traz-la de volta e  o que farei! 
- Irei com voc! Tambm quero me encontrar com ela! Talvez nos 
vendo, consiga recordar-se e nos dizer o que aconteceu! 
-Receio que isso no ser possvel, pois o Messias disse que ela no 
se recorda de nada, nem de ningum, mas assim que chegar aqui, a 
levaremos ao Duarte, alm de ser o melhor psiquiatra que conhecemos,  
nosso amigo! Com um bom tratamento, logo se recordar. O importante 
 que ela est viva e que volte para casa. O resto, resolveremos depois. 
Voc vai mesmo comigo? 
-Claro que sim! 
-Est bem, vou reservar duas passagens para amanh cedo. Assim 
que chegarmos a Salvador, alugaremos um carro e, no meio da tarde, 
estaremos chegando  cidade em que ela est. No vejo a hora de abraar 
a minha irm! 
- Faa isso, a Vanda saiu, mas deve estar voltando, sei que ela 
tambm ficar feliz com essa notcia. Depois, ligue, dizendo a que horas 
o avio sair e nos encontraremos no aeroporto. 
Ernesto providenciou tudo para a manh seguinte e telefonou 
novamente para Incio, combinando o encontro no aeroporto. Depois, 
abraou Emlia que tambm, emocionada, disse: 
- Ernesto, agora tudo ficar bem. Ela voltando, saberemos como 
fazer para que se recorde. Vou agora mesmo telefonar para alguns 
amigos da casa esprita e pedir que vibrem por ns e por ela. 
-Faa isso e aproveite para agradecer todo esse tempo em que eles
oraram por ns e por ela. Sei que ficaro contentes.
-Farei isso agora mesmo. 
Saiu do escritrio, foi para o quarto de Ester e entrou. Tudo estava 
como antes de ela desaparecer. Ele no permitiu que se tocasse em nada, 
pois, embora os detetives lhe houvessem dito que no havia esperana, 
que provavelmente ela havia morrido, ele no aceitava essa idia, sabia e 
sentia que, a qualquer momento, ela apareceria. Seu corao bateu forte 
ao ver o seu retrato sobre a cmoda, pensou; minha irm querida, sabia 
que voltaria. No sei como voc est. S sei que em breve estar ao meu 
lado. Tudo o que  seu est aqui, como voc deixou. Estando aqui, neste
ambiente que foi seu, sei que conseguir se recordar de tudo. Mas, se no se
186


Lembranas de Famlia 
recordar, no tem importncia. Ser para sempre a minha irm querida. 
Obrigado, meu Deus! 
Lgrimas corriam por seu rosto. Continuou pensando:
Estou to s. Primeiro, foi papai que morreu durante a noite enquanto
dormia, logo depois voc desapareceu. Levado por Emlia, comecei a
freqentar uma casa esprita. L, disseram que tudo que nos acontece  
sempre para o nosso aprendizado, mas preciso aprender o qu? Sempre 
procurei fazer tudo da melhor maneira, nunca, em minha vida, prejudiquei 
ningum! Que ser que eu precisava aprender? Disseram tambm que 
estamos aqui na Terra para aprender e resgatar erros passados, mas, s 
vezes, eu no acredito que seja justo! Resgatar erros que no conhecemos? 
Erros que esto esquecidos no passado? Disseram, tambm, que Deus  um 
Pai justo e amoroso. Nisso, estou acreditando, pois ele est trazendo voc de 
volta. No sei o que eu tinha para aprender, mas, se, voc est voltando,  
sinal que aprendi. Mais uma vez, obrigado, meu Deus. 
Depois de ter esse desabafo, saiu do quarto. Estava ansioso e no 
existia para ele um lugar em que ficasse bem. S esperava que aquele dia
passasse e ele pudesse abraar Ester novamente. Foi para a sala. Leonora
estava ali, tirando o p dos mveis.
-Leonora, voc no imagina o que aconteceu! 
Ela olhou para ele e, surpresa, perguntou: 
-O que foi que aconteceu? 
-A Ester foi encontrada e est voltando! 
Ela, que estava com uma flanela na mo, comeou a tremer, tanto 
que a flanela caiu. Com a voz embargada perguntou: 
-Est voltando?! Como assim? Ela apareceu? 
Ernesto estava muito feliz para notar o nervosismo dela. 
Respondeu: 
-Messias encontrou-a, mas vou lhe contar tudo. 
Comeou a falar, ela o ouvia, mas no com toda ateno. Seu 
pensamento estava voltado para tudo o que havia acontecido. 
Continuava tremendo muito, num misto de curiosidade e medo. Seu 
corao batia forte. Ernesto terminou de contar e disse animado: 
-Voc viu como Deus  bom! Mesmo sem memria eu a quero de 
volta, pois sei que, aqui, com a nossa ajuda, ela conseguir se recordar. 
187


Lembranas de Famlia 
Voc no acredita nisso? 
Ela demorou um pouco para responder, depois disse: 
-Acredito, sim, que bom, no , doutor? 
- Sim,  muito bom. Agora estou ansioso para que a noite passe 
logo e que o dia amanhea! Quero encontr-la o mais breve possvel e 
traz-la aqui para casa. 
Leonora ficou calada, sempre temeu que aquele dia chegasse, mas 
com o passar do tempo, achou que Ester havia morrido e que ela 
estivesse livre para sempre, mas, agora, com a volta dela, o que faria? 
Ernesto saiu da sala. Ela se abaixou para pegar a flanela, lentamente 
recomeou a tirar o p, porm, o seu pensamento no parava, estava 
todo voltado para aquele dia: e agora? Que vou fazer? Ele disse que ela 
no se lembra do que aconteceu, mas se no for verdade? E se ela estiver s 
enganando as pessoas para poder descobrir o que aconteceu? Ser que ela
sabe? Quando descobrir, com certeza me mandar embora desta casa e no
tenho para onde ir. Por que fui aceitar uma proposta daquela? Se o doutor
Ernesto descobrir, nunca vai me perdoar. No sei o que fazer. Se a dona 
Jandira estivesse aqui, poderia me dizer o que fazer, mas, no, ela est l 
com o seu Messias, j sabe! Viu a dona Ester! Ser que est pensando o 
mesmo que eu? 
Estava visivelmente perturbada, sua cabea doa muito, foi para a 
cozinha. Genilda, a cozinheira, estava radiante. Ao v-la, disse: 
- Leonora! Voc j sabe? A dona Emlia me contou que a dona 
Ester vai voltar! 
Ela respondeu sem muito entusiasmo: 
- Sei, sim, o doutor me contou. No sei por que voc est to 
feliz... 
-Como pode dizer isso? Voc sabe o quanto o doutor sofreu com 
o desaparecimento dela! E a dona Emlia?! Coitada, ficava chorando 
pelos cantos, cansei de ver! 
-Sei de tudo isso, sim... 
Dizendo isso, saiu da cozinha. Assim como Ernesto, ela tambm 
no encontrava um lugar para ficar. Ao contrrio dele, sentia aquilo 
por temer a volta de Ester. Ela, Leonora, sabia muito bem o que havia 
acontecido. 
188


Lembranas de Famlia 
Enquanto isso, na casa de Incio, ele tambm, ansioso, esperava 
que Vanda, sua esposa, chegasse. Sabia que ela tambm ficaria feliz ao 
saber que Ester estava voltando para casa. Sentou-se em um sof e ficou
pensando em Ester: ainda bem que ela foi encontrada. Aquela noite em
que desapareceu foi como se o mundo tivesse acabado. Eu e o Ernesto no
entendamos como ela pde sumir daquela maneira. Ela, simplesmente, 
evaporou. Embora no seja minha irm, sempre a considerei como se fosse.
Fomos criados juntos. Eu, ela e o Ernesto estivemos o tempo todo juntos e
unidos. Mas, agora, ela vai voltar e tudo ser como antigamente. 
Ele percebeu a porta abrindo e, sabendo que era Vanda quem 
chegava, correu para receb-la. Assim que ela entrou, ele disse: 
-Vanda! O Ernesto telefonou, dizendo que a Ester foi encontrada! 
Ela parou, esttica, como se levasse uma flechada no peito. Ficou 
branca e quase desmaiou. Demorou um pouco para dizer: 
-Foi encontrada? Onde? Por quem? 
- O Messias a encontrou, l na cidade em que nasceu! Parece 
que, assim como eu, voc levou um choque. Entre, venha sentar-se e 
contarei tudo. 
Com muito sacrifcio, ela conseguiu dar alguns passos e se sentar 
em um sof. Incio sentou ao seu lado e comeou a contar tudo o que 
Ernesto havia lhe dito. Ela ouvia sem saber o que dizer. Tambm se 
lembrou daquela noite. Quando soube que Ester estava sem memria, 
ficou mais calma. Tinha jurado que nunca falaria com ningum sobre 
o que acontecera naquela noite. Agora, Ester estava voltando. No 
sabia se ela, mesmo que a sua memria voltasse se lembraria ou saberia 
dizer o que aconteceu. Aps Incio terminar de falar, ela levantou-se, 
dizendo: 
-Estou muito feliz, quem sabe, agora, saberemos o que aconteceu. 
S precisamos esperar at amanh. Vou subir, preciso tomar um banho, 
depois conversaremos. 
Dizendo isso, subiu os degraus da escada e foi para seu quarto. J l 
dentro, sentou-se sobre a cama, ficou lembrando-se de Ester e em tudo 
que ela havia representado em sua vida: lembro-me, como se fosse hoje, 
do dia em que a conheci. Eu trabalhava na cantina da faculdade, onde 
os trs estudavam. Estavam no quarto semestre de medicina. Eu estava 
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Lembranas de Famlia 
chorando, pois perdi meus pais muito cedo e tive que me manter sozinha.
Naquele dia, fiquei informada de que seria despedida, pois a cantina mudaria
de dono e ele no precisaria mais dos meus servios. Fiquei desesperada,
pois, vivendo sozinha, dividia um quarto com uma amiga, que assim como 
eu, no tinha um bom salrio e no conseguiria pagar o aluguel sozinha, 
o que teria de fazer, caso eu no conseguisse pagar. Fiquei desesperada, 
no possua estudo algum, portanto, seria difcil conseguir outro emprego. 
Estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, quando ela e o Ernesto se 
aproximaram do balco. 
Ela, percebendo que eu estivera chorando, perguntou: 
-Vanda, o que aconteceu? Por que est chorando? 
No fiquei admirada com a pergunta dela, pois todos os dias ela 
conversava comigo e com as outras pessoas que trabalhavam na faculdade, 
nos conhecia a todos pelo nome. Sabamos que ela pertencia a uma classe 
social diferente da nossa, mas ela fa zia questo de que ficssemos  vontade 
diante dela. Isso fez com que todos a admirassem. Contei a ela o acontecido. 
Assim que terminei, ela olhou para Ernesto, dizendo: 
- Ernesto, ser que ela no poderia trabalhar l em casa? Estou 
precisando de algum para cuidar das minhas coisas. 
Ernesto sabia que ela estava apenas querendo me ajudar, pois no 
precisava de ningum. Ele respondeu com ironia e rindo: 
- Sei, sim, o quanto voc precisa de algum, mas acredito que no 
haver problema algum. Faa o que quiser. 
-.Est vendo, Vanda, na vida sempre existe uma sada para tudo. Hoje 
mesmo, assim que terminar as aulas, voc ir conosco para a minha casa 
e, se gostar, poder comear amanh. No precisa mais se preocupar com o 
aluguel, se quiser, poder morar l em casa. 
Eu no esperava por aquilo, por isso, olhei para ela assustada, dizendo: 
-Est mesmo me oferecendo um emprego e um lugar para eu morar? 
- Estou, conheo voc desde quando entramos na faculdade e sempre 
pareceu ser uma boa moa. Estou mesmo precisando de algum para tomar 
conta de tudo o que  meu. Sou muito desorganizada... voc est precisando 
de trabalho, por que no se unir o til ao agradvel? Voc aceita? 
- Claro que sim! Estava desesperada, sem saber o que fazer!
- Pois no precisa mais ficar preocupada. Hoje, quando terminar as 
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Lembranas de Famlia 
aulas, voc ir conosco para conhecer a nossa casa e ver se quer ficar l. 
Eu no sabia se ria ou chorava. Estava ali, olhando para ela, quando o 
Incio se aproximou. Meu corao tremeu, eu olhava para ele todos os dias, 
mas ele nunca me notou, a no ser como a moa que servia na cantina. 
Sempre que eles terminavam de comer e saam rindo, felizes, eu ficava 
triste. Amava o Incio, mas sabia que eu no era moa para ele, era apenas 
uma garonete, enquanto ele pertencia a uma famlia rica e tradicional. 
Assim que Ester o viu, disse, sorrindo: 
-Incio, a Vanda vai trabalhar l em casa e me fazer companhia! Que 
acha disso ? 
Ele olhou para ns duas e parece que s naquele momento me notou. 
Sorrindo, respondeu: 
- Voc  quem sabe, Ester, pois, se precisa mesmo de algum, acredito 
que essa moa seja uma boa opo. 
Naquela mesma tarde, fui para a casa dela. Ao chegar l, fiquei admirada 
com o seu tamanho e beleza. Ela mostrou toda a casa e o quarto onde eu 
ficaria. Era amplo e arejado, mil vezes melhor do que aquele em que eu 
morava. Eu estava radiante. Depois, mostrou o seu quarto, dizendo: 
-Este  o meu quarto, Vanda. Preciso que cuide das minhas roupas e, 
quando eu terminar de estudar, preciso que guarde meus livros. Bem que
eu poderia estudar no escritrio, mas prefiro ficar aqui, sinto-me melhor. 
Quase sempre, quando termino, largo tudo e vou me deitar. Pedi para a 
Leonora no mexer, pois ela guarda e eu nunca mais encontro os meus 
papis. Ela tem toda a casa para cuidar, mas voc ter que cuidar s disso. 
Ensinarei como gosto de tudo. Ver que no h muito trabalho. Quem sabe 
voc queira voltar a estudar. Garanto que ter tempo. 
Eu no estava acreditando naquilo que ouvia. Naquele dia pela manh, 
ao receber a notcia que seria despedida, entrei em desespero e, agora, 
algumas horas depois, tudo havia mudado. Ainda um pouco confusa, eu 
perguntei: 
- Voltar a estudar!? No posso, no tenho dinheiro para isso, alm do 
mais, s estudei at a quarta srie. 
- O que tem isso? Dinheiro no ser o problema, poder fazer um 
supletivo e, se tiver vontade, em pouco tempo estar formada e quem sabe
poder freqentar uma faculdade.
191


Lembranas de Famlia
Muito feliz e sem saber como agradecer, eu disse:
-Dona Ester, a senhora  muito boa. Obrigada... 
-Nada de senhora, temos mais ou menos a mesma idade e no sou boa, 
s no sei por que, mas, assim que a vi, gostei de voc. Acredito que seremos 
boas amigas. 
- Espero que sim, o que depender de mim eu farei. Nunca poderei 
pagar tanta bondade. 
Ela no disse nada, apenas sorriu e me acompanhou para que eu visse 
o resto da casa. Naquele dia, recomecei a minha vida. Mas, agora, preciso 
parar de recordar o passado, preciso trocar de roupa e voltar para a sala. O 
Incio no pode desconfiar de nada. 
Vanda trocou de roupa e foi para a sala encontrar com Incio que, 
muito ansioso, ao v-la disse: 
-Vanda, no vejo a hora de estar novamente ao lado da Ester! Voc 
sabe o quanto todos ns sofremos com a sua ausncia e muito mais por 
no saber o que aconteceu, mas sinto que logo saberemos. 
- Estou feliz tambm, mas voc no disse que ela perdeu a 
memria? 
- Parece que sim, mas s saberemos quando a encontrarmos e, se 
isso aconteceu, aqui ao nosso lado, junto de tudo que sempre foi dela, 
tenho certeza de que voltar a ser a pessoa maravilhosa que sempre foi. 
Vanda, com uma expresso estranha no rosto, disse: 
-Esperamos que sim, mas, agora, est na hora de jantar. Vamos? 
Ele se levantou, beijou seu rosto, dizendo: 
-Ela foi sempre muito sua amiga, com certeza a reconhecer. 
Vanda, calada, caminhou em direo  sala de refeies. Seu corao 
estava apertado, sentia que Ester sofreria muito, recordando-se de que 
acontecera naquela noite em que desapareceu. Ela, Vanda, tambm 
temia por aquilo.
Naquela noite, nenhum deles conseguiu dormir. Campelo, ao
mesmo tempo em que estava feliz por Cida finalmente descobrir quem
era, temia perd-la para sempre.
Cida, agora Ester, estava ansiosa por saber que tinha uma famlia, 
mas temia no a reconhecer e ser obrigada a sair do lado daquelas 
pessoas que, agora, eram sua famlia e, principalmente, ficar longe de 
192


Lembranas de Famlia
Campelo, que ela sabia ser o seu amor.
Jurema e Neco, aps terminarem de jantar na casa de Laurinda, 
foram para o quarto. Enquanto preparavam-se para deitar, Neco disse: 
-Sabe, Jurema, acho que a gente nunca mais vai ver ela, no... 
-Por que est dizendo isso, Neco? 
-Jurema, a gente j sabe que ela  de famlia rica e que mora l no 
Sul. Voc acha mesmo que assim que ela estiver l, vai se lembrar da 
gente e querer viver aqui desse jeito? Nessa pobreza? No vai, no! 
- No fale assim, Neco! Isso no  verdade! Ela gosta da gente e 
muito mais do nosso menino, ela no vai agentar ficar longe dele, 
muito menos do doutor. Acha que ela vai se esquecer dele tambm? 
- Dele acho que no, mas tambm no  problema, porque ele 
pode ir junto com ela. Agora, da gente... acho que ela se esquece, sim, 
 por isso que estou triste. Gosto muito dessa moa. Desde que ela 
apareceu, a nossa vida mudou e voc tambm, at parece que ela foi 
mandada por Deus para ajudar a gente... 
-Neco, ser que foi isso? 
-No sei no, mais parece que foi. Agora que tudo j est certo por 
aqui, ela vai embora. Acho que foi Deus quem a mandou sim. Est na 
hora de a gente tentar dormir. Amanh, vamos ter que ficar por aqui. 
Ela no pode ficar sozinha nessa hora. 
- , Neco, no pode mesmo. Ela s vai embora se a gente tiver 
certeza de que o moo que vai chegar  irmo dela mesmo e se ela quiser 
ir, no  mesmo? 
- Isso , Jurema, mas vamos aproveitar que o nosso menino est 
dormindo e vamos tentar dormir tambm? 
-Vamos, sim, Neco... 
Deitaram-se, fecharam os olhos e tentaram dormir. 
193



 O Reencontro 
Logo pela manh do dia seguinte, Ernesto e Incio encontraram-se 
no aeroporto. Como no podia deixar de ser, estavam nervosos, e no ntimo, 
com medo de encontrar Ester, pois Messias no havia sido muito 
claro, apenas disse que a encontrou e que ela estava sem memria. Mas, 
mesmo assim, queriam v-la o mais rpido possvel. Na hora exata, o 
avio partiu e, junto com ele, a esperana deles. 
A viagem transcorreu tranqila, eles  que no estavam tranqilos. 
Assim que desembarcaram, dirigiram-se a agncia de carros. Ernesto, na 
noite anterior, j havia reservado um. Pegaram o carro e empreenderam 
viagem. No tinham muito que conversar, estavam somente na 
expectativa daquele encontro to esperado e na curiosidade em saber o 
que havia acontecido com Ester. 
Nunca uma viagem demorou tanto. A paisagem passava por seus 
olhos e eles iam admirando-se com isso ou aquilo, evitavam falar sobre 
Ester. O medo que sentiam de que ela no os reconhecesse ou de que 
Messias houvesse se enganado deixava-os mudos, embora aquilo fosse 
pouco provvel, pois Messias a havia praticamente criado, no teria 
como enganar-se. Finalmente, viram a placa com o nome da cidade. 
Ernesto acelerou mais o carro dizendo: 
-Incio, agora estamos perto de poder abraar a Ester e lev-la para 
casa. Ser que ela no vai mesmo nos reconhecer? 
-No sei, mas espero que nos reconhea, precisamos saber o que 
aconteceu naquela noite e s ela poder nos dizer. 
- De qualquer forma, isso no tem muita importncia, o que 
importa  que ela est de volta. O resto vir com o tempo. 
- Voc tem razo, Ernesto. Agora falta pouco para este pesadelo 
terminar. 
Apreensivo, Ernesto estacionou o carro em frente  igreja, no local 
onde Messias havia combinado. Assim que estacionaram, Messias 
correu para junto deles. 
- Ernesto! Que bom que chegou! Voc tambm veio, Incio? Eu 
no via a hora que chegassem. 
Ernesto desceu do lado da porta em que Messias estava encostado. 
195


O Reencontro 
Incio desceu do outro lado. Enquanto descia, Ernesto perguntou: 
-Messias! Onde ela est? Est bem mesmo? 
-Ela est em uma casa desta rua, est muito bem de sade, s no 
se lembra de nada nem de ningum. 
-Vamos at l. 
Aps cumprimentarem Jandira, seguiram em direo  casa de
Campelo, onde estavam Cida, Neco e Jurema. Eles estavam com o
corao nas mos, nervosos e ansiosos, sabiam que a vida deles, daquele
dia em diante, mudaria de uma forma radical. Messias bateu  porta,
Campelo deu um beijo na testa de Cida e se encaminhou para abri-la.
Assim que a abriu e viu Ernesto, no lhe restou a menor dvida, ele era, 
sim, irmo de Cida, pois a semelhana entre os dois era indiscutvel. 
-Boa tarde, meu nome  Campelo, no preciso perguntar qual dos 
dois  o irmo dela. A semelhana entre vocs  impressionante. Ela est
aqui, queiram entrar, por favor. 
- Boa tarde, no  a primeira pessoa que diz isso. Estou ansioso 
para encontr-la. O senhor no pode imaginar como tem sido a nossa 
vida, desde que ela desapareceu. 
- Acredito que o sofrimento de todos est perto de terminar. 
Queiram entrar, por favor. 
Dizendo isso, afastou-se da porta, permitindo que eles entrassem. 
Assim que Cida viu Ernesto, levantou-se da cadeira em que estava 
sentada, ficou parada, olhando para ele, que no se conteve e correu 
para ela, abraando-a e chorando muito. 
- Ester, minha irm querida! Quanto tempo estou procurando 
por voc! O que aconteceu? Como veio parar aqui, neste lugar to 
distante? 
Ela no o reconheceu, mas ao ver o seu desespero, tambm se 
abraou a ele e comeou a chorar, sem saber o que responder. Ficaram 
assim abraados e chorando por um longo tempo, at que Campelo 
tocou no ombro deles.
- Agora est tudo bem, reencontraram-se e parece que no resta 
dvida de que so realmente irmos. Vamos nos sentar e conversar 
sobre o que faremos em seguida. 
Neco e Jurema olhavam emocionados para os dois, ali abraados. 
196


O Reencontro 
Jurema deixou que algumas lgrimas corressem por seu rosto, mas ao 
ouvir o que Campeio disse, balanou a cabea, concordando com ele. 
Ela sabia que Cida s iria embora, se eles tivessem a certeza de que 
seria realmente para a sua famlia, mas ao ver Ernesto, assim como
Campelo, no lhe restou dvida alguma. Pensou: so irmos mesmo,
olha s o cabelo? Da mesma cor! Os olhos, nariz e at a boca, so irmos, 
sim, isso so mesmo... 
Ernesto afastou-se de Ester, mas continuou olhando para ela que 
tambm o olhava, fazendo um esforo enorme para reconhec-lo, mas 
por mais que tentasse, no conseguia. Somente sentia um carinho 
enorme por aquele desconhecido. Antes de se sentar, Ernesto disse: 
- Desculpem, com a emoo ao rever a minha irm, esqueci de 
apresentar, este  o Incio, amigo da famlia e quase um irmo. 
Incio, assim como os outros, estava emocionado e tambm queria 
abraar Ester, mas, ao perceber que ela realmente no os reconhecia, 
apenas disse: 
- Muito prazer, Ester, sei que no est nos reconhecendo, mas 
precisa saber que, assim como o Ernesto, amo voc e estou feliz por 
encontr-la. Tenho certeza de que, assim que retornar para casa, junto 
a tudo que sempre conheceu, voltar a se lembrar. 
Ela no respondeu, estava como que anestesiada, apenas sorriu entre 
lgrimas. Campelo disse: 
-Vamos nos sentar, precisamos saber o que aconteceu e por que ela 
foi largada na caatinga, quase morta. 
Ao ouvir aquilo, Ernesto quase gritou: 
-O que est dizendo? Ela foi encontrada quase morta? 
-Isso mesmo, quem a encontrou foi o Neco. 
Disse isso apontando com os olhos para Neco, que tambm confuso 
com tudo aquilo, disse:
- Foi isso mesmo, doutor. Eu a encontrei jogada com muitos 
machucados pelo corpo e uma ferida bem feia na cabea. Levei-a para 
casa e quando ela acordou no sabia quem era e nem de onde tinha 
vindo. No sabia, tambm, quem tinha feito aquela maldade com ela. 
A gente, eu e a Jurema, ficamos sem saber o que fazer. Ento resolvemos 
deix-la ficar morando com a gente, onde est at hoje e o senhor no vai 
197


O Reencontro 
lev-la, no, sem antes contar o que foi que aconteceu, no , Jurema? 
Jurema e Cida estranharam o modo como ele falou. Estava nervoso, 
demonstrando claramente que ela, apesar de esquecida, no estava 
sozinha, tinha a eles e, principalmente, a ele, para proteg-la. Jurema, 
apesar de espantada com a atitude dele, disse: 
-Isso mesmo, Neco. Doutor, a gente gosta dela como se fosse nossa 
irm e ela salvou a minha vida e a do meu menino e vai ser tambm 
madrinha dele. A gente no quer que ela v embora, no, s se ela 
quiser, no  mesmo, Neco? 
Neco no respondeu. Apenas balanou a cabea concordando. 
Ernesto e Incio, ao ouvirem aquilo, ficaram abismados. Nunca 
puderam imaginar que uma coisa como aquela tivesse acontecido com 
Ester. Ernesto disse: 
- Ela  minha irm, somos gmeos, nunca tivemos uma briga 
sequer, sempre nos adoramos! Incio foi criado conosco, quase que na 
mesma casa, pois ficava mais tempo l do que na sua! No sabemos o 
que aconteceu nem por que algum faria isso com ela! Ela nunca teve 
inimigo algum e  querida por todos que a conhecem!
Campelo percebeu que ele dizia a verdade, olhando bem em seus
olhos, disse:
-Sinto que est sendo sincero, por isso, seria bom que nos contasse 
o que aconteceu, no dia em que ela desapareceu. 
-J devem saber que somos mdicos e que trabalhamos no hospital 
que sempre foi da nossa famlia. Incio se casou com a Vanda, a melhor 
amiga de Ester. Na poca em que se casaram, o hospital estava passando 
por uma reforma, havia muito trabalho, por isso, eles resolveram que 
viajariam s por um fim de semana para a lua-de-mel. Foram para 
Caldas Novas. Na poca, eu estava noivo, e a Ester estava namorando 
h pouco tempo com um outro amigo nosso. Combinamos que, 
quando tudo estivesse em ordem no hospital, faramos uma viagem. 
Programamos que visitaramos Salvador, pois, embora j tivssemos 
ido para muitos pases, ainda no conhecamos essa cidade, que todos 
os nossos amigos diziam ser fabulosa. Tudo correu como o planejado, 
s que, naquele meio tempo, o meu noivado foi desfeito e a Ester 
desmanchou o namoro, por isso, fomos s os quatro. Embarcamos 
198


O Reencontro 
para Salvador, ficaramos s por uma semana, pois o nosso tempo era 
curto, tnhamos compromissos. Assim que chegamos, fomos para um 
hotel, que a Vanda, por ter mais tempo, havia reservado. Incio e ela 
ficaram em um apartamento, eu em outro e a Ester, em outro, todos 
no mesmo corredor. Ficamos encantados ao visitar as igrejas de ouro e 
ao comprovarmos que elas realmente existiam e que eram lindssimas. 
Ns nos divertimos muito. Passeamos, ficamos muito tempo na praia. 
Foi uma semana maravilhosa. No dia anterior  nossa volta, a Vanda 
resolveu ir at ao Pelourinho para fazer algumas compras. Eu e a 
Ester resolvemos ir para a praia. Antes disso, pela manh, enquanto 
tomvamos caf, perguntamos ao recepcionista do hotel, e ele nos 
indicou um dos melhores restaurantes da cidade para que jantssemos
na nossa noite de despedida - olhou para Ester dizendo: Ester, voc
no se recorda daquele dia? Ficamos o tempo todo juntos. Enquanto o 
Incio e a Vanda foram para o Pelourinho, ns fomos para a praia. 
Ela apenas balanou a cabea, respondeu que no. Ele continuou: 
-Eu estava deitado na areia, sob o sol quente. Ester estava dentro 
da gua. Ela saiu da gua e veio correndo, sentou-se ao meu lado, 
perguntando: 
- Voc no vai entrar no mar, Ernesto? A gua est uma delicia.
-Se tomar conta das nossas coisas, vou.
-Pode ir, eu fico aqui, mas antes quero falar com a Emlia.Sonhei com
ela nesta noite. Aproveitarei para dizer que voltaremos amanh e pedirei 
que nos faa um almoo bem gostoso... estou com saudades da sua comida. 
-Eu tambm, faa isso, assim que voltar, irei para a gua. 
- Concordando com a cabea, ela saiu correndo em direo a um 
telefone pblico. De onde eu estava, conseguia v-la falando. Depois, 
voltou, dizendo que havia falado com Emlia e que ela estava bem. 
Fui para a gua, ela ficou deitada ao sol. Durante muito tempo, ns 
nos revezamos vrias vezes. At que, cansados, resolvemos voltar para o 
hotel.  noite, na hora marcada, eu j estava pronto. Ester, que sempre
foi muito vaidosa, ainda no estava. No suportando mais esperar por
 ela, fui at o seu quarto. Ela estava diante do espelho, escovando os 
cabelos. Disse nervoso: 
-Ester! Vai demorar muito para ficar pronta? Estou com fome! 
199


O Reencontro 
-No, falta pouco, s estou dando os ltimos retoques, mas que horas 
so?
-Olhei para o meu relgio de pulso e respondi: 
- Oito horas e quinze minutos.
-J estou quase pronta, mas no precisa esperar, pode descer, antes,
passe pelo quarto do Incio e diga para a Vanda esperar que vou ao seu
quarto. Antes do jantar, quero lhe dar um presente. No quero que o Incio
saiba o que . Por isso, vocs dois podem descer. Assim que eu lhe der o 
presente, desceremos juntas e os encontraremos no saguo. Vocs tero uma 
surpresa. 
- Que surpresa  essa? 
-Se eu contar, deixar de ser surpresa. Saia daqui! 
- Ela disse isso rindo e brincando. Fingiu que, se eu no sasse, 
jogaria a escova de cabelos, que estava em sua mo. Eu a conhecia muito 
bem, sabia que o logo dela significava mais meia hora. Sa e bati  porta 
do quarto de Incio, que atendeu. Enquanto eu entrava, ele disse: 
- Ol, j est pronto?
-Sim, e estou com fome.
-E a Ester? 
- Vanda saiu do banheiro, estava pronta. Fiquei surpreso e 
admirado. 
- Vanda! Como voc est bonita com essa cor de cabelo! 
-Tambm gostei, cansei de ser morena. Aproveitei hoje  tarde e mandei 
pintar, mas o Incio no gostou. 
-Est muito bonito. Incio  assim mesmo, um conservador. 
-No sou conservador, s gostava do cabelo dela como era, foi assim
que a conheci. No sei que idia maluca foi essa!
-A idia pode ter sido maluca, mas o resultado foi muito bom. Incio,
vamos descer! Vanda, a Ester pediu para voc esperar por ela aqui. Quer lhe 
dar um presente antes do jantar. 
- Vanda, admirada, perguntou: 
- Que presente? 
-No sei, s disse que teremos uma surpresa. 
-Est bem, vou esperar. Vocs podem descer. 
-Estvamos saindo quando ela disse: 
200


O Reencontro 
-Esperem, pensando bem vou com vocs. 
-E a Ester? Vai ficar furiosa quando no encontrar voc! 
-Ernesto, voc sabe como ela fa la muito. Vamos descer juntos, pois se 
ela vier at aqui, vai ficar conversando e nos atrasar. Quando vier e vir que 
no estou aqui, descer para nos encontrar e, l, dar o meu presente. No 
imagino o que possa ser, mas qualquer coisa que for, pode ser dado l no 
saguo, vocs no acham? 
-Eu e o Incio concordamos, pois estvamos com fome. Descemos 
juntos para o saguo do hotel. Ficamos conversando por um bom 
tempo, at que me dei conta de que Ester estava demorando. Olhei 
para eles, perguntando: 
-Incio, onde est a Ester? 
-No sei, Ernesto, voc foi o ltimo que falou com ela e disse que ela 
iria at o nosso quarto para levar o presente da Vanda, mas, realmente, est
demorando muito! Vamos at l para ver o que aconteceu.
- Ela no desceu! Para onde ter ido? Sabia que a estvamos
esperando.
-Fomos at o quarto, pensando que talvez ela estivesse no banheiro.
Assim que chegamos, procuramos por toda parte e nada da Ester.
Passamos a noite em claro, esperando a sua volta, mas ela no voltou. 
Comunicamos  polcia. No dia seguinte, Incio e Vanda voltaram, 
pois o hospital no poderia ficar sem a presena de um de ns. Fiquei 
por l, mais de um ms, sem obter notcia alguma. Em uma sexta-feira, 
Incio voltou e ficaria o fim de semana. Caso Ester no aparecesse, ele 
tentaria me levar de volta. No sbado, pela manh, atendendo a um 
chamado do delegado, fomos at a delegacia. Assim que nos viu, disse: 
-No sei o que dizer, mas no encontramos rastro de sua irm. 
- Como no? Ela no pode ter desaparecido assim! Ela no conhece a 
cidade! Para onde ter ido? 
- No sei, vasculhamos todos os locais julgados perigosos, mas no a 
encontramos. Sinto muito. Acredito que seja melhor o senhor voltar para 
So Paulo e continuar a sua vida. 
- No posso voltar! Ela  minha irm, no posso deix-la aqui 
sozinha! 
- Sinto muito, porm, preciso Lhe dizer. Depois de ter passado tanto 
201


O Reencontro 
tempo sem se comunicar, no recebemos pedido de resgate, no encontramos 
o corpo, portanto ela no est morta nem seqestrada, o que nos leva a crer 
que ela no quer ser encontrada.
- O senhor est delirando? Por que ela faria isso? Somos irmos! Por
que ela no iria querer se comunicar? No existe motivo! 
- Com toda minha experincia, quando acontece algo parecido e se 
no h pedido de resgate e um corpo no  encontrado, o motivo  sempre 
o mesmo. 
- Que motivo? 
-Ela deve ter gostado de algum e resolveu fugir com ele. 
-No acreditei naquilo que aquele homem estava dizendo. Quase 
o esbofeteei, mas fui contido por Incio que, percebendo o meu estado, 
disse: 
- Obrigado, doutor, estamos indo para o hotel, conversaremos e 
resolveremos o que fazer. 
-Pegou no meu brao e me conduziu para fora da delegacia. Eu estava 
nervoso e assustado. No entendia o porqu daquele desaparecimento. 
Na rua, eu disse: 
-Incio! Por que me tirou l de dentro? Aquele homem  um cretino 
e incompetente. Como pde dizer uma coisa daquelas? Se Ester tivesse 
encontrado algum, com certeza nos contaria! Ela no ficou s nem por um 
momento! Sempre samos juntos! Sinto que algo muito grave aconteceu... s 
no sei o qu? Estou assustado! 
- Tentando aparentar uma calma que no estava sentindo, ele 
disse: 
-Tambm estou assustado, sabe que amo a Ester assim como voc. Mas 
no adianta ficar assim. Penso que o delegado tem razo. Precisamos voltar 
para casa, o hospital est sem voc h muito tempo. Vamos voltar e, assim 
que chegarmos a casa colocaremos anncios em jornais e revistas, iremos  
televiso e ao rdio, contrataremos um detetive e ele a procurar por todo 
este Brasil, tenho certeza de que a encontraremos. 
-No posso ir embora e deix-la aqui, sem saber o que aconteceu! 
- Sei que  difcil, mas  preciso. Somos mdicos, no policiais ou 
detetives. Em casa, encontraremos uma maneira de encontr-la. 
-Resisti por mais aquele fim de semana, mas, finalmente, tive de 
202


O Reencontro 
concordar com o Incio e resolvi voltar. Assim que chegamos, fizemos o 
que Incio havia dito. Colocamos anncios, contratamos um detetive. 
Ele procurou por todos os lugares possveis, mas no a encontrou. 
Enquanto Ernesto falava, lgrimas desciam de seus olhos. Respirou 
fundo, olhou para Ester e disse, emocionado: 
- No deixei de pensar em voc um dia sequer, e, durante todo 
esse tempo, sempre tive a esperana de encontr-la. No sei por que 
isso aconteceu em nossa vida, mas, hoje, estou feliz, pois, encontrei-a e 
nunca mais vamos nos separar. 
Cida, em silncio, ouviu tudo o que ele disse. Estava emocionada 
por ver a maneira como ele estava, mas por mais que tentasse rever 
aquelas cenas que ele descrevia, no conseguia lembrar. Olhando bem 
em seus olhos, tambm com lgrimas, disse: 
Eu sinto que est dizendo a verdade e que realmente sou sua irm, 
s que no consigo me lembrar de nada. Embora eu sinta isso, para 
mim, voc  um estranho e no sei o que fazer... 
Incio, que foi sempre o mais ponderado de todos, perguntou: 
-No consegue se lembrar de nada? Nem do tempo em que ramos 
crianas e amos juntos para a escola? 
-No, no me lembro de nada... 
Ao ouvir aquilo, Ernesto disse: 
-Isso no tem importncia. Voc vai conosco para casa e a levaremos 
a um psiquiatra e em breve se recordar. 
Ela levantou-se da cadeira, chorando, abraou Jurema, dizendo: 
-Jurema, no quero ir embora... estou com medo! 
-  isso mesmo, moo! Ela no vai, no! Acho que o senhor est 
dizendo a verdade, mas a gente no tem certeza. Ela chegou muito 
machucada, algum bateu muito nela, vai ver foi o senhor mesmo que 
fez aquilo ou mandou fazer. Ela no vai com o senhor, no! 
-Dona Jurema, estou dizendo a verdade! Jamais faria algum mal a 
ela!  a minha irm, s Deus sabe o quanto tenho sofrido desde que ela 
desapareceu! Ela precisa ir para poder se lembrar de tudo. Se continuar 
aqui, isso ser difcil!
Campelo disse:
- Esperem, fiquem calmos. Os dois esto com razo. Sinto que
203


O Reencontro 
realmente ela  a sua irm e que tudo o que est dizendo  verdade, 
mas o senhor precisa entender a nossa situao. Ela no o reconhece, 
est conosco h muito tempo, por isso, acredita que aqui est segura 
e, na realidade, est mesmo. Para ns, ser difcil deixarmos que ela 
v na companhia de pessoas de quem no se recorda. Somos as nicas 
pessoas que ela conhece como famlia. Ela nos ama e  amada por ns. 
Ser difcil a ela ir para um lugar desconhecido e conviver com pessoas 
desconhecidas. Precisa entender tambm que, de acordo como ela foi 
encontrada, algo muito grave aconteceu. Por isso, temos que pensar 
muito bem no que faremos. Quanto a voc, Cida, no pode continuar 
assim, precisa de um tratamento para poder se recordar. S voc poder 
nos contar o que aconteceu naquela noite. 
-No posso ir embora com eles! No sei quem so... 
Incio ouviu tudo calado, depois, disse: 
- Todos temos uma s vontade, que tudo seja esclarecido, tenho 
uma proposta que nos ajudar.O senhor disse que  mdico aqui na 
cidade e, por tudo que notei, est apaixonado por ela. Que tal o senhor 
acompanh-la? Poder trabalhar no nosso hospital, at que ela se 
recorde. Quando isso acontecer, pensaremos no que fazer.
Campelo olhou para Ester que pedia com os olhos que ele aceitasse.
Ele entendeu o seu pedido, mas perguntou: 
-Voc quer que eu v? 
Ela respondeu com a voz suplicante: 
-Por favor, venha comigo, assim sei que estarei protegida... 
- Sabe que, ao se recordar, talvez eu no tenha um lugar em sua 
vida... 
-Voc sempre ter um lugar. Esse lugar  s seu... 
Ele sorriu, olhou para Jurema e Neco, perguntando: 
-Se fosse comigo, vocs a deixariam ir? 
Jurema olhou para Neco que ouvia tudo calado e perguntou: 
-Neco, com ele, ela pode ir, no  mesmo? 
- Com o senhor, doutor, ela pode ir, porque a gente sabe que vai 
proteg-la. Mas sozinha ela no vai no! 
- Est bem, sendo assim, eu irei, Cida, vim para esta cidade s 
por alguns dias, mas os meus planos eram outros. Acredito que tenha 
204


O Reencontro 
vindo at aqui somente para conhecer voc. Agora, voltarei para o 
meu plano inicial. Precisamos saber de toda a verdade, pois, s assim 
poderemos ter uma vida feliz. Se quando se recordar, no me quiser 
mais, eu entenderei. 
- Isso no acontecer, sabe que amo voc e que esse amor  
verdadeiro. 
- Quem me ama  a Cida, uma moa simples que borda e tece 
renda. No sei se a doutora Ester continuar pensando da mesma 
maneira. 
Ela, diante da doura como ele disse aquelas palavras, sorriu: 
-A Ester, com certeza, tambm amar... 
Ernesto comeou a rir. 
-Bordando, tecendo renda? Gostaria muito de ver isso! 
-Por que est admirado? 
- Sempre detestou trabalhos manuais! No consigo imaginar voc
bordando!
-Mas ela borda muito bem, e tece tambm, eu mesma ensinei!
-Se a senhora diz, acredito, mas gostaria de ver! 
- O senhor vai ver! Vai gostar do trabalho dela. 
-Quero e preciso ver isso! Bem, o que faremos doutor! 
-J que, ao meu lado, ela ir e com o consentimento de todos, 
iremos para So Paulo. L veremos o que acontece. 
- Ester, tenho certeza de que assim que rever a nossa casa, o seu 
quarto e as pessoas com quem sempre conviveu, as lembranas aos 
poucos voltaro e logo poder retomar o seu trabalho no hospital. Seus 
pacientes esto com saudades e, tambm, preocupados.
-Se Campelo for junto, irei, mas se dentro de um ano eu no me
lembrar, precisa prometer que me deixar voltar.
-Voc se lembrar. Mas se isso no acontecer, eu mesmo a trarei 
de volta. S quero que seja feliz e, se a sua felicidade est aqui, no serei 
um empecilho para que ela seja realizada.
Campelo segurou a mo de Cida. Carinhoso, falou:
-Est bem, amanh bem cedo iremos. Porm, antes disso, preciso 
falar algo para voc, Cida ou Ester. J que tenho um lugar na sua vida e 
pretendo ficar nesse lugar por muito tempo, j que, agora, voc tem um 
205


O Reencontro 
outro nome, no  certo continuar me chamando de doutor. Prefiro 
que use o meu primeiro nome. 
Todos, admirados, olharam para ele. Ela disse: 
-No sei o seu primeiro nome! 
-Meu nome  Daniel. Espero que goste. 
-Gosto, sim!  um lindo nome, muito melhor que Campelo.
-Campelo  o meu nome de famlia. Quando entrei na faculdade,
havia muitos com o nome de Daniel, para que no houvesse confuso, 
meus colegas comearam a me chamar de Campelo. Com o tempo, eu
me acostumei e sempre que perguntavam o meu nome, eu dizia que era
Campelo, mas, a minha esposa, prefiro que ela me chame de Daniel.
-Esposa?! 
-Qual  o espanto? No tnhamos decidido que ficaramos juntos, 
at voc se recordar e saber se era casada ou no? Voc no se recordou, 
mas, pelo menos, sabemos que no  casada. Por isso, no haver 
empecilho para que nos casemos. A no ser que tenha mudado de 
idia... 
- Claro que no mudei de idia! Sabe muito bem o quanto amo 
voc. 
Ele sorriu, olhando para Ernesto e Incio, disse: 
-Creio que tero de passar a noite aqui, pois na cidade no existe 
hotel. A minha casa  pequena, mas encontraremos uma maneira de 
acomod-los. 
- No tem importncia, encontraremos uma maneira sim, o que 
importa  que reencontrei minha irm. 
Jurema abraou Cida. 
-Voc vai, mas no precisa ficar l. Se quiser, pode voltar quando 
quiser, a gente vai estar esperando, no  mesmo, Neco? 
-Claro que ! A gente deve muito a voc! Por sua causa, a Jurema 
voltou para o trabalho e quis ter o nosso menino! Se voc no estivesse 
naquele dia l em casa, ela e ele tinham morrido. A gente gosta muito 
de voc, Cida... 
-Tambm gosto muito de vocs e voltarei, me recordando ou no. 
Jamais esquecerei tudo o que fizeram por mim. 
Jurema no queria que ela fosse embora, mas sabia que era preciso. 
206


O Reencontro 
Disse emocionada: 
-Est bem, mas, agora, a gente precisa comer. Vamos l para a casa 
da tia Laurinda, ela tambm est querendo saber o que aconteceu aqui. 
Ela tambm gosta muito de voc, no  mesmo? 
Cida sorriu, respondendo: 
-Tambm gosto muito dela. Vamos, sim, sei que nos receber com 
muito carinho. 
Todos concordaram, foram para a casa de Laurinda, que, como 
Jurema disse, estava esperando ansiosa uma notcia. Foram recebidos 
com carinho, jantaram e Laurinda, aps saber tudo o que havia 
acontecido, disse:
-Doutor Campelo, o senhor disse que eles vo dormir na sua casa,
mas l  muito pequeno, tenho aqui trs quartos vazios, que eram dos
meninos, por isso eles podem dormir aqui.
Daniel e os outros concordaram. Aps o jantar, todos se recolheram e 
dormiram. Incio e Ernesto, naquela noite, aps muitas outras passadas, 
conseguiram dormir tranqilos. Cida, ou melhor, Ester, demorou um 
pouco mais para dormir, pois sabia que, a partir do dia seguinte, sua 
vida mudaria novamente e sentia medo do que encontraria. 
No dia seguinte, acordaram cedo. Quando Daniel chegou, Laurinda 
j estava com a mesa colocada, tomaram caf e se prepararam para sair. 
Ester, ao lado de Daniel, embora preocupada, no sentia mais medo, 
pois sabia que estaria protegida. Jurema, embora sentisse um aperto no 
corao, tambm sabia que aquilo era o que melhor poderia acontecer 
com a sua Cida que, desde que chegou a sua casa, s lhe trouxe alegria. 
Neco, por sua vez, sentia o mesmo que Jurema. Pedia a Deus que 
aquela moa que um dia ele salvou conseguisse, agora, encontrar o seu 
caminho. Com as malas prontas, chegou a hora das despedidas que, 
como no poderia deixar de ser, foi acompanhada de abraos e desejos 
de boa sorte, boa viagem e muitas lgrimas. Abraada  Cida, com 
lgrimas nos olhos, Jurema disse: 
-Cida, sei que voc tem que ir embora, sei que nunca foi do nosso 
mundo nem desta terra, mas, se voc no lembrar e quiser voltar, a
gente vai estar esperando. No  mesmo, Neco?
-, sim, a gente e o nosso menino. Voc no pode esquecer que vai
207


O Reencontro 
ser a madrinha dele, sendo a Cida ou essa doutora Ester, para a gente 
no tem diferena. 
Falou essas palavras com a voz embargada. Cida, emocionada com 
aquele momento, abraou os dois. 
- Podem ter a certeza de que voltarei, sendo Cida ou no. Devo 
a vocs no s a minha vida, mas o muito que aprendi durante esse 
tempo todo. Nunca os esquecerei, muito menos o nosso menino. Vou, 
sim, ser a madrinha dele. Espero voltar logo. 
Em seguida, despediu-se de Laurinda e Dorival, que tambm 
estavam emocionados, pois com o tempo aprenderam a gostar daquela 
moa, to estranha, mas que os conquistou com seu jeito humilde. 
Aps as despedidas, acompanhada por Daniel, Ernesto e Incio, 
entrou no carro que eles haviam alugado e partiram. 
208

Voltando Para Casa 
Durante a viagem, Ernesto e Incio tentaram manter conversao, 
mas perceberam que Ester permanecia distante. Daniel tambm percebeu 
a atitude dela, porm no deixou de acariciar sua mo nem por um 
instante. Tentou responder s perguntas de Ernesto e manter a conversa. 
Ernesto falou do hospital, contou que, desde criana, sempre soube 
que um dia, ao lado de Ester e Incio, teriam de tomar conta de tudo 
que pertencia s duas famlias. S agora, j no meio do caminho, ele 
perguntou: 
-Daniel, qual  a sua especialidade? 
-Sou clnico geral, a minha inteno, antes de vir para Carim, era 
ir para So Paulo, montar o meu consultrio e fazer especializao em 
ginecologia e obstetrcia. 
-Por que no fez isso? 
-Trabalhei por muito tempo na emergncia de um hospital, deixei 
o tempo passar. 
-Agora, assim que chegarmos, conhecer o nosso hospital e, com 
certeza, l tambm h um lugar para que possa exercer o seu trabalho e 
fazer a sua especializao. 
-Agradeo a sua oferta, mas a minha prioridade, agora,  fazer com 
que Cida, desculpe, Ester, se recorde do seu passado e possa ser feliz. 
Quanto ao meu trabalho, no precisa ser agora, s depois que tudo ficar 
esclarecido. S a, ela e eu poderemos tomar uma deciso a respeito da 
nossa vida. 
-Percebi que esto apaixonados. Isso faz muito tempo? Existe algo 
mais srio entre vocs? 
-Estamos apaixonados, sim, mas sei que, assim que ela se recordar 
do passado, talvez eu no tenha mais lugar em sua vida. 
Ao ouvir aquilo, Ester apertou a mo dele, dizendo: 
-J disse e volto a repetir que sempre ter um lugar na minha vida 
e no meu corao. 
Ele sorriu e acariciou sua mo, sem nada dizer. 
Finalmente chegaram ao aeroporto. Ester espantou-se ao ver o 
tamanho do avio. No se lembrava de, em sua vida, ter visto outro 
209


Voltando Para Casa 
igual. 
Eles perceberam, mas apenas sorriram. Durante a viagem, ela sentouse 
do lado da janela e apreciou o vo. Embora sentisse um pouco de 
medo, Daniel estava ao seu lado e isso lhe dava segurana. 
Assim que o avio aterrissou, ela acompanhou-os. Seu corao 
batia forte, olhava tudo, tentando encontrar algo que a fizesse lembrar. 
Mas foi em vo. Ernesto foi ao estacionamento para pegar o seu carro. 
Incio fez o mesmo. Ester e Daniel entraram no carro de Ernesto, que 
foi seguido por Incio. 
O carro seguiu por uma estrada, Ester continuava olhando. Ernesto 
mostrava aos dois todos os lugares importantes e bonitos da cidade, 
tentando, assim, fazer com que Ester se lembrasse daquela cidade que 
ele sabia o quanto ela amava. Quarenta minutos depois, chegaram em 
frente a um porto de ferro. Assim que o carro parou, Ernesto, atravs 
de um boto, fez com que ele se abrisse. 
Seguiram por uma alameda florida. Ester pde notar que havia um 
jardim muito bem cuidado. Pensou: meu Deus, como tudo isso  diferente 
do stio do Neco. Aqui tudo  muito rico, por que l existe tanta pobreza? 
Por que ser que existe toda essa diferena entre as pessoas? Estou aqui, mas 
sinto que no perteno a este mundo. Como gostaria de estar, agora, l no 
barraco bordando e tecendo. 
Os dois carros pararam diante de uma porta de madeira nobre. 
Ernesto desceu, abriu a porta de trs por onde Ester e Daniel desceram. 
Logo, Incio estava ao lado deles. A porta da frente da casa se abriu e, 
por ela, surgiu uma senhora de mais ou menos cinqenta anos que, ao 
v-los, disse, rindo: 
-Ester! Ento foi voc mesma que o Messias encontrou? 
Ester ficou olhando para aquela mulher que a recebia com tanta 
felicidade, mas que no sabia quem era. Olhou para Daniel que segurava 
seu brao e o apertou com mais fora. Ernesto percebeu que Ester no 
a reconheceu. Disse: 
- Emlia, a Ester no est bem,  preciso que voc prepare o seu 
quarto, est cansada e precisa descansar. 
-O quarto dela sempre esteve preparado. Eu mesma fao questo de 
ir l todos os dias. Venha, Ester, poder descansar o quanto precisar. 
210


Voltando Para Casa 
Segurando no brao de Daniel, com passos lentos, ela entrou naquela 
casa que sabia ter sido sua um dia, mas da qual no se lembrava. Assim 
que entrou na sala, ficou olhando tudo. Os mveis pareciam ser de 
madeira de lei, eram escuros. Viu uma cristaleira e, sobre ela, havia 
peas feitas em porcelana e cristal. Tudo era sbrio, mas bonito e de bom 
gosto. Olhou para a enorme escada que levava ao ambiente superior. 
Em cima da cristaleira, havia um porta-retratos com a foto de um casal. 
Ela no sabia de quem se tratava, mas deduziu que fossem seus pais. 
Ao lado do porta-retratos, havia mais dois, um com a foto dela e de 
Ernesto e outro,com a foto dela, de Ernesto e Incio. Estavam com a 
bata que usaram no dia da formatura. Olhou com ateno para tudo. 
Depois, olhou para Ernesto, Incio e Daniel que a acompanhavam e, 
ansiosos, esperavam sua reao. Com lgrimas correndo por seu rosto 
e nervosa, disse: 
-No recordo! Sinto muito, mas no recordo! 
Daniel abraou-a e acariciou seus cabelos. Emocionado, disse: 
- No fique assim. Est tudo bem, s precisamos dar tempo ao 
tempo. Agora est na sua casa, junto com pessoas que a amam. Ir a um 
psiquiatra e ele saber como a ajudar. Fique calma. 
-Ester, faa isso e no fique preocupada, logo estar bem. O mais 
importante  que est aqui, na sua casa e ao meu lado, que sou seu 
irmo e amo muito voc. Resolveremos o resto, com o tempo. Agora, v 
com a Emlia para o seu quarto. Hoje, voc apenas descansar, amanh 
falaremos com o Duarte, voc no se recorda dele, mas tambm foi nosso 
colega de faculdade, e hoje,  um timo psiquiatra. Ele a examinar e 
nos dir o que deveremos fazer. 
Ela olhou para Daniel que, com a cabea, lhe disse que fizesse aquilo 
que Ernesto sugeriu. Em seguida, olhou para Emlia que, pegando em 
seu brao, apontou para a escada que a levaria ao piso superior. Assim 
que terminou de subir os degraus, apareceu um corredor com muitas 
portas. Emlia abriu uma delas, fez com que Ester entrasse por ela e 
entrou atrs. 
- Este  o seu quarto. Est da mesma maneira que deixou. Nada 
foi tirado nem mudado de lugar. Sei que aqui ter algumas lembranas, 
fique  vontade. Ali  o banheiro. Se quiser, pode tomar um banho. 
211


Voltando Para Casa 
Suas roupas esto todas no armrio e as toalhas esto no armrio do 
banheiro. Vou deix-la sozinha e pedirei para que a Leonora traga um 
lanche. 
Enquanto Emlia falava, Ester olhava tudo, notou que o quarto, 
embora simples, era amplo e arejado. Antes que Emlia sasse, disse: 
- Emlia, obrigada por tudo o que est fazendo. Sinto muito no 
t-la reconhecido, sinto, tambm, que foi algum importante na minha 
vida. 
Emlia, com uma lgrima correndo por seu rosto, disse: 
-No precisa agradecer, estou feliz porque voltou, voc e o Ernesto, 
sim, representam muito em minha vida. Eu os considero como se 
fossem meus filhos. Descanse.
-No precisa... no estou com fome, s quero ficar aqui olhando
tudo e tentando me recordar. Estou cansada sim, talvez eu consiga 
dormir um pouco. 
-Est bem, fique  vontade, se no quer o lanche, no vou insistir, 
voltarei mais tarde para ver como est. 
Sorrindo, saiu. Ester ficou parada por mais alguns minutos, depois 
foi para o banheiro e pensou: meu Deus... que lugar  este? Jamais vi 
tanta riqueza! Estou aqui, no meio de tudo isso, mas do que adianta se no 
consigo lembrar? Meu Deus, at quando isso vai durar? Ser que, algum 
dia, conseguirei me recordar? 
Olhou para o chuveiro. Pendurado em uma parede, viu um roupo 
de banho. Embora no se lembrasse dele, sabia ser seu. Sentiu vontade 
de tomar um banho. Tomou um banho morno, vestiu o roupo e 
voltou para o quarto. Abriu o armrio e se espantou com a quantidade 
de roupas que havia ali. Vestidos, saias, calas e blusas. Pegou um dos 
cabides, onde estava pendurado um vestido verde-claro. Com ele nas 
mos, pensou: no consigo imaginar como ficaria usando um vestido como 
este... durante todo o tempo em que vivi na casa da Jurema, s usei vestidos 
simples, costurados por ela. Este vestido  lindo! No sei se devo us-lo... 
Colocou o vestido de volta no cabide e no armrio. Deitou-se sobre 
a cama e, sem perceber, adormeceu. 
Quando ela chegou ao quarto acompanhada por Emlia, seus pais j
a estavam esperando. Eles acompanharam todos os seus movimentos.
212


Voltando Para Casa
Durante todo o tempo em que ela esteve no banheiro, eles sentaram-se
em um sof que havia em um dos cantos do quarto. Ficaram ali,
conversando sobre os filhos e sobre as suas vidas, relembrando-se do 
curto tempo em que viveram juntos. Sorriram ao ver Ester admirada 
diante de tudo e, principalmente, das roupas. 
Assim que Ester adormeceu, eles sentaram-se um em cada lado da 
cama e comearam a acariciar os seus cabelos e seu rosto. O pai deu um 
beijo em sua testa dizendo: 
-Olhe, Maria Eugnia, como ela est uma linda moa? Nem parece 
mais a minha menininha... 
- Ela  linda, mesmo... foi uma pena eu no poder ter ficado e 
acompanhado fisicamente o crescimento deles... 
- Mas esteve todo o tempo ao nosso lado e, principalmente, ao 
meu, dando-me foras para cri-los. Sempre senti a sua presena e 
soube que nos amparava. 
- Sempre que foi permitido, estive, sim, ao lado de vocs, mas a 
minha misso era outra, eu precisava seguir outro caminho. A minha 
vinda aqui Terra foi s para dar vida a eles. O resto seria por sua conta. 
Porm, Deus, que nunca nos desampara, mandou a Emlia, o Messias e 
a Jandira para esta casa e as crianas cresceram saudveis e felizes. 
- Cresceram, sim, tanto ela como o Ernesto. Sempre foram o 
motivo do meu orgulho. Eu os amo muito, mas, se eles no estivessem 
aqui, ajudando na educao deles, no sei se teria conseguido. Quando 
voc se foi, quase enlouqueci. 
- Agora, tudo passou. Hoje, estamos aqui, juntos e torcendo 
para que nossos filhos consigam terminar a jornada e, se possvel, 
vencedores. 
-Deus a oua... Deus a oua... 
Ester, com o corpo completamente adormecido, abriu os olhos 
da alma. Ao ver o pai, reconheceu-o, sentou-se na cama e o abraou 
chorando e dizendo: 
-Papai!  o senhor que est aqui? 
-Sou sim, minha filha, e estou muito feliz por voc ter, finalmente, 
retornado para casa.
-Papai, o que aconteceu? Por que no consigo me recordar?
213


Voltando Para Casa
- Tudo tem seu tempo e hora, logo mais saber. O importante 
 que nunca se esquea do quanto eu e sua me amamos voc e que 
sempre estivemos e estaremos ao seu lado e do seu irmo. 
S a, ela viu sua me. Abraando-a e, tambm chorando, gritou: 
- Mame, a senhora tambm est aqui? Como senti sua falta? Por 
que teve que morrer to cedo? A senhora est viva? 
-Estou viva, sim, alis, nunca morri. Apenas mudei de plano, mas 
nunca fiquei longe de vocs. Foi preciso que eu partisse, pois a educao 
de vocs teria de ser feita por seu pai, a Emilia, o Messias e a Jandira e 
parece que eles a educaram muito bem! 
- verdade, eles nos deram muito amor e carinho. Sempre estiveram 
ao nosso lado e papai foi o melhor pai do mundo! 
Francisco, um pouco sem graa, disse para a mulher: 
- Ela est exagerando, agora precisamos ir. Minha filha, quando 
acordar, no se recordar dessa nossa conversa, mas saber que sonhou 
conosco e no seu ntimo saber, tambm, que estamos aqui ao seu lado 
e acontea o que acontecer, sempre continuaremos. Deus a abenoe 
e que voc possa tomar a deciso certa, para que consiga trilhar o seu 
caminho com muita felicidade. 
- Papai! Mame! No vo embora! No me abandonem 
novamente!
-  preciso, minha filha! Agora, precisamos ir e, no momento
certo, voltaremos e ficaremos aqui ao seu lado, todo o tempo que for 
necessrio. 
Sorrindo, afastaram-se. Ester virou o corpo na cama e abriu os 
olhos. Demorou um pouco para reconhecer o lugar em que estava. 
Sentou-se na cama, pensando: que sonho estranho... sonhei com o 
homem e a mulher daquela foto os quais deduzi serem meus pais. No 
me lembro do que disseram, mas sei que fiquei feliz ao v-los. O que ser 
que disseram? 
Estava assim, sentada e pensando quando a porta do quarto se abriu 
lentamente. Por ela entrou Emlia. 
- Est acordada, Ester? Vim aqui, vrias vezes, mas voc dormia 
profundamente e no quis acord-la. 
-Acordei agora mesmo. Que horas so? Parece que dormi muito! 
214


Voltando Para Casa 
-Est quase na hora do jantar. Todos esto esperando por voc. 
-E o Daniel, onde est? 
- Est l embaixo conversando com o Ernesto e com o Incio. Ele 
me pareceu ser um bom rapaz. 
-E  mesmo... 
-Voc est apaixonada? 
-Estou, s que ainda sinto um pouco de medo. No poderei tomar 
deciso alguma, enquanto no recuperar a memria. 
-Estranha essa doena. J ouvi alguma coisa sobre ela, mas nunca 
imaginei que existisse mesmo. Como uma pessoa, adulta, pode esquecer 
o seu passado? 
- No sei, mas est acontecendo comigo e posso lhe dizer que  
horrvel. 
- O Ernesto j telefonou para o Duarte e marcou uma consulta 
para amanh. Quem sabe ele poder ajud-la, mas para ns, aqui em 
casa, no importa se vai ou no relembrar do passado, o que importa  
que est aqui, bonita como sempre foi! Agora, escolha um vestido para
o jantar! A Vanda vir tambm!
-Vanda? Quem  ela?
-  a esposa do Incio e uma grande amiga sua. Quem sabe, ao
v-la, consiga se lembrar de alguma coisa. Vocs se davam muito bem e
estavam sempre juntas.
-Tomara que eu consiga reconhec-la... 
- Caso no consiga hoje, conseguir amanh. Agora, que vestido 
quer que eu pegue? 
Dizendo isso, Emilia abriu uma das portas do armrio. Diante de 
Ester, surgiu aquela infinidade de vestidos, saias e blusas que j havia 
visto. Tornou a olhar para todos eles, dizendo:
-Ainda no consigo acreditar que todas essas roupas so minhas!
So muito bonitas! Tem certeza de que so minhas mesmo? 
- So suas sim e tambm bonitas! Voc sempre teve muito bom 
gosto para se vestir! Pode escolher a que quiser. Vou descer, assim que o 
jantar estiver pronto, pedirei para Leonora vir avisar. 
Ester no disse nada, apenas continuou olhando admirada para 
dentro do armrio. Assim que Emlia saiu, ela se levantou, pegou alguns 
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Voltando Para Casa 
vestidos, colocou-os em frente ao corpo e olhou-se no espelho. Depois, 
colocou cada um sobre a cama. Fez isso vrias vezes. Escolheu aquele 
verde-claro; vestiu, voltou a olhar no espelho, sorriu e pensou: este  
realmente muito bonito! Mas por mais que eu saiba que esta  minha casa,
no consigo acreditar que j vivi aqui, assim e dessa maneira! Que j fui
uma pessoa muito rica! Por que no consigo me lembrar?
Uma sombra de tristeza passou por seus olhos, mas ela a espantou 
num instante: no deixarei que nada estrague esta noite. Se esta casa  
minha, se estou sendo bem recebida, se tenho tudo isso, e ainda o amor de 
Daniel, que mais posso querer? Estou feliz! 
Ajeitou os cabelos, estava abrindo a porta do quarto para sair, no 
exato momento em que Leonora levantava a mo para bater. Ao v-la, 
Leonora se assustou: 
-Vim avisar que o jantar est pronto... 
-Obrigada, eu j estava indo. 
Leonora no conseguiu dizer nada, apenas acompanhou Ester 
enquanto desciam a escada. Pensava: ser que ela realmente no me 
reconheceu? Ser que perdeu a memria mesmo? Ser que no se lembra
daquilo que aconteceu? 
Ester, ainda sem acreditar em tudo o que estava acontecendo, desceu 
a escada, entrou na sala de estar, onde eles estavam reunidos. Ao vla, 
os trs homens levantaram-se. Daniel andou em sua direo, com 
carinho beijou seu rosto, dizendo, admirado: 
-Como voc est linda! Esse vestido  muito bonito! 
Ela sorriu encabulada. 
-Tambm achei, Emlia disse que  meu, que fui eu mesma que o 
comprei e todos os outros que esto no armrio tambm so meus. 
- Ela disse e  verdade, aquele quarto e tudo o que tem nele so 
seus. Cada coisa que tem l foi escolhida e comprada por voc. Mas o 
Daniel tem razo. Minha irm, voc est muito bonita mesmo! No , 
Incio? 
Incio, sorrindo, levantou-se, ficou a uma certa distncia, olhou-a 
de cima a baixo, disse: 
-Est bonita, sim! Por que essa admirao, Ernesto? Ela sempre foi 
bonita! Quem vai confirmar isso ser a Vanda que deve estar chegando. 
216


Voltando Para Casa 
Ela est ansiosa para rever voc, Ester! Assim como todos, ela tambm 
ficou preocupada com o seu desaparecimento. 
-A Emlia disse que ela foi a minha melhor amiga, mas tambm 
no me recordo dela... 
- Foi no! Ela  sua melhor amiga, mas no vamos falar sobre isso, 
assim que ela chegar tero muito tempo para conversar e, quem sabe,
ao v-la, voc consiga se recordar. Mas vamos nos sentar?
Ester sorriu, pois aquele tambm era o seu desejo. Recordar. Por
mais que todos dissessem que aquela era a sua casa e que eles eram a sua 
famlia, ela no estava  vontade e pensou: eles so maravilhosos, esto 
fazendo tudo para que eu fique  vontade. Como estaro a Jurema e o Neco? 
Que vontade que tenho de voltar e continuar ao lado deles... com eles, sim, 
estava sempre  vontade. Mas sei que, neste momento, a nica coisa que 
posso fazer  esperar a hora em que me lembrarei da minha vida passada. 
Preciso, tambm, relembrar de tudo o que aconteceu naquela noite. 
Enquanto pensava, sentou-se ao lado de Daniel que, carinhosamente, 
colocou sua mo sobre a dela. Ela sorriu, pois, apesar de tudo, ao lado 
dele sentia-se confiante. Sabia que, daquele momento em diante, seria 
s uma questo de tempo. 
Alguns minutos aps, a campainha soou. Leonora foi abrir a porta. 
Assim que entrou, uma moa, demonstrando ansiedade e preocupao, 
perguntou baixinho: 
-Leonora, onde ela est? 
-Na sala de estar. 
-Ela reconheceu voc? 
-Parece que no. Acho que ela perdeu a memria mesmo! 
-Vamos ver agora, se isso  verdade! 
Passou por trs de Leonora e entrou. Caminhou em direo  sala 
de estar. Assim que abriu a porta, ficou parada a uma certa distncia, 
olhando para Ester, que, ao v-la, admirou-se com a sua beleza, mas 
tambm no conseguiu reconhec-la. Incio levantou-se e foi ao 
encontro dela que continuava parada na porta. 
-Vanda, Ester voltou mesmo! Olhe como continua bonita! 
Vanda apenas sorriu e caminhou em direo de Ester. Assim que 
chegou perto, abraou-a, chorando e dizendo: 
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Voltando Para Casa 
- voc mesma! Pensei que estivessem enganados! Voc est muito 
bem, no mudou nada! 
Ester, num impulso, abraou-a tambm, mas, ao fazer isso sentiu 
como que um arrepio. Parecia que ela estava sendo falsa. Havia naquela 
mulher algo que a incomodava. Assim que Vanda  largou, ela olhou 
bem no fundo de seus olhos, dizendo: 
-Disseram que voc era a minha melhor amiga, mas, sinto muito, 
no a estou reconhecendo. 
-Como no? Como pode se esquecer da nossa amizade? Como isso 
aconteceu? 
- No sei, e j sofri muito por isso. No me lembro de nada e de 
ningum. Todos dizem quem sou e que esta casa  minha, mas, mesmo 
assim, no estou  vontade. Confesso que no sei o que farei com a 
minha vida. 
- Ora, minha irm, j lhe disse para no ficar preocupada. Assim 
que conversar com o Duarte, ele encontrar uma forma de ajud-la. 
-Espero que sim, Ernesto, pois j no estou suportando mais esta 
situao. 
- Isso passar. Vamos para a sala de jantar. Vanda, quero lhe 
apresentar o doutor Daniel. Ele  o noivo da Ester. 
Vanda olhou para Incio, depois disse, admirada: 
- Noivo? Ester, voc mudou mesmo! Sempre disse que jamais se 
casaria! Muito prazer, doutor. O senhor conseguiu uma faanha! A 
Ester era radicalmente contra o casamento e nunca consegui descobrir 
o porqu. 
-Muito prazer, senhora. Ento, nesse caso, foi bom ela ter perdido 
a memria. Ns nos amamos muito e pretendemos nos casar. A no ser 
que, agora, ela mude de idia. 
Disse isso, olhando para Ester que sorria. 
- Nunca mudarei de idia. No sei qual era o motivo de eu ser 
contra o casamento, mas posso lhe garantir que, hoje, esse motivo no 
existe mais. 
Encaminharam-se para a sala de jantar. Assim que entrou, Ester 
viu a mesa que j estava colocada com pratos de porcelanas e copos 
de cristal e um belo arranjo de flores no centro. Ela ficou encantada, 
218


Voltando Para Casa 
mas, ao mesmo tempo, sabia que nunca havia visto uma mesa como 
aquela. Sentou-se no lugar indicado por Ernesto e ao lado de Daniel. 
Comearam a comer. Para espanto dela e deles, sabia exatamente como 
usar os talheres. Eles perceberam, mas no disseram nada. Ela, enquanto 
comia, pensava: como tudo aqui  diferente. O que a Jurema e o Neco 
fariam diante de uma mesa como esta? Eles que esto acostumados a comer 
com as mos e fazer aqueles pequenos bolinhos de feijo, arroz e farinha. 
No percebeu, mas ao se lembrar dos amigos, sorriu. Daniel, 
percebendo, perguntou: 
- Cida! Desculpe, est sendo difcil eu chamar voc de Ester. Do 
que voc est rindo? 
Ela, s a se deu conta, olhou para ele e respondeu, sorrindo: 
- No precisa me chamar de Ester, pois eu mesma estou achando 
estranho e para voc quero ser sempre a Cida. Estou rindo, porque 
me lembrei da Jurema e do Neco e no que fariam diante de uma mesa 
como esta. 
Daniel tambm sorriu: 
-Tem razo, para eles, seria realmente difcil. 
Continuaram comendo em silncio. Embora no quisessem, os 
outros no conseguiam deixar de notar as atitudes de Ester, que, por isso, 
no se sentia  vontade e, ao mesmo tempo, olhava para eles, fazendo 
um esforo enorme para ver algo que fizesse com que lembrasse. De 
todos os presentes, Emlia era quem parecia mais feliz. Sentada ao lado 
de Ernesto, enquanto comia, pensava: ela continua bonita como sempre 
foi, mas algo est mudado. Talvez tenha sido a vida difcil que viveu nesses
ltimos tempos.
Leonora, por sua vez, servia a mesa, mas a todo instante olhava 
para Ester, pensava: ser que ela no se recorda mesmo? Ser que no est 
mentindo? 
Aps o jantar, passaram para a sala de estar. Alguns minutos depois, 
Leonora entrou na sala, trazendo um carrinho de ch, contendo xcaras 
de caf, em porcelana, bule e aucareiro de prata. Serviu caf para 
todos. 
Enquanto tomavam o caf, Ester olhava, ora para um ora para 
outro. No conseguia acreditar que j havia morado naquela casa e 
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Voltando Para Casa 
convivera com aquelas pessoas. Aps tomarem o caf, Daniel pegou em 
seu brao, dizendo: 
- Desculpem, eu posso ir com a Cida at ao jardim? Precisamos 
conversar. 
-Claro que sim, Daniel, quero que se sintam  vontade. Esta casa 
 de vocs tambm! 
-Obrigado, Ernesto. Venha, Cida, vamos para o jardim apreciar a 
noite. 
Ela, sorrindo e aliviada, levantou-se e o acompanhou, agradecendo 
intimamente por ele ter tido aquela idia. No estava realmente 
sentindo-se bem ao lado daquelas pessoas, que, embora soubesse que 
no eram estranhas, para ela continuavam sendo. L fora, ele beijou-a e 
fez com que se sentasse em um dos bancos do jardim. 
Assim que se sentaram, ele perguntou: 
-Ento, o que est achando de tudo aqui? 
- No estou sentindo-me bem, estou da mesma maneira como 
fiquei quando cheguei  casa de Jurema... tudo  estranho e diferente. 
Para ser sincera, gostaria muito de estar l com eles. 
-E das pessoas? 
- Todos so muito amveis e esto tentando me deixar  vontade 
e fazendo questo que eu me sinta realmente em minha casa, mas, 
mesmo assim, no estou conseguindo. Quanto  Vanda, no sei, mas 
senti algo ao v-la. Embora todos digam que ela foi minha amiga, no 
consigo sentir isso. 
-O que sentiu ao v-la? 
-No sei, mas uma espcie de rejeio. 
-Isso  estranho. 
-Tambm estou achando, pois, at agora, eu no havia sentido isso 
por nenhum deles. 
-Acredita que ela tenha algo a ver com aquilo que aconteceu? 
-No sei, mas algo aconteceu entre ns duas. 
-Ela no deixou transparecer isso, ao contrrio, pareceu feliz com 
a sua volta. 
-Tem razo, talvez eu esteja vendo fantasma onde no existe. Estou 
atordoada com tudo o que est acontecendo. 
220


Voltando Para Casa 
- Bem, de qualquer maneira, hoje nada mais poderemos fazer. 
Combinei com o Ernesto e o Incio e, amanh, eles nos levaro at ao 
hospital, querem que eu o conhea para ver se ficarei trabalhando ali. 
-Pretende fazer isso? 
- Sabe muito bem que a minha inteno no era essa. Pretendo 
ter o meu prprio consultrio e fazer a minha especializao, mas 
enquanto voc no se recordar, ficarei ao seu lado. No posso deix-la 
sozinha, alm do mais, prometi a Jurema e ao Neco que ficaria ao seu 
lado e pretendo cumprir a minha promessa. Se no fosse por eles, seria
por mim mesmo, pois sabe o quanto amo voc e como desejo que tudo 
fique esclarecido para que possamos decidir a nossa vida. 
Ela beijou-o e, agradecida, disse: 
-No sei se conseguirei recordar o meu passado, mas, de uma coisa 
tenho certeza, este meu presente no quero esquecer, muito menos, o 
quanto amo voc. 
- Tambm amo voc e espero que quando recordar de quem foi 
no v se esquecer de tudo que representamos um para o outro. 
- Isso jamais acontecer. Se for para que acontea, prefiro voltar 
agora mesmo para Carim e retornar a nossa vida de onde paramos. 
Nunca, mas nunca mesmo, deixarei de amar voc. 
-Assim espero, mas at que isso no acontea, precisamos ficar por 
aqui. Trabalharei no hospital, voc far o tratamento com o psiquiatra 
e assim que estiver bem, decidiremos o que fazer, mas, por hoje, 
precisamos descansar. Vamos dormir e amanh ser outro dia e com ele 
viro muitas outras coisas, pois um novo dia nunca  como o anterior. 
Vamos entrar? 
-Vamos sim, agradeo a Deus por ter permitido encontrar voc. 
- Sabe que, s vezes, penso que tudo na vida acontece como tem 
que acontecer. Fiquei tanto tempo trabalhando na emergncia do 
hospital, quando decidi largar aquilo e dar um novo rumo para minha 
vida, tudo se transformou e a minha vida tomou sim um outro rumo, 
embora diferente daquela que eu havia programado. 
-Est triste por isso? 
-Nem pensar! Encontrei a mulher mais maravilhosa do mundo e 
sei que, em breve, poderei retornar ao meu plano inicial. A minha vida, 
221


Voltando Para Casa 
agora, tomou o rumo certo! Amo voc e amarei para sempre. 
-Tambm amo voc e farei todo o possvel para que seja feliz ao 
meu lado. S que, para isso, terei de descobrir se sou Ester mesmo ou 
continuarei sendo a Cida... 
-No me importa quem seja, sei que continuarei amando qualquer 
uma das duas. Mas vamos entrar? 
Ela beijou seu rosto, levantou-se, dizendo: 
-Vamos sim e seja tudo como Deus quiser. 
Enquanto conversavam no jardim, dentro da casa os outros tambm 
conversavam. Vanda disse: 
- Ester est do mesmo modo que era, apenas com a pele mais 
escura queimada pelo sol. Que tipo de vida ter levado durante esse 
tempo todo? 
Ernesto respondeu: 
-A cidade em que esteve  muito pequena e pobre, mas as pessoas 
que cuidaram dela, embora simples, so boas e com certeza a querem 
muito bem. Foi difcil eu e o Incio conseguirmos convenc-los para 
que a deixassem vir conosco. Eles no queriam, sentiam medo de que 
fssemos fazer algum mal a ela. 
Vanda comeou a rir enquanto perguntava: 
-Foi mesmo? O que eles pensaram? 
-Disseram que poderamos ser mandantes de tudo que aconteceu 
com ela. S consentiram, quando Daniel se ofereceu para vir tambm. 
-No consigo imaginar a Ester nessa dependncia toda. Ela sempre 
foi to forte, sempre soube o que queria da sua vida, de repente ficou 
assim frgil, sem coragem de olhar nos olhos das pessoas quando 
conversa. Ao menos foi assim comigo. Ela no olhou uma s vez em 
meus olhos. 
- Tem razo, Vanda, ela est um pouco arredia, mas  fcil de
compreender. Est em um ambiente ao que, embora saiba que j
pertenceu, no acredita que seja o seu. Est no meio de pessoas que,
embora digam que so sua famlia, no reconhece como tal. Nos ltimos 
tempos, ela encontrou um novo lar e uma nova famlia. Confia neles. 
Quanto a ns, est acabando de nos conhecer. Assim que se recordar, 
voltar a ser como era antes. Ao menos assim espero... 
222


Voltando Para Casa
Emlia interrompeu-os, dizendo:
-Ernesto, Vanda, no importa como ela est, o que importa  que 
voltou. Vocs no querem mais caf. Vou pedir  Leonora que traga. 
Vanda levantou-se, dizendo: 
-Pode deixar, Emlia, eu fao isso. 
Assim dizendo, foi para a cozinha. Ali, encontrou Leonora que 
estava junto  pia, perguntou: 
-Leonora, tem algo para me dizer? 
-Como assim? 
-Notou algo que nos possa levar a crer que ela est mentindo, que 
est esperando a hora certa para dizer como tudo aconteceu? 
-No sei, parece que ela no lembra mesmo, mas estou com medo. 
E se ela lembrar? A senhora prometeu que no me aconteceria nada! 
- Prometi e cumprirei, embora voc no merea. Continue 
prestando ateno e, a qualquer mudana de comportamento dela, me 
avise imediatamente, preciso estar preparada. Mas, para o seu prprio 
bem, no facilite para que ela se lembre! 
-Est bem, eu avisarei, sabe que tambm estou envolvida em tudo 
isso.
-Agora, leve caf l para sala. 
Dizendo isso, voltou para sala. Entrou no momento exato em que 
Ester e Daniel retornavam do jardim. 
Logo depois, Leonora entrou na sala, trazendo caf. Tomaram, 
conversaram mais um pouco, at que Incio disse: 
- Vanda, est na hora de irmos embora. Todos, assim como eu, 
devem estar cansados da viagem. Amanh cedo, ns nos encontraremos 
no hospital e  tarde, levaremos a Ester para conversar com o Duarte. 
Levantaram-se, despediram-se e foram embora. Os demais tambm 
deram boa-noite e foram para seus quartos. Todos queriam e mereciam 
uma boa noite de sono. 
223



 Novos Caminhos
No dia seguinte, Ester abriu os olhos. Rapidamente, percebeu que
estava naquele quarto que a havia impressionado tanto. Pensou: no foi
um sonho, esta  realmente a minha casa. Preciso me recordar, mas quando
isso acontecer? Estou sendo muito bem tratada, mas s ficarei bem quando 
me recordar. 
Levantou-se, foi at o banheiro. Lembrou-se de Jurema: ontem, com 
tudo o que aconteceu, esquecemos de telefonar para a tia Laurinda e dizer 
que estamos bem. Assim que descer, pedirei  Emlia para telefonar. 
Tomou um banho, estava voltando para o quarto, quando ouviu 
uma batida leve na porta. Encaminhou-se para ela e abriu. Era Emlia 
quem estava batendo e, que sorrindo, disse: 
-Bom-dia, j est acordada? 
-Bom-dia. J faz algum tempo que acordei. 
-Vim avisar que todos esto esperando-a para tomar caf. Bati de 
leve para no assust-la. Passou bem a noite? 
-Muito bem, Emlia, dormi assim que me deitei e s acordei agora. 
Sonhei...s que no lembro o que foi, mas o sonho foi muito bom. 
-Dizem que, quando dormimos, o nosso esprito sai do corpo e vai 
encontrar com aqueles que j se foram ou vo visitar lugares. 
-Esprito? Lugares? Do que est falando? 
- Desculpe, Ester,  que, sou esprita e acredito nessas coisas. 
Esqueci que voc nunca entendeu aquilo que eu falava nem acreditou 
em nada. Como poderia faz-la acreditar ou entender agora? 
-Eu no acreditava em nada? No tinha nenhuma religio? 
- No, por estudar medicina e viver no meio de cientistas, voc 
sempre disse que a cincia respondia a todas as suas perguntas e, 
quando se morria, assim como as plantas, desapareceramos e nos 
transformvamos em adubo. 
Ester comeou a rir: 
-Eu dizia isso? 
-Sim, e com muita convico. Por qu? Hoje pensa diferente? 
-Aprendi com a Jurema, que existe um Deus e que ele cuida de 
todos ns. Eu acreditei no que ela me disse. 
225


Novos Caminhos 
-Isso j  um comeo. Gostaria muito de conhecer essa Jurema. 
- Vai conhecer, Emlia. Ela e o marido, Neco, so duas pessoas 
maravilhosas, devo a eles a minha vida. 
- E a Deus. Tudo o que acontece em nossa vida tem sempre um 
motivo. De toda experincia, tiramos sempre ensinamentos. Parece 
que teve que passar por tudo isso para aprender sobre Deus e, o mais 
importante, acreditar Nele. 
- Acha mesmo isso? Que tudo o que me aconteceu foi para eu 
aprender? Mas o que eu precisava aprender? No me lembro de como 
eu era. Eu era to ruim assim? 
Emlia abraou-a, dizendo: 
- Nada disso! Sempre foi uma candura, todos que a conheceram 
s podem falar muito bem de voc. S era um tanto materialista, no 
acreditava em Deus e na vida aps a morte. Para voc, alm da vida 
nada mais existia. Teve de ir para o Nordeste, conhecer pessoas simples 
que a ensinaram isso. Deus no  mesmo maravilhoso? 
-No sei, ainda no entendi o que teria que aprender ou por que 
Deus permitiu que tudo isso acontecesse. 
-No sei no, mas acredito que Deus no teve nada a ver com isso. 
Ele permitiu, porque lhe serviria de aprendizado, mas no teve nada a 
ver com a idia. 
- Est dizendo que algum planejou tudo? Que tenho inimigos? 
Mas por qu? 
- No sei, nunca pensei nisso, mas depois de saber o que lhe 
aconteceu e como foi encontrada, passei a noite toda pensando. O 
seu desaparecimento foi estranho, por que algum a seqestraria, no 
pediria resgate e teria tentado mat-la? No encontrei respostas. 
-Tambm, j pensei muito nisso e tambm no encontrei resposta. 
Estou assustada! Se houver algum inimigo, s pode ser de antes de eu 
aparecer l, do tempo em que eu morava aqui. Se existe esse inimigo, 
poder acontecer novamente! 
- No precisa ficar assustada, o que aconteceu no se repetir. 
Agora, estamos preparados, no tiraremos os olhos de voc e nada 
mais acontecer. Agora, termine de vestir-se e desa para tomar o caf. 
O Ernesto est ansioso para lev-la ao hospital. Quer que v a todos 
226


Novos Caminhos 
os lugares em que freqentava, tem a esperana de que, revendo-os, 
consiga lembrar. 
-Eu no me lembro dele como irmo, mas parece que, realmente, 
 sincero e que gostava muito de mim. 
- Gostava, no! Gosta! S eu sei o quanto sofreu com o seu 
desaparecimento. Vocs sempre foram muito unidos. Voc, ele e o 
Incio eram inseparveis. 
-E a Vanda? 
-Ela surgiu depois, mas assim que chegou tambm logo se entrosou e 
vocs quatro saam para todos os lugares. Ela tambm ficou desesperada 
com o seu desaparecimento.  sua amiga sincera e agradecida por tudo 
o que fez por ela. 
- No sei, mas ela foi a nica pessoa que me causou 
constrangimento. 
-Que quer dizer? 
- Quando a vi, senti algo estranho. No me recordei de detalhes, 
mas no me senti bem na sua presena. 
-Deve ter sido impresso sua, ela seria a ltima pessoa que poderia 
lhe desejar mal. Voc trouxe-a aqui para casa e lhe deu carinho e a 
oportunidade para conhecer o Incio, com quem casou. Posso pensar 
em pessoas do mundo todo, menos nela. Mas no adianta agora 
querermos adivinhar o que aconteceu, s quando se recordar  que 
poder esclarecer, como e por que tudo aconteceu. Vamos tomar caf? 
-Vamos, sim. Pode ir, irei em seguida. 
Emlia saiu do quarto. Ester foi at o armrio, escolheu uma saia 
preta e uma blusa rosa, vestiu e desceu. 
Na sala de refeies, Ernesto e Daniel j estavam sentados. Ela sentouse 
ao lado de Daniel. Comeou a tomar caf. Olhou para Leonora, 
quando esta veio lhe servir o caf, depois para Ernesto. Pensou: ser que 
tive ou tenho algum inimigo nesta casa? Leonora me olhou de uma maneira 
estranha, mas Ernesto tambm, alis, todos me olharam do mesmo modo. 
No posso deixar-me envolver pelo medo ou pela dvida. 
-Em que est pensando, Cida? 
Ela sorriu e respondeu: 
-Em nada, Daniel, ou melhor, em tudo o que voc falou ontem. 
227


Novos Caminhos 
-Falei sobre tantas coisas, em qual delas est pensando? 
- Em como o rumo da nossa vida muda, sem que possamos fazer 
nada para que isso no acontea. 
-Por que est dizendo isso? 
-Hdois dias, eu estava em Carim ao lado de pessoas maravilhosas... 
estava decidindo a minha vida com voc, de repente, tudo mudou e, 
hoje, estou aqui, sabendo que perteno a uma famlia que me ama e 
que sou mdica! No  muito para pensar? 
- Tem razo, mas, como eu disse, a vida  mesmo estranha. S 
precisamos remar de acordo com a mar. 
Ernesto, rindo, disse: 
- E a mar, agora, est levando-a para frente e nada far com que 
volte. Vamos at o hospital, depois iremos falar com Duarte. Sei que ele 
conseguir ajud-la.  um psiquiatra competente e respeitado. 
-Isso ele  mesmo, Ester, mas, Ernesto, estive pensando, poderamos 
lev-la at a casa esprita, o que voc acha? 
- No sei, Emlia, precisamos pensar que ns acreditamos nessa 
doutrina, mas ela no. S iremos se Ester quiser. 
- Que casa esprita  essa? Que doutrina  essa? - Daniel 
perguntou: 
- Quando a Ester desapareceu, Daniel, fiquei muito preocupado, 
busquei ajuda em todos os lugares e, levado pela Emlia, que  esprita, 
fui at a casa esprita, onde ela freqenta, para saber se eles poderiam 
dizer onde a Ester estava ou o que havia acontecido com ela. 
-Eles no disseram? 
- No, hoje eu sei que, mesmo que soubessem, no diriam, 
porque todos temos que passar as nossas experincias, mas deram-me 
conforto e a certeza de que ela estava bem e que, a qualquer momento, 
apareceria. 
-No lhe disseram se ela estava morta ou no? 
- Isso, disseram, sim, sabiam que ela no estava morta, s no
sabiam ou no quiseram dizer onde ela estava. Assim, seguindo seus
conselhos, comecei a ler e a aprender muito sobre essa doutrina, o que
durante a espera, me proporcionou muito conforto.
-Quer dizer que, hoje, voc  um esprita convicto? Mesmo sendo
       
Novos Caminhos 
um mdico e sabendo que a cincia responde a todas as perguntas? 
- Ela responde a quase todas as perguntas, Daniel, mas no para 
onde o nosso esprito vai aps a morte. 
-Esprito, Ernesto? O que leva voc a crer que realmente exista um 
esprito? 
-Durante a minha vida como mdico, presenciei muitas mortes que 
me causaram um mal-estar terrvel. Aps cada uma delas, eu perguntava: 
por que a cincia no consegue evitar isso? Por que, apesar de tudo que 
estudei, no aprendi como no evitar que uma criana morra? Por que, 
aps o ltimo suspiro, o corpo fica imvel, branco, tornando-se um 
pedao de carne morta? O que  esse ltimo suspiro? Hoje, eu sei que  
o esprito despedindo-se, agradecendo o corpo que lhe proporcionou a 
sua vinda para a Terra e voltando para o seu verdadeiro lugar. 
-Acredita mesmo nisso que est dizendo, Ernesto? 
-Aps ler muito e pensar muito tambm, posso dizer que acredito 
sim, nisso e em outras tantas coisas mais. Hoje, entendo quando vejo 
uma criana nascer com algum problema neurolgico, cega. J tenho as 
respostas que antes no tinha. 
-Estou interessado em saber essas respostas. Eu sempre soube que 
isso ocorria devido a algum problema gentico, tipo de sangue da me, 
etc. Voc tem outra teoria? 
- Sim, pois sempre perguntava, por que acontecia com aquela 
determinada criana ou famlia. Isso sempre me levou a crer que esse 
to falado Deus no existia, pois, se Ele existisse, como poderia permitir 
que isso acontecesse com crianas? Com as famlias? Mas, como sou 
um ser humano, preciso acreditar em algo, alm da matria, diria, no 
sobrenatural, em um ser supremo que me criou e que est sempre ao
meu lado. Esses pensamentos e a possibilidade Dele no existir causam-me
muito mal, pois meu pai, que tambm era mdico, sempre disse que
Deus existia. Quando eu lhe perguntava o que o levava a crer nisso, ele
sempre respondia: 
-Um mdico est sempre diante Dele, por toda a sua vida. No momento 
de um nascimento ou de uma morte. Com o tempo, voc entender isso. 
- Embora ele sempre dissesse isso, eu no conseguia acreditar 
que existisse um Deus perverso como esse. Ento, achei melhor
229


Novos Caminhos 
deixar de pensar no assunto. S depois que a Ester desapareceu, em 
meu desespero, sem saber a quem mais recorrer, procurei por Ele e o 
encontrei de uma maneira definitiva. Hoje, vibro ao ver uma criana 
nascer para a vida e j no sofro mais , quando vejo outra criana ou 
adulto partir, pois sei que, de uma maneira ou de outra, cumpriram a 
sua misso e esto voltando para o seu verdadeiro lar. Foi essa teoria que 
me fez suportar o desaparecimento de Ester, pois, embora eu no saiba 
qual foi o motivo de tudo isso acontecer em nossas vidas, sei que foi 
para o nosso aprendizado e aprimoramento. 
- Est dizendo que aqueles que a seqestraram, judiaram dela e 
quase a mataram foram instrumento de Deus? Est dizendo que eles 
agiram certo? Sinto muito, mas no posso aceitar isso. 
- Quando comecei a ler, tambm foi difcil aceitar, pois quem 
estava envolvida era a minha irm. No algum de quem eu ouvira 
falar. No estou dizendo que quem fez toda essa maldade agiu certo, 
claro que no. Estou dizendo que, no fundo,  sempre um aprendizado 
para todos os que esto envolvidos, nessa ou em outra questo e que 
pode ser apenas um resgate de dvidas antes contrada. 
-Resgate, dvidas contradas? No entendo nada disso, e no aceito! 
Quem fez aquilo com ela merece toda a pena que a justia pode lhe 
conceder. No existe desculpa, muito menos justificativa! No existe 
nenhuma! 
-Sei que  difcil entender e principalmente aceitar, por isso vamos 
deixar essa conversa para uma outra hora, o importante  que a minha 
irm est aqui. No sei se foi para nosso aprendizado ou no, isso s 
o tempo nos dir. Precisamos ir para o hospital, o Incio j deve estar 
indo para l. 
Daniel e Ester concordaram com a cabea, no queriam continuar 
aquela conversa, pois sabiam que ela no levaria a lugar algum. Daniel, 
principalmente, no conseguia entender e muito menos aceitar aquela 
teoria. Saram para o jardim e foram at a garagem que ficava nos
fundos da casa. Ela era grande. Dentro dela, estavam trs carros. Ester
e Daniel olharam para os carros que pareciam estar em perfeitas
condies. Ernesto, olhando para Ester e apontando um verde-escuro,
perguntou:
230


Novos Caminhos 
-Ester, lembra-se deste carro? 
Ela olhou para o carro e o achou bonito. 
-No, no me lembro dele. 
- Pois este carro  seu e voc tinha cimes dele e no deixava 
ningum dirigir, nem mesmo o Messias. 
-Meu! No posso acreditar! Ele  lindo! 
- seu sim e pode dirigir quando quiser! 
-No posso fazer isso! 
-Por que no? Foi sempre uma tima motorista! 
- Nem imagino como comear a dirigir, alm do mais, estou sem 
documento algum. Quando o Neco me encontrou, no conseguiram 
saber quem eu era, pois estava sem documentos. 
-Ah, esqueci esse detalhe. Hoje mesmo falarei com o contador do 
hospital. Ele providenciar todos os seus documentos. Quanto a dirigir, 
acredito que seja como andar de bicicleta. Nunca esquecemos, bastar 
somente dar algumas voltas por aqui, e logo lembrar. 
-No sei, no, estou com medo. 
- Bem, iremos no meu carro. Assim que os seus documentos 
chegarem, providenciaremos algumas aulas de volante na auto-escola e 
logo estar dirigindo novamente. 
Ela sorriu satisfeita. Olhou para o outro carro, perguntando: 
-E este outro, mais antigo. De quem ? 
- Era do papai, quem o dirigia e dirige de vez em quando  o 
Messias. Quando papai morreu, no tivemos coragem de nos desfazer 
dele.
Ester ficou olhando para o carro, depois desviou os olhos para a 
casa. Vista agora, do lado de fora, era enorme e o jardim muito bem 
cuidado, com grama e ps de rosas plantados. Custava-lhe crer que um 
dia houvesse morado ali, no meio de tanto luxo. Mas no podia deixar 
de acreditar, pois, agora, tinha a certeza de fazer parte daquela famlia, 
to diferente da de Jurema e do Neco, que, apesar de toda a pobreza, 
amavam-se e eram, ao modo deles, felizes. Sentiu saudade dos dois. 
Daniel percebeu que ela estava triste, colocando a mo em volta de 
suas costas, carinhoso, perguntou: 
-No que est pensando? 
231


Novos Caminhos 
-Na diferena que existe entre esta casa e a da Jurema. Tambm, no 
quanto eles se amam e so felizes. 
-Isso  verdade, precisamos telefonar e avisar que estamos bem. 
Ernesto, sorrindo, disse: 
-Se quiserem, poderemos entrar em casa e vocs telefonam agora 
ou poderemos deixar para quando voltarmos. Depois de conversar com 
o Duarte, tenho esperana de que podero dar alguma notcia boa. 
Ester olhou para ele, perguntando: 
- Acredita que, com uma consulta, poderei me lembrar do 
passado? 
- No sei, mas tenho esperana. O Duarte  muito competente. 
Esperemos que s uma consulta baste, mas, se for necessrio, faremos 
mais, quantas forem preciso. O que fazer, telefonar agora ou mais 
tarde? 
Ester sorriu e disse esperanosa: 
-Acredito ser melhor quando voltarmos. Assim poderei contar o 
que Duarte disse. 
-Sendo assim, vamos embora? O Incio j deve estar chegando ao 
hospital. 
Entraram no carro de Ernesto e seguiram para o hospital. Em dado 
momento, ele disse: 
- Ester, preste ateno  paisagem, pois voc passava por aqui 
diariamente para ir ao hospital. Talvez reconhea algo. 
Ela, que j estava olhando para a paisagem, no disse nada, apenas 
sorriu e prestou mais ateno. Mas era intil. Por mais que quisesse, 
no reconhecia nada. 
Ernesto estacionou o carro em frente a um prdio alto. Desceram. 
Ester olhou para o alto e para a porta que parecia ser a principal, 
ouviram som de uma sirene que, ao lado, por um corredor, entrou 
apressada. Daniel disse: 
-Ernesto, esse corredor deve levar  emergncia, no ? 
- isso mesmo, mas como sabe? 
- Trabalhei muitos anos na emergncia do hospital, por isso 
reconheo a sirene da ambulncia, quando est com algum paciente 
precisando de socorro imediato. 
232


Novos Caminhos 
-Gostaria de ver o que aconteceu? 
Daniel olhou para Ester que, parecia distante. 
- Ester, quer ir at a emergncia para vermos o paciente que a 
ambulncia trouxe? 
Ela voltou o rosto para ele e respondeu: 
-No sei, Ernesto, acredito no estar preparada para isso. Embora 
digam que fui mdica, no me sinto como tal. No sei o que sentirei ao 
presenciar algo grave. 
- Tem razo, minha irm. Hoje, somente rever os nossos 
funcionrios e o consultrio onde atendia aos seus pacientes e falaremos 
com o Duarte. 
Assim que entraram, uma moa, ao v-los, saiu detrs do balco em 
que estava e correu para Ester e, abraando-a, disse: 
- Doutora Ester! A senhora voltou? Que bom! Como a senhora 
est? Onde esteve todo esse tempo? 
Ester tambm a abraou, embora no se lembrasse dela, mas no 
poderia fazer outra coisa, diante da felicidade que sentiu naquela 
estranha. Assim que se desvencilhou do abrao, olhou para Ernesto 
que, ao perceber que ela no havia reconhecido a moa, disse: 
-Marli, ela est bem, mas um pouco confusa. 
-Espero que esteja bem, de qualquer maneira, estou feliz pela sua 
volta. 
-Obrigada, sinto que gostava muito de voc. 
-Gostava?! Por qu? No gosta mais?! 
Ernesto interrompeu-a novamente: 
-Marli, no fique preocupada, essa  uma longa histria, mas logo 
tudo ficar bem. 
Marli no entendeu, mas percebeu, pelo tom de voz de Ernesto, que 
algo grave estava acontecendo. Sorriu e voltou para trs do balco. 
Ernesto pegou no brao de Ester, abriu uma porta e entraram em
um corredor comprido e depois em uma sala. L dentro, ele disse:
- Aqui  a sala de reunies, onde sempre discutimos qualquer 
problema referente ao hospital ou ao tratamento de algum paciente. 
Vamos nos sentar e esperar o Incio que j deve estar chegando. 
Depois, iremos percorrer as demais dependncias do hospital. Ester, 
233


Novos Caminhos 
quero que preste ateno em tudo. Voc passou boa parte da sua vida 
neste hospital. Sei que estou me tornando repetitivo, mas, quem sabe, 
encontre algo que a faa relembrar. 
Ester sorriu, mas j no acreditava mais naquilo. Logo depois, Incio 
entrou. Ao v-los ali, disse sorrindo: 
-Desculpe o atraso, mas a Vanda no acordou bem, tive que ficar 
com ela por um tempo. 
-O que ela tem? 
-No sei, Ernesto, mas no dormiu bem e hoje pela manh estava 
nervosa, tremendo e chorando muito. Conversei com ela e fiz com que 
tomasse um calmante. Quando sa de casa, ela estava dormindo. 
-Por que estava nervosa? 
-No contou, apenas disse tambm no saber o motivo. Conversei 
pelo telefone com o Duarte, ele disse que, ao invs de a Ester ir at 
ao consultrio dele, prefere vir at aqui para v-la. Est ansioso para 
encontr-la, j deve estar chegando. Quer que almocemos com ele. 
Disse que primeiro quer v-la como amiga e depois como paciente. 
-Essa foi uma boa idia. 
Estava terminando de dizer isso, quando a porta se abriu e, por ela, 
entrou um rapaz, mais ou menos com a mesma idade deles, que, ao ver 
Ester, foi em sua direo, fazendo com que ela se levantasse. Abraou-a, 
dizendo: 
- Ester! Que bom que est ao nosso lado novamente e continua 
linda como sempre! 
Ester correspondeu quele abrao, sentia que ele a queria bem 
de verdade, tambm sentiu vontade de abra-lo. Logo depois, ele 
cumprimentou a todos. Em seguida, sentaram-se. Duarte era um rapaz 
atraente, belo rosto e um olhar penetrante. Ainda sorrindo, disse: 
-Ento, Ester, como  estar aqui, novamente ao lado da sua famlia 
e amigos? 
Ester olhou para Daniel que, com os olhos, a incentivava para que 
respondesse. 
-No sei dizer, embora esteja sendo muito bem recebida por todos, 
ainda no consegui reconhecer ningum, nem lugar algum. O Ernesto 
disse que voc  um timo psiquiatra, acredita que poder me ajudar? 
234


Novos Caminhos 
Acredita nessa minha doena? 
- Sou sim, um bom psiquiatra, tambm seu amigo. No sei se 
conseguirei ajudar voc, mas farei o possvel e o impossvel para que isso 
acontea. Voc se esqueceu de me apresentar esse rapaz que est ao seu 
lado e para quem olhou com tanto carinho. Posso saber quem  ele? 
Ernesto comeou a rir, respondendo: 
-Voc j percebeu, no? Nada lhe escapa, mesmo! 
Duarte riu. 
- Se assim no fosse, eu no seria um bom psiquiatra! Deixe-me 
adivinhar. Esse belo rapaz  o amor da Ester? 
Daniel, que gostou de Duarte assim que o viu, tambm, sorrindo, 
respondeu: 
- Muito prazer. Meu nome  Daniel. Sou sim, o amor da Ester. 
Quero dizer, da Cida, que foi com esse nome que a conheci. Com a 
Cida, sinto toda a segurana do seu amor, mas no sei o que acontecer 
quando a Ester voltar. 
- Isso, tambm, no posso lhe responder, saberemos somente no 
fim do tratamento. Espero que a Ester no se esquea dos sentimentos 
da Cida. Voc sabe que est correndo um srio risco. 
-Sei disso, mas no posso impedir que ela retorne  sua vida, que 
me pareceu ser bem intensa. O que me importa, realmente,  que ela 
fique bem. Se esquecer do nosso amor, farei o possvel para reconquistla 
novamente, pois eu sim tenho certeza do meu amor. 
- Ester, quis ver voc, agora, antes de ir ao meu consultrio,para 
conversarmos no como seu psiquiatra, mas como os amigos que
sempre fomos. Gostaria que me contasse, aqui, diante de todos, tudo
do que se recorda. 
-No me recordo de nada! 
- De algo deve se recordar. Do momento em que foi encontrada, 
como estava ou o que sentia? Precisa falar aqui, diante de todos e, 
principalmente, diante do Daniel, pois ele viveu um pouco dessa outra 
sua vida e, certamente, poder acrescentar alguma coisa, caso voc se 
esquea de mencionar ou no lhe parea importante. 
-Posso contar tudo do que me recordo, mas foi s aps o Neco terme
encontrado. Antes disso, no me recordo de nada...
235


Novos Caminhos 
-J  um bom comeo. 
-Antes, preciso fazer uma pergunta. Que tipo de doena  essa que 
tenho? Por que isso aconteceu? Voc j viu outra pessoa com esse tipo 
de problema? 
Duarte comeou a rir, enquanto respondia: 
- Poderia usar aqui um termo tcnico, o Ernesto, o Daniel e o 
Incio entenderiam, mas voc, na situao em que est, sem memria, 
sentiria alguma dificuldade. Essa doena chama-se amnsia e ela  
muito mais freqente do que possa imaginar.  causada, na maioria 
das vezes, por algum choque emocional ou fsico. No seu caso, aps ter 
conversado com o Ernesto, posso deduzir que voc sofreu os dois. Mas, 
antes de qualquer resposta que eu possa lhe dar, ser necessrio que me 
conte tudo do que se recorda. 
Diante do sorriso e tranqilidade que ele lhe transmitiu, ela no 
teve outra opo. Comeou a falar. Contou tudo, emocionou-se e, 
em alguns momentos, chegou at a chorar, mas conseguiu contar at 
quando foi encontrada por Messias na festa de So Jos. 
Duarte e os outros ouviram com ateno. Sempre sorrindo, ele 
disse: 
-Est bem. Tudo o que contou foi o bastante para que eu possa ter 
uma idia de onde comearemos. 
Ester sorriu e olhou para ele e, esperanosa, disse: 
-No sei o que eu disse que levou voc a dizer isso, mas seja l o que 
for, preciso da sua ajuda. No consigo mais viver com essa ansiedade. 
-Eu disse que j sei por onde comearemos, mas isso poder levar 
tempo. Por isso, o que deve fazer agora  continuar a sua vida. Hoje, 
j sabe algumas coisas que antes no sabia. Sabe que tem uma famlia 
e amigos que lhe querem bem. Sabe que tinha uma profisso e que 
gostava muito dela. Agora, est na hora do almoo.  melhor irmos.
- isso mesmo, estamos aqui conversando e nem vimos o tempo
passar. Vamos at aquele restaurante perto da faculdade, ao qual amos
quando estudvamos? 
- Boa idia, Ernesto, ser bom para Ester freqentar os lugares 
conhecidos. 
Ester e Daniel, em silncio, levantaram-se e os acompanharam. 
236


Novos Caminhos 
No restaurante, como sempre, ela prestou ateno, mas, como das 
outras vezes, no se recordava de algum dia ter estado ali. Descontrados, 
almoaram. Relembraram-se do tempo de estudantes e de alguns 
amigos da poca que nunca mais viram. Ester acompanhava a conversa 
e sempre que podia apertava o brao de Daniel para sentir que estava 
segura e protegida. Algum deles poderia ser o seu inimigo, mas qual? O 
nico em quem poderia confiar era nele. 
Terminaram de almoar. Em seguida, saram. J na rua, Duarte 
disse: 
-Ester, eu havia combinado com o Ernesto que conversaria hoje, 
com voc, no meu consultrio, mas, aps termos conversado sobre as 
coisas das quais voc se recorda e tendo por isso passado por tantas 
emoes, acho melhor deixarmos para amanh. Que acha? 
Ester ficou pensativa por alguns segundos, depois respondeu: 
-Desculpe-me, Duarte, mas no posso prolongar por mais tempo 
essa minha ansiedade e angstia. Se voc acredita que pode me ajudar, 
prefiro comear o mais rpido possvel. No vejo necessidade de 
adiarmos. 
Com aquele sorriso suave, mostrando seus lindos dentes, ele 
respondeu: 
-Se acha que est em condies, no vejo inconveniente, s queria 
poup-la. 
-Prefiro que no. Quero ficar livre desse pesadelo... 
-Est bem, sendo assim, poderemos ir agora mesmo. 
-O Daniel e o Ernesto podero ir tambm? 
Antes que Duarte respondesse, Ernesto disse: 
- Ester, bem que eu gostaria de ir, mas, nesta tarde, tenho muitos 
clientes para atender, mas creio que o Daniel poder ir, no , Duarte? 
- Claro que sim. Ele s no poder entrar na sala enquanto 
estivermos tendo a consulta. Acredito que seja bom para Ester, sabendo 
que ele est l fora, ansioso como ela. No , Ester? 
-Desculpem, Duarte e Ernesto, mas embora eu saiba que so meus 
amigos, e que s querem o meu bem, o nico que conheo realmente 
 o Daniel. 
Duarte riu novamente, dizendo: 
237


Novos Caminhos
-No fique preocupada com isso, entendo, realmente, o que voc
est sentindo. Daniel poder ficar ao seu lado. Assim sendo, tudo
resolvido, podemos ir? 
Ester olhou para Daniel que lhe sorria e, tranqila, respondeu: 
-Acredito que sim. Est mais do que na hora. 
Ernesto despediu-se. Foi at o carro e partiu. Ester e Daniel entraram 
no carro de Duarte e seguiram em direo ao consultrio. 
238

 A Consulta 
Duarte parou o carro em frente a um porto de ferro. Um rapaz 
que estava em uma guarita, ao v-lo, sorriu e, lentamente, o porto 
comeou a abrir. Duarte correspondeu ao sorriso e, assim que o porto 
abriu totalmente, ele colocou o carro em movimento, entrou em uma 
alameda rodeada por um jardim e uma grama baixa, muito verde. Daniel 
e Ester iam observando tudo. Notaram vrias pessoas que estavam 
por ali. 
- Duarte, voc no disse que amos para o seu consultrio? Seu 
consultrio  aqui nesta casa? 
- No, Daniel, ele fica no centro da cidade, mas resolvi trazer a 
Ester aqui at a minha clnica para que ela possa entender um pouco 
sobre as doenas do crebro. 
-Isto  uma clnica de doentes mentais? 
- , assim que me formei em psiquiatria, juntei-me com alguns 
amigos e resolvemos comprar esta clnica. Ela j existia, mas os 
proprietrios resolveram vender. A casa  grande e antiga, do tempo 
dos bares do caf. Eles sempre construam casas grandes como esta. 
Achamos que seria o lugar ideal para comearmos. A idia deu certo. 
Hoje, esto aqui internados mais ou menos quarenta pacientes. 
Ester, assustada, perguntou: 
-Acha que preciso me internar aqui? 
Duarte sorriu e estacionou o carro em frente da porta principal da 
casa. Respondeu: 
- Nem pense nisso. Vamos entrar e no meu consultrio 
conversaremos sobre o seu tratamento. 
Entraram. Duarte cumprimentou algumas pessoas que passavam 
por eles. Um senhor bem vestido e aprumado sorriu e disse: 
-Boa-tarde, doutor. O senhor est bem? 
-Estou sim, doutor Antnio, e o senhor, como est? 
-Estou bem, mas precisamos discutir sobre alguns pacientes, estou 
preocupado. 
- Est bem, assim que mostrar a clnica para os meus amigos, 
conversaremos. 
239


A Consulta 
O homem olhou para os trs, baixou a cabea em uma espcie de 
reverncia, despediu-se e continuou andando. Eles responderam ao 
comprimento e seguiram Duarte, que entrou em uma sala grande, 
apontou duas cadeiras para que sentassem. Aps se sentarem, Ester 
disse: 
- Duarte, que simptico esse doutor Antnio, ele pareceu muito 
dedicado. 
Duarte, desta vez, soltou uma gargalhada. 
-Ele no  mdico,  apenas um paciente aqui da clnica! 
Ester e Daniel entreolharam-se, no acreditando naquilo que Duarte 
estava dizendo. Ao perceber o espanto dos dois, Duarte, tentando falar 
srio, perguntou: 
-Vocs acreditaram mesmo nele? 
-Claro, ele falou muito srio... 
- Sei disso, Ester, mas ele tem um tipo de doena mental, que 
ocorre com pessoas que passaram por algum trauma, fsico ou 
mental. Elas fogem da realidade. Bloqueiam o momento do trauma e, 
conseqentemente, esquecem todo o passado e escolhem para elas uma 
nova vida e identidade. Esse homem no suportou a perda do filho e da 
esposa em um acidente de trnsito. Entrou em depresso e, aos poucos, 
transformou-se em um mdico, procurando salvar todas as pessoas 
que encontra. Conversamos pouco com ele, se tivssemos ficado mais 
alguns minutos, logo ele estaria lhes dando receitas. 
-No pode ser. Ele foi to convincente! 
- Est vendo, Daniel, como so estranhas as doenas do crebro? 
Essa  apenas uma delas, para a qual ns, psiquiatras, estamos tentando 
encontrar a cura. Em se tratando de doenas mentais, temos ainda um 
longo caminho para percorrer. Falta muito para descobrirmos todos os 
mistrios do crebro. Sabemos que ele  quem comanda todo o nosso 
corpo. Por causa dele, conseguimos comer, andar, sentir prazer, dor etc... 
mas pouco sabemos de seu funcionamento. Existem muitos cientistas 
trabalhando nisso. Alis, a humanidade j deu um passo importante, 
mas ainda falta muito. 
Ester, interessada em conhecer mais para entender a sua doena, 
perguntou: 
240


A Consulta 
-A pessoa pode mesmo se transformar assim? 
-Sim, voc mesma est, neste momento, passando por uma doena. 
No to grave como a dele, pois sempre teve a conscincia de que no 
era Cida, mas no consegue se lembrar do seu passado, do tempo em 
que era Ester. 
-Acredita que para o meu caso haja cura? 
-Acredito no seu e em muitos outros que estiveram aqui na clnica 
e hoje esto em casa tendo acompanhamento psiquitrico. Por isso, est 
aqui s de passagem, caso contrrio, ficaria internada ao menos por um 
bom tempo. 
Ester estremeceu: 
-No quero ficar internada! 
-Claro que no! Trouxe-a at aqui para que veja os vrios tipos de 
doenas que existem e saiba que voc no  a nica e que existem casos 
mais graves que o seu. 
-Mesmo assim, no deixa de ser uma doena? 
-Sim, mas voc tem chance de, a qualquer momento, se recordar 
de tudo. Basta, para isso, que passe por outro trauma ou olhe para 
algo que a faa recordar. Alm do mais, descobri, j h algum tempo, 
um novo tratamento, que est ajudando muito os meus pacientes, mas 
falarei dele mais tarde. 
-No pode falar agora? 
-Posso, mas no sei se entendero. 
- Se no falar, como poderemos julgar? Quero conhecer todos os 
tratamentos possveis para a minha cura. 
Duarte olhou srio para ela e para Daniel que, calado, acompanhava 
a conversa. Depois disse: 
- Daniel, voc  mdico e, por isso, talvez, seja difcil entender o 
que vou dizer, mas  fruto de minha experincia como psiquiatra. 
- Tudo o que diz respeito  doena e  cura da Ester ser bemvindo. 
Mas, o que poder me dizer que eu j no tenha aprendido na 
faculdade? Embora eu no tenha me especializado. Estudei um pouco 
de psiquiatria. 
- Isso que vou dizer, com certeza, voc no aprendeu na 
faculdade. 
241


A Consulta 
-Agora estou curioso. 
Duarte tornou a rir, enquanto dizia: 
-Est bem, mas no venham me chamar de louco, embora se diga 
que todo psiquiatra  tambm um pouco louco. 
Eles no conseguiram deixar de rir, Ester no sabia bem o porqu. 
Daniel, sim, pois, na faculdade, quando se tratava de especializao, 
quase nenhum recm- formado queria ser psiquiatra por esse motivo. 
- Decidi me tornar psiquiatra, quando um tio meu entrou em 
depresso e por mais que os mdicos tentassem, no conseguiram 
evitar que ele se suicidasse. Eu gostava muito dele e o que me fez sofrer 
mais foi no ter podido ajud-lo. Resolvi, ento, que seria psiquiatra e 
que faria o possvel para encontrar cura para todas as doenas mentais. 
Como o meu tio que morreu era irmo do meu pai, ele aprovou a 
minha deciso e, depois que terminei a minha especializao, ele me 
ajudou e junto com mais trs amigos, resolvemos comprar esta clnica, 
onde poderamos acompanhar os pacientes mais de perto. Com o 
tempo, os meus amigos desistiram e eu continuei sozinho. Tenho o 
meu consultrio na cidade, onde atendo alguns pacientes novos e 
outros que j receberam alta aqui da clnica, mas que ainda precisam de 
acompanhamento e outros casos menos graves. Mas, a maior parte do 
tempo, eu passo aqui. 
-At aqui, voc no nos contou nenhuma novidade, qual  o outro 
assunto pelo qual iramos consider-lo louco? 
- Calma, Daniel, vou contar. Durante o tempo em que estou 
clinicando, vi muitos tipos diferentes de doentes mentais. Vi pessoas 
que dizem ouvir vozes e conversam com essas vozes como se realmente 
as ouvissem. Pessoas que riam ou choravam compulsivamente; pessoas 
que ficavam violentas ou apticas, outras diziam conversar com 
parentes j falecidos. Trabalhei tambm com pessoas desprovidas de 
amor prprio, com baixa estima e que acreditavam ser o suicdio o 
seu nico caminho. Outras diziam que uma voz as conduzia a praticar 
crimes violentos. Quando no ouviam as tais vozes, pareciam possuir 
uma espcie de idia fixa que as levava ao suicdio, praticando-o de 
diversas formas. Vi pessoas com depresso terrvel, pessoas com medo 
de sair de casa ou ir sozinhas ao banheiro e, por mais que tentasse, eu 
242


A Consulta 
no conseguia ajud-las. Enfim, so vrios os sintomas. Em psiquiatria, 
os chamamos de psicticos, esquizofrnicos, psicopatas, etc. Eu sempre 
tratei e, com a ajuda de alguns medicamentos, conseguia que alguns se 
acalmassem e no mencionassem mais as vozes nem sintomas. Mas logo
percebia que no os havia curado, somente os mantinha dopados pelo 
medicamento e, assim, que estes eram retirados, os sintomas voltavam 
e os pacientes retornavam  estaca zero. Juro que tentei tirar o melhor 
proveito de tudo o que aprendi na faculdade. Estudei muito cada caso, 
participei de vrios congressos para saber o que se discutia pelo mundo, 
mas muito pouco adiantou. Eu continuava da mesma maneira: vendo 
meus pacientes cada vez pior ou dopados. Em uma manh, estava em 
meu consultrio, quando um dos enfermeiros entrou sem bater, e 
nervoso, disse: 
-Doutor, o senhor precisa ir at a ala B! Acabou de chegar um rapaz,. 
Ele teve que vir em camisa de fora, disse que vai matar a todos. Acho que 
o senhor precisa autorizar um "sossega leo" nele! 
-Est bem, estou indo, v na frente e prepare a injeo. 
- Ele saiu correndo. Eu me levantei e fui atrs, seria como das 
outras vezes, o rapaz tomaria uma injeo que o faria dormir. Assim que 
acordasse, provavelmente precisaria de outra. Seria como tantos outros 
casos que eu j presenciara e diante dos quais eu me sentia impotente. 
Ao entrar no quarto, me deparei com uma cena que jamais esquecerei. 
Um rapaz estava amarrado  cama, gritava alucinado e em seu rosto 
havia uma expresso de pavor. Dizia, aos gritos: 
- Tirem esse homem daqui! Ele vai me matar! Socorro! Socorro! 
- Aproximei-me, o enfermeiro estava terminando de colocar o 
lquido da injeo na seringa. Antes que eu me aproximasse, Jos, nosso 
faxineiro, se adiantou, colocou uma das mos na cabea do moo e a 
outra sobre o seu estmago e comeou a dizer com a voz tranqila,
porm firme:
- Calma, meu irmo... por que est fazendo isso com este rapaz? 
-Eu quis dizer ou fazer algo, mas o olhar com que ele me fitou fez 
com que eu parasse. At hoje, no sei dizer o que foi que me paralisou. 
Fiquei ali, olhando sem nada dizer. Jos continuou falando: 
- Calma... voc est entre amigos... diga o que quer e vou procurar 
243


A Consulta 
atend-lo. 
-O rapaz olhou para ele com muito dio e disse: 
- O que voc quer? No v que estou s me vingando de tudo o que ele 
me fez? Ele  muito ruim! Ele vai ficar louco e internado aqui para sempre! 
Se no ficar aqui, vou fazer com que se suicide! 
-Sei que deve estar com razo de querer se vingar dele, ele deve mesmo 
ter sido muito cruel e deve ter feito muito mal. 
-Foi muito cruel mesmo! Ele planejou a minha morte e a do meu filho 
para ficar com a herana do nosso pai! Ele era meu irmo! Hoje, est com 
outro corpo, achou que poderia me enganar, mas eu o encontrei e nada far 
com que eu saia do seu lado. Quero que ele se suicide, pois assim eu poderei 
continuar atormentando-o para sempre. Estarei do lado dele esperando e 
quando ele morrer o seguirei para onde for! Ele tem que pagar por tudo o 
que fez! 
- Voc tem razo em sentir tanto dio, mas o seu filho, onde est? 
-O rosto do rapaz enterneceu, uma lgrima comeou a correr por 
seu rosto e respondeu: 
-No sei, assim que morri, fui levado para um lugar bonito, meu filho 
estava l, mas o desejo de vingana me acompanhou. Eu fugi para procurar 
este monstro e poder, assim, fazer a minha justia. J estou procurando h 
muito tempo, at que o encontrei e, agora, ele no escapar! Finalmente, 
poderei me vingar! 
-Nunca mais procurou o seu filho? 
- Tentei algumas vezes, mas no consegui encontrar aquele lugar. Estou 
vagando  procura deste monstro. Assim que terminar com ele, vou procurar 
o meu filho novamente! 
-Acho que deve fazer isso, mas se demorar muito, talvez no encontre 
o seu filho nunca mais... 
-Por que est dizendo isso? Claro que vou encontrar o meu filho! Sei 
que ele est em um lugar muito bom! Eu mesmo estive l! 
-Esteve e deve ter sido muito bem recebido,  medida que esse sentimento 
de vingana forficando mais forte, mais voc se distanciar daquele lugar e, 
principalmente, do seu filho... 
-Que est dizendo? Quer que eu me afaste e deixe que esse monstro siga 
impune? No farei isso! Ele tem que pagar por tudo o que fez! 
244


A Consulta 
-No estou querendo que faa nada que no queira... s estou dizendo 
que ficar cada vez mais difcil encontrar o seu filho e que a justia, s 
Deus sabe como faz-la... nenhum de ns est na condio de julgar... todos 
temos os nossos erros, mas todos, tambm, temos um Pai maravilhoso, que 
no nos abandona nunca e que nos d sempre a chance de perdoarmos os 
nossos inimigos... 
-Perdoar?! Perdoar?! Como pode dizer isso? Nunca poderei perdo-lo! 
Nunca! O que ele fez, no tem perdo! 
- Sei que o que ele fez foi terrvel, mas foi h muito tempo. Hoje, 
ele est com um novo corpo e uma nova vida. Est tendo a chance de se 
redimir... a mesma chance que voc poderia ter se no carregasse tanto 
dio... Voc poderia, quem sabe, ter tambm renascido e estar feliz vivendo 
ao lado do seu filho... 
- O que est dizendo? 
-Estou dizendo que a mgoa, o rancor e o dio s fazem mal a quem 
tem esses sentimentos dentro de si, sejam encarnados ou desencarnados. 
Uma pessoa que traz dentro de si esses sentimentos, jamais poder ser feliz 
plenamente. Uma pessoa que acredita na existncia de Deus deve confiar 
Nele e na Sua justia, por isso deve deixar que Ele se encarregue da maneira 
como ir julgar e condenar quem pratica maldade, assim como este que est 
aqui e a quem voc chama de monstro. Ns no temos esse direito, porque 
no sabemos nada, s quem sabe  Deus. 
-Est pedindo para que eu confie em Deus e esquea tudo. 
-No... estou pedindo que voc no perca mais tempo correndo atrs 
de uma vingana intil, pois, por mais que faa, nunca conseguir alcanla. 
Ao contrrio, voc acarretar culpas que o seguiro para sempre e ficar 
cada vez mais longe do seu filho... 
- Voc no sabe o que est dizendo! S poderei ser feliz, o dia em que 
me vingar! Est falando de Deus?! Onde estava esse Deus que permitiu que 
ele fizesse tudo aquilo com meu filho e comigo?! 
-Com certeza, Ele estava muito triste, mas estava ao lado de vocs quando 
morreram. Com certeza, enviou seus anjos para que os encaminhassem at 
um lugar bom, como voc mesmo disse. 
-No sei se acredito nesse Deus!
-Eu acredito e Ele acredita em voc... olhe para aquele lado...
245


A Consulta
- Eu continuava, ali, parado. Olhei para o enfermeiro, que com a
seringa na mo, me olhava espantado com tudo aquilo que estvamos 
presenciando. Instintivamente, acompanhamos a mo de Jos que tirou de 
sobre o estmago do rapaz e apontou para o lado direito do quarto. No 
vimos nada, mas o rapaz pareceu ter visto algo, pois de seus olhos comearam 
a descer lgrimas que corriam por seu rosto, enquanto dizia: 
-Meu filho!  voc mesmo que est aqui? 
- O Senhor Jos, sorrindo, olhou para o lado direito do quarto e, 
depois para ns, continuou falando: 
-Sim, meu irmo, o seu filho veio at aqui para lev-lo para casa. S 
depende de voc. No quer ir com ele e parar de vagar sem rumo? 
-Meu filho! Que bom ver voc... procurei por tantos lugares, mas no 
o encontrei... 
-Porm, ele esteve sempre ao seu lado, mas, voc, cego pelo dio, no 
conseguia v-lo... agora Deus est lhe dando outra chance... Aproveite... 
- O que preciso fazer? 
- Somente esquecer tudo o que passou e deixar esse nosso irmo nas 
mos de Deus... 
-Est querendo que eu v embora? No quero fazer isso, e voc no 
pode me obrigar! 
-Ao dizer essas palavras, o rosto do rapaz se contraiu num misto de 
dio e rancor. Eu no conseguia interromper, pois, alm do meu espanto 
ao ver tudo aquilo, tambm estava interessado. Como psiquiatra, queria 
ver o resultado. Jos continuou falando no mesmo tom de voz que usou 
desde o incio: 
-No posso nem quero obrig-lo a fazer nada que no queira, essa  
uma deciso que s voc pode tomar. Mas, vamos pensar um pouco. Voc 
pode continuar com a sua vingana, pode continuar atormentando este 
rapaz, porm, hoje, ele tem proteo, pois se arrependeu de tudo o que fez, 
pediu perdo e obteve, assim, a oportunidade de renascer e resgatar todos 
os erros passados. Se vai conseguir, no sabemos, mas, para isso, ter toda
a ajuda dos cus. Se voc continuar atormentando-o e se, por isso, ele se
matar, a responsabilidade ser sua e voc, que ontem foi a vtima, hoje
se tornar o agressor e por isso responder. Como v, meu irmo, assim
ser formada uma roda de dio que no levar a nada, pois, na prxima 
246


A Consulta 
encarnao, ser ele quem ir exigir vingana. Voc, neste momento, est 
tendo a oportunidade de usar o seu livre-arbtrio para decidir o seu destino. 
Entretanto, voc poder seguir com seu filho e com esses irmos que vieram 
com ele. Poder ir para aquele lugar que j viu e que sabe ser bom, dever 
exercer duas das coisas mais importantes que Jesus nos ensinou. Amar ao 
prximo como a si mesmo, e perdoar sete vezes setenta vezes. Seguir o seu 
caminho que poder ser de luz e felicidade e entregar este que um dia foi seu 
inimigo para a Justia Divina. Essa Justia nunca falha. Estenda os braos 
e abrace seu saudoso filho... 
- O rapaz comeou a se debater, tentando mexer as mos que 
estavam presas  cama por correias. Jos olhou para o enfermeiro e 
disse: 
-Por favor, retire as correias que o esto prendendo. 
- O enfermeiro, abismado e assustado com tudo aquilo, me 
olhou, interrogando-me com os olhos. Eu tambm estava abismado 
e confuso, pois no estava entendendo nada. Com a cabea, consenti. 
Ele me obedeceu e apressadamente retirou as correias. Assim que se viu 
livre, o rapaz abriu os braos e os fechou novamente, como se estivesse 
abraando algum que ns no vamos, mas poderamos jurar que 
estava ali. O rapaz continuou por muito tempo abraando e beijando o 
espao. Confesso que meu corpo todo se arrepiou. Enquanto beijava e 
acariciava, dizia, chorando: 
-Meu filho querido, que bom rever voc e poder abra-lo. 
- Houve um silncio, ele se afastou do abrao, parecia que ouvia 
algum lhe dizendo algo. Depois, disse: 
--Sei que voc quer que eu esquea tudo e o acompanhe, mas no posso 
fazer isso. Depois de muito procurar, finalmente eu encontrei este malvado 
e posso agora me vingar! 
-Continuou em silncio ouvindo o que o filho lhe dizia. No sei o 
que foi, s sei que, em seguida, ele recomeou a chorar, dizendo: 
-Est bem, acho que voc est com razo, realmente, durante toda essa 
procura, tambm tenho sofrido muito. Agora que o encontrei, no sei se a melhor 
coisa que tenho a fazer  continuar aqui ao lado dele ou ir em sua companhia. 
O que me acontecer se eu permanecer aqui at que ele se suicide? 
-Novamente para ns o silncio. Mas ele continuava olhando para 
247


A Consulta 
algum que lhe falava algo que ns no ouvamos. Depois de parecer 
ouvir, o rapaz olhou para Jos, dizendo: 
- No sei quem  o senhor, mas preciso agradec-lo por tudo o que 
me fez compreender. Estive, sim, perdendo muito tempo em busca de uma 
vingana intil. Meu filho terminou de me dizer isso. Disse tambm, assim 
como o senhor, que s eu posso escolher o caminho que desejo seguir. J 
escolhi. 
-Que bom, meu irmo, que eu tenha servido para o seu esclarecimento. 
Espero que tenha escolhido o melhor para voc mesmo, para o seu filho e 
para a alegria do Nosso Pai. 
-Com lgrimas nos olhos, o rapaz disse: 
-Escolhi acompanhar o meu filho. Ele disse que temos ainda um longo 
caminho para percorrer, mas que, no final, encontraremos a Luz Divina e 
que ela  bela. Disse tambm para eu entregar a minha vingana nas mos 
de Deus.  isso que farei. Obrigado por tudo o que me disse. Estou indo 
embora feliz. Deus o abenoe. 
- Para meu espanto, aps alguns segundos, o rapaz, tranqilo, 
adormeceu profundamente. Em seguida, olhei para Jos, queria lhe 
perguntar o que havia acontecido ali, mas tive de esperar, pois ele estava 
com a cabea voltada para o alto, com lgrimas caindo por seu rosto 
e com as mos postas, demonstrando claramente que estava rezando. 
Aps alguns minutos, ele abriu os olhos, voltou-se para mim, dizendo: 
- Desculpe, doutor, por eu ter abandonado o meu trabalho. Eu no 
posso perder este emprego. Eu estava limpando o quarto quando trouxeram 
esse rapaz para c. Eu no podia deixar de tentar ajud-lo. 
- Eu ainda estava atordoado por tudo o que presenciara no 
estava entendendo nada. Havia estudado tanto, tinha certeza de que 
no conseguiria acalmar aquele rapaz se no usasse um medicamento 
muito forte. E aquele simples faxineiro havia conseguido, somente com 
algumas palavras. Respondi: 
-No se preocupe com o emprego, ele  seu. S quero que me explique 
o que aconteceu aqui. O que fez para que o rapaz ficasse calmo sem uma 
injeo? Que conversa foi aquela que manteve com ele? 
-Doutor, o senhor vai me perdoar, mas esse assunto  difcil de o senhor 
entender... 
248


A Consulta 
-Por que est dizendo isso? 
-Sabe, doutor, Deus criou primeiro o nosso esprito para depois criar o 
nosso corpo. O nosso corpo  muito frgil, se machuca e fica doente. Existem 
muitos motivos que fazem o corpo ficar doente. Deus, que  um Pai muito 
bom, mandou os mdicos para cuidar do nosso corpo. Mas o nosso esprito 
tambm fica doente. A doena do esprito  causada por nossos sentimentos 
e pensamentos. Ns temos muitos sentimentos ruins, inveja, dio, mgoa, 
rancor e vingana. Tudo isso faz muito mal para o nosso esprito. Assim 
como Deus mandou os mdicos, tambm mandou algumas pessoas que, 
com a ajuda de espritos de luz, conseguem se comunicar com os mortos 
e muitas vezes ajud-los. Quando eu vi esse moo deitado e amarrado na 
cama, percebi que a doena dele no era do corpo, mas do esprito. Por isso, 
fiquei aqui para tentar ajudar e, graas a Deus, acho que consegui. Ele, 
agora, est bem, vai ficar melhor e nunca mais vai precisar ficar internado 
em uma clnica. 
- Voc est dizendo que a doena dele foi embora, sem medicamento? 
-Isso mesmo, doutor. A doena dele era do esprito, no do corpo. 
- Como mdico no posso aceitar isso! 
-Infelizmente, isso acontece muito, mas se os mdicos estudassem mais 
a respeito do esprito, descobririam que muitas das doenas que existem 
no so do corpo. Aqui mesmo, muitos que esto internados tm doena do 
esprito e s atravs de muita orao podero ser curados. 
-No posso negar o que vi aqui, mas isso o que voc est dizendo, a 
princpio, no posso aceitar. Porm, no quero me fechar a qualquer chance 
de ajudar os meus pacientes. Preciso conhecer mais a respeito de tudo o que 
voc me disse e o que vi aqui. 
-Estou feliz por ouvir isso do senhor, posso lhe dizer alguma coisa, mas 
acredito que aprenderia mais, lendo ou freqentando algum lugar, onde as 
pessoas estudam muito a esse respeito. 
- Quero que me indique alguns livros e algum lugar aonde eu possa ir. 
Ester e Daniel, durante todo o tempo em que Duarte descreveu o 
que havia acontecido, ficaram em silncio. No estavam acreditando 
muito em nada daquilo, mas Duarte, de acordo com Ernesto e Incio, 
era um psiquiatra competente, por isso ouviram com ateno. Notaram 
todas as vezes que Duarte se emocionou enquanto falava. Antes que 
249


A Consulta 
eles dissessem algo, Duarte continuou. 
- Daquele dia em diante, comecei mesmo a estudar o assunto. 
Confesso que, a princpio, foi difcil aceitar, mas, mesmo assim, com 
a ajuda de Jos, fiz algumas experincias e obtive timos resultados. 
Muitos dos meus pacientes, sem esperana de cura, hoje esto curados
e vivendo normalmente. Posso lhes garantir que o esprito existe sim e
que, como o corpo, tambm fica doente. Posso lhes garantir que quase
cem por cento dos doentes que esto internados aqui no so doentes 
mentais, mas, sim, doentes espirituais. 
Daniel disse: 
-No sei se acredito em tudo isso que disse, mas se for para ajudar 
a Ester, estou disposto a estudar. Alm do mais, durante todo o tempo 
em que trabalhei na emergncia do hospital, muitas vezes vi crianas 
nascerem e morrerem, muitas vezes, travei batalhas imensas contra 
a morte e apesar de tudo o que eu havia estudado e aprendido, na 
prtica, eu perdi essas batalhas. Quando isso acontecia, eu ficava triste 
e perguntava, por qu? De que adiantava eu ter estudado tanto, se 
no conseguia curar ou salvar as pessoas? Eu ficava mais desesperado 
quando o paciente que estava ali era jovem e no podia morrer, pois 
tinha toda a vida pela frente. Eu precisava contar para a famlia e isso 
era muito difcil, pois no sabia como explicar. Uma vez, um dos meus 
pacientes, que era meu amigo particular, pois eu tratava de sua famlia 
h muito tempo, sentiu alguns sintomas que me preocuparam. Quando 
chegaram os resultados dos exames que eu havia pedido, constatei que 
ele estava sofrendo de uma doena muito grave. Com os papis na 
mo, fiquei sem saber o que dizer. Ele, que me conhecia muito bem, 
percebeu que havia algo errado. Perguntou:
- O que foi, Campelo? Estou com alguma doena grave?
-Fiquei sem saber o que responder. Ele insistiu: 
- Preciso saber, sabe que tenho uma esposa jovem e dois filhos, se eu 
tiver uma doena grave, preciso preparar o futuro deles. Alm do mais, 
todos iremos morrer um dia, eu no queria que fosse agora, mas se tiver que 
ser, de acordo com a minha religio,  porque j cumpri aquilo para que 
fui enviado. Se minha esposa tiver de ficar sozinha e os meus filhos sem pai, 
algum motivo maior deve existir. Seja feita a vontade de Deus. 
250


A Consulta
-Eu no acreditei, nem entendi o que estava ouvindo, sabia que a
situao dele era realmente grave, mas, mesmo assim, eu disse:
- No  assim to grave! A medicina evoluiu muito! Faremos um 
tratamento e logo voc ficar bom! 
- Sei que voc realmente quer me curar, lgico que me submeterei a 
todo tratamento que indicar, mas, meu amigo, todos temos um tempo para 
ficar aqui na Terra e, quando esse tempo termina, nada nem ningum 
poder fazer com que ele se prolongue.
- Novamente fiquei sem saber o que dizer. Ele realmente se
submeteu a todo o tratamento. Consultei alguns amigos especialistas 
que me ajudaram muito, mas foi em vo, no consegui salv-lo. No dia 
do seu enterro, sua esposa se aproximou. Estranhei porque ela estava
serena, no parecendo estar sentindo a morte dele. Talvez, por perceber
o espanto em meu rosto, pegou em minha mo, dizendo:
-Sei que voc est muito triste por no ter conseguido cur-lo, mas no 
fique assim. Ele voltou para a casa do Pai. Est muito bem e ficar melhor 
sabendo que no estamos sofrendo e seguindo a nossa vida... 
-Fiquei furioso. 
- Como pode dizer isso? Ele era o seu marido! 
-Ela, com a mesma calma, respondeu: 
- Eu, assim como ele, acredito na vida ps-morte. Acredito que ele 
terminou a sua misso aqui na Terra e que assim que terminar a minha 
misso, a qualquer momento, irei ao seu encontro. Sei que no o perdi para 
sempre. Estaremos separados por algum tempo. 
- No entendi muito bem o que ela disse, sa do seu lado sem 
nada dizer e fui para casa. L, chorei muito pelo meu amigo e pela 
minha impotncia diante da morte. No entendia nem aceitava, pois
j havia visto outras pessoas, que aps um longo tratamento, ficaram
curadas. Por que no consegui curar o meu amigo? Por que ele teve de
morrer e deixar a esposa e duas crianas? Que religio era aquela que 
pregava um conformismo, difcil de ser aceito por qualquer pessoa que 
tivesse um mnimo de bom senso? Eu no conseguia aceitar aquele 
Deus nem as pessoas que falavam Dele. Fiquei chorando e revoltado, 
at adormecer. Hoje, ao ouvir voc contar tudo isso, lembrei-me dele e 
da esposa. Quero saber mais sobre isso, no s para ajudar a Ester, mas 
251


A Consulta 
para obter algumas respostas que procurei e procuro, mas no encontrei 
em lugar algum. 
- Se quiser saber mesmo, eu lhe indicarei alguns livros e lhe 
apresentarei ao Jos. Ele sempre disse que para tudo tem uma hora 
certa. Talvez a sua hora seja esta. 
Ester, com a voz embargada, disse: 
-Dona Betina disse essas mesmas palavras. Acredito que ela seja 
dessa religio. 
-O Espiritismo  uma filosofia de vida maravilhosa! 
-Por qu, Duarte? 
-Porque, entre tantas coisas, nos mostra que a vida  um pequeno 
espao de tempo diante de toda uma eternidade. Revela que estamos no 
planeta Terra para aprendizagem e para resgates de amigos e inimigos 
e que h sempre um motivo para tudo o que nos acontece. Ser esprita 
significa muito mais do que entender a doutrina: significa transformao 
na maneira de ser e de agir. Isso no quer dizer que precisamos nos 
tornar "santos", ou ermitos, rezando todo o tempo, muito menos 
abandonar o lado prazeroso da vida. No  isso! Fundamentalmente se 
faz necessrio que sejamos responsveis pelos nossos prprios atos, bons
ou ruins. Para cada ao, sempre existir uma reao. Se fizermos o
bem, o receberemos de volta no momento de maior necessidade. Se, ao 
contrrio, fizermos o mal, ele tambm retornar na mesma proporo. 
Portanto, devemos sempre continuar a nossa vida e procurar aproveitar 
todos os momentos, fceis ou difceis. Em todos eles, sempre haver 
um grande ensinamento... mas, por hoje chega. Ficamos tanto tempo 
conversando, que no percebemos o tempo passar. J  tarde e est na 
hora de irmos embora. Ester, hoje  noite, irei at a sua casa para jantar, 
conversaremos mais a respeito de tudo isso. Vamos embora? 
Dizendo isso levantou-se, s restando aos dois acompanh-lo. Na 
rua, entraram no carro e foram para casa. Duarte dirigia o carro. Daniel 
seguia, sentado ao seu lado. Ester ia no banco de trs. Enquanto os 
dois conversavam, ela pensava: isso tudo que o Duarte contou  muito 
estranho. No me lembro do tempo e do que estudei. Hoje, ele vem com 
essa histria de religio. Ele falou em perdo, mas como poderei perdoar a 
pessoa que planejou a minha morte e me fez tanto mal? Estou viva, mas 
252


A Consulta 
perdi toda a minha vida passada e tudo o que estudei. Estou na casa de 
Ernesto, que sei ser minha, mas da qual no me lembro. Sei que a pessoa 
que encomendou a minha morte convive comigo, est dentro da minha 
casa ou ao seu redor. Todos dizem serem meus amigos, mas quem realmente 
? Agora, sabendo que no morri, que voltei e que a qualquer momento 
poderei recordar, no estar novamente planejando uma maneira de me 
atingir? Estou com medo, muito assustada. Vou conversar com Daniel, 
quero voltar para Carim, l, sei que s tenho amigos. Do que adianta 
viver aqui, com toda essa riqueza, se no tenho paz? 
Daniel e Duarte, envolvidos na conversa, no perceberam que Ester 
estava calada. 
Daniel pedia explicaes para Duarte: 
-Voc acredita que, no caso da Ester, haja tambm envolvimento 
espiritual? 
-Ainda no sei, alis, no tenho esse poder. Aprendi um pouco, 
mas quem sabe muito e explica  o Jos. Ele  um mdium vidente, por 
isso sabe quando existe algum esprito ao lado de um paciente. No 
tenho certeza de nada, por isso estou indo para a casa do Ernesto. Ele 
e a Emlia costumam participar dos trabalhos espirituais. Sei que, se 
houver algo, Emlia pressentir. Ela, sim,  uma esprita convicta. 
- Estou me lembrando de que eles falaram qualquer coisa a esse 
respeito e que fiquei bravo, pois a experincia que tive com a esposa do 
meu amigo fez com que eu ficasse revoltado com tudo isso e com essa 
religio ou doutrina, como voc diz. Ainda no entendo uma religio 
que prega a aceitao de tudo, sem resistir. Confesso que, apesar de
tudo o que nos contou, ainda tenho um pouco de dvida a respeito.
Aceitar tudo, nem sempre, acredito eu, seja a soluo. O ser humano
tem vontade prpria, por isso acho que deve sempre lutar contra tudo 
o que o atormenta. 
-Tambm acredito nisso, mas essa religio no prega a aceitao, 
e sim que devemos tentar compreender os nossos possveis inimigos, 
pois no sabemos o que fizemos contra eles, nessa ou em uma outra 
encarnao. 
-Outra encarnao? Isso tambm  outra coisa em que no consigo 
acreditar. 
253


A Consulta 
-No fico admirado com isso. Para mim tambm foi difcil aceitar, 
mas, com o tempo, estudando e analisando, cheguei  concluso de 
que, se no existir outra encarnao, no existe mais nada. Deus no 
criaria o ser humano para viver sessenta, setenta ou oitenta anos na 
Terra, com oportunidades diferentes. Uns com o corpo perfeito e 
outros com vrios defeitos. Isso no seria justo. J que acredito em 
um Deus, preciso acreditar que Ele  justo e, por isso, no escolheria a 
nossa vida ao acaso. S a reencarnao pode explicar as desigualdades 
existentes entre ns. 
-O que representa realmente a reencarnao para voc? 
- a oportunidade que Deus nos d para aprendermos com nossos 
erros, corrigindo nossas deficincias morais ou espirituais, indo ao 
encontro da perfeio. 
-Acredita mesmo nisso? 
-Sim. O resultado das experincias e tratamentos junto aos meus 
pacientes mostra que, alm deste mundo que enxergamos, existe outro, 
to vibrante quanto este, onde as pessoas, agora espritos, trabalham, 
estudam, evoluem sempre, e escolhem a vida que desejam viver ao 
retornarem em uma prxima encarnao. 
Daniel olhou para trs. Ester estava olhando atravs do vidro da 
janela do carro. Ao v-la distrada, perguntou: 
-Ester, o que est achando de tudo isso? 
Ela ouviu a voz dele distante, mas entendeu o que ele disse. 
Respondeu: 
-No sei o que dizer. Estou preocupada com outra coisa. 
-Com o qu? 
- Com a pessoa ou pessoas que fizeram aquilo comigo. No sei 
quem  ou quem so, nem o motivo. Estou com medo. 
-Medo do qu? 
- Estou convivendo com pessoas, que embora digam ser meus 
amigos, no tenho certeza que realmente sejam. Uma dessas pessoas que 
conviveu comigo no passado quase me matou. Quem garante que no 
tentar novamente? Vocs esto discutindo sobre a vida aps a morte, 
eu estou preocupada com a minha vida aqui na Terra. Se existe vida 
aps morte eu no sei, mas que estou viva e aqui, disso tenho certeza! 
254


A Consulta 
Eles perceberam revolta e amargura naquelas palavras. Duarte, 
olhando pelo retrovisor do carro, disse: 
-No vou dizer que voc no est com razo de pensar assim, mas 
acredito que esse no seja o melhor caminho. Voc est, sim, no meio 
de pessoas que sempre lhe quiseram muito bem. Quando recuperar a 
memria, poder, quem sabe, revelar quem a agrediu e o motivo, mas,
por enquanto, o que precisa  continuar vivendo a sua vida e ser feliz.
- Como poderei ser feliz com essa dvida? Sem saber a pessoa
com quem estou conversando , na realidade, minha amiga.
Daniel interrompeu-a:
- Ester, o Duarte tem razo, voc, por muito tempo, torturou-se
com o desejo de recordar o seu passado e descobrir quem era. Hoje,
sabe que tem uma famlia e amigos que a amam. Quanto ao ou aos 
inimigos, com o tempo descobriremos tudo. No fique tensa nem 
amedrontada. Acontea o que acontecer, estou aqui e estarei sempre ao 
seu lado e voc sabe que pode confiar no meu amor. 
- Sei que voc no se lembra de que sempre fomos amigos, mas, 
assim como o Daniel, tambm gosto muito de voc e tambm estou 
e estarei ao seu lado. Farei e tentarei, com todo o meu conhecimento, 
tanto psiquitrico como espiritual, curar voc. 
Ela olhou primeiro para Daniel e, atravs do retrovisor, para os olhos 
de Duarte. Sentiu naqueles olhos muita sinceridade. Envergonhada por 
aquilo que havia dito antes, falou: 
- Desculpem por tudo o que eu disse. Estou realmente muito 
assustada e com medo de que tudo aquilo volte acontecer. Receio que 
a pessoa que planejou tudo, com medo de que eu me recorde e a acuse, 
volte a fazer e desta vez sem erro. Sinto, Duarte, que em voc posso 
realmente confiar, sei tambm que far tudo para encontrar a minha 
cura. S espero que, alm dos inimigos terrenos, eu no tenha, tambm, 
inimigos espirituais, pois a sim ser muito difcil. 
Disse essas ltimas palavras rindo, em tom jocoso. Duarte tambm 
riu dizendo: 
-No posso lhe garantir isso, mas se tiver algum inimigo espiritual ou 
aqui na Terra, acho melhor que se reconcilie nesta vida, se no ter que ser 
na prxima e, olhe l, ele poder voltar como marido. J pensou nisso?
255


A Consulta 
Daniel e Ester, assim como o prprio Duarte, ficaram pensativos e 
continuaram conversando sobre outras coisas. Duarte foi mostrando 
para eles alguns pontos tursticos da cidade. Quando menos esperavam, 
estavam diante da casa de Ester. Desceram do carro e entraram. 
Assim que entraram, Emlia, com um sorriso, veio receb-los, 
dizendo: 
-Que bom que chegaram! Ester, como foi a sua consulta? 
Antes que ela respondesse, Duarte disse: 
-Ol, Emlia. Tudo bem por aqui? A Ester no se consultou ainda, 
hoje s conversamos. 
-Espero que a conversa tenha sido boa. 
-Acredito que sim, conversamos sobre muita coisa, inclusive sobre 
as nossas experincias com o mundo espiritual. 
-Mas j, Duarte? O que achou, Ester? 
- No sei. Tudo ainda  muito novo e confuso. Preciso de algum 
tempo para comear a entender. 
- Vai precisar de muito tempo mesmo, pois, at hoje, eu ainda 
no entendo muita coisa. Quando minha me morreu, eu entrei em 
desespero, pois ela era a nica pessoa que eu tinha no mundo. Ela ficou 
doente por muito tempo, sofreu muito, mas, mesmo assim, eu no 
queria que ela morresse. Fiz o possvel e o impossvel para mant-la 
viva, porm foi em vo. Ela morreu. Eu quis morrer tambm. Fiquei 
muito triste, logo percebi que estava caminhando para uma depresso. 
J havia visto algumas pessoas com depresso, fiquei com medo, sa 
caminhando sem rumo, entrei, sem perceber, em uma livraria. Percorri 
as diversas prateleiras em busca de algum livro que pudesse me distrair. 
Meus olhos pararam em um, olhei o ttulo. "Nosso Lar". Fiquei 
olhando para ele, e senti um enorme desejo de compr-lo. No fiquei 
preocupada em saber quem era o autor, simplesmente o comprei. Fui 
para casa e comecei a ler. No consegui parar. Assim que terminei de 
ler, senti que era outra pessoa. Percebi e quis que tudo aquilo fosse 
verdade, pois havia uma possibilidade de minha me estar em um lugar 
como aquele, e que um dia eu a reencontraria. Fui ver quem tinha 
escrito aquela preciosidade. Andr Luiz e Francisco Cndido Xavier. 
Dois nomes estranhos, mas que, daquele dia em diante, comearam a 
256


A Consulta 
fazer parte da minha vida. Mas, agora, no acho ser uma boa hora para 
conversarmos sobre isso. No acha bom subir e descansar um pouco? 
-Era o que eu estava pensando em fazer. Se me derem licena. 
-Tudo bem, Ester, v. Mais tarde, conversaremos. 
Ester olhou para os demais, sorriu, dizendo: 
-Vou subir. Estou realmente cansada. 
Daniel beijou seu rosto. 
-Pode ir, ficarei aqui conversando com o Duarte e a Emlia. 
-Sinto muito, mas tambm preciso ir embora. Tenho que ir at o 
consultrio, tenho alguns pacientes para atender.  noite, voltarei para 
o jantar. Ento, conversaremos mais. Posso, Emlia? 
Emlia, carinhosamente, mexeu nos cabelos dele, respondendo: 
- Claro que pode. Estaremos esperando por voc com um jantar 
especial. 
Ele beijou seu rosto. 
-O seu jantar sempre  especial. At logo. 
Dizendo isso, saiu apressado. 
Daniel acompanhou Ester at a porta de seu quarto. Assim que ela 
entrou, foi para o seu, deitou-se de costas na cama e com os olhos no 
teto ficou pensando em tudo o que havia acontecido naquele dia. 
257




 Sndrome do Pnico
Ester, amedrontada e assustada, continuava no quarto, lembrando-se
de tudo o que havia acontecido em sua vida e como havia chegado
a sua casa. O vulto preto, durante todo o tempo, ficou ao seu lado,
dominando-a totalmente, fazendo com que ela no parasse de recordar 
nem esquecer nenhum detalhe sequer. Ela, por sua vez, continuava 
olhando fixo para a porta e no queria abri-la para Emlia e Daniel. Eles 
continuavam no escritrio, esperando a chegada de Ernesto, pois ele 
era quem tinha a chave do quarto. No fazia uma hora que Ester estava 
trancada e recordando-se, mas, para Emlia e Daniel, parecia que havia 
passado muito tempo. Daniel, apreensivo, disse: 
-Emlia, ser que ela no est dessa maneira porque Duarte contou 
aquilo sobre o rapaz doente e sobre essa histria de espiritismo? Ser 
que ficou impressionada? Por isso est agindo assim, desconfiando de 
tudo e de todos? 
-No sei responder, mas acredito que no. Acho melhor esperarmos 
o Ernesto e o Duarte chegarem, eles sabero o que fazer. Se quiser um 
conselho, acredito que, enquanto isso no acontece, devemos rezar e 
pedir a proteo de Deus nosso Pai e dos nossos amigos espirituais. 
-Acredita mesmo que eu vou ficar aqui rezando? Precisamos fazer 
alguma coisa! Amigos espirituais?! Voc no pode estar acreditando 
nisso! No est vendo que a Ester est enlouquecendo?! Que ela est 
em perigo?! 
- Sei que est em perigo, mas no pelo motivo que voc est 
pensando. 
-O que quer dizer? 
-J disse que no quero falar a esse respeito. Pode ser que eu esteja 
enganada, por isso  melhor termos um pouco mais de pacincia. 
Ernesto deve estar chegando. 
Ouviram o barulho de um carro entrando pela alameda e 
estacionando. Emlia disse: 
- o carro dele. Ele chegou! 
Antes que Daniel se levantasse, ela saiu correndo para fora da casa. 
Ernesto, alheio a tudo o que estava acontecendo, ao v-la e, por detrs 
259


Sndrome do Pnico 
dela, Daniel, que lhe pareceu tambm preocupado, percebeu que 
alguma coisa estava errada. Perguntou: 
-Emlia, o que aconteceu? Por que est com esse ar de desespero? 
Ela, ofegante e nervosa, respondeu: 
- a Ester! A Ester! 
Ele, preocupado, apressou o passo e, enquanto passava por ela, 
perguntou: 
-O que tem ela? Que aconteceu? 
-Est trancada no quarto, j faz quase uma hora, estamos tentando 
entrar, mas ela no deixa! Disse que todos ns queremos mat-la! 
-Como isso aconteceu? Hoje no almoo ela estava bem! 
-No sabemos, o Duarte conversou com ela e com o Daniel, depois 
os trouxe para casa. Quando chegaram, parecia bem, disse que estava 
cansada, foi para o seu quarto. Quando fui ver se estava bem, a porta 
estava trancada e no abriu para que eu entrasse. Vim avisar o Daniel, 
mas tambm a ele, no deixou entrar. 
- Por que voc no pegou as chaves que esto no escritrio e no 
entrou? 
-As chaves no esto l. Eu e a Leonora procuramos, mas no as 
encontramos! 
- Como no esto l, onde sempre estiveram? Na segunda gaveta 
da escrivaninha! Venha! 
Daniel, perplexo com tudo o que estava acontecendo, os seguiu. 
Assim que entrou no escritrio, Ernesto abriu a gaveta. Na frente de 
todos, surgiu um molho de chaves. Emlia e Daniel entreolharam-se 
abismados. Ela disse:
-Elas no estavam a!
- Como pode ver, no procuraram direito! Mas isso agora no
tem importncia, precisamos entrar naquele quarto e ver o que est 
acontecendo! 
Com as chaves na mo, subiram correndo as escadas. Ester 
continuava com os olhos arregalados e presos  porta. O vulto ao seu 
lado parecia estar satisfeito. Ela havia se lembrado de todo o tempo em 
que esteve em Carim. O medo e a desconfiana aumentaram. 
Aps ter se recordado de tudo, tomou uma deciso: No vou abrir 
260


Sndrome do Pnico 
esta porta! S quando a Jurema e o Neco chegarem! 
O vulto, ainda rodopiando e rindo, disse: 
-Quem lhe garante que eles tambm no fazem parte da quadrilha? 
Alm do mais, eles no viro, esto mortos. Quer saber como eles 
morreram? O jipe do Dorival tombou por cima deles, o Rafael tambm 
morreu! 
Enquanto o vulto dizia isso, pelo pensamento de Ester passava a 
cena do jipe tombando e via todos mortos embaixo dele. Novamente,
o desespero e novamente o choro.
Ernesto chegou  porta do quarto e disse com voz firme: 
-Ester, sou eu, o Ernesto, abra a porta! 
Ela, chorando, levantou-se da cama e foi em direo  porta com a 
inteno de abrir, mas o vulto se colocou  sua frente, dizendo: 
-No faz isso, ele est mentindo! Pergunte onde esto a Jurema e 
o Neco? 
-S vou abrir quando o Neco e a Jurema chegarem. 
-Est bem, vamos providenciar! 
- mentira! Voc sabe que eles morreram! 
- Isso no  verdade, Ester! Eles esto bem! Se tivesse acontecido 
algo com eles, j saberamos. Prometo que amanh bem cedo, vou 
providenciar a vinda deles! Abra a porta, sou seu irmo! 
- mentira! Pergunte o que ele fez com o dinheiro do seu pai? -disse 
o vulto com voz estridente. 
Ester parou imediatamente. Gritando, disse: 
-Voc est mentindo, no  meu irmo! No vou abrir a porta! 
-Claro que sou seu irmo e amo muito voc! 
- Voc est mentindo, se  mesmo meu irmo, o que fez com o 
dinheiro do nosso pai? 
-Por que est perguntando isso? 
- Voc quis eu morresse para ficar com toda a herana dele! Foi 
voc quem planejou tudo! No vou abrir a porta, s vou abrir quando 
a Jurema e o Neco chegarem! 
-Ester! Voc no sabe o que est dizendo! Nunca quis lhe fazer mal! 
O dinheiro do nosso pai est exatamente da maneira como ele deixou, 
no usei um centavo! Abra essa porta! 
261


Sndrome do Pnico 
-No vou abrir! 
-Eu tenho a chave, vou entrar! 
Ela correu em direo da janela e gritou: 
-Se entrar, eu me jogo pela janela! 
Percebendo que ela estava realmente fora de si, ele, que estava 
colocando a chave na fechadura, parou, dizendo: 
-Est bem No faa isso. No vou entrar. 
Olhando para Daniel e Emlia que, assim como ele, estavam 
assustados, perguntou:
-O que faremos? Ela no pode ficar trancada, precisa se alimentar! 
Precisamos providenciar a chegada de Jurema e do Neco, parece que 
s neles que ela confia.
Daniel tremia muito, no estava entendendo o que era aquilo. Horas
antes, ela estava bem, como pde mudar to de repente? Disse: 
-No sei o que est acontecendo, mas no vou ficar parado vendo-a 
se destruir. Eu a amo! Precisamos entrar e tir-la da. Amanh, volto 
com ela para Carim. L, ela viveu esse tempo todo uma vida normal, 
sem problema algum. Aqui na cidade, ela se transformou. Est cercada 
por pessoas desconhecidas, sabe que uma delas ou todas tramaram 
contra sua vida. Est com medo. 
-Espere a, Daniel, ela  minha irm! Demorei muito para encontrla 
e no vou permitir que a leve embora, encontraremos uma maneira 
de fazer com que volte  razo. 
-No estou vendo como. Nem em mim ela confia mais! 
Emlia, que at ali s ouviu o que eles diziam. Calma, disse: 
-Esperem a vocs dois! Essa discusso no vai levar a nada. Estamos 
todos nervosos. O melhor a fazer  dizer-lhe para ela ficar calma e que o 
Neco e a Jurema esto chegando. Enquanto ela se acalma encontraremos 
uma soluo. Alm do mais, o Duarte j deve estar chegando. Ele saber 
o que fazer. Daniel converse com ela, veja se consegue tranqiliz-la. 
-Vou tentar, mas no sei se vai adiantar. Ela no quer me ouvir. 
-Tente, meu filho. 
-Est bem. 
-Ester, sou eu. Estou preocupado. Sabe o quanto amo voc e como 
planejamos a nossa vida e felicidade. Fique calma, meu amor. Prometo 
262


Sndrome do Pnico 
que a Jurema e o Neco chegaro o mais rpido possvel, mas sabe que 
eles esto longe, por isso no pode ser agora, mas eles viro. Prometo. 
Ela conhecia aquela voz, sabia tudo o que tinham planejado. Tentou 
acreditar no que ele dizia, mas o vulto gritava aflito:
-No acredite nele! No abra a porta!
-Acredito em voc, mas quero ficar aqui sozinha. Tenho muito o 
que pensar. Prometo que no farei nada. S quero e preciso ficar s. 
Quando eles chegarem, se chegarem, pois sei que morreram, voltaremos 
a conversar. Agora me deixem em paz. 
Daniel chorava. No tinha condies de dizer mais nada. 
-Ester, sou eu, a Emlia. Criei voc desde pequena, por isso a quero 
como se fosse minha filha. Fique calma, no a incomodaremos mais. 
Fique tranqila. Nada aconteceu com Jurema nem com o Neco. Eles 
viro. Agora, deite-se e procure dormir. Voc no est com fome? Posso 
pedir para a Leonora lhe preparar uma bandeja e voc pode comer a 
no quarto. 
Ester estava com fome, pois no comia desde o almoo. Ia aceitar a 
oferta de Emlia, mas a voz voltou em sua cabea: 
-No aceite! Ela vai colocar veneno na comida! 
-No quero comer! Vocs esto querendo me envenenar! 
-Est bem, ento procure dormir. 
Ela ficou calada. Eles ficaram ali por mais alguns minutos, notaram 
que no havia barulho algum no quarto. Deduziram que, se ela no 
estivesse dormindo, estaria quase. Emlia disse: 
- Por enquanto, ela parece calma. O Duarte prometeu que viria 
para o jantar. Vamos descer e esperar. Precisamos s confiar em Deus. 
Ele sabe de tudo o que nos acontece. Ns sabemos que para tudo existe 
um motivo. Vamos confiar. Tenho certeza de que logo ela ficar bem. 
Retornaram para o escritrio. Leonora, durante todo o tempo, 
ficou no primeiro lance da escada. Precisava descobrir o que estava 
acontecendo, pois sabia que Vanda estava ansiosa para saber. Percebeu 
que estavam retornando e, para que no a encontrassem, desceu e 
correu em direo  cozinha. No conseguiu ouvir muito bem o que 
eles disseram, mas sabia que Ester no havia aberto a porta. 
No escritrio, Ernesto disse: 
263


Sndrome do Pnico 
-Daniel, o que o Duarte conversou com vocs para que ela ficasse 
dessa maneira? 
Daniel contou a histria do rapaz. Terminou, dizendo: 
-Ela, enquanto ouvia e no caminho de volta, me pareceu bem. Eu, 
embora impressionado com aquela histria, no dei muita importncia, 
mas ela parece que deu, pois, assim que entrou no quarto, mudou 
completamente de atitude. No sei se foi a histria, mas tudo leva 
a crer que sim. Nunca quis me aprofundar nesses assuntos e sempre 
acreditei serem histrias de folclore. Sou catlico e nunca me interessei 
por outras religies. 
- Espiritismo  uma doutrina que ensina que existe vida aps a 
morte e que o ser humano, mesmo depois de morto, continua com os 
mesmos defeitos e qualidades. O plano espiritual pode sim influir em 
nossas vidas. No sei, mas no caso de Ester pode ser isso. 
-Ora, Emlia! Como pode dizer algo assim? Mesmo que seja verdade 
a existncia de vida ps-morte e, como voc diz, que as qualidades 
e defeitos nos acompanham, no podemos ficar sob a influncia de 
mentes doentias! Se isso for verdade, onde fica Deus nessa histria? Se 
Ele realmente existir, no pode permitir que algo assim acontea! 
-Deus est presente em todas as nossas aes. Se existe um agressor, 
 porque tambm um dia foi agredido. Essa  a Lei Divina. 
-No estou entendendo o que quer dizer! 
- Estou falando sobre a Lei de causa e efeito. Para tudo o que 
praticamos de bem ou de mal, existe sempre um retorno. Por isso, 
no espiritismo, aprendemos a ter cuidado com as nossas aes, pois 
seremos sempre responsveis por elas. 
- Est dizendo que a Ester foi responsvel por tudo o que lhe 
aconteceu? Que ela merecia ter sido maltratada da maneira como foi? 
Que no existem culpados?! Sinto muito, mas no posso aceitar essa 
teoria. Para aquilo que fizeram contra ela, no existe desculpa, nem 
perdo. 
-No sei o que aconteceu com a Ester nem sei qual foi o motivo. 
Alm do mais, no estamos discutindo o caso dela, mas algo maior e 
mais profundo. 
-No estou interessado em nada que no seja em relao a ela! Isso 
264


Sndrome do Pnico 
tudo o que est dizendo  apenas teoria! Ester no est bem! Est tendo 
um ataque de pnico, que  compreensvel em uma situao como 
a dela. Passou por um trauma terrvel, lhe fizeram um mal terrvel e 
ela no sabe o motivo. Alm do mais, est vivendo, hoje, no meio de 
seus provveis inimigos.  s isso! Nada tem a ver com religio ou 
doutrina. 
Daniel estava alterado. Sua voz saa quase como um grito. Emlia 
achou melhor dar o assunto por encerrado, disse: 
- Fique calmo, Daniel, pode sim ser um ataque de pnico, mas, 
para resolver isso, Duarte est chegando. Ele saber o que fazer. 
-Ele tambm acredita nas mesmas coisas que vocs! No creio que 
seja um bom psiquiatra para Ester. Ser melhor encontrarmos outro. 
-Daniel! Precisa entender que, aqui nesta casa, ela no tem inimigos! 
Todos a amamos!  minha irm! Assim como voc, estou preocupado, 
mas ela ficar aos cuidados do Duarte. Sei que ele  competente. Emlia, 
sobre esse outro assunto, no falaremos mais. Ele no acredita, portanto 
no devemos insistir. 
Emlia, calada, abaixou a cabea. Daniel, diante da firmeza com que 
Ernesto disse aquelas palavras, tambm ficou calado. 
Leonora passava a todo instante pelo corredor para ver se conseguia 
descobrir algo. Quando percebeu que eles conversavam em tom 
alterado, parou, ficou ouvindo. Pelo tom de voz de Ernesto, percebeu 
que aquele assunto havia terminado. Com medo que algum deles sasse 
e a descobrisse, rapidamente, se afastou. Entrou na cozinha. Genilda, a 
cozinheira, ao v-la entrando daquela maneira, perguntou: 
-Leonora! O que voc tem? 
Ela, desconsertada, respondeu: 
-Nada! Por qu? 
-Voc parece nervosa! O que aconteceu?
- No estou nervosa, s preocupada com a dona Ester. Ela ainda
no abriu a porta do quarto. 
-Tambm estou preocupada, mas a gente no tem nada a ver com 
isso. J arrumou a mesa do jantar? 
-Ainda no. 
-Pois j devia ter arrumado. Est quase na hora. 
265


Sndrome do Pnico 
- No sei, no, mas parece que o povo desta casa no vai jantar, 
no!
-A gente no sabe, por isso  melhor deixar tudo pronto. 
-Est bem, estou indo.
Saiu da cozinha e foi para a sala de jantar. Antes, entrou em uma ante-sala,
onde ficava um dos telefones da casa. Esse lugar ficava distante da
cozinha e do escritrio. Discou o nmero de Vanda. Ela prontamente 
atendeu. Ao perceber que era Leonora, perguntou, aflita:
-Que aconteceu? Conseguiu descobrir?
-Ainda no, mas ela no abriu a porta, nem para o doutor Ernesto. 
Eles esto dizendo que ela est, no sei com que do pnico. 
-Sndrome do pnico? 
-Isso mesmo! O que  isso? 
- Quando isso acontece, a pessoa fica com medo de tudo, no 
quer sair para lugar algum. Mas para ela estar sentindo isso, deve ter 
acontecido algo que desencadeou. 
-Ser que ela se lembrou daquela noite? 
-Acredito que no, se assim fosse, ela teria contado para o Ernesto. 
O Incio ainda no chegou. Quando ele chegar, verei se consigo 
convenc-lo a ir at a. Por enquanto, continue prestando ateno e me 
informe. Fique calma.
-Estou apavorada! O doutor Ernesto e a dona Emlia no vo me
perdoar nunca!
-Espere a hora chegar para ficar nervosa. Por enquanto, s preste 
ateno. O Incio est chegando, preciso desligar. 
Vanda desligou o telefone, foi para a porta de entrada esperar 
Incio. 
Leonora comeou a preparar a mesa para o jantar. 
Ester, ainda em seu quarto, continuava olhando para todos os cantos. 
Estava com medo, mas, no conseguia explicar do qu. Mil pensamentos 
passavam por sua cabea. Era como se algum estivesse fazendo com 
que se recordasse dos momentos ruins por que passou. Sentia, ao 
mesmo tempo, uma vontade imensa de se vingar de algum que no 
sabia quem era. Estava confusa. Amava Daniel e era correspondida. Por 
que aquele medo dele? Dos outros at entendia, mas dele? Percebeu que 
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Sndrome do Pnico 
eles haviam sado. Levantou-se, encostou a cabea na porta para ver se 
ouvia alguma coisa. No ouviu nada. Lentamente abaixou e olhou por 
baixo da porta. Constatou que no havia ningum. Voltou para a cama. 
S ali se sentia bem. 
Os trs continuavam no escritrio. Estavam calados, frustrados, 
sentiam-se impotentes diante daquela situao. Ouviram o barulho de 
um carro estacionando. Emlia disse: 
- Deve ser o Duarte. Fiquem aqui, vou receb-lo e o trarei. 
No  conveniente que os empregados da casa percebam o que est
acontecendo.
Leonora, que estava no corredor, saiu apressada. Emlia levantou-se 
e foi encontrar Duarte. Abriu a porta, ele estava saindo do carro. Ao 
v-la, disse, sorrindo: 
-Emlia! Vindo me receber aqui fora! Quanta honra! 
-Vim receb-lo aqui fora, porque est acontecendo algo grave com 
a Ester. Daniel e o Ernesto esto no escritrio. 
Ele, assustado, perguntou: 
-O que est acontecendo? 
-Conversaremos no escritrio. Venha! 
Ele, apreensivo, acompanhou-a. Entraram no escritrio. Ao vlo 
entrar, Ernesto e Daniel levantaram. Ernesto, demonstrando sua 
preocupao, disse: 
-Ainda bem que chegou! A Ester no est nada bem. 
-Que aconteceu com ela? 
Emlia, rapidamente, contou tudo, desde a hora em que foi, pela 
primeira, vez ao quarto chamar Ester para o jantar. Duarte ouviu com 
ateno, depois, disse: 
-Embora ela mesma no soubesse, durante esse tempo todo esteve 
em um processo grave de depresso, mas, ao mesmo tempo, sentia-se 
protegida por aquelas pessoas que, apesar de estranhas, a tratavam com 
carinho. Ao chegar aqui, onde tudo  novo para ela, mesmo lhe dizendo 
que somos seus amigos e que a amamos, precisamos entender que para 
ela  difcil. S agora, ela se deu conta de que est no meio de provveis 
inimigos. 
-No somos seus inimigos! Ela  minha irm! Voc sabe o quanto 
267


Sndrome do Pnico 
sofri e como a procurei!
-Sei disso, mas ela no. Ela no se recorda de voc e de ningum
desta casa. Sabe que sofreu uma agresso, no sabe por quem, por isso
est apavorada. 
- O que faremos? Ela no quer abrir a porta do quarto. Ela no 
pode continuar ali! 
-Sei disso, Ernesto, tentarei falar com ela. 
Foram para o andar de cima, onde ficava o quarto de Ester. Duarte 
bateu levemente  porta, dizendo: 
-Ester, voc est bem? 
Ao ouvir a voz dele, ela se levantou da cama, ficou em p, mas 
continuou em silncio. Ele continuou: 
- Sou eu, Duarte. No precisa abrir a porta, mas eu gostaria de 
conversar um pouco com voc, pode ser? Se no quiser, eu vou embora 
e a deixo em paz. 
- No quero falar com voc nem com ningum, se insistir, salto 
pela janela! V embora! Vocs todos esto me enganando e querem que 
eu morra! 
- Est bem, no precisa ficar nervosa, alm do que j est. Irei 
embora, lhe darei um pouco de tempo para pensar, mas logo mais 
voltarei para ver se decidiu deixar-me entrar. At mais. 
Assim dizendo, fez sinal para os outros, saiu da frente da porta, 
dizendo: 
- A reao dela indica que algo muito srio est acontecendo... 
parece bastante perturbada...  melhor deixarmos que fique consigo 
mesma, refletindo um pouco... Quem sabe se acalma. Logo mais
voltaremos e tentaremos novamente. 
-Ela no vai abrir! J tentei de tudo! 
-Est bem, Daniel, mas no podemos obrig-la. Voltaremos depois, 
venham. 
Eles o acompanharam. Afinal, ele era o psiquiatra, devia saber o que 
estava fazendo. 
268

 Orai e Vigiai 
Ester ficou pensando, no sabia se abria a porta ou no. 
Decidiu abrir, comeou a andar em direo a ela, mas o vulto tambm 
se levantou, tentou dizer algo, porm o quarto todo se iluminou. Uma 
mulher apareceu, o que fez com que o vulto ficasse encostado em um 
canto. A mulher, com voz suave, disse: 
-Isaura, fique calma, no vim aqui para castigar voc, s para que a deixe 
decidir o que fazer. J ficou ao lado dela por muito tempo, agora chega. 
O primeiro vulto, Isaura, que esteve com Ester o tempo todo, ainda
encostado no canto e assustado, disse:
-Irene! O que est fazendo aqui? Sabe muito bem que eu precisava
fazer o que fiz! Ela mereceu! Ela fez muita maldade! 
-Sei disso, como sei, tambm, que, por mais que faa, nada de bom 
ir lhe acrescentar. Voc ainda no aprendeu que a melhor vingana  
o perdo? 
- Isso  o que vocs, os "santos", dizem. Enquanto ns vamos 
perdoando, os inimigos continuam maus e fazendo atrocidades! 
-Isso no compete a ns julgarmos. Quem pode julga  s Deus. O 
nosso trabalho aqui  s tentar ajudar a voc e a ela, que esto travando 
uma batalha entre si. 
Isaura queria ir embora, mas no conseguiu. Aquela luz a prendia 
no canto do quarto. Irene continuou com a voz pausada: 
- Isaura, voc no deve ir embora. A ningum mais do que voc 
interessa o que vai acontecer aqui. 
-O que vai acontecer? 
-Uma batalha de amor. Tenho certeza de que nunca viu outra igual. 
-Amor?! O que est dizendo?! Amor?! Como se ela sentisse amor 
por algum! Sabe que ela  dissimulada, mas que, no fundo, s quis
prejudicar a todos que estavam a sua volta!
- Sei disso, mas hoje ela est mudada. Sofreu, por no poder se
recordar de quem era. Viveu em um mundo diferente daquele que 
tinha conhecido at ento. Conviveu em um ambiente pobre e com 
pessoas simples que lhe mostraram que o amor no tem classe social. 
Hoje, ela  uma outra pessoa e, assim como todos ns, tem o direito ao 
269


Orai e Vigiai 
perdo e a uma nova chance. 
-Est dizendo que preciso perdoar tudo o que ela fez? No posso 
fazer isso! No sou um esprito iluminado como voc! 
-Pode no ser iluminado, mas  um esprito amado por Deus. 
- Voc e os seus "comparsas" falam a todo instante em Deus. 
Quando morri, achei que iria encontrar com Ele ou com o Diabo, no 
encontrei nenhum dos dois. S encontrei escurido, tristeza e outros 
que, como eu, perambulavam pelos caminhos. Onde est Deus? Onde 
est o Diabo? 
- Os dois esto dentro de voc e de todos ns. Depende de cada 
um, podemos escolher qual deles queremos em nossa vida terrena ou 
espiritual. 
Ester, livre por alguns instantes de Isaura, ouviu Duarte que 
novamente chamava por seu nome. Respondeu: 
-No quero conversar com voc. Assim como todos aqui, tambm 
 meu inimigo! Tambm quer que eu morra! 
-Sei que est com medo, mas no  escondendo-se que vai resolver. 
O medo faz parte do ser humano. Tem razo para sentir medo, mas tem 
tambm motivos para acreditar que as pessoas que esto aqui amam 
voc e esto preocupados. No quer mesmo conversar comigo? 
Irene, ao ouvir aquilo, aproximou-se e de seu peito saam raios 
luminosos que caam diretamente sobre Ester, envolvendo-a totalmente. 
Ester comeou a sentir-se fraca, seu corpo comeou a cair. Sem foras, 
percebeu que ia desmaiar ou at morrer. Ainda com a voz fraca, 
conseguiu dizer: 
-Estou morrendo... 
Do lado de fora, ouviram aquela voz, quase um sussurro. Duarte, 
preocupado, chamou: 
-Ester! Ester! Fale comigo! Voc est bem? 
Ela s conseguiu dizer: 
-Estou morrendo... 
Daniel, ao ouvir aquilo, entrou em desespero, comeou a gritar: 
-Cida, meu amor! Abra a porta! Preciso entrar! 
Fez-se um silncio enorme... 
Ernesto, desesperado, gritou: 
270


Orai e Vigiai 
-Duarte! Saia da frente, vou entrar de qualquer maneira! 
Duarte, percebendo que o momento era grave, afastou-se. Ernesto 
colocou a chave, devagar e, com dificuldade, abriu a porta, pois Ester 
estava deitada junto a ela. 
Assim que Ernesto conseguiu um espao, onde cabia o seu corpo, 
apressado, entrou. Os outros o seguiram. Ernesto abaixou-se junto a 
Ester que estava cada. Chorando ,disse: 
-Ester, o que aconteceu? Por que agiu assim? 
Ela, lentamente abriu os olhos, olhou para ele e para Daniel que 
tambm estava ao seu lado, no conseguiu dizer nada, apenas sorriu e 
fechou os olhos. Daniel, desesperado, comeou a chorar e chamar: 
-Cida! Cida! Por favor, no morra! 
Duarte, abaixando-se para examin-la, disse: 
- Ela no est morta, apenas desmaiou. Vamos lev-la para a 
cama. 
Daniel pegou-a no colo e, carinhosamente, colocou-a sobre a cama. 
Duarte examinou-a e constatou: 
-Ela no sofreu um desmaio, est profundamente adormecida. 
Daniel, aliviado, mas ainda chorando, ajoelhou-se perto da cabeceira 
da cama e comeou a passar a mo sobre o rosto e cabelos dela. Duarte 
colocou-se nos ps da cama e ficou olhando. Depois, voltou-se e olhou 
o quarto todo, como se quisesse ver algo. S quem percebeu esse gesto 
foi Emlia, que perguntou: 
-Duarte, acredita que seja o que estou pensando? 
- Acredito que sim, mas se ela est adormecida,  sinal de que 
estamos tendo ajuda espiritual, s que sei, tambm, que no estou 
preparado para enfrentar isso sozinho. Vou telefonar para a clnica e ver 
se o Jos est l. Ele trabalha  noite. Se estiver, irei busc-lo, sinto que 
precisaremos de sua ajuda. 
Em seguida, aproximou-se de Ernesto que tambm nervoso, estava 
junto  cama. Disse: 
-Ernesto, ela est bem, no precisa ficar preocupado. Preciso sair, 
mas voltarei logo. Mande preparar uma sopa e, se ela acordar nesse 
tempo em que eu no estiver aqui, oferea-lhe. Se ela no quiser, no 
insista, nem a obrigue a falar. Apenas fiquem aqui e no se esqueam de 
271


Orai e Vigiai 
pedir ajuda para o plano espiritual. 
-Voc acredita que seja... 
No terminou de perguntar, Duarte respondeu: 
-Acredito que sim, Ernesto,  por isso, que estou indo em busca 
do Jos. Ele, com certeza, poder nos ajudar. Fique calmo e confie. No 
estamos sozinhos nem sabemos por que tudo isso est acontecendo, 
mas, com certeza, tudo ser esclarecido. 
Daniel permanecia ajoelhado ao lado da cama de Ester. Ela dormia 
tranqila. Emlia e Ernesto acompanharam Duarte at o escritrio, de 
onde ele telefonou para a clnica e foi informado de que Jos, naquela 
noite, estava trabalhando. Pediu para falar com ele, no que foi atendido 
prontamente. Em rpidas palavras, contou o que estava acontecendo 
com Ester e perguntou se ele poderia vir. Jos colocou-se  disposio. 
Duarte disse que iria busc-lo. Foi o que fez. Despediu-se e rapidamente 
entrou no carro. Saiu em disparada. Tinha pressa, sabia que o tempo 
estava terminando. 
Assim que Ester adormeceu, mais duas entidades entraram no 
quarto, seus pais. 
-Ol, Irene, viemos assim que recebemos o seu chamado. Chegou 
a hora? 
-Sim, Francisco, como sabemos, a hora do ajuste sempre chega. 
Apontou para o canto, onde Isaura ainda permanecia. 
-Olhem quem est aqui tambm. 
Ao v-la, a me de Ester disse: 
-Isaura! Finalmente encontro voc! Onde esteve durante todo esse
tempo?
-Estou aqui para ajudar a sua filhinha? No adianta, estou ao lado
dela e ficarei at que enlouquea completamente ou se mate!
- No diga isso! Todo esse dio s pode fazer mal a voc mesma!
Deixe que ela continue seguindo o caminho que traou... 
Isaura, com uma expresso de dio, gritou: 
- Ela traou? Algum perguntou se eu estava de acordo? Que 
caminho? O que ela fez? Como fica?  muito fcil para vocs dizerem 
isso! No foi a vocs que ela fez mal.
-Est enganada, a atitude dela nos causou muito sofrimento, mas 
272


Orai e Vigiai 
ns descobrimos a tempo que s o perdo poderia nos libertar para que 
pudssemos tambm seguir o nosso caminho... 
- No quero participar disso! Quero ir embora! Vocs fiquem a 
rezando, que eu no me importo. Quero ir embora para junto dos meus 
amigos! 
-Que amigos? Aqueles que, como voc, esto cheios de dio e no 
conseguem enxergar a luz? Que vivem para a vingana, sem saber que 
no existem inocentes. Que todos temos a nossa parcela de culpa em 
tudo o que nos acontece? 
-No quero mais ficar aqui, nem ouvir o que esto dizendo! Vocs 
no podem me obrigar! Vou embora e voltarei quando ela estiver 
sozinha outra vez! 
Irene, que as observava, disse: 
-Isaura, seu tempo terminou. Voc j se vingou o suficiente. Agora, 
pode escolher, ficar aqui ou ser levada para um lugar bem distante, de 
onde nunca mais poder sair. 
-Que lugar?! Voc no pode fazer isso! No tem esse direito! 
- Tenho e posso. Voc j foi avisada muitas vezes. Teve a chance 
de transformar todo esse dio em amor, mas sempre resistiu. Agora, 
chegou a hora de darmos essa chance a ela. 
-Ela vai mentir! Dizer que aceita! Como sempre fez e, na primeira 
oportunidade, voltar a trair novamente, sem importar-se com as 
pessoas que est magoando! Vocs a conhecem to bem quanto eu! 
-Pode ser que esteja certa, mas ela tem o direito de tentar redimirse 
do mal causado. 
-J disse que no quero participar, mas tambm no quero ficar 
presa, por isso, se prometer que, no final, poderei ir embora, eu 
ficarei. 
- Prometo que assim ser, s que voc tambm tem de prometer 
que ficar quieta e que no interferir, acontea o que acontecer. 
-Est bem. Ficarei quieta, nem que para isso seja obrigada a tapar 
os meus ouvidos com as mos. 
Ao ouvir aquilo, Irene disse, rindo: 
-Sabe muito bem que no  com os ouvidos que voc ouve. Sabe 
tambm que j no os tem mais. Mas, mesmo assim, se lhe fizer bem, 
273


Orai e Vigiai 
faa. 
Isaura permaneceu no canto, sentou-se no cho. De onde estava, 
podia ver, nitidamente, Ester deitada na cama e os outros ao seu lado. 
Irene, assim que a viu naquela posio, dirigiu-se aos ps da cama de 
Ester, apontando com os braos, para os pais dela, o lugar em que 
deveriam se colocar, um de cada lado da cama. Enquanto faziam isso, 
Isaura fechou os olhos e pensou com toda fora que possua. Raimundo! 
Onde voc est? Preciso da sua ajuda! 
No mesmo instante, uma grande ventania formou-se no quarto. 
Apareceu um homem, alto, forte e bonito. Demonstrando fora, 
dirigiu-se para Isaura, dizendo, spero: 
-Isaura! Vim buscar voc! Eles no podem prend-la aqui! Se existe 
algum mau neste quarto, no  voc! Venha! 
Ao v-lo, ela disse, demonstrando medo: 
-A Irene disse que se eu no ficar aqui e quieta, ela mandar me 
levar para um lugar distante, onde ficarei presa! No sei que lugar  esse! 
Tenho medo... 
-Quem disse que ela tem esse poder? 
-Sempre ouvi dizer que os "santos" podiam tudo! 
- Podem, desde que no interfiram na Lei, e a Lei est do nosso 
lado! Estamos exercendo o nosso legtimo direito de vingana! Eles 
no podem nos impedir. Venha! Vamos embora! Eles que continuem 
tentando salvar essa peste! 
Sob os olhos impotentes de Irene e dos outros, ela se levantou, pegou 
na mo dele e, na mesma ventania em que ele chegou, foram embora. 
O doutor Francisco, pai de Ester, estupefato, perguntou: 
- Irene, o que ele disse  verdade?! Ele podia lev-la embora 
mesmo?! 
Irene permaneceu calada por alguns instantes, depois, com tristeza 
na voz, respondeu: 
- Sim, o que ele disse  verdade. No podemos interferir na Lei. 
Apenas podemos tentar orient-los para o perdo, mas no obrig-los. 
Errei, quando quis usar da fora para com a Isaura. Conheo-a h muito 
tempo, sei que sempre foi fraca. Aproveitei desse meu conhecimento e 
o usei contra ela, mas eu s estava tentando fazer com que entendesse 
274


Orai e Vigiai 
e perdoasse para que tivesse paz. Porm, acabo de perceber que estava 
errada. Como vem, na minha nsia de ajudar, cometi um enorme 
erro.
-Isso no pode ser! No pode acontecer! Quase todos os encarnados 
ou no acreditam que um esprito de luz no pode errar! 
- Para um esprito alcanar a luz, ele precisa aprender, redimirse 
do passado e desejar ardentemente trabalhar para o bem comum. 
Essa caminhada  longa. Alguns conseguem com facilidade, outros 
demoram um pouco mais. Quando atingem um certo entendimento, 
 dada a eles a oportunidade de ajudar aqueles que foram deixando 
por esse caminho, mas isso no quer dizer que passaram a ser "santos", 
como eles nos chamaram. Eu caminhei muito, pensei que estivesse 
livre desses sentimentos, mas, neste momento, notei que no  bem 
assim, que precisamos orar e vigiar sempre, como Jesus nos ensinou. 
Hoje, aqui, usei do poder, um dos sentimentos que mais atrai e agrada
a todos. O poder faz com que percamos o parmetro do certo e do
errado. O poder  algo que todos gostamos de ter e usar. Desde a coisa
mais simples, como o poder que temos sobre um subordinado, marido, 
mulher e filhos, at sobre o destino de uma empresa ou Nao. Por 
ele, faz-se ou comete-se qualquer crime. Em nome dele, prejudica-se 
um companheiro de trabalho ou irmo de caminhada. O poder do 
dinheiro, sobre aqueles que no o tm. O poder da fora, sobre os mais 
fracos. Enfim, o poder... sinto muito, meus irmos, mas acredito que a 
minha misso aqui terminou. 
-Por que est dizendo isso? 
- Para poder ajudar um irmo que se encontra enraivecido, com 
sentimento de vingana,  preciso termos sobre ele autoridade moral, 
precisamos demonstrar, com nossas aes, que estamos acima de 
qualquer julgamento. Aqui, com o que acabou de acontecer, isso ser 
quase impossvel. Eles no me respeitaro mais, no acreditaro no que 
eu disser. Preciso ir e descobrir como reparar esse meu erro.
-No pode fazer isso! E a Ester, como vai ficar? 
- Ela est agora em um sono profundo, nem o bem ou o mal 
podero atingi-la. Tenho certeza de que um outro irmo est nesse 
momento dirigindo-se para c. Ela no ficar desamparada, como 
275


Orai e Vigiai 
ningum nunca fica. 
Estava terminando de dizer isso, quando o vulto de um homem 
apareceu dentro do quarto. Olhou para todos, parou o olhar em Irene 
disse sorrindo: 
-Ol, Irene, como esto as coisas por aqui? 
- Ol, Vicente. Como j deve saber, acabei de cometer um erro 
muito grave. Preciso de ajuda. 
-O erro tambm faz parte da caminhada. A todo momento, somos 
testados e obrigados a fazer as nossas escolhas. Isso no quer dizer que 
precise se amargurar como est fazendo. Como voc mesma disse: neste 
caso, voc no poder mais trabalhar, mas aprendeu e tenho certeza 
de que isso nunca mais acontecer. Tudo faz parte do aprendizado. A 
sua inteno foi boa, o mtodo  que no foi. Volte para casa, outros 
trabalhos esperam por voc. 
-Acredita mesmo que me ser confiado outro trabalho? 
-Claro que sim. Voc , sim, um esprito de muita luz. Conquistou 
essa luz, trabalhando e aprendendo. Quantos irmos no ajudou? No se 
mortifique! Sabe que Deus nos deu, nos d e sempre nos dar todo seu 
amor e todas as oportunidades. O que aconteceu, hoje, serviu para alertar 
no s a voc, mas a todos ns. Como voc mesma disse:  preciso sempre 
orar e vigiar. Volte, esto esperando por voc com uma nova misso. 
Irene estava triste com aquele sentimento de misso no cumprida, 
mas percebeu o carinho com que Vicente a socorreu. 
-Obrigada, meu irmo, por ter vindo em meu auxlio. Como voc 
mesmo disse, aprendi e posso lhe dizer com toda a fora do meu ser que 
isso no se repetir. Poderei, quem sabe, queira Deus que no, cometer 
outro tipo de erro, mas como este nunca mais. 
- Tenho certeza disso, mas nem sempre o erro  ruim, s vezes, 
como neste caso, serve de aprendizado. 
- S estou preocupada com a Isaura e o Raimundo. Ser que, 
depois de tudo o que se passou aqui, conseguir convenc-los de que o 
caminho mais certo  o do perdo? 
-Isso no sei, mas tentaremos, no podemos nos esquecer nunca de 
que tudo tem a sua hora e que esta hora sempre chega. Agora v. 
Irene despediu-se de todos e desapareceu. 
276

A Lei Maior 
A Lei Maior 
Os pais de Ester ainda estavam atnitos com o que haviam presenciado 
e no souberam o que dizer. Vicente olhou para eles e, sorrindo, disse: 
- Sei as dvidas que esto passando por suas cabeas, logo mais 
tentarei esclarecer todas elas, mas, agora, a nossa misso aqui  tentar 
ajudar Ester. Ela est em um momento delicado. Precisamos ajud-la 
de toda forma possvel a enfrentar tudo o que vai acontecer e evitar que 
mergulhe no mundo dos loucos definitivamente. 
-Isso pode acontecer? 
-Sim, mas agora deixe-me ver como ela est. 
Aproximou-se da cabeceira da cama em que Ester estava deitada. 
Daniel ainda continuava ali ao lado dela, mas no podia imaginar tudo 
o que estava acontecendo. Vicente sorriu para ele, colocou a mo sobre 
a testa de Ester, que suspirou profundamente. Daniel ficou aliviado, 
pois embora ela estivesse quente, muitas vezes temeu que ela viesse a 
morrer. Vicente estendeu as mos sobre os dois e lanou luzes brilhantes 
sobre eles. Depois se voltou para os pais de Ester, dizendo: 
-Ela est bem. Vocs a conhecem h muito tempo, pois, por vrias 
vezes a receberam no meio da sua famlia na tentativa de ajud-la. 
Infelizmente, ela nunca soube aproveitar. Mas, conforme a Lei Divina e 
Soberana, no podemos interferir, somente continuar tentando sempre. 
-Essa  a mesma Lei  qual a Irene se referiu? 
-  ela mesma. Quando Deus nos criou, nos queria perfeitos, 
bastaria uma simples vontade sua e isso seria feito, porm Ele teria 
bonecos, sem mrito algum, e Ele queria, muito mais para seus filhos. 
Queria que fossemos livres e responsveis por nossas aes. Por isso, nos 
deu a vida eterna, e com ela suas Leis, a Lei do amor, perdo, caridade, 
causa e efeito e a que particularmente acredito ser a primeira, pois se 
a soubermos usar, as demais sero conseqncias, a Lei a que todos 
deveramos obedecer e a qual nunca infringir. Com essa Lei, todos 
seramos responsveis por nossas aes e saberamos que a toda ao 
sempre existir uma reao. Como aquele ditado: no faa aos outros 
o que no quer para si mesmo. Essa Lei chama-se livre-arbtrio. Ela  
uma Lei justa. No existem inocentes, pois todos estamos abaixo dela. 
277


A Lei Maior 
Todos estamos recebendo as reaes de nossas aes. Estamos aqui e 
vamos tentar ajudar nossos irmos envolvidos, mas tambm estamos 
sob esta Lei, e no podemos obrig-los. Eles, s eles, podero decidir 
como usaro a Lei. A Isaura e o Raimundo esto reivindicando o 
cumprimento da Lei, cabe a ns obedecer, mas tentar fazer com que 
entendam que ela tem muitas interpretaes. 
Ester se mexeu na cama Daniel, sempre alerta, se aproximou ainda 
mais, mas percebeu que ela continuava dormindo. Emlia e Ernesto 
entraram no quarto. Ernesto perguntou: 
-Daniel, como ela est? 
-Parece bem, est em sono profundo.
- bom que esteja assim. Duarte foi em busca de ajuda. Logo mais
estar aqui. 
-Que ajuda? Ele no  o psiquiatra? 
-, sim, mas achou melhor trazer algum para ajud-lo. 
Os pais de Ester sorriram ao verem Ernesto e Emlia. Maria Eugnia, 
a me, aproximou-se do filho e, mandando-lhe um beijo, disse: 
-Meu filho! Como est bonito! Ajude sua irm nesta hora difcil. 
Vicente tambm sorriu ao v-los. Disse: 
-Maria Eugnia, as pessoas que esto aqui so amigas sinceras de 
Ester, assim como vrios outros que a tm acompanhado durante muito 
tempo. A presena deles aqui  fundamental para o nosso trabalho. O 
amor que sentem por ela nos ajudar e muito. 
-Como podero ajudar? 
-Irradiando amor e ficando em orao. A energia deles nos ajudar 
na conversa que teremos com Isaura e Raimundo. 
-Acha que eles voltaro? 
-Sim, a fora do dio e da vingana far com que voltem. Sabem 
que, enquanto estivermos aqui, a presena deles  quase impossvel, 
mas o dio  um sentimento muito forte. Eles voltaro, sim. 
-E Ester, como ficar agora? 
- Sem a influncia deles, ela pensar por si mesma, conseguir 
separar o certo do errado, reconhecer seus amigos e neles apoiar-se. 
-Se eles no voltarem? 
-Estaremos sempre esperando. Esta  uma contribuio importante
278


A Lei Maior
e necessria que precisaremos dar a eles e a ns prprios, pois vivendo
 que aprendemos...
-Quem vir nos ajudar?
- Um nosso irmo encarnado, devotado, caridoso e que dedica 
boa parte de seu tempo no socorro de encarnados e muito mais dos 
desencarnados. Ele veio com essa misso e a est cumprindo em sua 
ntegra e com dignidade. Por isso alcana a todos. 
-Por que a presena dele  importante? 
- Espritos como o de Raimundo e da Isaura esto ainda presos  
Terra e  sua energia. Por isso, a energia deles  pesada, o que faz com que 
tenham dificuldades em nos ver e ouvir. Precisamos conversar com eles, 
mas, alm da energia, eles nos conhecem como "santos" e no nos do 
ateno.  mais ou menos o que acontece quando estamos encarnados 
e algum quer nos impor suas idias a respeito de qualquer assunto,
como poltica e religio. Fingimos que entendemos e aceitamos, mas,
na realidade, no estamos ouvindo. Com a presena de encarnados, 
as energias se igualam. Eles tm mais facilidade para ver e ouvir um 
encarnado. A energia do encarnado nos ajuda na comunicao. O 
encarnado transmitir a eles tudo o que precisamos e devemos falar. 
- Isso tudo  muito interessante. Nunca pensei que fosse assim. 
Quando eu era encarnado, tendo estudado medicina, sempre achei 
que a cincia tinha respostas para tudo, por isso, nunca me preocupei 
com qualquer assunto ligado  religio. Quando algum tentava 
falar comigo a esse respeito, fazia exatamente isso, fingia que ouvia, 
entendia e aceitava para me ver livre daquela situao que para mim era 
desagradvel. Mas, por tudo o que nos disse, se no houvesse esse irmo 
com essa energia especial, no haveria ajuda?
Vicente sorriu e olhou com carinho para Maria Eugnia, que no
interferia na conversa, mas estava atenta s explicaes. Depois, voltouse
para o doutor Francisco e respondeu: 
- Todo encarnado tem a mesma energia. Alguns, como o nosso 
irmo que est para chegar, tm energias mais aguadas, pois tm uma 
f inabalvel. Ele aprendeu, estudou e sabe como e onde pode e deve 
us-la. Mas, mesmo aqueles que no sabem de sua existncia nem de
seu significado, tm energias, e, mesmo sem saber, a usam muitas vezes
279


A Lei Maior
durante a vida terrena.
-Como assim, sem saber. Sem f?
-Quantas vezes durante a vida, algum est em situao de desespero
por um motivo qualquer e encontra algum que o ajude materialmente
ou apenas com palavras que lhe d novo nimo? Esse algum pode no
ter religio alguma, mas a simples vontade de ajudar torna a sua energia 
propicia para que possamos nos comunicar atravs dele, com esse irmo 
que, naquele momento, est precisando. 
O doutor Francisco suspirou fundo, dizendo: 
-Como o plano espiritual trabalha... quanta coisa acontece e ns, 
quando encarnados, no percebemos. 
Vicente tornou a sorrir e, com o mesmo tom de voz, disse: 
-No imaginamos mesmo, mas o Pai nunca nos desampara, nunca 
nos deixa sozinhos, encarnados ou no. 
-E esse irmo que vai chegar? Ele  algum especial?
- sim... est caminhando pela vida com seus problemas crmicos
para resgatar, por isso com muitas dificuldades terrenas, mas, mesmo
assim, dedica-se ao estudo, aprimoramento e ao. Sempre est pronto
para ajudar. Por isso, ele tem o dom da viso. Pode nos ver e conversar. 
Por isso, tambm, sempre que est presente, o nosso trabalho torna-se 
mais fcil. 
- Ele deve ser uma pessoa bem sucedida, tem que ter posses para 
poder se dedicar! 
-Ao contrrio, embora hoje, ele seja uma pessoa dedicada, nem 
sempre foi assim. Trouxe com ele a misso de ser o nosso intermedirio, 
mas trouxe tambm os seus prprios resgates. Tem uma vida simples, 
no teve estudo algum,  quase analfabeto, tem problemas familiares e 
financeiros. Para que conseguisse cumprir a sua misso, foi encaminhado 
para trabalhar na clnica do Duarte, para inici-lo e este iniciar o 
tratamento de seus clientes e dos moradores desta casa. A clnica do 
Duarte, por tratar doentes mentais,  um lugar propcio para o trabalho 
que Jos tem que desempenhar. 
-Por qu? 
-As doenas mentais, na sua maioria, so causadas por problemas 
passados e espirituais. Se conseguirmos curar esses problemas, a cura do 
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A Lei Maior 
doente ser imediata. 
-Sempre se consegue? 
- Infelizmente, nem sempre, porm, se a doena for bem tratada, 
no s a do encarnado, mas, principalmente, a do desencarnado, pois 
ele  quem a provoca, quase sempre por desejo de vingana ou de muito 
amor, essa cura ser mais fcil e em muitos casos no  atingida. 
-Voc disse que a doena pode ser causada por muito amor, como 
pode ser isso? 
-Muitas vezes, algum desencarna e deixa aqui pessoas ou pessoa 
a quem amava. No se conforma com essa separao, fica rondando 
at se colar em definitivo ao corpo dessa pessoa que, por seu lado, deve 
tambm no se conformar com a perda e fica ardentemente desejando 
estar ao seu lado. Aquele que partiu, embora no queira lhe fazer mal, 
atende a esse chamado e, mesmo sem querer, prejudica o ser amado, 
pois sua energia  diferente da do encarnado. Assim, surgem muitas 
doenas de difcil cura, no s mental. Nestes casos, como em quase 
todos,  necessrio primeiro a cura do desencarnado para depois surgir 
a cura do encarnado. A  que entra o trabalho de encarnados assim 
como o Jos e espritos assim como ns. Trabalhamos e vibramos juntos, 
quando conseguimos que o nosso trabalho seja recompensado com a 
cura de ambos, encarnados e desencarnados. Nesse momento, quase 
sempre exercemos aquele "pecadinho" do orgulho. -Vicente disse isso, 
com um sorriso maroto, continuou: -encarnados ou desencarnados, 
nos sentimos orgulhosos do nosso trabalho, embora saibamos que ele 
s pode ter sido concludo com a ajuda de Deus. 
-Est dizendo que mesmos os "santos" esto sujeitos aos mesmos 
erros de sentimentos dos encarnados? 
Ao ouvir isso, Vicente riu gostosamente e respondeu: 
-Sim, pois encarnados ou no, somos apenas espritos caminhando 
para luz, e esse caminho  longo. Sabemos que, apesar de desencarnados, 
continuamos gostando das mesmas coisas de que gostvamos e 
continuamos tendo os mesmo sentimentos, s que, agora, procuramos 
us-los da maneira certa. Por isso, quase sempre, os "santos" como os 
outros, tm ainda um longo caminho pela frente. Mas o orgulho s  
nocivo quando nos torna egostas, tiranos, prepotentes etc. O orgulho 
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A Lei Maior 
de um sonho conquistado, de um trabalho bem feito, esse temos o 
direito e o dever de exerc-lo. O esprito vive de conquistas e sempre 
que elas so conseguidas,  motivo de orgulho, sim! 
- Se pensarmos dessa maneira, voc tem razo. Muitas vezes me 
orgulhei de ter salvado a vida de um paciente ou de ter ajudado a outro que 
no tinha condies de comprar os remdios necessrios para sua cura. 
- Foi uma conquista sua. Com o conhecimento adquirido na 
faculdade de medicina, mas tambm com a ajuda de Deus. Porm, 
se voc fosse um mdico relapso, desinteressado no teria feito nada 
disso. Teve mrito seu, sim, por isso, quando desencarnou, a orao 
dessas pessoas que voc salvou ou curou ajudaram-na na passagem e 
iluminaram o seu caminho de volta para casa. 
-Quando fiz aquelas coisas, no imaginei que o resultado seria esse. 
Estou me lembrando, agora, de quantas vezes ajudei e no recebi nem 
um muito obrigado. Nessas vezes, fiquei furioso, prometi que nunca 
mais ajudaria outras pessoas, mas sempre aparecia algum, eu esquecia 
e tornava ajudar. 
- sempre assim, se quando estamos encarnados, ajudarmos a algum, 
mesmo que esse algum no nos agradea, muita ajuda teremos de Deus 
para a nossa caminhada, muitas coisas ruins que pedimos para passar, 
quando encarnados, se afastaro e a nossa caminhada ser mais fcil. 
-O que est dizendo exatamente? 
- Voc sabe que, assim que desencarnamos e voltamos para casa 
do Pai, nos  mostrado tudo o que de certo e errado fizemos durante 
a vida. Quando chega a hora de reencarnarmos novamente,  nos 
dado, atravs da Lei, o direito de escolha para a nova vida que vamos 
iniciar. De acordo com aquilo que fizemos nas anteriores, escolhemos 
de que modo viveremos na prxima. Freqentemente, exageramos 
nessas escolhas. Pedimos sempre provas duras para podermos, em 
menos tempo, resgatar os erros passados. Isso  feito quando estamos
desencarnados e sob a proteo de amigos e instrutores. Ao renascermos,
as provaes comeam a surgir e, na maioria das vezes, nos revoltamos
e no as aceitamos, sempre dizendo que no merecemos passar por isso
ou aquilo. Sendo assim, por mais que soframos aqui na Terra, nunca
chega a ser dez por cento daquilo que ns mesmos pedimos. 
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A Lei Maior 
- Isso  verdade, Vicente, eu mesmo j passei por isso muitas 
vezes. 
- No s voc, Francisco, como todos ns, mas se puxar por sua 
memria, lembrar das muitas vezes em que foi ajudado, at por 
pessoas estranhas que apareceram na sua vida em um momento de 
necessidade, e voc no agradeceu ou no teve tempo para isso, porque 
elas desapareceram e voc nunca mais as viu. 
-Realmente, algumas vezes, isso aconteceu. Eu ainda no havia me 
dado conta. 
- Quando ajudamos algum sem esperarmos um agradecimento 
qualquer, ajudamos pelo simples motivo de poder ajudar. Estamos 
sendo, para essa pessoa, um instrumento para que os espritos amigos 
dela, possam ajud-la. Quando, l na frente, ns precisarmos de ajuda,
outra pessoa ser o instrumento do plano espiritual e a ajuda, com
certeza, vir. Portanto, o melhor que temos a fazer  praticar o bem,
sem olhar a quem. 
-Da maneira como fala, parece que  simples, Vicente. 
-Mas, tudo  muito simples, Francisco! Ns somos quem sempre 
complicamos! A Lei  justa, simples e clara! Tudo o que fizermos de 
bem, reverter em bem! Tudo o que fizermos de mal, reverter em mal! 
No h mistrio algum! 
- simples mesmo! 
-A caridade  outra coisa importante. Nos ensinamentos de Jesus. 
Ele disse: "Sem caridade, no h salvao". 
- Isso eu no acho muito justo, Vicente. Como mdico, eu tinha 
dinheiro e conhecimento, podia praticar caridade, mas e aqueles que 
no tm recursos, nem conhecimento? Como podem pratic-la? Para 
poder se dar,  necessrio se ter! 
- Quem disse que a caridade s  feita quando o dinheiro est 
envolvido? Uma palavra na hora certa, uma presena amiga em um 
momento de desespero, um pensamento bom em relao a algum que 
est sofrendo, tudo isso  caridade e pode ser exercida por qualquer 
um que tenha boa vontade. Esse trabalho que o nosso irmo Jos faz 
 a prova disso que estou dizendo. Ele no tem recursos, nem estudos, 
mas dedica muito do seu tempo s para ajudar. No pede pagamento 
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A Lei Maior 
algum e muitas vezes no recebe nada em troca nem sequer um muito 
obrigado, mas no reclama e nem desiste de continuar fazendo o bem, 
pois sabe que est fazendo a sua parte. 
-  uma pena que, quando encarnados, no entendamos nem 
saibamos isso! Se todos entendessem e soubessem, o mundo seria
diferente! Por que, ao renascermos, no temos tudo isso bem claro? 
- Todos, quando crianas, vamos aprendendo e, quando adultos, 
sabemos distinguir o certo do errado! Todos sempre temos a oportunidade 
de praticar a caridade, se no o fazemos  simplesmente por falta de 
vontade e, para no o fazer, inventamos mil e uma desculpas. 
-Quando encarnados, deveramos poder conversar com os espritos, 
eles nos guiariam e nos diriam onde e como agir! 
Vicente comeou a rir novamente. Disse: 
-Se assim fosse, onde estaria a Lei? Qual seria o mrito em se ajudar
se por trs houvesse o interesse? Foi por isso que Jesus nos ensinou:
no deixe a sua mo esquerda saber o que a direita faz. Exatamente para 
que no houvesse interesse em nossas aes. Mas, quando encarnados, 
mesmo pensando que no estamos conversando ou ouvindo, estamos a 
todo instante recebendo mensagens do alto. Sempre que estamos prestes 
a praticar o bem ou o mal, parece-nos ouvir uma voz nos dizendo, no 
faa isso ou faa aquilo. Nunca estamos ss! 
-Novamente, voc tem razo. Isso acontece sempre. Deus  perfeito 
mesmo! 
- Voc tinha alguma dvida quanto a isso? Na sua perfeio, Ele 
nos quer perfeitos tambm, por isso, nos d toda oportunidade. Est 
sempre ao nosso lado nos dando toda a assistncia de que precisamos. 
Maria Eugnia, que at agora estava apenas acompanhando a 
conversa deles, perguntou: 
-Vicente, suas explicaes esto sendo valiosas. Est nos explicando 
sobre o que Jesus disse, mas tem algo que  muito difcil de seguirmos 
quando encarnados e, as vezes, at quando desencarnados. 
-Qual  a sua dvida, Maria Eugnia? 
-Amai o seu prximo! D a outra face! Voc tem que convir que  
muito difcil perdoarmos a quem nos faz sofrer, a quem pratica, contra 
ns, uma injustia! 
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A Lei Maior 
-Voc tem razo,  difcil mesmo, porm, no impossvel. Quando 
descobrimos o bem que o perdo nos faz, primeiro, percebemos que no 
 to difcil assim, pois muitas vezes, quase em sua maioria, enquanto 
odiamos, amargamos e no perdoamos. A pessoa contra a qual mantemos 
todos esses sentimentos no sabe e continua vivendo a sua vida, sem sequer 
se lembrar da nossa existncia. Ela no se lembra de um dia ter feito algum 
mal ou, se lembrar, esfora-se para esquecer e, com o tempo, isso acontece. 
Todavia, para a pessoa que sofreu a agresso,  muito difcil esquecer e 
por isso continua sofrendo. Agindo assim, sofre-se duas vezes, uma pela 
injustia recebida e outra, pelo tempo perdido guardando mgoa e rancor. 
-Tem razo em tudo o que est dizendo, mas devemos convir que 
perdoar  difcil. 
- No estou dizendo que no seja, alis, ele  o sentimento mais 
difcil de ser superado, mas nada  impossvel e, quando conseguimos 
algo que  difcil, isso nos causa um bem infinito. Assim que 
conseguimos perdoar, parece que a nossa alma fica mais leve. O perdo 
no  s necessrio quando encarnados, mas, muito mais, quando 
desencarnados, pois a, sim, poderemos avaliar o bem que nos faz.
Agora, precisamos encerrar este assunto, pois estamos prestes a ser 
interrompidos. Em outra ocasio, falaremos mais sobre isso. 
Assim que terminou de falar, ouviram uma batida leve  porta do 
quarto. Emlia foi at ela e a abriu. Era Leonora, perguntando: 
- Dona Emlia, desculpe, mas j est na hora do jantar e a mesa 
est posta. 
Emlia, ao responder, notou que Leonora esticava a cabea para ver 
o que estava acontecendo dentro do quarto. Porm, na posio em que 
Emlia estava, ela no conseguia ver nada. Disse: 
- Estamos com um pequeno problema. Pea para Genilda no 
colocar o jantar. Quando tudo terminar, avisaremos e, se quiserem, 
podem jantar e recolher-se aos seus quartos. Mais tarde, eu mesma 
servirei a mesa. 
-Dona Emlia... a dona Ester est bem? Que est acontecendo? 
-Ela est s um pouco confusa, mas logo ficar bem. Agora, voc 
pode se recolher. Boa-noite. 
Sem alternativa, Leonora saiu. 
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 Renunciando ao Cu 
Enquanto tudo isso acontecia na casa de Ester, Vanda desligou o 
telefone e foi at a porta por onde Incio acabava de entrar. Ao v-la se 
aproximando, ele abriu os braos. Abraou-a e, levemente beijou seus 
lbios, carinhoso, disse: 
-Boa-noite, meu amor! Est tudo bem aqui em casa? 
Ela correspondeu ao beijo e, abraados, entraram em casa. 
-Sim, s estava esperando por voc. Como foi o seu dia? 
- Cansativo como sempre. O meu telefone no parou. O dia no 
hospital  sempre muito corrido. Hoje fiz uma cirurgia difcil, estou 
preocupado com o paciente, pois ele j tem idade. Aps o jantar, voltarei 
ao hospital para ver como ele est, aps ter passado a anestesia. 
Ela, mostrando contrariedade, disse: 
-Tem mesmo que voltar? Mas acabou de chegar! 
-Meu amor, aps quase cinco anos de casados, voc j deveria ter 
se acostumado com a vida de um mdico... 
-Eu sei, mas, por mais que tente, no consigo. A propsito, recebeu 
os meus exames? Estou ansiosa para saber o resultado. 
- Recebi e os trouxe, pode ficar tranqila, no existe problema 
algum. 
-Ento, por que no consigo engravidar? Sabe o quanto desejamos 
uma criana! 
- Sei sim, mas, pelos resultados dos exames, no existe problema 
algum, ns estamos em perfeitas condies. Acredito que seja s uma 
questo de tempo. 
- Tem mesmo certeza de que no precisamos fazer algum 
tratamento? 
- Claro que tenho certeza! Se precisssemos fazer, faramos. S 
precisamos tentar mais vezes, -disse isso com um sorriso maroto, - 
o que no ser to difcil assim. Acredito que a qualquer momento 
seremos surpreendidos. 
Ela tambm sorriu. Chegaram  sala de estar. Enquanto ele tirava o 
palet e a gravata, ela disse: 
- Aps o jantar, eu poderia ir com voc at o hospital, depois 
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Renunciando ao Cu 
passaramos na casa da Ester. 
-Hoje? No, meu amor! Estou cansado! Quero jantar, passar rpido 
pelo hospital, ver como o meu paciente est, voltar e, em seguida, 
descansar. O mximo que poderei fazer hoje, alm disso, ser tentar 
encomendar o nosso nenm. 
Novamente ele fez aquela expresso marota. 
-Mas por que quer ir l? 
-Pensei em fazer, amanh, um jantar de boas-vindas para a Ester, 
gostaria de ir at l para convid-los e ver o que desejam comer. 
-Para isso no precisamos ir at l. Basta telefonar. 
- Ficaria muito formal. Sabe o quanto gosto da Ester e como sou 
agradecida por tudo o que ela me fez, inclusive, proporcionando a 
oportunidade de conhecer voc. 
-Sei de tudo isso, mas estou, mesmo, muito cansado. Telefone para 
ela. Ser mais fcil. Sabe que a nossa amizade nos permite isso. Tenho 
certeza de que ela no se importar. Agora, vou tomar o meu banho. 
Beijou-a na testa e saiu em direo ao quarto. Vanda ficou sozinha 
na sala. Percebeu que no haveria como convenc-lo, no poderia lhe 
contar que j havia telefonado e feito o convite. Estava assim pensando, 
quando o telefone tocou. Rpido, ela atendeu, sabia que, quela hora 
da noite s poderia ser Leonora, pois Incio no dava o nmero do 
telefone de casa para ningum, se algum paciente quisesse falar com ele, 
teria de telefonar para o bipe. Rpido, tirou o telefone do gancho. 
-Al. 
-Sou eu, dona Vanda, a Leonora! 
-Sei que  voc! Diga logo! O que aconteceu? 
-No consegui descobrir! S sei que o doutor Duarte chegou, viu 
a dona Ester e saiu apressado. Ningum jantou aqui em casa. A dona 
Emlia, o doutor Ernesto e o doutor Daniel esto l no quarto da dona 
Ester. A dona Emlia disse que a gente pode ir dormir e, que mais tarde, 
ela mesma vai servir o jantar. 
Preocupada, Vanda perguntou: 
-No sabe mesmo o que est acontecendo? 
-No! Se soubesse, eu contaria para a senhora! 
-Est bem, v se deitar, mas fique por a e, de vez em quando, v 
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Renunciando ao Cu 
at a cozinha beber gua ou fazer qualquer coisa para ver se consegue 
descobrir o que est acontecendo. 
-A senhora no vai vir at aqui? 
-Acredito que no poderei, Incio est muito cansado e no quer ir, 
mas fique atenta, qualquer coisa que descubra, me comunique! Agora, 
preciso desligar. 
Colocou o telefone no gancho e foi para o quarto. Incio estava 
tomando banho. Deitou-se na cama e ficou pensando: o que estar 
acontecendo? Ser que ela se lembrou de tudo? Se isso aconteceu, deve estar 
muito nervosa! 
Leonora estava colocando o telefone no gancho, ouviu o barulho 
de um carro estacionando. Sabia ser o carro de Duarte. Correu e
abriu a porta. Duarte estava saindo do carro e, do lado do passageiro,
saa um homem desconhecido para ela. Assim que a viu na porta,
Duarte disse: 
-Boa-noite, Leonora! Onde esto todos? 
-Boa-noite, doutor, esto todos no quarto da dona Ester. 
Enquanto entrava, Duarte disse: 
-Estou indo para l tambm. Venha, Jos, pode entrar. 
Leonora perguntou: 
- Doutor, o que est acontecendo com a dona Ester? Ela est 
doente? 
-Est, sim, mas logo ficar boa, no se preocupe. 
Disse isso e foi encaminhando-se para a escada, sendo seguido por 
Jos que, enquanto o acompanhava, olhava para todos os lados. Leonora 
percebeu, mas ficou calada. Assim que eles subiram a escada, ela voltou, 
pegou o telefone e ligou para Vanda novamente: 
Assim que ouviu o telefone, Vanda olhou para o banheiro e 
percebeu que Incio ainda estava tomando banho e, pelo que conhecia 
dele, sabia que ainda demoraria. Com o telefone junto aos lbios e, 
baixinho, disse: 
-Al! Leonora! Que aconteceu agora? 
- No sei no, dona Vanda, mas o doutor Duarte chegou agora e 
trouxe com ele um homem estranho, que nunca vi antes. Ele est com
um uniforme da clnica do doutor e entrou em casa, olhando para todos
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Renunciando ao Cu
os lados, parecia que estava querendo ver alguma coisa! Ele  muito 
estranho! 
-De uniforme? Ser um mdico ou enfermeiro? 
-Acho que no  no. O uniforme  azul-marinho. No  branco 
igual ao dos mdicos e enfermeiros, no! 
-Quem ser? 
-No sei, no... 
Vanda percebeu que Incio desligara o chuveiro, disse rpido: 
-Fique atenta, daqui a umas duas horas, me telefone novamente, o 
Incio vai voltar para o hospital e poderei falar com voc mais tranqila. 
Preste ateno, s me telefone se acontecer algo diferente. Se no for
assim, no vale a pena arriscar!
Enquanto elas conversavam, Duarte entrou no quarto de Ester. Jos 
entrou logo em seguida. Duarte aproximou-se de Emlia, Ernesto e 
Daniel. Assim que os viram, levantaram-se. Duarte, olhando primeiro 
para Ester, depois para Ernesto, perguntou: 
-Como ela est? 
-Est dormindo desde a hora em que voc saiu. 
-Este  o Jos. Ele est aqui para nos ajudar. 
Jos olhou para todos e, timidamente, sorriu e disse: 
-No precisam se preocupar, ela ficar bem. H muitos amigos que 
querem ajud-la. 
Duarte olhou para ele, perguntando: 
-Est vendo algum aqui? 
Jos olhou para Vicente e os pais de Ester. Vicente lhe disse: 
- Boa-noite, meu irmo. Obrigado por ter vindo. Pode dizer que 
est nos vendo e que, com a graa de Deus, esta noite, tudo ficar 
bem. 
Jos respondeu em pensamento: -Ser com certeza... 
Depois, voltando-se para os outros, disse: 
-Esto aqui, um senhor, uma senhora e um esprito amigo e esto, 
assim como ns, para ajudar essa moa. 
Emlia e Ernesto sorriram, porm, Daniel que estava muito 
preocupado com Ester e que no estava entendendo muito bem aquela 
conversa, perguntou: 
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Renunciando ao Cu 
-O que ele est dizendo? No tem aqui ningum, alm de ns? 
Emlia sorriu enquanto dizia: 
-Daniel, no se preocupe com isso. Fique atento e somente faa o 
que eu disser e no se assuste com nada que acontecer aqui. 
- Assustar?! Nada poder me assustar mais do que ver Cida no 
estado em que est! Acredito que deveramos lev-la para um hospital! 
Ela est precisando de tratamento mdico!
Emlia procurando acalm-lo, disse:
- Ela ter todo tratamento de que precisa. Por enquanto, apenas 
pense em Deus, no faa nada alm disso. 
Vicente sorriu, dizendo: 
-Jos,  isso mesmo o que todos precisamos fazer. Neste momento, 
ser necessria muita orao. Esperamos, atravs dela, conseguir a cura 
no s para essa moa, mas para alguns irmos que, assim como ela, 
esto precisando de ajuda. 
-Tudo o que depender de mim ser feito. 
- Sei disso, mas oriente os nossos irmos. Eles no precisam fazer 
nada, a no ser pensar em Deus e em muita luz invadindo a ns 
todos. 
Jos voltou-se para os outros, dizendo: 
-No sei bem o que vai acontecer aqui, mas preciso que, com muita 
f, peam a Deus pelo bem-estar dela e imaginem que este quarto est 
com muita luz. 
Emlia e Ernesto fecharam os olhos e entraram em profunda orao. 
Daniel continuou olhando para eles e para Jos. Vendo que tambm Jos 
estava de olhos fechados, parecendo rezar, fechou os seus, pensando: 
meu Deus, no sei bem o que est acontecendo aqui, mas farei qualquer 
coisa para ajudar a minha Cida. No sei muito bem como se reza, pois 
desde que me tornei mdico, acreditei que a cincia tinha resposta para 
tudo, mas hoje estou com dvidas em relao a isso, por isso, meu Deus, 
ajude a Cida! Faa com que ela volte a ser tranqila como sempre foi e, de 
preferncia, volte a ser como era a minha Cida. 
Ernesto, aps alguns minutos de orao, perguntou, ansioso: 
-E agora? O que faremos? 
Vicente disse para Jos, que depois transmitiu aos demais: 
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Renunciando ao Cu 
- Pediremos auxlio s foras competentes para que nos ajudem a 
trazer de volta aqueles que durante muito tempo estiveram ao lado de 
Ester. Para que o nosso trabalho seja perfeito e tenha o fim desejado,  
necessria a presena deles. 
O pai de Ester perguntou: 
-Acredita que voltaro? 
- No sei, mas precisamos tentar. Vamos entrar em orao 
novamente? 
Entraram em orao. Alguns minutos aps, dois espritos entraram 
no quarto. 
Vicente, ao v-los, disse, feliz: 
- Lencio! Durval! Que bom que atenderam ao nosso chamado. 
Sabem que preciso da ajuda de vocs para trazer at aqui a Isaura e o 
Raimundo. 
-Ol, Vicente, sabemos que  necessria a presena deles aqui, mas 
sabemos tambm que ser difcil. Eles esto endurecidos pelo dio e 
pelo desejo de vingana, porm, faremos o possvel. 
-Sei disso, mas para o bem deles e de Ester,  necessrio que venham. 
Isso j est durando muito tempo e chegou a hora de colocarmos um 
ponto final para que todos possam continuar a caminhada. 
-Faremos o possvel e o impossvel, mas, diante do que aconteceu 
aqui hoje, talvez tenhamos dificuldades ainda maiores. 
- Lamento o que aconteceu com Irene, mas vocs sempre foram 
amigos deles, sabero como falar. Eles confiam em vocs, Lencio. 
-Sabe que tentaremos. Vamos, Durval? 
Durval balanou a cabea, confirmando. Abanaram a mo e saram 
do quarto e da casa. L fora, Lencio disse: 
-Durval, voc sabe que temos uma misso importante, mas quase 
impossvel. Com Isaura, no haver muitos problemas, ela no quer 
aceitar, mas, aos poucos, foi se conscientizando de que tanto dio s 
est lhe fazendo mais mal do que bem. 
- Tambm penso assim, mas voc tem de convir que eles no 
deixam de ter razo. Foram prejudicados na ltima encarnao, foram 
trados e a traio  algo de difcil perdo. 
- Sim, realmente, mas voc, assim como eu, sabe que o dio e o 
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Renunciando ao Cu 
rancor no fazem bem a ningum, muito menos a quem os sente. S 
atrasa a caminhada, tanto do encarnado como a do desencarnado. 
-Sei disso, aprendi com muitas lgrimas e sofrimento... s no sei 
se eles aceitaro esse argumento. 
-Tambm no sei, mas essa  a nossa misso, teremos de fazer o 
melhor. 
- Tem razo, estamos quase chegando, vamos pedir muita ajuda 
do alto. Tenhamos confiana de que, nesta hora, estamos sendo 
infinitamente amparados. 
Confiantes continuaram a caminhada. Em um ponto, Lencio 
parou, dizendo: 
- Durval, estamos nos aproximando, ser conveniente que 
transformemos a nossa aparncia, para podermos entrar no reduto 
deles, sem maiores problemas. 
- Tem razo, agora, realmente,  que estamos iniciando a nossa 
misso. Estamos j h muito tempo freqentando esse lugar e, para 
eles, fazemos parte da populao. Eles precisam continuar acreditando 
nisso para podermos falar. Sabe, Lencio, j estamos ha tanto tempo 
vivendo aqui que, s vezes, chego at a pensar que realmente fao parte 
deste lugar. No  estranho? Nos primeiros dias, foi difcil, mas, agora, 
j no me causa mal algum. 
- Tambm passei por esse mesmo processo, Durval, mas, como 
tinha sido escolha minha, sabia que a qualquer momento poderia 
retornar. Sempre que conseguimos retirar um irmo deste lugar, a 
felicidade que sinto me faz to bem que at esqueo que poderia viver 
em um lugar melhor e com mais conforto. Voc sabe que caminho 
por estes lugares, na esperana de encontrar o meu filho, que sei, est 
aqui. Ele, muito cedo, se desgarrou do caminho, entrou para o vcio 
e acabou tirando a prpria vida. Para os encarnados, foi uma morte 
natural, mas ele e ns sabemos que no foi. Cansado daquela vida, ele 
resolveu desertar. Procuro h muito tempo por ele. Sei que, a qualquer 
momento, a providncia far com que eu o encontre. Enquanto isso 
no acontece, vou trabalhando, ajudando e sendo ajudado. S posso 
agradecer ao Pai a oportunidade que est me dando. Com a salvao 
de tantos irmos que aqui se encontram, fico to feliz que, s vezes, me 
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Renunciando ao Cu 
esqueo do verdadeiro motivo pelo qual eu quis vir para c. 
- Sabe, Lencio, j estamos vivendo juntos neste lugar h tanto 
tempo e voc nunca me contou qual foi esse motivo. Foi por causa do 
seu filho que veio viver aqui? 
Lencio fechou os olhos, pareceu lembrar-se de um passado distante, 
depois respondeu: 
- Foi por causa dele sim. Quando ele se desviou do caminho, 
durante muito tempo me senti culpado por no ter podido dar a ele 
e aos seus irmos, uma vida de riqueza. Sempre achei que esse tinha 
sido o motivo do seu desvio. Quando desencarnei, descobri que eu no 
tinha tido culpa, pois o papel dos pais  proporcionar a vida, educao 
e sobrevivncia dos filhos. A vida de cada um  independente, pois 
todos somos responsveis por nossas aes. Meu filho precisava nascer 
em um lar pobre, para que, com seu prprio esforo, alcanasse aquilo 
a que julgava ter direito. Descobri, tambm, que dentro das minhas 
possibilidades de um simples trabalhador, dei a eles o melhor. Apesar 
de tudo, eu havia cumprido minha misso. Depois que um amigo me 
explicou tudo isso, assim que cheguei aqui aps desencarnar, entendi. 
E s a consegui me conformar. Perguntei a ele: 
- Onde est, o meu filho?
-Esse meu amigo respondeu que ele estava aqui, e que se eu quisesse 
poderia tentar encontr-lo e lev-lo embora, pois ele j estava vivendo 
aqui por muito tempo, tinha aprendido e se arrependido, s faltava 
reencontrar o caminho de volta. Perguntei por que ele ainda no havia 
voltado. Respondeu: 
-Ele tem medo de no ser aceito, recusa-se a atender ao nosso chamado. 
Tem medo de estar caindo em mais uma cilada das tantas em que j caiu. 
Por isso, fica perambulando de um lado para outro, sem ter um lugar certo 
para ficar. 
-Entendi que o nico em quem ele confiaria seria em mim, pois, 
ao me ver, saberia que eu no estaria mentindo e, assim, eu poderia 
reconduzi-lo de volta. 
-Por isso veio para c? 
- Sim, a minha primeira inteno foi essa, mas, com o passar do 
tempo, embora ainda o procure, essa deixou de ser a minha prioridade. 
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Renunciando ao Cu 
Sei que no momento certo eu o encontrarei. Mas, agora, no  hora de 
falarmos sobre isso. Precisamos nos concentrar no nosso trabalho. 
-Tem razo. 
Fecharam os olhos e entraram em profunda orao. Luzes de vrias 
cores caam sobre eles e, em poucos segundos, estavam transformados 
em uma espcie de andarilhos, com as roupas sujas e rasgadas. 
Entraram e caminharam por vielas escuras e lamacentas. Podiam ouvir 
gritos, gemidos, lamentos, palavras de dio e vingana. Acostumados,
pois j viviam ali h muito tempo, embora sentissem ainda desconforto,
continuavam caminhando sem se deterem. Sabiam que tinham uma
misso difcil e que quase todos os dias teriam outras. Hoje era a de
Ester, Raimundo e Isaura, mas amanh seria a de qualquer um daqueles
que ali estavam. Continuaram caminhando e chegaram a uma espcie 
de caverna. Pararam por um instante, fizeram uma breve orao e 
entraram. No centro da caverna, havia uma clareira, onde vrios espritos 
estavam sentados. Riam muito, bebiam e fumavam charutos sem parar 
e pareciam felizes. Isaura estava sentada ao lado de Raimundo. Lencio 
e Durval sabiam que, agora, o trabalho seria realmente difcil, pois ali, 
naquele lugar, estavam espritos perversos que Raimundo era um dos 
seus "chefes". Sabiam como ele era inteligente e, por isso, difcil de 
ser enganado. Como estavam sob a Lei do livre-arbtrio no poderiam 
obrig-lo a voltar para o quarto de Ester, onde sabiam que os "santos" 
estavam. Raimundo era intransigente. Uma palavra sua era considerada 
uma ordem. Por outro lado, Lencio e Durval tinham uma misso
importante e tentariam realiz-la da melhor maneira possvel.
295



 Persuaso
Aproximaram-se. Ao v-los, Raimundo perguntou, raivoso:
-Por onde andaram? Sa por alguns minutos e vocs desapareceram?
Sabem que no podem sair daqui sem a minha ordem! 
Lencio, humilde, respondeu: 
- Raimundo, desculpe, mas a gente no tinha o que fazer, fomos 
dar umas voltas por a para poder lhe contar como andam as coisas. A 
gente sabe que voc gosta de ser informado. 
Raimundo esboou um leve sorriso, dizendo: 
-Ah, foi isso que foram fazer? Como esto as coisas? 
Lencio tambm sorriu e respondeu: 
-Sabe o que a gente viu? A populao daqui est crescendo muito! 
A cada dia aumenta mais! Parece que todos da Terra esto cada vez mais 
gananciosos, uns querendo enganar os outros! O dinheiro tomou conta 
de todos eles e as drogas, ento? Apesar de no ter sido a gente quem as 
inventou, ajudamos o povo a us-las para outras coisas! 
Raimundo, soltando uma gargalhada estridente, disse: 
- Voc ficou admirado por tantos estarem chegando? Pois fique 
sabendo que chegaro muitos mais! Isso  muito bom,  sinal que 
estamos ganhando a guerra! Tambm, do jeito que os "santos" esto 
fazendo, vo perder todos mesmo. 
Lencio fez um ar de espanto, perguntando: 
-O que "os santos" esto fazendo? 
Raimundo contou o que tinha acontecido entre Isaura e Irene e 
terminou, dizendo: 
- Se eles mesmos esto querendo enganar a Lei, como podem 
querer salvar algum? 
Lencio, mantendo aquele ar de cumplicidade, deu tambm uma 
estrondosa gargalhada e disse: 
-Vejam s, eles esto perdendo a guerra mesmo! Isso  muito bom! 
Mostraremos para eles quem tem mais fora! 
-Eu sempre soube que temos mais fora! Fizeram aquilo com Isaura, 
porque ela  uma pamonha! Sempre foi! Nunca soube se defender! Voc 
sabe o que eles queriam que ela fizesse? 
297


Persuaso 
-No, o qu? 
-Queriam que ela deixasse em paz e ajudasse aquela safada da Ester! 
Pode uma coisa dessas? Depois de todo o mal que nos fez?! Essa Isaura 
 uma boba mesmo! Acreditou que eles podiam obrig-la a ficar l ou a 
prenderiam para sempre! Se eu no chego, ela estaria l at agora! 
-Se eu fosse voc, ficava l tambm! 
- Est louco?! No quero nada com aqueles "santos", no, 
Lencio! 
- Por que no, Raimundo?! Se voc quiser, eu e o Durval vamos 
junto e a gente mostra para eles quem tem mais fora! Voc no vai, 
Durval? 
Durval, com a cara de quem no queria ir, respondeu: 
-Eu no quero ir, no! 
Lencio, demonstrando surpresa, perguntou: 
-Por que no, Durval? 
-Eles vo ficar com aquela ladainha para a gente ficar bonzinho e 
ir conhecer a tal da luz, que a gente nem sabe se existe mesmo!  tudo 
muito chato! No quero ir no! Mas se vocs forem, claro que vou 
junto... 
Raimundo ofereceu um charuto e bebida para os dois que aceitaram. 
Enquanto fingiam que bebiam e fumavam, Raimundo, dando uma 
forte baforada no charuto e tomando um gole de cachaa, disse: 
- Eu no quero ir! Quero mais que a Ester enlouquea e se mate, 
pois, assim, ela vir para c e eu poderei mostrar para ela o que  
sofrimento! 
Lencio, rindo muito, disse: 
- isso mesmo que tem que fazer, pois se eles convencerem a Isaura 
e ela ficar com eles? Ela, do lado deles, j viu que no vai conseguir essa 
sua vingana contra a Ester! A Isaura  fraca e tem medo dos "santos"! 
-Tem razo, assim que eles forem embora, eu vou at l! 
-Voc disse que eles esto todos l, sabe muito bem que eles no 
vo embora. Acho que se no for at l, no vai conseguir isso no! Por 
que voc no quer ir? Est com medo? 
Raimundo olhou srio para Lencio e, desconfiado, perguntou: 
-Por que toda essa vontade que eu v at l? Est do lado deles?


Persuaso 
Lencio, sem mover um msculo do rosto, tambm nervoso e 
bravo, respondeu: 
- Est louco, Raimundo? H quanto tempo me conhece? Sabe 
muito bem que sou seu amigo e s estou querendo ajud-lo! No 
vou conversar mais sobre isso! Voc  quem tem de decidir! Se quiser 
completar sua vingana, eu vou junto, mas se no quiser, para mim 
tanto faz! Quem quer se vingar  voc, no eu! 
Comeou a se levantar para ir embora. Quando estava quase em p, 
sentou-se novamente, dizendo: 
-Antes de eu ir embora, quero lhe dizer mais uma coisa. Voc no 
disse que eles esto usando a Lei de maneira errada? 
-Foi isso mesmo que fizeram! 
-Ento, sabe que pode usar essa mesma Lei a seu favor! 
-Como? 
- Pela Lei do livre-arbtrio, voc tem direito  vingana. No foi 
a Ester quem mentiu e traiu? No foi ela a culpada de tudo o que 
aconteceu? 
Antes de responder, Raimundo ficou pensando por um instante. 
Depois, disse: 
- Foi ela, sim, mas, mesmo assim, no acho bom ir at l. Sabe 
como eles trabalham, mudam sempre toda a histria. 
Isaura, que at agora permanecia calada, levantou-se e disse quase 
gritando: 
-Acho que temos que voltar sim, Raimundo! Lencio tem razo, 
podemos usar a Lei a nosso favor! Foi ela, sim, quem mentiu, traiu e 
enganou! Ns no tivemos culpa alguma! Por que precisamos continuar 
nos escondendo? Vamos, sim, mostrar a ela que chegou a nossa vez! 
Ao ouvir aquilo, Lencio disse: 
-A Lei est do seu lado, Raimundo! Voc pode chegar l e exigir 
o cumprimento dela e eles no vo poder negar! Tem outra coisa, se 
voc no for, os moradores daqui, que obedecem a voc, vo achar que 
voc est com medo... e isso no vai ser bom, podero no querer mais 
cumprir suas ordens. 
Raimundo ficou parado, pensando. Isaura, percebendo que ele no 
estava querendo ir, ainda exaltada, disse: 
299


Persuaso 
-Raimundo! O que ele est dizendo  o certo! A gente pode mesmo 
exigir isso! 
Ele pensou por mais uns instantes, depois, com um sorriso 
debochado, disse:
- ... voc tem razo! Vamos at l e no deixaremos nem que
tentem comear a ladainha! Vamos fazer Ester dormir e, assim que 
isso acontecer, a pegaremos e a traremos para c! A, poderemos fazer 
com ela o que quisermos, mostraremos o que  sofrimento e, quando 
acordar, vai estar completamente louca! Da a se matar vai ser s um 
passo e eles no podero impedir! 
Lencio levantou-se, fez Durval e Isaura levantarem-se tambm e 
comeou a danar e a rir muito com eles. Naquele momento, ningum 
poderia imaginar que ele no fizesse parte daquele grupo. Raimundo, 
admirado, gritou: 
-Lencio! Pare! Por que est danando dessa maneira? 
Lencio parou. Olhando rindo para Raimundo, respondeu: 
- Estou s imaginando a felicidade que a gente vai sentir quando 
ela estiver aqui nas nossas mos! A gente vai se divertir um bocado! 
Raimundo, influenciado por Lencio, tambm comeou a danar. 
Tomou mais um gole e deu uma longa baforada no charuto. Parou por 
um instante, pensou, pensou e disse: 
- Lencio, eles no conhecem voc, por isso, v at l, d uma 
passadinha, olha e, como quem no quer nada, volte para contar como 
esto as coisas. Se eles perceberem que est l ou perguntarem o que voc 
est fazendo? Diga que estava s passando. Saia dali e volte depressa. 
Lencio intimamente agradecia a Deus por aquele momento e, 
fazendo cara de quem no queria ir, respondeu: 
-Eu no quero ir, sabe muito bem que no gosto de ficar perto dos 
"santos" nem por um minuto. 
-Eu tambm no gosto, mas se aparecer l, eles no me deixaro 
chegar perto. Eles no sabem que voc me conhece. Basta passar rpido 
e sair! No vo desconfiar! 
Fazendo ar de contrariado, Lencio respondeu: 
- Est bem, eu vou, mas no quero ir sozinho. O Durval pode ir 
junto? 
300


Persuaso 
-Claro que sim, nessa hora no convm andar s,  sempre bom 
estar acompanhado. Quer que mais algum acompanhe voc? 
-No! S o Durval est bom. Ns vamos, mas se a gente no voltar 
logo, foi porque eles prenderam a gente. A, voc vai ter que dar um 
jeito de ir l. 
-Eles no vo prender vocs, porque sabem que no podem. No 
sei quem est l, mas qualquer um que seja no vai querer cometer o 
mesmo erro da Irene e tomar cuidado. Mesmo assim, se demorarem, 
eu irei at l. 
-Sendo assim, vou confiante. Vamos, Durval? 
Durval, tambm com cara contrariada, saiu acompanhando 
Lencio. 
Raimundo voltou a se sentar, a tomar o seu gole e a fumar o seu 
charuto. 
Lencio e Durval, j fora daquele vale tenebroso, retomaram a sua
aparncia anterior. Estavam felizes, pois haviam conseguido o seu
intento, que era o de levar Raimundo e Isaura de volta para junto de
Ester. Embora tivessem usado de artifcios, no violaram a Lei, visto
que foram Raimundo e Isaura que decidiram. 
Retornaram para junto de Vicente e dos demais que os esperavam 
ansiosos. 
Assim que entraram no quarto, perceberam que Ester ainda 
continuava dormindo, tendo ao seu lado Daniel que, enquanto 
acariciava ora seu rosto ora seus cabelos, olhava com muito amor. 
Emlia e Ernesto tambm continuavam ali, assim como Duarte e Jos. 
Vicente, ao v-los, perguntou:
-E a, Lencio? Eles viro?
Lencio sorriu e respondeu: 
-Estou quase certo que sim, se o Raimundo no mudar de idia. 
-O que aconteceu l? 
Em poucas palavras, Lencio contou e como havia feito. Vicente 
sorriu feliz, pois sabia que s a presena deles ali poderia fazer com que 
Ester, Raimundo e Isaura encontrassem o caminho do retorno. 
Lencio e Durval ficaram ali por um bom tempo. Em seguida, 
Lencio disse: 
301


Persuaso 
-Agora o Raimundo j deve estar preocupado com a nossa demora. 
Acredito que dentro em pouco ele estar aqui. Vicente, precisamos da 
ajuda de todos, pois o nosso trabalho ainda no foi concludo. Vamos 
pensar firmemente neles e pedir ajuda. 
302

 A Hora da Verdade 
Foi o que fizeram. Comearam, em pensamento, a chamar por Raimundo, 
que no tardou muito e entrou no quarto acompanhado por 
Isaura e, ignorando a presena dos outros, furioso, perguntou, gritando: 
-Lencio! Durval! Por que no voltaram? 
Lencio, demonstrando medo, respondeu: 
-Eles no deixaram! Descobriram que estvamos aqui espionando! 
Disseram que ns no poderamos sair, enquanto voc no chegasse, 
por isso chamamos por voc... 
S agora Raimundo olhou para Vicente e perguntou, raivoso? 
- Com que direito fez isso? Voc tambm no sabe que a Lei no 
pode ser violada? 
Tranqilo, Vicente respondeu: 
-Tanto sei que por isso mesmo o fiz. Queria a sua presena aqui. 
Precisava esclarecer o episdio que aconteceu com Irene. Precisava 
deixar claro que, embora ela tenha, digamos assim... esquecido a Lei, 
ela no a violou, somente quis lhe dar a oportunidade de rever os seus 
conceitos. 
- Que conceitos?! Que oportunidade?! Estou muito bem com os 
meus conceitos e no quero nem preciso modificar nada! No venha 
com essa ladainha j conhecida! Lencio! Durval! Vamos embora 
daqui! 
Sem deixar de demonstrar tranqilidade, Vicente continuou: 
- Raimundo, de acordo com a Lei, voc no  obrigado a ficar 
aqui. Poder ir embora quando quiser, mas no sei se ser bom que 
faa isso... 
-Por qu? Acredita que poder fazer com que eu aceite que essa que 
est a dormindo merece o meu perdo e o da Isaura? Quer que eu fique 
aqui para escolher entre o bem e o mal?  isso o que quer? Pois est 
perdendo o seu tempo! Estou muito bem da maneira que estou e no 
quero mudar! Tenho o direito de exercer a Lei e vou exerc-la! Nenhum 
"santo" de luz ou no vai fazer com que eu pense ao contrrio. 
-No vou tentar nem de longe convenc-lo a nada... voc  dono 
do seu destino. Desde que aconteceu aquilo com Irene, estou pensando: 
303


A Hora da Verdade 
ser que voc no est usando esse argumento porque tem medo da
verdade?
Raimundo soltou uma gargalhada estridente, depois parou,
dizendo:
- Medo da verdade? Voc no deve saber do que est falando! 
Conheo muito bem a verdade! Por isso estou aqui agora, mas no se 
preocupe, no ser por muito tempo! Lencio! Durval! Vamos embora! 
No temos mais nada para fazer aqui! 
Lencio e Durval, com aquela expresso de medo no olhar, 
permaneceram parados. Lencio, percebendo que a situao era grave, 
disse: 
-Raimundo, voc sabe que no gosto deles. Depois de esse a dizer 
que voc est com medo, no acha melhor a gente ficar, ver o que ele 
tem para dizer e provar para ele que no temos medo de nada? Se a 
gente no fizer isso, ele vai contar para todos os outros iguais a ele que 
ns e principalmente voc ficou com medo! Vai que isso se espalha l 
no vale! J pensou como vai ficar a sua autoridade? Acho que a gente 
devia ficar sim e mostrar para ele que voc no teme a verdade, porque 
sabe que ela est do seu lado! 
Raimundo, novamente, parou para pensar. Depois, olhando para 
Vicente, disse, raivoso: 
-Est bem, vou ficar com a condio de que voc no venha com 
aquela ladainha, nem tente convencer-me a perdoar! Isso eu no farei! 
Quando voc terminar de dizer tudo o que quiser, ns iremos embora! 
Voc continuar do seu lado e eu do meu! Outra coisa, se provar que 
estou errado, vou embora e no volto nunca mais. Mas, se no conseguir 
fazer isso, eu levo essa mulher hoje mesmo comigo e voc nunca mais 
tentar se aproximar dela! Est de acordo? 
Agora, quem parou para pensar foi Vicente. Olhou para Ester que 
continuava dormindo, sem imaginar o que estava acontecendo ali. Sem 
imaginar que da resposta de Vicente estava dependendo o seu futuro. 
Vicente sabia que aquele momento era perigoso, mas decisivo. Se no 
aceitasse, todo o trabalho feito at ali seria perdido. Sabia que Isaura 
e agora Raimundo se aproximariam mais de Ester e conseguiriam 
domin-la para sempre. A deciso era difcil, mas teria que ser tomada. 
304

A Hora da Verdade 
Olhando firme para Raimundo, respondeu: 
-Sim, estou de acordo. 
Raimundo olhou para Lencio e Durval sorrindo. Tinha a certeza 
de que j havia ganhado a batalha. Voltou-se novamente para Vicente. 
- Est bem, mas, por favor, seja breve! No tenho muito tempo 
para perder. Ainda hoje haver uma grande festa na caverna. No vou 
convid-lo, pois sei que no gosta de festas, s de ficar rezando... 
- Tem razo, gosto de ficar rezando, acredito que voc tambm 
deveria fazer isso de vez em quando. Quanto a festas, tambm gosto, s 
que as minhas so realmente diferentes das suas, mas agora no  hora 
de discutirmos isso, precisamos continuar aquilo que viemos fazer: 
ajudar Ester e a vocs tambm. 
-Ajudar?! S se for a ela! Mas posso adiantar que ser difcil, pois 
ela no merece perdo! Quanto a mim, no quero nem preciso de 
perdo algum! Estou muito bem! 
Vicente olhou para os pais de Ester e para Jos que acompanharam 
toda aquela conversa. Disse: 
-Meus irmos, em nossas mos esto o futuro de todos aqui, no 
s o de Ester. Vamos pedir ajuda das foras do bem. 
Imediatamente, eles entraram em orao. 
Raimundo, rindo muito, disse: 
- No adianta ficar pedindo ajuda! Nada poder ajud-los! Essa 
guerra j est vencida! 
- Raimundo, isso no se trata de uma guerra. Estamos somente 
tentando encontrar o melhor caminho para todos. Primeiro, farei com 
que Ester acorde e possa nos ver e reconhecer. Depois, faremos o que 
tem de ser feito. 
A um sinal de Raimundo, Lencio e Durval aproximaram-se dele, 
sentaram ao seu lado e de Isaura que j estava sentada no canto do 
quarto. Com ironia na voz, Raimundo disse para Vicente: 
- Vamos ficar aqui, pode comear, mas, por favor, no demore 
muito! 
Vicente estendeu a mo sobre a cabea de Ester que, imediatamente, 
abriu os olhos espirituais, pois seu corpo ainda continuava adormecido. 
Ao ver aquelas pessoas, aos poucos, foi reconhecendo-as. Disse, 
305


A Hora da Verdade 
assustada: 
-Raimundo, Isaura! Vocs no esto mortos? O que esto fazendo 
aqui? 
Antes que um deles respondesse, Vicente disse: 
-Ester, preste ateno. Estamos aqui para nos recordarmos de tudo 
o que aconteceu. 
Ela, assustada, tentou voltar ao corpo, gritando: 
-No quero me recordar de nada! Onde est o Daniel? Quero ficar 
com ele! Que lugar  este? 
-Ester, fique calma. Chegou a hora. Agora voc no vai mais poder 
se esconder atrs do esquecimento. Precisa e vai lembrar-se de tudo o 
que aconteceu. Estamos aqui, para tratar das duas principais Leis do 
Universo. 
Raimundo, ao ouvir aquilo, levantou-se e, raivoso, disse: 
-Espere a! Que outra Lei  essa de que est falando? 
- De outra Lei que precisa ser evocada aqui, da Lei do amor e do 
perdo. 
Nervoso, andando de um lado para outro, Raimundo disse: 
-No venha com essa histria de perdo e amor! S quero tratar da
Lei do livre-arbtrio! Essa  a nica que est me interessando!
-No estou falando com voc, estou falando com Ester, pois a ela 
interessa a Lei do amor e do perdo. Portanto, fique calmo, prometi e 
no vou tentar convenc-los de nada. Deixe-me falar com Ester. 
Raimundo voltou a se sentar. Vicente continuou: 
-Ester, voc se recorda do tempo em que foi filha de um fazendeiro 
muito rico e vivia na corte? 
Ester ficou olhando para um ponto qualquer. Respondeu: 
-Sim, estou me lembrando, mas no quero! No quero! 
- Mesmo no querendo, vai ser preciso. Dessas suas lembranas 
dependem o seu futuro e a sua sanidade mental. Se no fizer isso, 
perder a razo, entrar para sempre no mundo dos loucos e dificilmente 
retornar. Continue lembrando-se. 
Diante de Ester, foi como se uma nuvem densa, aos poucos, fosse 
afastando-se. Ela estava, agora, em um salo grande, iluminado. Pensou 
e disse: 
306


A Hora da Verdade 
- Est tendo uma festa. Eu estou com um vestido verde-claro e 
com um pequeno chapu tambm verde, com flores pequenas e fitas. 
Estou diante do espelho e sinto-me linda. Pelo espelho, estou vendo 
Raimundo e Isaura... eles esto abraados, sorrindo e aproximando-se. 
 a festa do casamento deles? No quero mais me lembrar! No quero 
passar por tudo aquilo novamente! No quero sofrer mais! 
Ela parou de falar, a princpio estava com os olhos arregalados, 
depois fechou-os, tentando esquecer aquela cena, mas Vicente, calmo, 
disse: 
- No adianta tentar esquecer! Agora, precisa recordar. Isso tudo 
precisa chegar ao fim, no pode mais ser adiado. 
Ela, mesmo tentando, no conseguiu afastar o pensamento. 
Continuou dizendo: 
- Era, sim, a festa do casamento deles. Dissimulei e consegui 
esconder a raiva que estava sentindo de tudo aquilo e deles. Eu e Isaura 
fomos criadas praticamente juntas, ela era minha prima, filha de uma 
irm de minha me. Sempre fomos muito amigas, quase como irms. 
Isso s terminou quando Raimundo apareceu em nossas vidas. Ele era 
filho de um fazendeiro no Nordeste, que perdeu toda a fortuna no 
jogo. Quando isso aconteceu, ele estudava medicina na Frana. Sem 
o dinheiro do pai, foi obrigado a voltar para o Brasil. Assim que o 
conhecemos, nos apaixonamos por ele. Meu pai tinha tido muito 
dinheiro, mas fez alguns negcios errados e, naquele tempo, a nossa
situao j no era como antes. Raimundo, sabendo disso, aproximou-se
de Isaura, ignorando-me, pois sabia que, casando-se com ela,
herdaria uma fortuna imensa. Aquilo me deixou muito triste, mas tive
de aceitar. Agora, ali, nesse dia, eles se casaram e minhas esperanas de 
que ele fosse s meu haviam terminado. Naquele momento, eu estava 
odiando os dois. 
Ester parou de falar. De seus olhos lgrimas caam, demonstrando 
todo dio e sofrimento que sentiu naquele dia. 
Raimundo levantou-se novamente. Ainda raivoso, disse: 
- No quero e no preciso participar de tudo isso! Eu tambm 
havia me esquecido e no tenho motivo algum para me lembrar de 
nada! Quem tem que lembrar  ela! 
307


A Hora da Verdade 
Vicente disse calmamente: 
-Raimundo, fizemos um acordo, estou cumprindo a minha parte, 
voc tem de cumprir a sua. Voc exigiu o cumprimento da Lei. Estamos 
aqui atendendo a sua exigncia. Por favor, volte a se sentar. 
Sem alternativa, ele sentou-se novamente. Vicente disse: 
-Ester, continue. 
Ela, com lgrimas, continuou: 
- Embora eu demonstrasse felicidade por aquele casamento, no 
ntimo estava furiosa. No fim da festa, que foi magnfica, e assim que 
eles se despediram, pois embarcariam em um navio para a lua-de-mel, 
retornei para minha casa. Estava triste e com muito dio. Embora 
gostasse muito da Isaura, naquele momento eu a considerava minha 
inimiga. Eles ficaram viajando por um ms. Durante esse tempo, sofri 
e chorei muito, pois para mim o mundo havia terminado. Muitas vezes 
pensei at em suicdio. Eles chegaram, porm no tive coragem de ir 
visit-los. Por volta de quinze dias aps retornarem, Isaura veio em 
minha casa. Eu, como fazia ultimamente, estava dormindo. Perguntou 
para minha me o que havia acontecido, ela no soube responder, pois 
tambm no sabia e no entendia o que estava acontecendo comigo. 
Para me confortar, Isaura disse que ofereceria um jantar em sua casa. 
Disse que era para eu ir, pois dali para frente teria que oferecer jantares 
para convidados e precisava praticar. Alm disso, queria que eu fosse 
para mostrar as compras que havia feito durante a viagem e o presente 
que havia escolhido para mim. 
Ester parou de falar e, novamente, ficou com os olhos perdidos. 
Raimundo levantou-se, continuava nervoso e parecia que, agora, muito 
mais. Disse: 
- Vou embora, no quero me lembrar de nada disso! No tenho 
que ficar aqui! 
Fazendo um sinal para os outros que o acompanhavam, gritou: 
-Vamos embora! J estou cansado de tudo isso! 
Vicente, calmo, disse: 
- Raimundo, voc no pode ir agora, fizemos um acordo. 
Esqueceu? 
Ele sabia que, quando um acordo era feito, precisava ser cumprido.
308


A Hora da Verdade
Voltou a sentar-se. Vicente, no alterando o rosto, disse:
-Continue, Ester.
Ela continuou:
- Assim que acordei, minha me transmitiu o recado de Isaura.
A princpio eu no queria aceitar, pois temia que, ao ver Raimundo,
no conseguiria mais controlar o meu desespero. Fiquei com medo de
deixar transparecer todo o amor que estava sentindo e, assim, estragar
uma amizade de tantos anos. Mas, diante da insistncia de minha
me, aceitei. Como presente de casamento, seu pai havia lhes dado
uma manso e uma carruagem. No dia em que o jantar seria realizado,
Isaura mandou que a carruagem fosse at a minha casa, pois, assim, eu
no teria desculpas. Com o corao apertado, fui para l. Assim que
cheguei, ela, feliz, comeou a contar como havia sido a viagem e a lua-de-
mel. Cada palavra fazia com que eu sofresse mais e, por conseguinte,
tambm a odiasse mais. Raimundo no estava em casa, voltaria quase na
hora do jantar. Ajudei-a a finalizar a preparao da mesa, embora fosse 
s eu a convidada. Fingimos que viriam muitas pessoas. A mesa ficou 
linda. Isaura estava feliz como nunca eu havia visto. Ela, desconhecendo 
o que estava passando por minha cabea, disse: 
- Ester! Antes que Raimundo chegue, venha ver as coisas lindas que 
comprei! Sou a mulher mais feliz do mundo e Raimundo  maravilhoso! 
-Aquelas palavras caam como facas em meu peito. Eu chegava at 
a sentir dor, mas, mesmo assim, consegui sorrir. 
Isaura, que ouvia em silncio, limpou uma lgrima que corria por 
seu rosto. Ela tambm estava lembrando-se daquele dia. Permaneceu 
calada, embora em seu corao o dio que j sentia por Ester aumentou 
mais ainda, ao se recordar com detalhes daquela noite. Raimundo 
permanecia com o rosto crispado de dio, mas sabendo que precisaria 
manter o acordo, tambm ficou calado. Ester, com a voz entrecortada 
por soluos, continuou: 
-Ele chegou, fiz um esforo enorme para cumpriment-lo. O jantar 
foi servido. Aps o jantar, passamos para uma outra sala, onde ficavam 
caf e licor. Assim que entramos na sala, Isaura disse: 
-Esqueci-me de dizer para a copeira servir um licor especial que fiz 
para esta noite, vou at l para lembr-la. 
309


A Hora da Verdade 
- Dizendo isso, levantou-se e saiu da sala. Fiquei ali sozinha com 
Raimundo. No conseguia levantar os olhos, muito menos olhar para 
ele. Ficamos em silncio por alguns minutos. Depois, ele disse: 
-Ester, por que est to abatida. Parece nervosa? 
-No soube ou no podia responder. Ele continuou: 
- Preciso fa lar com voc, mas no pode ser aqui. Vamos marcar um 
lugar para nos encontrarmos? 
- Fiquei surpresa, mas uma onda de esperana nasceu em meu 
corao. Aceitei. Ele me deu o endereo de um hotel barato que ficava 
em um bairro distante do centro. Embora meus pais fossem severos, 
eu tinha toda liberdade de ir e vir. Por isso, eu sabia que no haveria 
problema algum para encontrar-me com ele. Rapidamente, marquei o 
endereo em um papel que tinha em minha bolsa. Em seguida, Isaura 
chegou. Raimundo tomou o caf, eu e Isaura, o licor, e fui embora com 
o corao cheio de esperana. 
Isaura, ao ouvir aquilo, levantou-se, chorando e gritando: 
- Raimundo! Isso que ela est dizendo  verdade? Naquela noite, 
voc fez mesmo isso? 
Ele ia mentir, mas Vicente o interrompeu e, com voz tranqila, mas 
firme, disse: 
-Raimundo, estamos aqui decidindo o cumprimento da Lei. Uma 
exigncia feita por voc! Por isso, no adianta querer mentir ou adiar 
esta hora. No poder fazer isso! 
Raimundo sabia que ele estava certo e que no poderia mentir; no 
disse nada, apenas abaixou a cabea, confirmando assim tudo o que 
Ester estava dizendo. Ela continuou: 
-No dia, hora e local marcados, burlei a vigilncia do meu cocheiro 
dizendo que ia ficar na casa de uma amiga e que voltasse dali a trs horas, 
quando eu j deveria ter terminado a visita. Assim que ele foi embora, 
peguei uma carruagem de aluguel e fui ao encontro de Raimundo. Eu 
estava ansiosa para saber o que ele queria dizer. No sabia do que se 
tratava, mas tinha uma esperana imensa. Quando cheguei, ele j estava 
l. Menti para o porteiro do hotel, dando um nome fictcio. Assim que 
entrei no quarto, ele me disse: 
- Ester, j h muito tempo percebi o seu interesse por minha 
310


A Hora da Verdade
pessoa, senti o mesmo por voc, mas, como sabe, minha famlia est
arruinada, encontrei na Isaura a minha salvao e, sabendo que ela
estava interessada, arrisquei e deu certo. Estou casado com ela, poderei
assim continuar meus estudos, mas a quem amo verdadeiramente  voc. 
Quis ter esse encontro para lhe dizer isso. Amo-a e quero ficar com voc 
para o resto da minha vida! 
-Aquelas eram as palavras que eu mais ansiava ouvir, mas, naquele 
momento, senti medo. Disse: 
- Est certo, eu sempre o amei, mas acredito que agora  tarde! No 
poderemos nunca mais ficar juntos! Voc  agora um homem casado!
-J pensei muito! Isso no  um defeito!  apenas uma situao de
momento que a qualquer hora poder ser solucionada!
- Como? Mesmo que voc se separe dela, no poder ficar ao meu
lado, pois perder toda a herana a que porventura teria direito! No
podemos fazer nada! O nosso amor  impossvel! 
-Ele abriu os braos e eu o abracei tambm. Beijando meus olhos, 
rosto, cabelos e lbios, disse: 
- Se eu me separar, realmente no conseguiremos nada, mas se ela 
morrer, nada impedir a nossa felicidade! 
- Como morrer?! Ela  jovem, no tem doena alguma?! 
-Sei uma maneira de fazer isso, sem que ningum desconfie... 
- Fiquei atordoada, jamais havia pensado nessa possibilidade. 
Nervosa, perguntei: 
- Que maneira? 
-Se voc for visit-la trs ou quatro vezes por semana e colocar no Leite 
ou suco que ela for tomar a quantidade certa de um veneno que vou lhe 
dar, ela ir ficando fraca, mas ningum saber o porqu e, em pouco tempo, 
morrer. Tem de ser voc, pois se algum descobrir que ela foi assassinada, 
no desconfiar de voc nem de mim, pois, como sabe, quando voltei da
Frana, por ser o ltimo ano, s consegui vaga para continuar os meus
estudos em outro estado e s volto para casa uma vez por ms.
-Estremeci horrorizada e, chorando, gritei: 
-No posso fazer isso! Ser um assassinato! No existe crime perfeito! 
Algum descobrir! Alm do mais, ela  minha amiga e no quero a sua 
morte! 
311


A Hora da Verdade 
-Ele me abraou, dizendo: 
- Se fizermos da maneira que estou dizendo, ningum descobrir. 
Sei que no quer a morte dela, tambm no quero, mas essa  a nica 
soluo para podermos ficar juntos. Voc tem de ficar do meu lado. Quando 
acontecer, serei avisado, voltarei e, assim que tudo estiver consumado, 
voltarei para a faculdade por alguns meses e, quando o tempo passar, nos 
casaremos. Direi s pessoas prximas que s descobri que a amava agora.
Todos ficaro felizes e no suspeitaro de nada. Confie em mim, tudo dar
certo!
- Terminou de dizer isso e beijou-me ardentemente. Embora eu 
soubesse que tudo aquilo estava errado, o amor que sentia por ele era 
enorme, aceitei. Fizemos como ele disse. Alguns dias da semana, eu ia 
visitar a Isaura e colocava em seu suco ou leite o veneno que ele havia 
dado. Em poucos meses, ela morreu e ningum descobriu. 
Ester teve que parar de falar, sua voz ficou entrecortada por soluos 
profundos. Chorava sem parar. Isaura, ao ouvir aquilo, levantou-se e, 
furiosa, agarrou Raimundo pelos braos, gritando: 
- Raimundo! Levante a cabea! Olhe nos meus olhos e diga, por 
favor, que isso que ela est dizendo  mentira! 
Ele continuou de cabea baixa, sem coragem de encar-la. Vendo 
que aquele silncio significava uma confisso, ela, chorando, disse para 
Vicente: 
- Eu no sabia disso! Quando comecei a ficar doente, nunca 
imaginei que estivesse sendo envenenada. Ele escrevia sempre. Eu 
para no preocup-lo, nunca contei a minha situao. Sempre que ele 
voltava para casa, eu pintava os lbios e tentava esconder o que estava 
acontecendo. Em uma das vezes que veio, disse que, antes do fim do 
ano, no poderia vir mais, pois precisava estudar o tempo todo. Pediu 
que eu no ficasse brava, pois assim que se formasse, nunca mais iramos 
nos separar. Eu aceitei e fiquei feliz, pois no precisaria mais mentir 
e teria tempo de descobrir que doena era aquela e tempo para ficar 
curada. Mesmo com toda aquela fraqueza, descobri que estava grvida. 
Eu estava feliz, pois tinha esperana que a vinda daquela criana seria 
a minha salvao. Meus pais contrataram os melhores mdicos, mas 
nenhum deles conseguiu diagnosticar a minha doena. 
312


A Hora da Verdade 
Secou as lgrimas que corriam por seu rosto e, furiosa, continuou: 
-Esses dois no mataram s a mim! Mataram o meu beb tambm! 
Eu fui enganada todo esse tempo e at agora depois de morta! 
Vicente aproximou-se dela, abraou-a, dizendo, carinhoso: 
-Sei que o momento que est vivendo  triste. Voc, que sempre 
confiou cegamente em Raimundo, jamais poderia imaginar que ele 
havia sido o mentor da sua morte e da do seu beb. Mas, se no conhecia 
esta histria, por que teve sempre tanto dio s da Ester? Por que ficou 
ao lado dela durante todo o tempo e culpando somente a ela? 
-Quando acordei deste lado, estava revoltada com Deus e com tudo. 
No aceitava que ele tivesse me tirado da minha casa, do meu marido 
e que no tivesse permitido que o meu filho nascesse. Queria voltar 
para junto do Raimundo e da Ester, as pessoas que eu mais amava e em 
que confiava. Durante muito tempo, amigos disseram que no valia a 
pena, que eu precisava continuar o meu caminho e aperfeioamento 
e que o que havia ficado para trs devia ser esquecido. Mas eu estava 
irredutvel, queria estar ao lado deles. Mesmo contrariados, deram-me 
a permisso e voltei acompanhada por dois irmos. Assim que cheguei 
a minha casa, no encontrei Raimundo. Mais tarde, ele disse que estava 
viajando. Dali fui para a casa da Ester. Ela estava em seu quarto, deitada 
em sua cama. Estava chorando e dizendo baixinho: 
-Fui eu quem a matei!Fui eu!No matei s ela, mas a criana tambm! 
A Isaura era como uma irm! Mas eu amava e ainda amo Raimundo! 
- Ela chorava sem parar! O remorso e a conscincia pesada no 
lhe davam trgua. Fiquei furiosa. Novamente, os irmos que me 
acompanhava tentaram acalmar-me, levaram-me de volta para casa, 
mas eu no aceitei, dizendo que eles no poderiam me obrigar e que
eu iria ficar ali ao lado dela, atormentando-a, esperando a sua morte.
Depois, percebendo que eu no os acompanharia, desistira de tentar
me levar embora. Um deles disse:
-Se voc no quiser ir, no podemos obrig-la, s que ficar sozinha, 
no ter mais a nossa proteo e no poder ficar ao lado da Ester nem do 
Raimundo. Eles cometeram o crime, tero de pagar, precisamos deixar que 
a conscincia deles faa isso. Escolheram o caminho, no podemos interferir. 
Eles ainda tm chance de, antes de desencarnarem, arrependerem-se e 
313


A Hora da Verdade 
pedirem o seu perdo e o da criana que impediram de nascer. Caber a 
vocs dar ou no. 
- Eu estava furiosa demais para ligar Raimundo ao crime. Havia 
escutado Ester confessar, por isso, no entendi quando eles me disseram 
que Raimundo tambm era culpado. No poderia voltar para este lado 
e fazer de conta que nada houvesse acontecido. Ficaria por ali, em 
minha casa, at que pudesse ver Raimundo novamente e tentar contar 
para ele tudo o que eu havia descoberto, pois, naquele momento, era 
s o que me interessava. Algumas vezes tentei sair dali para ir encontrar 
Ester, mas no conseguia me lembrar do caminho da casa dela. Sempre 
que saa, encontrava espritos vagando que me ameaavam. Eu voltava 
depressa para a minha casa que estava vazia, pois Raimundo, antes de 
viajar, despediu os empregados. No sei quanto tempo passou. Um dia, 
eu estava ali andando de um lado para outro, quando vi Raimundo 
chegando. Percebi que ele no estava mais encarnado. Fiquei surpresa, 
corri para ele, abracei-o, perguntando: 
-Raimundo, como voc est aqui? 
- Ele tambm, ao me ver, se admirou e ficou com medo. Tentou 
fugir, mas eu o segui, dizendo: 
-Raimundo! Espere! Por que est fugindo assim? Sou eu, a Isaura! 
-Ele, tremendo muito, demonstrando o medo que estava sentindo, 
disse: 
- Voc est morta! Como pode estar aqui? 
- S a compreendi que ele ainda no sabia que havia morrido. 
Mantendo distncia, disse: 
-Meu amor, no fique assim, se est me vendo e conversando comigo, 
 porque voc tambm morreu. E eu estou feliz por isso! Agora poderemos 
continuar juntos para sempre! 
- Ele comeou a se tocar para ver se o que eu estava dizendo era 
verdade, gritou: 
- Voc  um fantasma! Eu no morri! Estava voltando para casa de 
trem! Acabei de chegar! 
-Eu no sabia o que havia acontecido com ele, s sabia que estava 
ali ao meu lado. Foi isso que eu disse. Um pouco mais calmo, ele, ainda 
inconformado, quis ir at a estao de trem para ver se havia acontecido 
314


A Hora da Verdade 
algum desastre. Eu disse: 
-No sei, mas acredito que no possamos sair daqui ou at podemos, 
s que l fora existe muito perigo. 
-Ele no acreditou, saiu, mas voltou depressa. Ao retornar da rua, 
estava com muito medo, nervoso e incrdulo. 
-No posso estar morto! Sinto o meu corpo, estou at com fome! 
-Tambm senti isso, mas sei que estou morta e voc no imagina quem
foi que provocou a minha morte!
- Hoje, entendo o porqu de ele ter estremecido e arregalado os 
olhos quando me perguntou: 
- Que est falando, Isaura? Quem matou voc? 
- Contei-lhe tudo o que havia descoberto sobre Ester. Quando 
terminei de falar, ele disse assombrado: 
- Tem certeza disso que est dizendo? Tem certeza que foi ela quem a 
matou?
- Tenho, ouvi de sua prpria boca! Ela est morrendo de remorso!
-No pode ser, ela no faria uma coisa dessas! Sempre foi sua amiga!
Por que faria isso ? 
-Foi ela, sim! Ela mesma disse, ela amava voc e queria ficar ao seu 
lado. Por isso, planejou a minha morte! 
- Deve estar louca, Isaura! Nunca desconfiei disso! Sempre a tratei 
como sua amiga, portanto, minha tambm! Nunca fiz nada que a levasse 
pensar que eu sentia algo por ela! No posso acreditar! 
-Por isso mesmo estou morrendo de dio, quero que ela sofra todos os 
males da vida e da morte! Estava esperando voc chegar para ver se, juntos, 
poderemos fazer alguma coisa contra ela. 
Ele, calado, me abraou, beijou e ficamos assim por muito tempo. 
Depois eu disse: 
- Vamos tentar ir at a casa dela? 
- A princpio ele no quis, depois, diante da minha insistncia, 
concordou. Samos para a rua, mas nenhum dos dois conseguiu 
encontrar o caminho. Alguns espritos errantes aproximaram-se. 
Raimundo no ficou com medo, comeou a conversar com eles. Por 
estarem h muito tempo vagando, estavam desesperados, sem saber o 
que fazer, procuravam suas casa, seus familiares, mas no encontravam. 
315


A Hora da Verdade 
Raimundo, por ter sempre conversado muito e bem, aos poucos foi 
tornando-se amigo de todos, que o passaram a respeitar. Percebeu que, 
com sua inteligncia, poderia fazer com que eles se tornassem seus 
escravos. Foi isso que aconteceu. Hoje, no mundo das trevas, ele pode 
se considerar um "Rei." Nunca mais soube de Ester, at que, um dia, a 
vi perambulando pelo "Vale" . Fiquei feliz ao v-la e joguei-me sobre ela 
com muita fria, mas percebi logo que ela no estava me reconhecendo. 
Perguntei o que havia acontecido, ela no soube responder. Estava sem 
memria. Raimundo aproximou-se, tirou-me do lado dela, dizendo: 
- Vamos embora, Isaura! No fique perto dela! Ela no a reconhece! 
Deixe-a entregue aos seus pensamentos e a todo o horror que existe aqui!
 o que ela merece!
-Sem mais perguntas, fui embora com ele e nunca mais quis saber
dela. Sabia que ela estava pagando por todo mal que havia nos feito.
Continuei ao lado de Raimundo, at o dia em que a encontrei jogada l 
na caatinga. Embora estivesse com outro corpo, eu a reconheci. No sei
por que foi permitido que eu ficasse ao seu lado. Mesmo sabendo que
novamente ela estava esquecida, permaneci ao seu lado, induzindo-a 
para se matar. Raimundo nunca quis me acompanhar nessas investidas, 
mas tambm nunca me impediu. 
Olhou para Raimundo com muito dio. Vicente perguntou para
Ester:
-Ester! Por que voc foi para o "Vale"?
Ester, ainda com medo, por estar ao lado de Isaura que, agora estava 
com dio de Raimundo, respondeu: 
-Assim que Isaura morreu, embora amargurada, no posso negar 
que fiquei feliz. Como fora combinado, Raimundo partiu em viagem. 
Quando voltasse da a alguns meses, comunicaramos s nossas famlias o 
desejo de nos casarmos. Eu, embora com um pouco de arrependimento, 
esperava ansiosa a sua volta. At o dia em que a me de Isaura contou 
que ela, ao morrer, estava esperando um filho e que a criana havia 
morrido tambm. No suportei. O remorso me acompanhou e quase 
enlouqueci. Via a todo instante a imagem de Isaura chorando, com 
uma criana morta em seus braos e sempre me acusando. Eu tentava 
me esquivar dela. A minha nica esperana era o retorno de Raimundo. 
316


A Hora da Verdade 
Sabia que, ao lado dele, no teria medo de nada e que seramos felizes. 
Quando recebi a notcia de que ele estava voltando e que chegaria no
trem, fui para a estao esper-lo, acompanhada pelos pais da Isaura. O
trem atrasou, no sabamos o porqu. Depois de uma hora, o chefe da 
estao avisou que o trem havia sofrido um descarrilamento e que havia 
pessoas mortas e feridas. Entramos em desespero. O pai de Isaura nos 
deixou em casa, depois foi para o lugar do acidente. Assim que chegou 
l, constatou que Raimundo estava entre os mortos. Quando eu soube 
da notcia, no resisti. O medo e o remorso aumentaram muito mais, 
por saber que estava sozinha. Em um momento de desespero, tomei 
um vidrinho cheio do mesmo remdio que Raimundo havia me dado e 
com o qual eu havia matado a Isaura. Por ter tomado uma quantidade 
muito grande, tive morte instantnea. Adormeci e quando acordei 
estava naquele lugar horrvel, tive de fugir, me esconder, tentando tirar 
do meu pensamento a imagem de Isaura com a criana. Aos poucos, fui 
esquecendo quem era. No sei por quanto tempo fiquei ali vagando sem 
destino, at que, um dia, uma moa cheia de luz se aproximou. Fiquei 
com medo, tentei me esconder, mas ela no deixou e, carinhosamente, 
disse: 
-No precisa fugir, estou aqui para ajud-la. Voc no sabe quem sou, 
no est me reconhecendo? Olhe bem...
-Olhei, mas no a reconheci. Vendo que isso acontecia, ela disse: 
- Sou a Nomia, no est me reconhecendo? Voc no se recorda da 
nossa casa, de nossos pais? 
- Vendo que eu no me recordava, ela me abraou e, junto a 
outros que estavam com ela, fui levada para um hospital. Fiquei l 
muito tempo, at que um dia fui chamada e me disseram que estava 
na hora de eu renascer. Eu no queria, ainda no havia me lembrado 
de tudo, alm do mais, ali, eu estava protegida e longe daquele vale 
tenebroso. Aos poucos, ajudaram-me a recordar de tudo. Disseram que 
eu renasceria, seria mdica e, assim, poderia ajudar a resgatar o meu 
passado. Disseram que como mdica obstetra, eu poderia ajudar muitas 
crianas a nascerem. Disseram que, Nomia, minha irm, que sempre 
me acompanhou e protegeu, tambm renasceria junto com seu esposo. 
Eles tinham seus prprios resgates, por isso nasceriam pobres em uma 
317


A Hora da Verdade 
cidade do Nordeste, que por isso, talvez nunca nos encontrssemos, 
mas se eu precisasse em uma hora de desespero, eles estariam ao meu 
lado para me ajudar. Agora sei, que a Nomia  a Jurema e que o 
marido dela  o Neco. Eles apareceram em minha vida, num momento 
de desespero. 
Raimundo permanecia calado, de cabea baixa. Isaura olhou para 
ele e, com dio na voz, disse: 
- Raimundo, como pde me enganar daquela maneira? Por que 
permitiu que eu continuasse odiando somente Ester? Ela no deixa de 
ter culpa, por ter aceitado e at ter-me dado o veneno. Mas o principal 
responsvel  voc. Se um dia o amei, hoje, o odeio! 
Vicente a interrompeu: 
-Isaura, agora no adianta ficar assim. Nada fica escondido diante 
da Lei. Raimundo errou, mas, sempre, Deus nos d o direito do 
arrependimento e do resgate. Ele no  responsvel s por si mesmo, 
mas por voc, pela criana que no nasceu e pela Ester, a quem 
induziu e, inclusive, para com aquele que fez e continua mantendo 
como seus escravos. No pense em vingana, deixe isso por conta de 
Deus e da Lei, s pense no prximo passo que poder dar em busca 
do seu aperfeioamento. Veja quanto tempo perdeu em busca de uma 
vingana. 
-Tem razo, mas no me arrependo, Ester me fez sofrer muito. O 
mnimo que merece  o meu dio e isso ela ter para sempre! Nunca a 
perdoarei! 
-Nunca  muito tempo. Por voc ter sido uma vtima, poderia ter ido 
logo para um lugar maravilhoso. Poderia ter renascido junto com Ester 
e poderiam ser irms. Com a fora do sangue, viveriam na mesma casa, 
teriam os mesmos pais. Poderia haver algumas diferenas, para ajuste, 
mas, no final, quando envelhecessem, essas diferenas desapareceriam 
e vocs ficariam amigas novamente, com o passado esquecido, cheio de 
luz, vida e aprendizado. Contudo preferiu a escurido e a vida sofrida 
no vale. Agora que j sabe tudo o que aconteceu, chegou a hora de usar 
a Lei a seu favor e escolher aquilo que julgar ser o melhor. Pode, sim, se 
quiser, continuar odiando e vivendo no Vale da escurido, como pode, 
tambm, escolher perdoar e voltar para a cidade de Luz. Para isso, s 
318


A Hora da Verdade 
precisa perdoar aos dois. L ter a oportunidade de renascer novamente 
e percorrer o caminho que a impediu de faz-lo.
Isaura ouviu Vicente com ateno, depois olhou para Ester e 
Raimundo. Disse: 
-Voc tem razo, Vicente. No quero mais continuar ao lado deles. 
Preciso recomear no bem. No vou mais sentir dio, pois acabei de 
ver que a maior prejudicada fui eu mesma. Entregarei o meu amor para 
Deus, nas mos dele colocarei o meu futuro e que seja feito de acordo 
com a Sua vontade. 
Com lgrimas nos olhos, olhou para Ester, dizendo: 
-Ester, embora eu tivesse ficado ao seu lado todo esse tempo, no 
consegui lhe induzir a nada. Tudo o que voc fez de certo ou errado 
foi por sua escolha. Neste momento, lhe perdo pelo passado. No sei 
se teremos a oportunidade de nos encontrar novamente, aqui ou na 
Terra, mas onde for, se isso acontecer, farei o possvel para ser sua amiga 
novamente. 
Ester no soube o que responder, estava cheia de vergonha, amargura 
e remorso. Isaura voltou-se para Raimundo. 
-Raimundo, o mesmo digo a voc. No sei se nos reencontraremos, 
mas se isso acontecer, da minha parte, sei que farei o possvel para 
resgatar o meu amor por voc. 
Raimundo ficou calado. Isaura, voltando-se para Vicente, 
perguntou: 
-Vicente, quando poderei ir embora? 
Vicente sorriu, abraou-a dizendo: 
- Bendito seja o nosso Deus, por nos dar sempre oportunidades 
como esta! Bendita seja essa Lei, que nos d a oportunidade de escolha! 
Isaura, voc poder ir agora mesmo. Tem um lugar maravilhoso a 
esperando. 
Assim que ele terminou de falar, uma luz muito forte entrou no 
quarto em forma de um caminho. Por ela, desceram espritos de luz, que 
estenderam os braos para Isaura. Ela os reconheceu. Eram parentes e 
amigos que vieram busc-la. Estava comeando a entrar na luz, quando 
se voltou, olhou primeiro para Raimundo que a acompanhava com 
os olhos sem sair do lugar onde estava, depois olhou para Vicente, 
319


A Hora da Verdade 
perguntando: 
-O que vai acontecer com Raimundo e com a Ester? 
Ele, sorrindo agradecido, respondeu: 
- Ester voltar para o corpo fsico e decidir o que far daqui 
para frente. Raimundo tem a oportunidade de usar a Lei a seu favor e 
escolher se quer voltar para o "Vale" ou seguir voc. De acordo com a 
Lei, s ele poder decidir. 
Ela olhou para Raimundo, no disse nada. Ele olhou primeiro para 
ela, depois para Vicente, perguntando: 
- Posso mesmo acompanh-la? Tenho mesmo esse direito, depois 
de tudo o que fiz? 
Vicente, sempre tranqilo, respondeu: 
-A Lei existe justamente para isso. Deus  um Pai amoroso, perdoa
sempre, d uma nova oportunidade, no nos obriga a nada e deixa que
decidamos a nossa vida, estando encarnados ou no. S voc poder
decidir, neste momento, o que deseja para seu futuro. Sabe que tem
outra Lei, que dever obedecer, a de causa e efeito, por ela ter de 
resgatar a todos que prejudicou, mas isso acontecer com o tempo. 
Raimundo, chorando, voltou seus olhos para Isaura. 
- Isaura, neste momento, preciso que perdoe todo mal que fiz a 
voc e ao nosso filho. Sei muito bem que, se no tiver o seu perdo, 
terei que entender, mas estou arrependido de tudo que fiz. Peo a Deus 
nosso Pai que me d uma nova chance. Prometo que farei o possvel e o
impossvel para lhe recompensar de todo mal que lhe fiz.
Olhando para Ester, continuou falando:
- Ester, tambm sei que sou responsvel por seu comportamento. 
Sei que se no fosse por minha induo, jamais teria cometido um 
crime, preciso que me perdoe. 
Antes de Ester responder, Vicente disse: 
- O momento do perdo  o mais sublime e o que mais agrada 
a Deus, mas o fato de voc a t-la induzido, no a redime do crime 
praticado. Ester sabia bem o que estava fazendo, pois desde criana, 
todos aprendem o que  certo e errado. Voc precisa e deve pedir o 
perdo a ela, mas, ela, tambm, precisa pedir perdo a Isaura, que foi a 
principal vtima. Se voc quiser, pode, sim, acompanhar Isaura. Ela lhe 
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A Hora da Verdade 
perdoou, e isso  o mais importante. Vocs tm toda a eternidade para 
se redimirem. 
Ester, chorando, disse: 
- Sei que tambm fui culpada, mas, neste momento, voc est 
tendo a oportunidade. Se quiser, v, siga o seu caminho. Que Deus o 
abenoe. 
Raimundo voltou-se novamente para Isaura, que chorando, abriu 
os braos. Ele foi at ela e juntos entraram na luz que os conduziria de 
volta para casa. 
Assim que eles desapareceram, Vicente, emocionado, disse: 
- Estou feliz por tudo ter terminado bem. Esses dois, finalmente,
encontraram o momento de reverem todo o passado e escolherem o
melhor. Deus, nosso Pai, mais uma vez mostrou como ama a todos ns
sem distino. Nesta noite, tivemos ensinamentos valiosos. Creio que 
seja necessria a presena da Irene aqui, por isso peo, meus irmos, que 
elevemos o nosso pensamento at o alto, pedindo a Deus a oportunidade 
de ela voltar e poder ao nosso lado viver este momento. 
Todos se admiraram com aquele estranho pedido, mas atendendo 
a vontade de Vicente, colocaram-se em orao. Em poucos minutos, 
Irene apareceu no quarto. Estava emocionada e feliz, pois no sabia 
o que havia acontecido desde a sua partida. Embora tivesse sido bem 
recebida, trazia em seu corao a tristeza por no ter podido concluir o 
trabalho que haviam lhe conferido, por ter esquecido, nem que tenha 
sido s por um momento, o valor e o rigor da Lei e ter tentado exercer 
o poder, que  uma falha muito grave do esprito, encarnado ou no. 
Ao v-la, Vicente, sorrindo, disse: 
-Venha, minha irm, estamos comemorando o triunfo do bem e 
da verdade. A nossa felicidade no seria completa, se voc no estivesse 
presente. 
Ela recebeu o abrao dele e dos demais. Ainda envergonhada, 
disse: 
- Tambm estou feliz, no podem imaginar o que senti, quando 
percebi que poderia ter colocado tudo a perder, pois, pelo simples 
desejo de ver meu trabalho concludo, no parei para medir meus atos 
e no refleti sobre as conseqncias que poderiam ter. Quero e preciso 
321


A Hora da Verdade 
pedir perdo a vocs e agradecer o imenso trabalho que tiveram para 
que tudo terminasse bem. Quero agradecer a Deus pelas novas chances 
que sempre nos d e pedir que Ele nos abenoe... 
-Irene, quis que viesse at aqui para lhe dizer que voc no errou 
ao tentar obrigar Isaura a ficar aqui. Voc errou, quando aceitou a 
acusao do Raimundo. Nesse momento voc se culpou e se condenou, 
pois a nica maneira que voc tinha para traz-lo at aqui era esta, fazer 
com que ele viesse em socorro da Isaura. Por tudo o que aconteceu, 
ele, julgando estar com a razo e longe de qualquer suspeita, voltou 
novamente e teve de aceitar a verdade. Portanto, minha irm, seu nico 
erro foi ter aceitado a acusao e ter se condenado. Que isso nos sirva 
de lio para que possamos estar sempre alerta para no cairmos nos 
mesmos erros. No importa o grau de evoluo em que estejamos, 
sempre estaremos sujeitos a outras situaes como esta e a nossa autoavaliao 
e, essa,  a mais perigosa. Neste caso, o final terminou bem, 
mas poderia no ter terminado. Agora, o nosso trabalho com Isaura e 
Raimundo terminou. S nos falta terminar com Ester. Antes, faremos 
todos uma orao de agradecimento. 
Todos, contritos, agradeceram a Deus a oportunidade de conclurem 
bem mais um trabalho. 
322

 Fuga Inesperada 
Jos acompanhou tudo o que se passou. Com lgrima nos olhos, e 
agradecendo a Deus, viu Isaura e Raimundo indo embora na luz. Vicente, 
enquanto falava, tambm olhava para ele e sorria: 
-Obrigado, meu irmo, por estar aqui nesta noite. A sua presena 
foi importante, assim como as demais. Vocs, encarnados, nos deram 
a energia que precisvamos para podermos conversar com Raimundo, 
Isaura e a Ester. Sei que a sua vida terrestre no  fcil, mas que, mesmo 
assim, voc nunca perdeu a f e continua ajudando a todos que o 
procuram. Fique certo, meu irmo, que Deus est abenoando-o em 
todos os momentos. 
Jos estava muito emocionado, tanto que no conseguiu dizer nada. 
Daniel, que continuava ao lado de Ester, vendo Jos chorando, Ernesto, 
Emlia e Duarte de olhos fechados, rezando, disse, nervoso e ansioso: 
-Ernesto! Estamos aqui h muito tempo, vamos ficar s rezando? 
Precisamos ajudar Ester! Esse sono dela no est me parecendo 
normal! 
Jos voltou os olhos para ele e disse: 
-Estivemos trabalhando todo esse tempo. Agora, ela ficar bem. 
-Como trabalhando? S estivemos aqui rezando! 
Jos olhou para Vicente que lhe sorria e, tambm sorrindo, disse: . 
-Era s esse o nosso trabalho. 
Em seguida, Vicente se voltou para Ester, dizendo: 
-Agora chegou a sua hora, voc tambm precisa enfrentar o seu 
passado e o presente para que possa ter um futuro feliz. No adianta 
mais ficar escondendo-se atrs do esquecimento. Voc s voc, poder 
decidir o que fazer com a sua vida. Sei que o seu esquecimento no 
foi proposital, mas fruto do seu esprito que, covardemente, tentou 
se proteger no esquecimento, mas, agora, no poder mais continuar 
assim. A Isaura e o Raimundo seguiram o caminho deles, o mesmo 
precisa acontecer com voc. Por isso,  necessrio que acorde e aos 
poucos se lembrar de tudo. A, s a, escolher o que fazer e como agir. 
Assim que acordar no corpo fsico, somente se lembrar que teve um 
sonho, tudo estar confuso. O que posso fazer  ajud-la a se lembrar 
323


Fuga Inesperada 
daquela noite em que desapareceu e foi encontrada por Neco. Agora, 
volte para o seu corpo. 
- No quero mais voltar! Quero seguir com vocs! Estou muito 
bem! 
- Sei disso, mas ainda no chegou a sua hora. Voc ainda no 
cumpriu o prazo, nem aquilo a que se props quando renasceu. Confie 
em Deus, saiba que ele sempre esteve e estar ao seu lado. 
Ester, sem alternativa, lentamente voltou para seu corpo. Assim 
que se encaixou novamente, comeou a sonhar. Viu-se rodeada por 
dois homens que a espancavam, ela chorava e pedia ajuda. Mas eles 
continuaram, ela, em seu desespero, gritou: 
- Socorro! No faam isso! Ernesto! Ernesto, meu irmo, me 
ajude! 
Dizendo essas palavras acordou desesperada, amedrontada, sentouse 
na cama. Ainda gritava: 
-Ernesto! Socorro! Eles vo me matar! 
Assim que perceberam que ela havia acordado, Ernesto, Emlia e 
Duarte, que estavam em volta da cama, aproximaram-se da cabeceira. 
Daniel que estava ao lado dela, abraou-a, dizendo: 
-Fique calma, meu amor! Estou aqui e ningum mais vai lhe fazer 
mal!
Ela olhou primeiro para ele, depois para Ernesto e disse, chorando: 
-Ernesto!  voc mesmo? Chamei tanto por voc, naquela noite! 
Ele comeou a chorar sem conseguir dizer uma palavra. Daniel, 
percebendo que ela o havia reconhecido, afastou-se. Ernesto se abraou 
 irm e, chorando, disse: 
-Ester, voc me reconheceu? Voc voltou? 
Ela ,abraando-o e beijando-o no rosto, respondeu: 
-Sim! Eu estou reconhecendo voc!  o meu irmo muito querido! 
Quanto o chamei naquela noite! 
- Fiquei como um louco procurando por voc! Mas isso agora no 
importa. O importante  que esteja aqui, de volta para nossa casa e para 
todos ns. Olhe para os outros, veja se os reconhece tambm. 
Ester afastou-se dele, olhou para os outros que a olhavam ansiosos 
para ver sua reao. O primeiro que viu foi Daniel, que tentava controlar 
324


Fuga Inesperada 
a emoo e as lgrimas. 
-Daniel, meu amor! Estou me recordando de tudo! 
Ele abraou-a e no podendo mais se conter, chorando, disse: 
-No importa se voc se lembre ou no! Fiquei com tanto medo 
que voc perdesse a razo para sempre ou no acordasse mais... 
-Estou aqui, e agora reconhecendo as pessoas, acredito que tambm 
conseguirei me lembrar de tudo que aconteceu naquela noite. 
Em seguida, ela se afastou de seus braos e olhou um a um. 
- Emlia, querida! Duarte! Estou reconhecendo, sim! S no 
reconheo esse senhor... 
Emlia, emocionada, disse: 
-Seja bem-vinda, minha filha! Voc no o reconhece, porque no 
o conheceu, mas  um grande amigo nosso e est aqui s para nos 
ajudar. 
-Duarte, meu amigo! Acho que precisei dos seus servios! Eu, que 
sempre o critiquei por ter escolhido ser psiquiatra! Hoje, agradeo a 
Deus por ter feito essa escolha. 
Duarte sorriu e disse: 
-Agora, se j est bem, poderemos conversar. Vamos ver se consegue 
se lembrar de tudo. 
Emlia, fingindo estar brava, disse: 
-Nada disso! Vocs todos vo sair deste quarto, ela vai tomar um 
banho, trocar de roupa e jantar. Alis, todos precisamos jantar. O dia 
foi muito tenso, merecemos um momento de paz. 
Ernesto conduziu Daniel, Duarte e Jos para fora do quarto, 
dizendo: 
-Emlia tem razo! Vamos relaxar e jantar. Depois, teremos muito 
tempo para conversar. 
Saram do quarto. Assim que ficaram a ss, Emlia abraou 
novamente Ester. 
- Que bom, minha menina, que voc est de volta. Louvado seja 
Deus! 
-Tambm estou feliz, mas voc tem razo, preciso urgente de um 
banho! Parece que faz dias que no tomo banho! 
-Pode entrar no banheiro, vou escolher o vestido mais bonito que 
325


Fuga Inesperada 
voc tem para esta noite, pois ela  muito especial. 
Ester sorriu. Estava feliz por se lembrar daquelas pessoas que faziam 
parte da sua vida e que havia esquecido. Entrou no banheiro, ligou 
o chuveiro. Enquanto a gua caa por seu corpo, tentou se lembrar 
do que havia acontecido naquela noite em que desapareceu, mas no 
conseguiu. Depois, afastou aquele pensamento. Estava feliz demais 
para estragar tudo com pensamentos maus. 
Leonora, que a todo momento passava pela porta do quarto tentando 
ouvir alguma coisa, percebeu que eles estavam saindo. Correu para a 
cozinha e fingiu estar tomando gua. Enquanto Ester tomava banho, 
Emlia foi para junto deles e disse: 
-Acho melhor vocs ficarem no escritrio, vou at a cozinha ver 
como est o jantar. Eu mesma terei de servir, pois mandei a Leonora e 
a Genilda irem dormir. 
-Assim que entrou na cozinha, viu Leonora que estava entrando da 
rea de servio. Surpresa, perguntou: 
-Leonora! Voc no foi se deitar? 
- Eu fui, mas fiquei com sede, vim beber gua e aproveitei para 
colocar minhas roupas na mquina. Tambm pensei que a senhora 
talvez precisasse da minha ajuda para servir o jantar. Quer que eu faa 
isso?
-Eu no ia cham-la, mas j que est aqui, faa isso, por favor. 
Emlia ia saindo da cozinha. Leonora perguntou: 
-Dona Emlia! A dona Ester est bem? 
-Est sim! Ela at reconheceu a ns todos! 
Leonora, estremecendo, perguntou: 
-De todos? De tudo que aconteceu com ela tambm? 
- Isso ainda no, mas acho que ser s uma questo de tempo. 
Parece que ela vai ficar boa e tudo voltar a ser normal nesta casa. 
Quando terminar de preparar o jantar, nos chame no escritrio. 
Dizendo isso, saiu. Leonora estava nervosa aflita, precisava contar 
para Vanda, s que no poderia ser naquele momento. Pensou: Vou 
telefonar enquanto eles estiverem jantando. 
Colocou a comida para aquecer. Assim que tudo ficou pronto, foi 
at o escritrio e disse atravs da porta: 
326


Fuga Inesperada 
-Dona Emlia! O jantar est servido. 
-Obrigada, Leonora. Se quiser pode se deitar. Vou at ao quarto da 
Ester ver se ela est pronta. 
-No, vou esperar terminarem o jantar para retirar a mesa. 
-Eu mesma posso fazer isso. 
-No se preocupe, no estou com sono. 
Retirou-se. Emlia e os outros foram para a sala de jantar. Jos quis 
ir embora, mas Ernesto no permitiu. 
-Nem pensar! O senhor est aqui at esta hora, no seria justo ir 
embora sem se alimentar. 
-Agradeo, mas preciso ir embora, tenho meu trabalho na clnica. 
Meu turno s terminar s seis horas da manh. 
-Duarte comeou a rir. 
-Sei que voc  um timo funcionrio, no precisa provar. Embora 
no esteja fazendo o seu trabalho na clnica, nos prestou um trabalho 
impagvel. Portanto, pode comer sossegado, tem mais, hoje no precisa 
voltar para clnica. Eu o levarei para casa. 
Jos, ofendido, disse: 
-Nem pensar, doutor! Posso, sim, jantar, pois devo confessar que 
estou com fome, mas o meu trabalho na clnica no tem nada a ver com 
o que fiz aqui hoje. S ficarei se o senhor prometer que me levar de 
volta para a clnica. 
-Se preferir assim, est bem, levarei voc para a clnica. 
Continuaram no escritrio. Leonora, assim que viu Emlia subindo 
a escada em direo ao quarto de Ester, correu para o corredor. Discou 
o nmero de Vanda que a atendeu prontamente: 
-Al! Leonora? 
-Sou eu mesma, parece que as coisas vo se complicar! 
-Por que est dizendo isso? 
- Todos saram do quarto e a dona Emlia me disse que a dona 
Ester reconheceu todos! 
- Meu Deus! Ela se lembrou de tudo o que aconteceu naquela 
noite? 
-A dona Emlia disse que no, mas que tudo agora  s uma questo 
de tempo! Dona Vanda! O que a gente vai fazer? 
327


Fuga Inesperada 
Vanda tambm ficou nervosa com aquela informao. Respondeu, 
procurando manter a calma. 
- Leonora, preste ateno, fique calma. Voc sabe muito bem que 
eu preferia que isso no estivesse acontecendo, mas, se precisar, eu irei 
at a. 
-A senhora sabe que a corda sempre quebra do lado mais fraco, 
nessa histria, o lado mais fraco sou eu! 
- No se preocupe, eu assumirei toda a responsabilidade. Fique 
calma. 
Embora quisesse ficar calma, Leonora no conseguia. De onde 
estava falando, pde ver Ester que saa escondida pelo corredor que a 
levaria at o porto da casa ou at a garagem. No entendeu o que ela 
estava fazendo. Disse para Vanda: 
- Dona Vanda! A dona Ester est saindo pela alameda! Acho que 
ela est fugindo! 
-Como fugindo! Por que ela faria isso? 
-No sei, mas ela est andando bem depressa e olhando para todos 
os lados. Parece que est indo para a garagem! Isso mesmo! Ela entrou 
no carro que era dela e est saindo com o motor desligado para no 
fazer barulho! Acho que ela est fugindo mesmo! Espere, ela parou o 
carro, desceu e est saindo andando. 
-Ser que ela se lembrou de tudo? 
-No sei, mas para estar fazendo isso deve ter se lembrado! O que 
fao? 
-Deixe-a ir. Assim que descobrirem, com certeza, telefonaro para 
o Incio e iremos at a. Fique calma! 
-No consigo ficar calma! Estou com muito medo! 
- Agora no adianta ficar assim! Sinto que chegou a hora de 
esclarecermos tudo! Fique por a e preste ateno em tudo. Qualquer 
coisa que acontecer, telefone. O Incio est no quarto lendo. E, quando 
est lendo, desliga o telefone para no ser incomodado. Eu disse a ele 
que iria ficar aqui na sala de televiso, pois queria assistir a um filme. 
Daqui onde estou ele no ouve o telefone. Estarei esperando a sua 
ligao. 
-Est bem, vou ficar prestando ateno. 
328


Fuga Inesperada 
Tremendo muito e apavorada, Leonora desligou o telefone. 
Emlia foi at o quarto de Ester, entrou, viu que ela no estava na 
cama, foi at o banheiro, tambm no estava l. Voltou depressa para o 
escritrio. Entrou e, nervosa, disse: 
-A Ester no est no quarto! 
Todos se levantaram ao mesmo tempo. Daniel gritou, assustado: 
-Como no est?! Ns a deixamos l arrumando-se para o jantar! 
-No sei, fui at l e no a encontrei! 
Ernesto, tambm nervoso, perguntou: 
-Tem certeza de que ela no est mesmo? Olhou bem? 
-No est no quarto, nem no banheiro! 
Daniel passou por Emlia, subiu a escada correndo, no que foi 
seguido pelos outros. Assim que chegaram ao quarto, ele viu sobre a 
cama um bilhete. Leu em voz alta o que estava escrito: 
Meus queridos: 
Quando cheguei ao quarto, depois de ter tomado banho, vi sobre a 
cama um vestido azul quase igual quele que usei naquela noite. Recordeime 
de tudo o que se passou. Fiquei assustada, pois nunca imaginei que teria
sido daquela maneira. Hoje, sei quem fui e quem sou, por isso, no posso
mais permanecer aqui nesta casa. Estou indo embora, por favor, no me
procurem, preciso encontrar o meu caminho. Um dia talvez eu volte. 
Ester. 
Com o papel nas mos, Daniel olhou incrdulo para os outros 
que, assim como ele, no estavam conseguindo entender o que havia 
acontecido. Ernesto, desesperado, comeou a chorar. 
-No suportarei passar por tudo aquilo novamente! Por que ela foi 
embora?! No entendo! Se ela se recordou, era mais um motivo para ter 
ficado e esclarecido tudo! 
Daniel, muito nervoso, disse: 
-Talvez tenha sido esse o motivo! Ao se recordar, descobriu que o 
seu inimigo est aqui nesta casa! Fugiu por medo! O que vamos fazer? 
Ernesto, tambm nervoso, respondeu: 
329


Fuga Inesperada 
- No sei! Talvez devssemos chamar a polcia! No sei o que 
fazer! 
Duarte, mais calmo, disse: 
-Esperem, se ela recordou o passado, se est assustada, precisamos 
deixar que se acalme e reflita e, assim que sentir-se segura, nos 
comunicar onde est. O que no podemos  nos desesperar. Se de um 
lado  ruim ela ter sumido, por outro  bom, pois  sinal que j sabe 
quem  e o que aconteceu naquela noite. Ela deve estar bem. Vamos 
nos acalmar. 
Daniel estava desesperado. 
- Como nos acalmar, Duarte? Ser que no percebeu que ela 
desapareceu?! No sabemos onde est! Quem nos garante que ela est 
bem?! 
- Para ela ter sado e deixado um bilhete,  sinal que sabia bem o 
que estava fazendo. S precisamos esperar. Sei que ela est bem, pois 
trato de doenas mentais h muito tempo. Sei quais so as reaes. E ela 
est tendo uma reao tpica. Ela est bem, no se preocupem, dentro 
de alguns dias teremos notcias. Se ela descobriu quem  o seu inimigo, 
se comunicar com aquele que sabe no ser. Vamos nos acalmar. 
Daniel, aflito, perguntou: 
-Ernesto, ela tinha dinheiro? 
-Sim, dei a ela algum para que comprasse algo para si ou para uma 
emergncia. 
-Deu muito? Daria para ela viajar? 
- Sim, com certeza! Mas como poderia viajar? Est sem 
documentos! 
-Poderia, sim, de nibus! 
-Daniel, voc est certo, mas para onde iria? 
- S existe um lugar no mundo em que ela se sente protegida!
Carim!  isso mesmo, amanh mesmo partirei para l!
-Se ela for de nibus, vai demorar muito para chegar! 
-Por isso mesmo, de avio chegarei primeiro e estarei l esperando, 
sei que se eu estiver com o Neco e a Jurema, ela, sentindo-se protegida, 
nos contar tudo! 
Ernesto e Emlia estavam desvairados. Emlia disse: 
330


Fuga Inesperada 
-Acho que tem razo, Daniel, mas quero ir com voc! 
-No, dona Emlia! Irei sozinho! Para ela ter fugido dessa maneira,
 sinal que sabe quem quis ou quer mat-la! No sei quem , por isso,
no posso confiar em ningum! Vou sozinho e prometo telefonar e lhes 
contar tudo e, se possvel, fazer com que ela retorne! 
Ernesto ficou furioso. 
-Est dizendo que nem eu posso ir? Est louco! Ela  minha irm, 
jamais lhe faria mal! Vou com voc! Quer queira ou no! 
Duarte os interrompeu: 
- Esperem a, parem por um instante. Vocs esto todos alterados 
e isso no leva a nada. Vamos pensar com calma, se ela estiver indo 
para Carim, Daniel tem razo. Ela est com medo. Ele tambm tem 
razo, quando diz que no confia em ningum desta casa, portanto, 
acredito que deva ir sozinho. Ele sabe o quanto estamos preocupados e 
nos dar notcias. Enquanto ele for para l, ficaremos procurando por 
aqui. Daniel, assim que chegar e encontr-la, por favor, nos telefone. 
Quando achar conveniente, avise-nos e iremos todos. 
Em seguida, olhou para Jos que, durante todo o tempo em que 
estiveram discutindo, no disse nada, apenas manteve o olhar perdido 
no espao, como se estivesse falando com algum. Percebendo isso, 
Duarte perguntou: 
-Jos, est falando com algum? 
Jos voltou-se para ele, respondendo: 
-Estou, sim, esto me dando instrues. Disseram para que todos 
nos acalmemos, pois est tudo bem. Ela no corre perigo algum. Esto 
dizendo, tambm, que ela foi em busca da sua verdade e que no 
devemos interferir, pois tudo ficar bem. 
Daniel estava nervoso, disse quase gritando: 
- Como est bem? Quem est lhe dizendo isso! O alm? Um 
fantasma?! Agora no  mais hora dessas coisas! Temos que voltar para 
a Terra, para a realidade! Estou cansado de ouvir falar de espritos! Isso 
 loucura! O senhor est aceitando e dizendo isso, porque no conhece 
a Ester! Para o senhor, ela  uma estranha, no lhe importa o que possa 
lhe acontecer, mas ela  a mulher que eu amo! Estou preocupado, sim! 
No quero mais ouvir falar sobre isso! 
331


Fuga Inesperada 
Duarte, ao ouvir aquilo, disse, srio: 
-Daniel, sei que, assim como todos ns, est nervoso e assustado, 
mas isso no lhe d o direito de ofender as pessoas! Jos s est nesta 
casa porque eu convidei, por favor, o respeite! Quanto  crena, seja ela 
qual for, deve ser respeitada. 
Daniel, envergonhado, olhou para Jos e disse: 
- Desculpe, mas realmente estou nervoso. Bem, estamos aqui 
perdendo tempo, vou agora mesmo ligar para o aeroporto e ver a que 
horas parte o primeiro avio para Salvador. Queria que no fosse noite, 
assim eu poderia ir agora mesmo! 
Jos no disse nada, apenas sorriu. Olhou para Vicente que tambm 
lhe sorria e que disse: 
-Meu irmo, no se ofenda, se ele no reagisse assim, diante de uma 
situao como esta, no seria um ser humano. Mas no se preocupe, 
tudo est caminhando como deveria ser. O nosso trabalho est quase 
terminando e voc foi parte importante. Agora, a sua presena aqui 
no  mais necessria, pode voltar aos seus afazeres, confie sempre no 
Pai infinito, mesmo quando as dificuldades na vida aparecerem. Nesta 
encarnao, est dando um passo importante rumo  perfeio. 
Jos, num sinal de agradecimento, abaixou a cabea. Depois, 
levantou-a, dizendo: 
- Doutor Duarte. A minha presena aqui no  mais necessria. 
Preciso voltar para a clnica, o meu trabalho me espera. 
Duarte, um pouco desconcertado, disse: 
-Est bem, vou lev-lo. 
-No  necessrio, doutor, a sua presena aqui  mais importante. 
Vou de nibus. 
- Nada disso! Vou lev-lo e aproveitaremos para conversar. Nada 
mais poderemos fazer por hoje. Amanh, ser outro dia e ele s a Deus 
pertence. 
Despediram-se de todos e saram. Naquela noite, ningum jantou. 
Estavam nervosos demais para isso. 
332

Lio de Abnegao 
Ester estava dentro de um nibus com destino a Carim. Chorava 
muito. Seu corao batia descompassado. No podia se conformar com 
o que havia lembrado. Pensava: desejei tanto me lembrar do meu passado e, 
agora, desejaria que nunca isso tivesse acontecido. No sei o que fazer... preciso 
contar tudo para a Jurema e o Neco, eles diro que caminho devo seguir... 
O nibus corria por aquela estrada desconhecida para ela. Sabia que 
a viagem seria longa, tirou algumas notas da bolsa e contou o dinheiro: 
no  muito, preciso economizar durante a viagem. 
Em seguida, lembrou-se do momento em que viu um vestido azul 
sobre a cama. Emlia o havia escolhido, pois gostava muito dela e 
queria que ela estivesse linda naquela noite. Lembrou-se do que disse, 
enquanto estava no banho: 
-Ester, escolhi o vestido que vai usar nesta noite. Recordou-se de quase 
tudo. Sei que em breve se lembrar de todo o seu passado, por isso, quero 
que esteja linda. Vou descer, ver como os rapazes esto. Assim que terminar, 
v nos encontrar. 
-Eu estava toda ensaboada, tambm feliz por ter me recordado da 
minha famlia. Emlia saiu, terminei de me banhar, fui para o quarto 
e sobre a cama vi aquele vestido azul, no era o que eu havia usado 
em Salvador, mas a cor era a mesma. Por alguns minutos, olhei para 
ele. Senti como uma vertigem e em meu pensamento me vi sendo 
surrada por dois desconhecidos, que enquanto faziam isso, riam muito 
e diziam: 
-A madame vai ver quanto custa se meter na vida dos outros! Est 
tendo o que merece! 
Fiquei desesperada, pedindo para que no me machucassem. Dizia 
que tudo aquilo devia ser um engano, mas eles pareciam no me ouvir e 
continuaram batendo. Um deles, com a coronha de um revlver, bateu 
em minha cabea e eu desmaiei. Enquanto aquelas cenas passavam por 
minha cabea, fui me recordando de tudo. Agora que sei, no posso 
mais permanecer naquela casa! Preciso contar para algum e esse algum
vai ser a Jurema!
O nibus corria. J era noite e havia muitas estrelas no cu. A lua
333


Lio de Abnegao
cheia brilhava em sua totalidade. A medida que a estrada passava rpido
por ela, seu pensamento tambm ia longe e voltava ao passado, no
tempo em que viveu com Jurema e com Neco e que era apenas Cida.
Lembrou-se de Daniel, que havia amado, mesmo sem saber quem ela
era, mas aquele amor, agora, era impossvel, jamais poderiam ficar 
juntos. Seu corao se apertou ainda mais. Em determinado momento, 
pensou: 
No posso ir para Cariml Daniel, com certeza, ir me procurar ali, 
sabe que no tenho outro lugar seguro para ir. No terei mais paz, talvez 
fosse melhor eu morrer, s assim tudo terminaria. No sei o que fazer. 
Enquanto ela viajava, Daniel telefonou para o aeroporto e marcou 
sua passagem para a manh seguinte. Ernesto e Emlia estavam 
inconformados. Leonora andava de um lugar para outro, querendo 
descobrir o que estava acontecendo. Temia por perder o seu emprego, 
havia sido envolvida em toda aquela situao e no conseguia imaginar 
o que lhe aconteceria quando tudo fosse esclarecido. Viu quando 
Duarte saiu, acompanhado por aquele homem desconhecido. Curiosa, 
entrou no escritrio, perguntando: 
-Dona Emlia, o doutor Duarte saiu, ele no vai jantar? 
- No, e acredito que eu e o Ernesto tambm no - olhou para 
Ernesto que confirmou com a cabea e continuou: -pode retirar a mesa, 
eu e o Ernesto ficaremos conversando mais um pouco. Se sentirmos 
fome, eu mesma prepararei qualquer coisa. Pode se recolher. 
Leonora, sem alternativa, retirou-se, foi para seu quarto. Embora 
deitada, no conseguia dormir. Assim como Ester, tambm se lembrava 
de como tudo havia acontecido: ser que ela se lembrou de tudo mesmo? 
Acho que no vou esperar para saber, amanh mesmo vou fa lar com a 
dona Vanda, pedir dinheiro para ela e arrumar um lugar para ficar, at 
encontrar outro trabalho. No posso ficar aqui. 
Rolou por mais um tempo na cama, at que adormeceu. 
Enquanto isso, Duarte levava Jos para a clnica e conversavam.
Duarte perguntou:
- O que aconteceu no plano espiritual, enquanto a Ester dormia?
- Como sabe que aconteceu alguma coisa?
- No sou vidente, mas pude perceber que, por um bom tempo,
334


Lio de Abnegao
voc ficou distante, alheio ao que se passava ali. Percebi que a sua
ateno estava voltada para um outro lugar que no era aquele quarto.
- Realmente aconteceu, mas foi no quarto mesmo. Presenciei a
salvao e o encaminhamento de dois irmos que estavam perdidos.
Eles foram embora, por isso sei que aquela moa vai ficar bem.
-Sei que se est dizendo  verdade! Sei, tambm, que isso acontece
com voc, mas como comeou?
-Quando eu era criana, via e conversava com espritos de adultos,
mas muito mais com crianas. Eu era muito pobre, mas mesmo assim
me divertia muito com eles. A medida que fui crescendo, comecei a ter
medo daquilo que estava vendo. Meus pais nasceram e foram criados
em uma religio protestante, quando lhes contei o que via, eles se 
assustaram e disseram ser o diabo que estava me tentando. Tambm 
fiquei com medo e cada vez que um esprito se aproximava, eu fingia 
no ver, ficava apavorado e chegava at a desmaiar de tanto medo. 
Eles se afastaram e fiquei um bom tempo sem notar a presena deles. 
Quando, j adulto e casado, meu primeiro filho, com apenas seis meses 
de idade, ficou muito doente, os mdicos tinham nos tirado todas as 
esperanas. Eu e minha mulher estvamos desesperados. Fui para a 
igreja que freqentava, conversei com o pastor, ele disse que aquele 
era um momento em que eu devia ter muita f e implorar a Jesus pela 
sade do meu filho. Foi o que eu fiz, ali mesmo na igreja, me ajoelhei e 
pedi com todo o meu corao para que Jesus me atendesse e no levasse 
o meu filho. Depois de orar muito, levantei os olhos e vi diante de mim 
um homem que me sorria envolvido em muita luz. Julguei ser Jesus. 
Disse, chorando: 
- Meu Jesus! O Senhor atendeu ao meu pedido? Veio salvar o meu
filho?
-O homem sorriu:
-No sou Jesus, estou muito distante da sua perfeio. Sou apenas um
servo dele, fui enviado para ajud-lo neste momento acalm-lo, seu filho
ficar bom, ele veio para a Terra com uma misso e ter toda ajuda para
cumpri-la.
-Eu tremia diante de tanta luz, meu corao batia forte. O homem
continuou: 
335


Lio de Abnegao
- Voc tambm veio com uma misso mas est afastando-se dela.
Chegou a hora de receb-la com carinho. 
-Quase sem voz, perguntei: 
- Que misso  essa? 
- Com o tempo lhe direi e ensinarei o que tem de fazer. Por enquanto, 
preocupe-se apenas com o seu filho, dentro de trs dias, ele ter alta e poder 
sair do hospital. Depois retornarei, e, por favor, no fique com medo, se no 
terei de me afastar novamente. 
- Dizendo isso, desapareceu. O pastor percebeu que eu estava 
falando com algum, curioso, aproximou-se: 
-Irmo Jos! Com quem estava falando! 
- Eu sabia que ele no entenderia o que eu mesmo no entendia, 
respondi: 
-Com Jesus, pastor... com Jesus! Ele disse que o meu filho vai ficar bom 
dentro de trs dias. 
- O pastor ajoelhou-se e comeou a dar glrias a Deus. Eu o 
acompanhei com lgrimas. Realmente, em trs dias, levei meu filho 
para casa. Nunca mais ele ficou doente, hoje ele est com nove anos,  
um menino forte e muito esperto. Na noite daquele dia em que levei 
meu filho para casa, eu estava dormindo quando acordei e olhei para a 
porta do meu quarto. O homem estava ali, fez um sinal com a mo para 
que eu levantasse e o acompanhasse. Fiz isso, me levantei e, fazendo o 
menor rudo possvel para no acordar a minha esposa, fui com ele at 
a cozinha. L, peguei um pouco de caf. Ele, sorrindo, disse:
- Bem, cumpri a minha palavra, seu filho est curado. Agora, voc 
precisa aceitar a sua misso. 
- Fiquei assustado, lembrei-me dos meus pais dizendo que era o 
diabo me tentando, disse: 
-Estou com medo! Sei que voc  o diabo me tentando! 
Ele riu gostosamente. 
-Acha que eu tenho cara de diabo? Onde est o meu chifre e rabo? 
- O diabo pode se disfarar de muitas maneiras! 
-Se existe o diabo, deve tambm existir um anjo, no ? 
-Sim! O Senhor tem muitos anjos que o ajudam! 
-Pois bem, no sou o diabo nem um anjo. Meu nome  Laerte, sou 
336


Lio de Abnegao 
apenas um esprito caminhando para a luz. Somos amigos de longa data.
J vivemos muitas vidas juntos. Quando voc renasceu aqui na Terra, eu
o acompanhei e acompanharei at a sua morte fsica. Ambos precisamos
cumprir a misso que prometemos.
-Aquilo que ele falava, para mim, era grego, no estava entendendo 
nada, mas ele continuou: 
- Sei que est difcil de entender, mas, com o tempo, ver que no
 to complicado assim. Sei que foi criado em uma religio, onde tudo
o que acontece  coisa do diabo, mas ver que isso no  verdade, ver
tambm que, para Deus, no existe religio, apenas Seus filhos, que Ele
quer perfeitos.
- Daquele dia em diante, ele foi me ensinando tudo sobre a vida
espiritual. Quando julgou que eu j sabia o suficiente, disse: 
-Agora que voc j se convenceu de que a vida ps-morte existe, que 
o esprito no morre nunca, que ele  eterno e que precisa evoluir sempre, 
nossa misso  trabalharmos juntos para ajudar nossos irmos, sejam eles 
de que religio forem. Precisamos ajudar os encarnados para que possam 
bem cumprir o seu tempo aqui na Terra, mas, muito mais, ajudaremos os 
desencarnados que se encontram perdidos, vagando. Para estes, sim, a nossa 
ajuda  necessria. 
- Como poderei ajudar? 
-Alguns de nossos irmos desencarnados, se encontram com uma energia 
muito baixa, diremos quase animal, a mesma energia do encarnado. Para 
que possamos chegar at eles, precisamos dessa energia que, se doada com 
amor, nos facilitar muito o trabalho. Voc tem essa energia e a vontade de 
ajudar, o resto deixe por nossa conta. 
- Quando comearei esse trabalho? 
- Sei que voc est desempregado, por isso est tendo dificuldades 
financeiras. Atravs de algum, saber de um lugar onde precisa de 
funcionrios. Nesse lugar, ter muito trabalho, no s fsico, mas espiritual 
tambm. 
- Isso realmente aconteceu. Fiquei sabendo por uma amiga da 
minha esposa que estavam precisando de um faxineiro em uma clnica. 
Fui at l e me aceitaram. Comecei a trabalhar na sua clnica, estou l 
h quase quatro anos. Um dia, antes de eu comear a trabalhar, Laerte 
337


Lio de Abnegao 
apareceu, dizendo: 
- Voc vai comear o seu trabalho amanh. L ver quantos irmos 
poder ajudar, estarei sempre ao seu lado. 
-Ele est aqui agora? 
-No, quando o senhor me contou o que estava acontecendo com 
a moa, ele apareceu e disse: 
-Desta vez, no irei com voc, tenho um trabalho urgente em outro 
lugar. No se preocupe, vai encontrar Vicente, ele  o encarregado desta 
misso. 
-Assim que comecei a trabalhar na clnica, vi que ele tinha razo. 
O senhor sabe que, em uma clnica como a sua, muitas das doenas que 
l existem no so fsicas, na maioria das vezes, o mal  espiritual. Sem 
que ningum desconfiasse, eu, Laerte e a sua equipe ajudamos a muitos 
encarnados e desencarnados. 
- Eu nunca soube, mas foi por isso que alguns pacientes meus 
melhoravam da noite para o dia? 
-Era isso que acontecia, eu no pretendia dizer nada, mas quando 
aquele rapaz chegou, o Laerte me instruiu no que eu deveria fazer, fui 
obrigado a lhe mostrar. Ele disse que havia chegado o seu momento de 
conhecer a vida espiritual. 
-Conheci mesmo e fiquei apaixonado por toda essa teoria que, se 
for verdadeira,  maravilhosa! 
Jos comeou a rir: 
- Claro que  verdadeira! O senhor ainda tem alguma dvida 
disso? 
Duarte tambm riu, balanou a cabea. 
-S no entendo uma coisa, voc, que ajuda tanto as pessoas, tem 
uma vida pobre! Como pode ser isso? Poderia cobrar o que quisesse! A
pessoa ficaria feliz em poder pagar por um filho, mulher, pai ou me que
fossem curados. Eu mesmo vi muitos casos!
- Doutor, alm de eu ser mdium, sou um esprito caminhando 
para a perfeio, tenho tambm os meus resgates, minhas dvidas e a 
minha misso que ter de ser cumprida. Eu mesmo, antes de renascer, 
pedi para ser pobre, pois talvez, se eu fosse rico, no iria querer saber 
de nada disso. 
338


Lio de Abnegao 
- Isso no  verdade, eu sempre fui rico e quero muito aprender 
sobre isso, cada vez mais! 
- O senhor veio com outro tipo de misso. Eu j vim com esta 
por muitas vezes, mas nunca a cumpri, pois o dinheiro me dava outras 
oportunidades na vida, que me afastavam dela ou eu fazia dela um 
comrcio, por isso, pedi para ser pobre. 
-Mas o que ganha com todo esse trabalho? 
-Ganho a felicidade de saber que ajudei, ganho a tranqilidade de 
saber que estou cumprindo a minha misso. Sabendo o que sei sobre 
a vida espiritual, sei que tudo aqui na Terra  provisrio, que nada nos 
pertence, a casa, o carro e as jias so emprstimos de Deus. Prefiro me 
preparar para a minha vida espiritual. 
-Se pensarmos nisso, a vida no fica sem graa? Voc fica o tempo 
todo vendo e ouvindo os espritos? 
-No! Se fosse assim, eu enlouqueceria! Preciso trabalhar, conversar 
com as pessoas. S os vejo quando tenho que fazer algum trabalho. 
Quanto  vida ser sem graa, isso no acontece, ao contrrio, dou valor 
a cada minuto que passa. Tenho uma vida feliz dentro das minhas 
condies, gosto de danar, cantar, ir ao cinema e de vez em quando 
at tomar um traguinho. S no tenho a iluso de que preciso fazer 
qualquer coisa ou passar por cima de qualquer pessoa para conseguir 
dinheiro ou posio. Mas, do resto, tenho uma vida feliz sim. 
Assim que chegaram  clnica, Duarte disse: 
-No sei por que voc quis continuar o seu trabalho hoje. Eu no 
queria! 
- Doutor, o senhor no entendeu o que eu disse? No cobro por 
meu trabalho com a espiritualidade. O meu trabalho aqui comea s 
seis horas da noite e vai at as seis horas da manh. Para isso, alm de eu 
ganhar o adicional noturno, ganho ainda horas extras, o que me ajuda 
muito para sustentar a minha famlia. Tenho agora trs filhos que esto 
na escola. Estou feliz com o meu emprego. 
-Como faxineiro o seu salrio  muito baixo. 
- Por isso trabalho  noite. Alm do mais,  o horrio em que 
os espritos podem trabalhar com mais tranqilidade. Quanto ao 
meu salrio, est muito bom, o senhor paga muito bem aos seus 
339


Lio de Abnegao 
funcionrios. Eu no tive estudo algum, mal assino o meu nome, por 
isso agradeo a Deus, todos os dias, por ter me dado esse trabalho. Boanoite, 
Doutor. 
Duarte percebeu que ele estava mesmo ansioso para voltar ao 
trabalho, despediu-se, ligou o carro e, no caminho, foi pensando: que 
homem  esse? Que lio maravilhosa de abnegao, aprendi nesta noite! 
Como uma pessoa pode se doar dessa maneira sem ser pago por isso?  ...
tenho muito ainda que aprender.
Jos entrou rpido na clnica, seu trabalho estava atrasado, teria 
muito que fazer naquela noite para deixar tudo em ordem para o 
faxineiro do turno do dia, mas estava feliz, sabia que Ester estava prestes 
a se recuperar, sabia que Raimundo e Isaura, naquele momento, deviam 
estar viajando pelo espao. 
Assim que chegou, Laerte apareceu, perguntando: 
-Ento, meu irmo, como foi tudo l? 
Jos sorriu: 
-Foi muito bem, o trabalho, com a graa de Deus, foi cumprido. 
Parece que tudo terminou bem. 
-Gostou do Vicente? 
- Sim, ele tem muita experincia, soube como conduzir o 
trabalho. 
- Ele j se dedica h muito tempo a esse tipo de trabalho e  um 
dos melhores. 
-Percebi isso, que Deus o abenoe. 
-A todos ns, meu irmo, a todos ns. Agora, pode voltar ao seu 
trabalho. Estou cansado, como dizem aqui na Terra, apesar de esprito, 
tambm sou filho de Deus, vou descansar. 
Enquanto ele desaparecia, Jos, rindo, pegou seu balde, sua vassoura 
e foi limpar um dos banheiros da clnica. 
340

 A Viagem 
Daniel, Emlia e Ernesto tambm no dormiram bem naquela noite. 
Assim que despertou, Daniel foi para a sala de refeies, seu avio 
s sairia s onze horas. Quando chegou l, encontrou Ernesto, Emlia, 
Incio e Vanda que tomavam caf. Ao v-los, admirou-se: 
-Bom-dia. Chegaram cedo! 
-Bom-dia, Daniel. Ernesto nos telefonou logo pela manh. Estamos 
felizes por saber que Ester se recordou de todos ns e resolvemos que 
devemos ir juntos com voc. Por isso, j reservamos nossas passagens. 
-Vocs no podem fazer isso, Incio! Se ela fugiu foi porque sabe 
quem  o seu inimigo aqui nesta casa e se vir vocs, fugir novamente! 
-No precisa ficar nervoso, Daniel. Sente-se e tome o seu caf. Eu e
o Ernesto conversamos muito, chegamos a concluso de que se ela sabe
quem  o seu inimigo, com certeza sabe que no somos ns, por isso,
decidimos que eles devem ir. Se existe algum inimigo, precisamos estar
ao lado dela e proteg-la. 
-Se ela soubesse que o inimigo no estava aqui, no teria fugido, 
Emlia! 
- No sabemos qual foi o motivo para ela ter fugido, s sabemos 
que a amamos e que precisamos traz-la de volta. Portanto, no adianta 
ficar nervoso. Est decidido, eles iro e eu ficarei aqui esperando uma 
notcia. 
Diante da maneira como Emlia falou, Daniel percebeu que no 
haveria argumento que os fizesse mudar de idia. Comeou a tomar 
caf. Leonora entrava e saa da sala, tentando descobrir o que estava 
acontecendo. Estava colocando um bule com caf quente sobre a mesa, 
seus olhos se cruzaram com os de Vanda, percebeu ela tambm estava 
nervosa. No podia dizer nada, afastou-se, mas tentava fazer um sinal 
para Vanda. Precisava conversar com ela, porm Vanda no a olhava. 
Vanda, por sua vez, fingia estar prestando ateno na conversa, mas 
estava aflita e pensando: quando Incio pediu que eu fosse com eles, no 
consegui evitar. Agora no vai ter outra maneira. Se Ester se recordou, tudo 
ter de ser explicado. Ainda bem que Jandira est l naquela cidade. Ela 
me ajudar com a explicao. 
341


A Viagem 
-Voc est nervosa, Vanda? Por qu? 
Ela se voltou para Emlia com um sorriso nervoso. 
- Claro que estou, assim como vocs. Sabem muito bem que 
ela  minha amiga. Estou aflita para a encontrarmos e ela voltar 
definitivamente para casa e para a sua vida. 
-Espero que isso acontea. J faz muito tempo. S no entendo o 
porqu de ela ter fugido assim. 
- A senhora conhece a Ester. Ela sempre foi impulsiva! No se 
lembra de quando ela me trouxe aqui para esta casa? Mal me conhecia, 
s me via na lanchonete servindo os alunos da faculdade. Quando viu 
que eu estava com dificuldades, no teve dvida, no pensou por um 
minuto. Seguiu o impulso e me trouxe para c. O que, por mais que eu 
viva, no conseguirei agradecer. 
- Ela, alm de ser impulsiva, tambm sempre foi muito boa de 
corao. 
Enquanto elas conversavam, Daniel as observava e pensava: por que
ser que Ester fugiu? Aqui, parece que todos a querem bem e no lhe fariam
mal. Por que ela no confiou no nosso amor e no me contou tudo do que
se lembrou? No sei, mas com certeza ela explicar. 
A hora chegou. Eles despediram-se de Emlia e partiram com os 
coraes cheios de esperana. 
O nibus parou, as pessoas comearam a descer. Ester estava cansada, 
viajou a noite toda, sabia que ainda faltava muito para chegar a Carim, 
imaginava a cara que Neco e Jurema fariam quando ela lhes contasse 
o que havia acontecido: no tenho muito dinheiro, preciso controlar, mas 
estou com fome, tomarei um caf com po e manteiga. Na hora do almoo, 
comerei algo mais substancioso.
Foi isso o que fez. Voltou para o nibus. O dia estava lindo, o
sol brilhava, ela foi olhando a paisagem. Passava por cidades muito
pobres. Pensava: nunca imaginei que poderiam existir pessoas que vivessem 
dessa maneira, nesse estado de pobreza. Ao relembrar a minha vida desde 
criana, sei que sempre fui feliz. Meu pai, embora sozinho, nos criou 
com muito carinho. Emlia, Jandira e Messias nos deram tambm muito
amor. E a amizade que existiu entre mim, Ernesto e o Incio no tempo 
em que freqentvamos a escola, mais tarde a faculdade. No dia da nossa 
342


A Viagem 
formatura quando nos tornamos mdicos. Os trs, juntos, realizamos um 
sonho. A amizade que nos unia era imensa. 
Ao se lembrar daquele tempo, seus olhos encheram-se de lgrimas, 
pensou: por que tive de trazer a Vanda para casa? Nunca pensei que ela 
pudesse fazer aquilo comigo. Logo eu, que a recolhi em um momento de 
desespero. Agora, o que farei? No sei, talvez Jurema possa me orientar, logo
ela, que nasceu e foi criada em um ambiente to pobre como aquele. Logo
ela que no teve nada na vida, mas que tem a bondade estampada em seu 
rosto. No resta dvida, o nico lugar em que me sentirei protegida ser ao 
lado deles. No entendo nada da vida. Depois de recordar o meu passado, 
de saber quem fui e quem sou, de uma coisa tenho certeza, no sou hoje a
mesma que fui ontem. Conheci um mundo e pessoas jamais imaginados.
Descobri que, alm de toda a riqueza e conforto em que sempre vivi, existe
um mundo totalmente diferente, de pobreza e sofrimento. Ser que Deus 
existe? Na cincia, sempre encontrei todas as respostas, por isso me era difcil 
encontrar Deus. Se Ele existe mesmo, por que me escolheu para ser rica
com tanto conforto e a estes, para serem pobres, vivendo na mais profunda 
misria? No sei as respostas, mas elas devem existir. E Daniel? Ah, o 
Daniel, ele foi uma luz que surgiu na minha vida em um momento em que 
eu estava na escurido. Eu o amava, sem saber se algum dia havia amado 
algum. Hoje, tenho certeza de que o amo muito mais, mas no podemos 
continuar juntos . Ele quer ter seu consultrio, fazer a sua especializao, 
eu, s quero continuar em Carim e exercer a minha profisso para aquelas 
pessoas to necessitadas. Quero viver ali, naquele pedao de cho esquecido 
por todos. Com o meu conhecimento, posso ajudar a muitas pessoas. Nunca 
mais voltarei para casa. Descobri que l no  o meu lugar. 
Ficou o tempo todo pensando no que fazer com a sua vida dali para 
frente. Agora, que sabia quem era, sentia-se mais perdida do que nunca. 
Sua esperana estava toda voltada para Jurema e Neco. 
O nibus parou novamente, era a hora do almoo. Ela, 
acompanhando as pessoas, foi at o restaurante, olhou o que havia para 
comer. Escolheu um prato barato, comeu com vontade. Havia sado de 
So Paulo, s onze horas da noite, agora era meio-dia. Havia viajado 
mais de doze horas, faltavam ainda mais de vinte horas para chegar. 
Estava cansada, seu corpo doa pela incmoda posio no banco do 
343


A Viagem 
nibus, mas a esperana de encontrar um pouco de tranqilidade fazia 
com que ficasse mais calma. 
Naquele mesmo momento, Daniel e os outros estavam a bordo do 
avio. Em pouco tempo chegariam a Salvador. J haviam combinado 
que, assim que chegassem ao aeroporto, alugariam um carro e,  
noitinha, chegariam  cidade. Daniel disse: 
- Como sabem, na cidade no existe hotel. No sei se a casa em 
que eu morava ainda est vazia. Mesmo que esteja, ela  pequena, no 
poder nos abrigar. Iremos para a casa do prefeito, meu amigo, ou para 
a casa do Dorival, tio do Neco. Com certeza, ele nos acolher. Vocs 
no tero o mesmo conforto que esto acostumados, mas lhes garanto 
que sero muito bem recebidos. Amanh, bem cedo, iremos at o stio 
do Neco. 
- Vanda, eu e o Ernesto conhecemos o Dorival e sua esposa, 
Laurinda. Posso lhe garantir que eles so pessoas muito boas. Voc 
gostar deles assim como gostamos, no  Ernesto? 
- sim, so pessoas adorveis. 
Vanda no prestava ateno na conversa, pensava: est chegando o 
momento mais difcil da minha vida. No sei o que eles faro ao saberem 
da verdade. Talvez eu perca a amizade de todos e o amor do Incio, mas 
no existe outra maneira, a hora chegou e dela no h como escapar. 
Chegaram ao aeroporto. Alugaram um carro, Daniel foi dirigindo, 
Ernesto sentado ao seu lado, Incio e Vanda, no banco de trs. Iam 
comentando a paisagem. Assim que saram dos arredores da cidade, 
a paisagem se transformou em um imenso horizonte desabitado. 
De vez em quando, via-se uma pequena casa aqui outra ali. Ernesto 
comentou: 
-O Brasil tem ainda tanta terra para ser explorada e usada. Muito 
alimento poderia ser plantado aqui. 
-Sim, Ernesto, tem muita terra, mas como est, ser difcil plantar. 
Aqui, a seca castiga. Para isso, seria necessrio irrigao. Precisaria de 
muito dinheiro. E dinheiro para atender a este lado do Brasil  difcil. 
- Eu sabia que o Nordeste era pobre, Daniel, mas nunca imaginei 
o quanto. Sempre ouvi falar da seca, da pobreza, mas s vim conhecer
realmente quando aqui estive. Quando viemos aqui pela primeira vez,
344


A Viagem
me assustei com o que vi. Este pedao de terra nem parece pertencer ao
mesmo Brasil do Sul. L, podemos nos considerar de primeiro mundo, 
enquanto que aqui o quinto seria pouco. Ser que um dia teremos 
igualdade em todos os recantos do Brasil? 
Ningum respondeu quela pergunta de Incio. Vanda no 
respondeu, mas pensou: no me admiro do que estou vendo, j conhecia. 
Nasci e me criei em um lugar como este. Tive uma infncia pobre e, assim 
que alcancei uma idade para poder viajar, fui embora para o Sul. Sofri 
muita humilhao e necessidade, mas consegui vencer. Hoje, sou esposa de 
um mdico famoso. Vivo em relativa riqueza. Estou feliz, tanto que at me 
esqueci das minhas origens. Precisava voltar para relembrar. Alis, eu no 
precisava voltar, nem relembrar! Entretanto, talvez eu perca tudo o que 
consegui.  bom que reveja tudo isto e me acostume com a idia de ter de 
voltar a viver aqui. 
Eram mais de seis horas quando chegaram a cidade. Entraram na 
rua principal. O comrcio estava fechado e s alguns bares continuavam
abertos, onde as pessoas bebiam e conversavam alegremente. Dos vrios 
alto-falantes presos nos postes de luz, ouvia-se uma msica alegre. 
Daniel parou o carro em frente a sua casa. Bateu  porta. No obteve 
resposta. Colocou a chave na fechadura, entrou. Voltou aps alguns 
minutos, dizendo: 
-Parece que esta casa ainda continua sendo minha. Est da maneira 
como deixei. H ainda algumas coisas minhas, mas s tem um quarto, 
no h como abrig-los. Iremos para a casa do Dorival. 
Deixou o carro parado em frente  sua casa e caminharam, sob o 
olhar curioso dos moradores da rua e daqueles que estavam nos bares. 
Pararam em frente  casa de Dorival. Daniel bateu  porta. Laurinda a 
abriu e, assim que o viu, disse admirada: 
-Doutor! O senhor aqui? 
- Sou eu sim, dona Laurinda! Estes so os meus amigos que a senhora j conhece, e
esta  a dona Vanda, esposa do doutor Incio.
Laurinda olhou para todos e perguntou, assustada: 
-E a Cida? Onde ela est?
- por causa dela que estamos aqui. A senhora poderia nos receber
por uma noite? Se nos deixar entrar, lhe contaremos o motivo da nossa 
345


A Viagem 
vinda. 
-Claro, doutor, pode entrar. A casa  simples, mas tem lugar para 
todo mundo. 
Afastou-se para eles entrarem e gritou: 
-Dorival! Olha quem est aqui! 
Dorival, que estava sentado no sof da sala, assistindo  televiso, 
levantou-se e, ao v-los, disse tambm assustado: 
- Doutor! Que bons ventos trazem o senhor aqui? E a Cida, 
onde est? Aconteceu alguma coisa com ela? Por que no est com o 
senhor? 
-  esse o motivo de estarmos aqui,  uma longa histria, mas 
vamos lhes contar.
Dorival cumprimentou a todos e os convidou para sentar. 
- Doutor, no comece a contar ainda, sei que devem estar com 
fome, vou dizer para a Deusa aumentar a comida. 
-A senhora no precisa se incomodar, dona Laurinda, comeremos 
alguma coisa por a. 
Laurinda, Daniel e Dorival riram ao ouvir Incio dizer aquilo. 
-O doutor no conhece mesmo a nossa cidade. Aqui no tem lugar 
decente para se comer, no. O mximo que o senhor vai encontrar so 
pedaos de carne seca no molho, que o povo come com farinha. A 
gente sabe que isso no  comida do povo do Sul, no. A comida j 
est pronta,  s aumentar o feijo e o arroz, a Deusa vai no terreiro, 
pega uma galinha e o senhor vai ver que nunca comeu uma comida 
igual  dela. 
Incio sorriu diante da espontaneidade de como ela falou, embora 
s o tivesse visto da outra vez, parecia j o conhecer h muito tempo. 
Laurinda saiu, foi at a cozinha, conversou com Deusa e voltou. Sentouse 
ao lado de Dorival. Olhando para Daniel, disse: 
- Pronto, doutor, a comida logo vai ficar pronta. Agora o senhor 
pode contar para gente, por que est aqui e onde est a Cida. 
Ele contou tudo o que havia acontecido, desde que chegaram  casa 
de Ester. Terminou, dizendo: 
- No sabemos o porqu de ela ter fugido daquela maneira. S 
sabemos que ela recuperou a memria e sabe tudo o que aconteceu 
346


A Viagem 
naquela noite em que foi espancada. Acredito que ela saiba quem 
mandou fazer aquilo, ficou com medo e o nico lugar para onde poderia 
ter vindo seria aqui, onde se sente segura. 
- Deus do cu, Dorival! Onde est aquela menina? A Jurema vai 
endoidar quando souber disso! Doutor, foi por isso que a gente no 
queria que ela fosse embora, a gente tinha medo, no sabia quem tinha 
feito aquilo com ela. E agora? Se ela no vier para c? 
-No fala isso, mulher! Claro que ela vem para c, para onde iria? 
Ela s conhece a gente e sabe que a gente gosta muito dela! 
-Sei que s h uma empresa de nibus que vem de So Paulo para 
c. Ontem me informei, eles disseram que s sai um nibus por dia. 
Ela deve ter tomado esse nibus que sai s onze horas, portanto, deve 
chegar aqui amanh, antes da hora do almoo. Amanh, bem cedo, 
vou me informar a que horas o nibus chega e ficarei esperando no 
ponto final. 
-Daniel, ns tambm iremos! 
- No! Vocs ficaro esperando aqui! No quero que ela os veja. 
Quero que pense que s eu estou aqui. Sabe que a amo e que no lhe 
faria mal. 
-  isso mesmo, doutor. Amanh vou acordar bem cedo e irei 
at o stio trazer a Jurema e o Neco. Eles precisam saber o que est 
acontecendo. Preciso fazer isso, antes das oito horas, quando tenho que
abrir a loja. Assim que a Cida chegar, deixo o Chico cuidando da loja
e venho aqui para saber de toda essa histria. Uma coisa eu falo: se ela
no quiser, ningum vai lev-la  fora no! Ela  para ns, como se
fosse nossa sobrinha, igual ao Neco e  Jurema! 
-Est bem, o senhor tem razo, no existe lugar melhor no mundo 
para ela ficar. Mas se ela assim o desejar, ficarei com ela. 
O jantar ficou pronto. Jantaram. Daniel foi para sua casa. Laurinda 
acomodou Vanda e Incio em um dos quartos, Ernesto ficou no 
outro. 
Em sua casa, Daniel ficou relembrando dos momentos que passou 
com Ester, desde que a conheceu. Seu corao chegava a doer de 
saudades e preocupao. Ernesto tambm no entendia o porqu de ela 
haver fugido daquela maneira. Incio e Vanda conversavam. 
347


A Viagem 
-Vanda, por que ser que ela fugiu?
-No sei, mas a Jandira e o Messias no esto aqui na cidade?
-Sim, eles esto em frias. 
-Ento,  melhor tambm que estejam aqui quando ela chegar. 
-Por que est dizendo isso? Sabe de alguma coisa? 
-Isso no importa,  preciso que estejam aqui. 
-Sinto que sabe de alguma coisa, Vanda! No vai contar? 
- No sei at onde Ester relembrou, mas se foi de tudo, ser bom 
que eles estejam aqui.
-Est me deixando preocupado! O que voc sabe? 
- No quero, nem posso lhe dizer agora, mas sei, sim, de muita 
coisa, porm s falarei na presena dela.
- Por que est agindo assim? Sou seu marido! Sabe que a amo 
muito! 
- Sei disso, mas amanh, quando souber de toda a histria, talvez 
no me ame mais nem v querer mais ser meu marido. 
-Voc est envolvida no que aconteceu naquela noite? 
- No posso nem quero falar sobre isso. Amanh, tudo ser 
esclarecido e voc tomar a deciso que julgar acertada. O que decidir, 
eu acatarei. 
-Vanda, pelo amor de Deus! O que voc fez para dizer isso? Conte, 
por favor! Preciso saber para estar preparado! Amo voc e no quero 
perd-la! Seja o que for que tenha feito, saberei compreender! Mas 
preciso saber o que voc fez. 
Vanda, chorando, disse: 
-No posso, no neste momento... 
-No entendo! Por que no pode ser neste momento?
-No sei at onde Ester sabe o que aconteceu. Preciso deixar que
ela fale primeiro, a, s a, poderei dizer o que sei, antes disso, no!
-Est me deixando cada vez mais nervoso e curioso! Preciso saber
agora! 
Ele disse isso nervoso, mas sem gritar. No queria que Laurinda ou
Dorival soubessem o que estava acontecendo. Vanda, chorando, virou
de costas para ele e fechou os olhos. 
Ele a sacudiu dizendo: 
348


A Viagem 
- No faa assim, Vanda! Nunca escondemos nada um do outro!
Sempre confiamos! No adianta fingir que quer dormir, sei que no
conseguir, assim como eu tambm no! Precisamos conversar! Preciso
saber da verdade! Prometo que entenderei! Eu amo voc!
-Tambm amo voc e se fiz o que fiz, foi para no perd-lo, mas
sinto que isso ser inevitvel. Por favor, meu amor, espere at amanh. 
Incio percebeu que seria intil continuar. Conhecia-a muito bem, 
sabia que quando ela decidia alguma coisa, estava decidido. Virou-se na 
cama e tentou dormir, mas no conseguiu por um bom tempo. Depois, 
cansado da viagem, adormeceu. 
Ernesto tambm pensava: por mais que pense, no consigo entender o 
motivo da sua fuga. Se ela descobriu o que aconteceu, sabe que no estou 
envolvido, por que no me contou? Por que no confiou? Meu Deus, por 
favor, faa com que ela venha para c, pois se ela no estiver naquele nibus 
amanh, no sei o que farei... 
Ficou relembrando de toda a vida em que viveram juntos e em 
como sempre se deram bem como irmos e no cime que sentia dela, 
sempre que um garoto se aproximava. Quantas vezes ele, quando 
crianas, a protegeu. Tentou evitar, mas no conseguiu impedir que 
uma lgrima casse de seus olhos. Depois, sem perceber, tambm
cansado, adormeceu. 
Incio acordou com o barulho de passos e sussurros, olhou para o 
relgio, faltavam quinze minutos para as cinco horas da manh. Olhou 
para Vanda, que fingia dormir, levantou-se, saiu do quarto. 
Assim que ele saiu, Vanda sentou-se na cama. Estava com os olhos 
vermelhos e inchados de tanto chorar. Sabia que a hora estava chegando, 
pois se Ester havia se recordado de tudo, no teria como evitar. Sabia 
que o seu casamento e a vida feliz que levava ao lado de Incio estavam
por um fio.
Incio, sem saber que ela pensava tudo isso, foi at a cozinha. 
Encontrou Laurinda e Dorival que conversavam. 
-Laurinda, preciso ir agora at o stio do Neco. Eles precisam saber
o que est acontecendo, no sei, mas no confio nessa gente. Acho que
a Cida fugiu porque se sentiu ameaada e ficou com medo. Voc no 
acha? 
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A Viagem
-No sei o que pensar, mas acho que voc tem razo. Se no fosse
isso, por que ela fugiu?
Incio ouviu-os conversando, fingiu no ter ouvido. No sabia qual 
era o envolvimento de Vanda em toda aquela histria, porm sabia
que, de alguma maneira, ela estava envolvida. Amava a mulher, mas
sentia que se descobrisse que ela, de alguma maneira, fora a causadora
do sofrimento de Ester, no poderia perdoar. Ele a amava, mas tambm
amava Ester e Ernesto como se fossem seus irmos. Pensando isso,
entrou na cozinha.
-Bom-dia! Acordaram cedo? 
Dorival e Laurinda olharam-se, no sabiam desde quando ele estava 
ali e no sabiam se ele ouvira a conversa. Dorival arriscou:
-Bom-dia, doutor, faz tempo que o senhor est a?
-No, acabei de chegar, ouvi passos, vim ver o que est acontecendo.
 muito cedo ainda.
Laurinda, respirando aliviada, disse:
-Sente a doutor, estou terminando de passar o caf. 
Dorival completou: 
-  isso mesmo, doutor, tome caf com a gente. No est
acontecendo nada, como preciso abrir a loja as oito horas, estou indo
agora para a casa do Neco, contar para eles o que est acontecendo com
a Cida e ver se eles querem vir para c. Preciso estar de volta antes das
oito horas.
-Quer que eu v junto? 
Laurinda ofereceu um copo de caf para cada um deles Dorival, 
enquanto tomava o caf, respondeu: 
- No precisa, o senhor est cansado e a sua mulher no vai ficar 
feliz aqui sem o senhor. Ela parece ser uma moa fina e no deve estar
acostumada com uma cidade como esta. 
-A  que o senhor se engana, ela nasceu aqui no Nordeste, conhece 
muito bem.
Eles se admiraram Laurinda disse: 
- Ela nasceu aqui? No parece mesmo, tambm ela  to calada. 
No participou da nossa conversa.
-Ela no  calada, fala at demais, s que  muito amiga da Ester
350


A Viagem 
e, assim como todos ns, est preocupada com ela. 
-A Cida  um amor de pessoa, a gente gosta muito dela. Se ela vier 
mesmo para c e no quiser mais voltar para o Sul, pode ficar aqui. A 
gente vai cuidar muito bem dela! 
-Ela precisa voltar, ela  mdica, temos um hospital, precisamos da 
presena dela e o seu irmo no vai permitir que fique aqui. 
-Doutor, o senhor vai me desculpar, mas quando o senhor entrou 
aqui, eu estava falando para Laurinda, que se a Cida se lembrou do 
passado e fugiu, foi porque ficou com medo e descobriu quem fez 
aquilo com ela e s pode ter sido um de vocs, se no fosse assim, no
teria fugido, no  mesmo?
Antes de responder, Incio lembrou-se da atitude de Vanda na noite 
anterior. Apenas disse: 
-No sei por que ela fugiu, mas de uma coisa tenho certeza, ela no 
tem nada a temer, eu e o irmo dela a amamos e a protegeremos contra 
tudo e contra todos. 
- S quando ela chegar, se chegar, e contar tudo o que lembrou  
que a gente vai saber o que fazer. 
Dorival colocou a xcara de caf sobre a mesa, dizendo: 
-Estou indo. Doutor, volte para a cama e voc tambm, Laurinda. 
Ainda  muito cedo. 
Laurinda fez um sinal com a cabea, ele se despediu de Incio e 
saiu. 
Assim que ficaram a ss, Incio perguntou: 
-A senhora sabe onde o Messias e a Jandira esto hospedados? 
Ela, rindo, respondeu: 
-Doutor, o senhor no viu o tamanho da cidade? Aqui todo mundo 
se conhece. Eles esto no stio do Tonico, o pai do Messias. Por que est 
perguntando? 
-Preciso conversar com eles, acredito que, quando a Ester chegar, 
ser bom que eles estejam aqui. 
- , o senhor tem razo, eles a conhecem, desde criana. Ela vai 
ficar mais segura. No se preocupe, assim que o Dorival voltar com o 
Neco e a Jurema, peo a ele mandar o Chico l no stio do Tonico. Ele 
vai de cavalo, chega num instante. Agora, doutor, o Dorival tem razo. 
351


A Viagem 
 muito cedo ainda para ficarmos acordados, vamos dormir mais um 
pouco?
-V a senhora, vou ficar mais um pouco e tomar outra xcara de 
caf.
-Est bem, pode ficar a vontade, ainda estou com sono. 
Dizendo isso, saiu da cozinha. Incio pegou mais um pouco de caf e 
ficou pensando: o que ser que a Vanda fez? Por que no quis contar? Deve 
ter sido muito grave. Mas, hoje, se a Ester chegar, tudo vai ser esclarecido. 
Agora vou sair um pouco e andar pela cidade.
Foi o que fez, terminou de tomar o caf e saiu. Ainda no havia
amanhecido, olhou de um lado e de outro, viu que Dorival saia com
o jipe, de um porto grande que havia ao lado da loja. Viu tambm
Daniel que se aproximava de Dorival, foi at ele. Chegou junto deles, 
no mesmo instante em que Daniel chegava e dizia para Dorival: 
-Bom-dia, o senhor vai sair to cedo? 
- Bom-dia, doutor estou indo no stio do Neco. Preciso contar o 
que est acontecendo e traz-los, antes das oito, quando preciso abrir a 
loja. O senhor tambm acordou cedo? 
- bom que faa isso, eu no acordei cedo, quase no dormi. Estou 
indo at a rodoviria para saber a que horas o nibus de So Paulo 
chega. Quero estar l, quando a Ester chegar. 
-O senhor est certo que ela vem para c?
- a nossa nica esperana. Se ela no vier, no sei o que faremos.
Incio se aproximou. Olhando para Daniel, disse: 
-Bom-dia, Daniel, tambm acordou cedo? 
-Bom-dia, Incio, na realidade, quase no dormi. 
-Tambm tive uma noite complicada. Estou ainda sem sono. 
-Estou indo para a rodoviria, no quer vir comigo? 
-Quero sim. 
Dorival acelerou o jipe. 
-At mais, preciso ir logo. 
Abanou a mo e saiu. 
Daniel e Incio seguiram em direo da pequena rodoviria que 
ficava na rua de trs. No caminho, foram conversando. 
-Daniel, ser que ela vem mesmo para c? 
352


A Viagem 
- Espero que sim, estou to ansioso que quase no consegui 
dormir. 
-Tambm estou ansioso. 
Incio estava aflito, desde a conversa que tivera com Vanda. Pensou 
um pouco, depois disse: 
-Daniel, preciso lhe contar algo que conversei ontem  noite com 
a Vanda. No sei se deveria contar, mas, desde ento, estou muito 
nervoso. 
Daniel percebeu a aflio no rosto dele. Assustado, perguntou: 
-Sobre o que conversaram? Parece que est preocupado mesmo! 
-No sei o que vai pensar ou dizer, mas preciso contar, temos que 
ficar preparados. 
Contou tudo o que havia conversado com Vanda. Terminou 
dizendo: 
- Creio que se a Ester vier para c, tudo ser explicado, mas caso 
ela no venha, a Vanda ter que nos contar tudo o que sabe. Estou com 
medo de ter que terminar o meu casamento. Eu a amo muito. 
- Fique calmo, fez bem em me contar. S precisamos esperar que 
a Ester chegue. 
Chegaram  rodoviria. Obtiveram a informao de que o nibus 
chegaria por volta das nove horas da manh. Voltaram, foram para a 
casa de Daniel. Incio no queria estar na casa de Dorival na hora em
que Vanda acordasse. 
Dorival chegou ao stio. Neco estava do lado de fora da casa tomando 
caf. Jurema estava dentro da casa trocando Rafael que acabara de 
acordar. Assim que ouviu o barulho de jipe chegando, saiu, assustada, 
da casa, pois seu tio nunca havia chegado to cedo. Sabia que alguma 
coisa havia acontecido, provavelmente com a tia. 
Neco, tambm preocupado, foi at onde o tio estacionou o jipe. 
Dorival estava descendo. Neco percebeu que ele sorria, o que o 
tranqilizou. Jurema tambm chegou. Ao perceber preocupao no 
rosto deles, Dorival disse: 
- Bom-dia! No precisam se assustar, no aconteceu nada de 
grave! 
Jurema no acreditou no que ele estava dizendo. Aflita, disse: 
353


A Viagem 
-Bom-dia, tio, mas se no aconteceu nada grave o que traz o senhor 
to cedo? Aconteceu alguma coisa com a tia? Ela est precisando da 
minha ajuda? 
- J disse que no aconteceu nada. Fique calma, precisamos 
conversar. Voc no quer me dar um pouco de caf?
-Dou sim, vou pegar. O senhor quer entrar ou sentar aqui fora?
-Vamos ficar aqui fora e aproveitar esse ar fresco da manh. 
- Est bem, vai se sentando a nesse banquinho. Neco, enquanto 
eu vou pegar o Rafael l no bero, voc pega caf para o tio e para ns 
tambm.
Os dois entraram e logo retornaram, Jurema com o menino no colo 
e Neco, com trs copos de caf. Sentaram-se nos banquinhos. Dorival, 
percebendo que ambos estavam aflitos, disse: 
- Aconteceu algo sim, mas no  ruim. A Cida recuperou a 
memria. 
Jurema e Neco levantaram-se juntos. Jurema disse:
-Tio! Que boa notcia! Mas como ficou sabendo?
- por isso que estou aqui. Vou contar o que aconteceu ontem e o
que est acontecendo hoje. 
-Conte logo, tio! Estou curiosa e aflita! Se o senhor veio aqui logo 
cedo, no foi para nos contar que ela se lembrou do passado. Aconteceu 
mais alguma coisa. O que foi que aconteceu? 
Dorival contou tudo. 
- Estou preocupado por ela ter fugido. Se ela fez isso, foi porque 
descobriu que algum daquela casa  o inimigo que mandou fazer 
aquela maldade com ela. Por isso vim aqui para ver se vocs querem ir 
 cidade, e esperar que ela chegue. 
Jurema levantou-se e, enquanto entrava na casa, disse: 
-Claro que a gente quer! Vou l dentro arrumar as coisas do Rafael 
e a gente vai agora mesmo! 
- S vou pegar o cavalo e atrelar na carroa. A gente vai mesmo! 
Imagina se a gente vai deix-la sozinha numa hora dessa. 
- Neco, no precisa atrelar o cavalo, a gente vai de jipe, depois o 
Chico traz vocs de volta. A carroa vai nos atrasar, preciso abrir a loja 
s oito horas. 
354


A Viagem 
-Est bem, se o senhor achar melhor, a gente faz isso. 
- melhor sim. 
Jurema retornou, trazendo o menino e uma sacola com as roupas 
dele. Entraram no carro e partiram em direo  cidade. 
Ernesto acordou, olhou para o seu relgio de pulso. Eram sete horas 
e quinze minutos. Levantou-se, abriu a porta do quarto, a casa estava 
em silncio, julgou que s ele estivesse acordado, mas sentiu o cheiro 
de caf e foi para a cozinha. Assim que entrou, viu Deusa, que estava 
preparando a mesa do caf. Ao v-lo disse: 
-Bom-dia, doutor. Se quiser, pode se sentar. O caf j est pronto. 
Eu, antes de vir para c, passei na padaria e comprei po fresquinho, 
est ainda quente. 
-Obrigado, mas antes gostaria de tomar um banho. Aqui faz muito 
calor. 
-Pode ir, vou pegar uma toalha. 
-Obrigado, mas onde esto as outras pessoas? 
- A dona Laurinda est l fora no quintal, disse que precisava 
pensar. Quando ela est assim, gosta de ficar sentada embaixo do p de 
limo. Dos outros eu no sei, mas devem estar dormindo. Vou dizer a 
ela que o senhor j levantou. 
Ele sorriu e saiu em direo do quarto. Pegou a roupa que ia vestir. 
Quando saiu, Deusa j o estava esperando com a toalha na mo. Ele 
entrou no banheiro que ficava no fundo do corredor. Ao entrar, pensou: 
este banheiro  bem diferente do meu, mas o banho ser bom da mesma 
maneira. 
Terminou de tomar banho, vestiu-se e saiu indo em direo a
cozinha. Laurinda j estava esperando por ele.
- Bom-dia, dona Laurinda. Parece que o caf est muito bom, ao 
menos o cheiro est timo. 
-No sei se o senhor vai gostar. Aqui a gente faz caf fraco, mas se 
misturar com o leite, vai ficar bom. 
- Estou com vontade, sei que vou gostar. Os outros j se
levantaram?
:-O doutor Incio levantou bem cedo, quando o Dorival estava
saindo para ir ao stio do Neco. Ainda no tinha nem clareado o dia.
355


A Viagem 
Depois que o Dorival saiu, ele disse que no estava com sono e que ia 
dar umas voltas pela cidade. No voltou at a gora. Ele deve estar l na 
casa do doutor Daniel. 
-E a Vanda? 
-Ainda no levantou. 
- Estranho, o Incio acordar cedo, ele sempre foi o que teve mais 
dificuldade para acordar pela manh. 
-Acho que ele est preocupado com a sua irm. 
- Tambm estou preocupado, tive dificuldade para dormir, mas 
peguei no sono s acordei agora. Assim que terminar de tomar o caf, 
vou at a casa do Daniel para ver se ele est l. 
Foi o que fez, tomou o caf e saiu. Estava preocupado e ansioso 
para que o nibus chegasse. Rezava e pedia a Deus que Ester viesse 
nele. Estava chegando  casa de Daniel quando viu que eles saam dela. 
Disse, admirado: 
-Bom-dia! Para onde esto indo? 
Daniel respondeu: 
- Para o stio do Tonico.  l que o Messias e a Jandira esto 
hospedados. O Incio acredita que ser bom que estejam presentes 
quando a Ester chegar. 
-Talvez seja mesmo. Vou com vocs. 
-Venha, precisamos ir logo, para estarmos na rodoviria antes de 
o nibus chegar. 
Entraram no carro que haviam alugado, seguiram para o stio. 
Daniel, por conhecer o caminho, foi dirigindo, Ernesto sentou-se 
ao seu lado e Incio no banco de trs. Ele estava aflito, sabia que, de 
alguma maneira, Vanda estava envolvida com o acontecido, por isso 
estava dividido entre o amor que sentia por ela e a amizade que tinha 
por Ernesto e Ester. No sabia se devia contar ao amigo o que Vanda 
lhe dissera. Daniel percebeu a aflio dele. 
- Incio, voc, como todos ns, est aflito, mas tambm, como 
todos ns, precisa esperar Ester chegar. S ela poder nos contar o que 
aconteceu. 
Incio entendeu o que ele quis lhe dizer e sorriu agradecido. 
Chegaram ao stio. A porteira estava fechada. Ernesto saiu do carro e 
356


A Viagem 
a abriu. Messias estava no quintal e se admirou quando os viu chegando 
e foi encontr-los. Assim que Daniel estacionou o carro e comearam 
a descer, ele disse: 
- Bom-dia! Eu no sabia que tinham voltado! Mas o que os traz 
aqui to cedo? 
Todos responderam ao bom-dia, mas foi Ernesto quem respondeu: 
-Precisamos conversar. A Jandira? J se levantou? 
-No, ela ainda est deitada, mas j acordou. Est lendo um livro. 
Do que se trata? Aconteceu alguma coisa com a dona Ester? 
-Aconteceu, sim. Por isso, voltamos. 
-Vamos entrar. No reparem, a casa  pobre, mas  acolhedora. 
Entraram. Jandira tambm ouviu o barulho do carro. Levantou-se e 
foi para a sala. Chegou no momento em que eles entravam. Ao v-los, 
admirou-se: 
-Bom-dia! Que aconteceu? Por que esto aqui a essa hora? 
Ernesto respondeu: 
- A Ester recuperou a memria, no sabemos o porqu, mas ela 
fugiu, no temos certeza, mas estamos desejando que ela venha para 
c. 
Jandira empalideceu e precisou se sentar. Perguntou: 
-Ela recuperou a memria? Lembrou tudo? 
-Parece que sim, mas por que est to assustada? 
- No estou assustada, s surpresa. Acham mesmo que ela est 
vindo para c? 
-Acreditamos que sim, pois no existe outro lugar a que ela poderia 
querer voltar. Aqui, sabe que tem amigos e por isso estar protegida. 
-Protegida do qu ou de quem? Ela contou alguma coisa? 
-No, mas para ela ter fugido, deduzimos que ela descobriu quem 
tramou contra ela e quis vir se esconder aqui novamente. 
Jandira tremia muito, embora tentasse, no conseguia esconder o 
medo estampado em seu rosto. Com voz trmula, perguntou: 
-A Vanda veio com vocs? 
-Veio sim, mas por que est perguntando isso? 
-Por nada, por nada... 
- Viemos aqui, porque achamos que seria bom vocs estarem 
357


A Viagem 
presentes quando ela chegar e nos contar do que se lembrou. 
Ernesto falava, mas por no ter conhecimento do que Daniel 
e Incio sabiam, no notou o medo estampado no rosto de Jandira. 
Incio e Daniel notaram, olharam-se, porm no ficaram calados, mas 
tinham certeza de que ela tambm estava envolvida. 
Messias se apressou e apressou Jandira para que fossem com eles. 
Ele gostava muito daquelas trs pessoas que havia conhecido desde 
crianas. Acompanhou o crescimento deles, ficou feliz, quando os 
trs se tornaram mdicos. O que mais queria, naquele momento, era 
que ficassem bem. Principalmente Ester, por estar passando por tudo 
aquilo. 
Daniel olhou para o seu relgio, disse: 
-Vamos nos apressar, quero estar na rodoviria antes de o nibus 
chegar.
A princpio, Jandira no queria ir, mas diante da insistncia deles,
no teve como recusar. Entraram no carro. Ela, em silncio, pensou:
seja tudo o que Deus quiser. 
358

 Longa Espera 
O nibus parou. Daniel, Jurema e Neco estavam ansiosos olhando 
os passageiros descerem. Acharam melhor que os outros no estivessem 
na rodoviria. Ernesto e Incio no queriam nem que Jurema e Neco 
fossem, mas eles ficaram bravos. Jurema disse nervosa e furiosa: 
-Doutor, o senhor vai me desculpar, sei que  um homem estudado, 
a gente  ignorante, mas gostamos muito da Cida e, se ela est vindo para 
c, vem porque sabe que a gente gosta dela! O senhor eu no sei, no... 
Ernesto tambm ficou nervoso e alterado. 
- O que a senhora est dizendo? Sou irmo dela! Nunca lhe faria 
mal!
- O senhor pode ser irmo dela, mas se ela fugiu depois de ter 
lembrado o passado, foi porque no confiou em ningum, nem mesmo 
no senhor. A gente vai esper-la na rodoviria! No vai mesmo, Neco? 
Neco, que, assim como ela, no confiava naquelas pessoas, tambm 
nervoso, respondeu: 
-Claro que a gente vai e se ela voltar, a gente vai estar l! 
Daniel, vendo que a conversa estava tomando um rumo perigoso, 
disse, sorrindo: 
- No acho bom ficarmos brigando. Se ela vier,  porque est 
buscando encontrar paz e  isso que vamos lhe proporcionar. Ernesto, 
creio que eles tm razo. Ser melhor que estejam l. 
Para evitar maiores problemas, Ernesto concordou. 
Eles no tiravam os olhos dos passageiros que desciam. Assim que 
ela surgiu na porta, Jurema gritou: 
-Cida! Voc veio mesmo? 
Ester parou  porta, sem coragem de descer os degraus. Olhou e 
os viu ali. Sentiu vontade de voltar para o nibus, mas pde perceber 
a angstia que existia em cada olhar. Viu Jurema e Neco que corriam 
para ela. Sentiu-se segura, desceu e os abraou chorando e dizendo: 
-Eu s tinha este lugar para onde voltar... 
- Este lugar  seu! A gente estava cheio de preocupao! No  
mesmo, Neco? 
Neco, tambm abraando Ester; respondeu: 
359


Longa Espera 
- sim, Jurema...  sim... 
Sem que soubessem, Ernesto e Incio estavam escondidos em uma 
esquina e viram quando ela desceu do nibus. Assim que a viu, Ernesto 
no se conteve, chorava por, finalmente, ver a irm, agora sabedora de 
tudo e aproximou-se tambm. Ela, ao v-lo e tambm chorando, abriu 
os braos. Abraaram-se muito, enquanto ela dizia: 
- Perdo, meu irmo, por ter lhe dado mais esse trabalho, mas 
fiquei assustada com tudo que relembrei, precisava ficar s para refletir 
e saber o que fazer com a minha vida daqui para frente. 
Daniel, que estava ao lado, pde ouvir o que ela disse. Falou: 
-O seu futuro ser ao meu lado. Estamos juntos e ficaremos para 
sempre. O que passou, passou. Hoje  o que importa. Voc est aqui, 
nunca mais vamos nos separar. 
Ela se afastou de Ernesto e abraou-o e beijou-o. No conseguia 
parar de chorar e no conseguiu dizer uma nica palavra. Depois, olhou 
para Incio que tambm a olhava com os olhos cheios de lgrimas. Ela 
se aproximou, dizendo: 
-Meu amigo, voc  quase meu irmo, sei que para voc tambm fui 
motivo de preocupao. Preciso contar tudo o que aconteceu naquela 
noite, mas para isso precisamos voltar para casa, preciso que Vanda e a 
Leonora estejam presentes. 
Incio, confirmando as suspeitas de que Vanda de alguma maneira 
estava envolvida, disse: 
- Ester, no sei o que a Vanda fez contra voc, mas, acredite, eu 
no sabia de nada. Assim que voc nos contar o que aconteceu, terei de 
tomar uma deciso. E a tomarei, nem que para isso eu sofra muito. 
Ela beijou-o, carinhosa, na testa e no rosto, dizendo: 
- No se preocupe, depois de tudo que passei, aprendi que, no 
final, tudo d sempre certo. Deixem-me descansar por um dia, amanh 
retornaremos para casa. 
- No vai ser preciso, a Vanda est aqui. S quem no est e a 
Leonora, mas, se quiser, telefonarei para a Emlia e ela vir. 
Ester se surpreendeu: 
-A Vanda est aqui? 
-Sim, veio comigo, com o Ernesto e com o Daniel. 
360


Longa Espera 
Ela, tmida, sorriu e disse: 
- Ento, j que esto todos aqui, no precisamos mais adiar os 
esclarecimentos. Jurema, Neco, vocs ficaro ao meu lado quando eu 
contar tudo que relembrei? 
-Claro que a gente vai ficar! No  mesmo, Neco? 
-Claro que sim Jurema! Claro que sim! 
Neco pegou a pequena maleta que Ester havia trazido. Seguiram 
andando. A distncia era curta, por isso foram caminhando. Foram 
conversando, perguntando como tinha sido a viagem de Ester. Nenhum 
deles queria falar sobre a sua fuga. 
Dorival, desde que abriu a loja, deu algumas ordens, mas ficou quase 
o tempo todo na porta, olhando para o lado em que eles deveriam 
aparecer. Assim que os viu dobrando a esquina, correu para encontrlos. 
Ignorando os outros, abraou Ester, dizendo: 
- Minha filha! Que bom que veio para c! A gente ficou quase
louco na dvida se voc vinha mesmo!
Ela tambm o abraou muito.
- Obrigada, tio, e desculpe por toda preocupao. Prometo que 
nunca mais vou fugir... 
-Espero que sim, mesmo porque, sabe que no tem motivo. Aqui, 
junto com a gente, tem toda a proteo de que precisa. 
-Sei disso e agradeo. 
-No tem o que agradecer, mas no conte nada, antes de eu chegar. 
A Laurinda est preparando almoo para ns. Vou dar algumas ordens 
para o Chico e vou para casa. Quero saber tudo o que aconteceu, 
contado por voc mesma. 
- No se preocupe, tio, vou esperar. Mesmo porque estou muito 
cansada, a viagem foi longa e cansativa. Antes de conversar, preciso 
tomar um banho. Olhe como estou toda empoeirada! 
- Est bem, pode ir, sabe que l em casa tem um chuveiro muito 
bom. 
Continuaram andando, ela de brao dado com Jurema e Daniel. 
Quando Laurinda abriu a porta e a viu, gritou e, abraando disse: 
-Cida! Voc veio mesmo? Que bom, minha filha. A gente sentiu 
muito a sua falta, mas vamos entrar. A comida est quase pronta! 
361


Longa Espera 
Ester tambm abraou-a e sentiu-se a pessoa mais feliz do mundo 
por ter conhecido aquelas pessoas. 
- Estou feliz por estar de volta. Tambm senti a falta de vocs. 
Jurema, onde est o Rafael? 
- Ele est dormindo no quarto da tia, mas j est na hora de ele 
acordar. Vem comigo, vou lhe mostrar. Ele est lindo! 
-Vou, sim, quero ver como o meu menino est. 
Assim que entraram, Ester viu Messias e Jandira. Ele disse: 
-Dona Ester, minha menina! Que bom que chegou, melhor ainda, 
por ter se lembrado de quem era e agora sabe quem sou, no sabe? 
Ela o abraou dizendo: 
- Claro que sei, s no consigo entender como fui me esquecer 
de pessoas maravilhosas como todos vocs. Como vai, Jandira? Fez 
essa pergunta, por detrs do ombro de Messias que a abraava. Jandira 
estava atrs deles. Nervosa, respondeu: 
- Na medida do possvel estou bem, mas voc sim parece muito 
bem. 
Ela soltou-se de Messias, colocou-se diante de Jandira e, sorrindo, 
disse: 
- Sim, apesar de tudo, estou muito bem. Essa viagem que fiz me 
deu muito tempo para pensar sobre tudo o que aconteceu. Depois que 
eu contar tudo, comunicarei a deciso que tomei. 
-Voc se lembrou de tudo mesmo? 
-Sim, de todos os detalhes. Temos muito para conversar, no ? O 
Incio me disse que a Vanda estava aqui! Onde ela est? 
-Estou aqui. 
Vanda apareceu na porta do corredor que dava para os quartos. 
Continuou: 
-Estou aqui e ansiosa para que voc chegasse. Finalmente, poder 
nos esclarecer o que aconteceu naquela noite. 
-Preciso esclarecer e obter algumas respostas, talvez voc possa me 
ajudar... 
Incio olhou para Vanda que olhou para ele, branca como um 
papel. Sem dizer nada, saiu pela porta que dava para a rua. Ele no 
quis ir atrs dela, percebeu que aquilo que mais temia havia acontecido 
362


Longa Espera 
mesmo. Ela fizera parte da trama, ela fora uma das responsveis pelo 
desaparecimento de Ester. 
Assim que Vanda saiu, Jandira foi atrs dela. Quando chegou  rua, 
viu que ela caminhava em direo da igreja. Gritou: 
-Vanda! Espere! 
Vanda voltou-se e esperou. Jandira se aproximou, perguntando? 
-Para onde est indo? 
-No sei, no conheo nada por aqui, mas ali na frente tem a torre 
de uma igreja, vou at l para pensar um pouco. 
- Vou caminhar com voc. Pare de chorar, agora no tem mais 
jeito, vamos ter de contar tudo. 
- Sei disso, por isso estou desesperada. Sinto que o Incio no vai 
me perdoar. Meu casamento est se destruindo e eu no posso fazer 
nada. Voc sabe o quanto amo Incio. 
-Voc no teve culpa, s fez o que eu mandei. A princpio, nem 
queria! 
- Sei que no, mas concordei e at ajudei. Ele no vai me 
perdoar... 
-Por que est dizendo isso? Sabe que ele ama voc de verdade! 
-Ele me amava, mas assim que souber de tudo, provavelmente no 
me amar mais. Eu devia ter confiado nele e lhe contado tudo. No viu 
que nem veio atrs de mim? Ele j tomou a deciso de me deixar. S 
est esperando Ester contar tudo para fazer isso...
- Talvez ela no conte tudo! Talvez ela deixe de contar a nossa 
participao. Ns nem sabemos se ela na realidade sabe o que aconteceu! 
Ela pode ter dvidas, mas certeza nunca poder ter. Por isso fique calma. 
Agindo assim, da maneira como est agindo,  que levantar suspeitas. 
Vamos esperar para ver o que ela vai contar. Se precisar, daremos a nossa 
verso, at l precisamos manter a calma. 
-No sei, mas, s vezes, sinto que deveria ter contado para o Incio, 
ele saberia o que fazer e as coisas no chegariam aonde chegaram. 
- No sabe o que est dizendo! Mesmo que tivssemos contado, 
o que poderia ter sido feito? Sabe muito bem como aqueles bandidos 
eram perigosos! Se Incio, Ernesto ou o Messias soubessem o que havia 
acontecido, com certeza chamariam a polcia. Obrigariam Leonora 
363


Longa Espera 
a dizer quem eram eles e onde estavam. Mesmo que fossem presos, 
outros comparsas seus viriam atrs de ns, poderiam nos fazer mal ou 
a qualquer um deles. No podamos fazer nada! Estvamos de mos 
atadas! 
- Foi isso o que voc e a Leonora disseram, mas quando ela nos 
contou que eles haviam sido mortos por outros bandidos de outra 
quadrilha, poderamos ter contado. 
-Isso aconteceu poucos dias antes de a Ester voltar. Ela estava sem 
memria, para que relembrar o que havia se passado? Ela estava bem! 
No havia lhe acontecido nada! No sabamos se ela ia recordar. Por 
isso, assim que a encontramos aqui, lhe telefonei e disse para que no 
dissesse nada e fingisse no saber que ela havia aparecido. 
- Quando me disse que ela estava de volta, foi o que fiz, fingi que 
no sabia, apesar de voc ter contado. 
-Ento, est tudo bem. Vamos esperar que ela conte e, se for preciso, 
contaremos o que sabemos, mas se ela no nos envolver, ficaremos 
caladas. Ela est bem, no lhe aconteceu nada. Continuar vivendo a
sua vida e ns a nossa. Se no houver outra maneira, contaremos tudo
e seja o que Deus quiser.
-Est bem, vamos rezar?
Entraram na igreja, ajoelharam-se e comearam a rezar. 
Enquanto isso, na casa de Laurinda, Ester, depois de ver Rafael e 
brincar um pouco com ele, foi tomar banho. Assim que terminou, foi 
para a sala, onde os outros estavam sentados e conversando. Assim que 
Ester entrou, Laurinda disse: 
- Cida, a gente sabe que voc precisa contar o que lembrou, mas 
vou ter que ajudar a Deusa com a comida e o Dorival mandou me avisar 
que no vai poder sair da loja agora. Estava falando para os moos aqui, 
que voc tambm est cansada, por isso  melhor se deitar um pouco, 
tentar descansar, depois do almoo a gente vai ter a tarde toda para 
conversar. O que acha? 
Ela pensou um pouco e respondeu: 
-A senhora tem razo. Estou realmente cansada. Depois do banho, 
fiquei mais cansada ainda. Vou me deitar e depois do almoo conversaremos. 
Vai ser uma conversa difcil e precisaremos de muito tempo. 
364


Longa Espera
-Faa isso, minha filha. No se preocupe, quando a comida estiver
pronta, a Jurema vai acord-la.
Jurema sorriu acenando com a cabea. 
Ester foi para o quarto onde Ernesto havia dormido. Estava nervosa, 
teria de revelar o que havia descoberto. Sabia que seria realmente difcil. 
Olhou para a cama e se deitou. Embora estivesse preocupada e aflita, o 
cansao do corpo foi maior. Adormeceu. 
Ela dormia profundamente, quando Jurema se aproximou. Com 
carinho, tocou em seu ombro. Disse baixinho: 
-Cida, a comida est pronta. J pode se levantar. 
Ester, que estava deitada de lado, se virou dizendo: 
- Est bem, j vou me levantar. Nossa, Jurema, dormi tanto que 
todo o meu cansao parece que foi embora. 
- Isso  muito bom. Sabe que vai ter uma tarde muito difcil. 
A gente est curiosa, com vontade de saber de tudo de que voc se 
lembrou. Ainda bem que no se esqueceu da gente! 
Ester sentou-se na cama e disse, rindo: 
- Como eu poderia me esquecer de vocs? So as pessoas mais 
maravilhosas que conheci em toda a minha vida! Hoje, posso dizer 
isso de verdade, pois me lembrei dela, quase desde que nasci. Eu adoro 
vocs. 
-A gente tambm a adora, mas est na hora de se levantar. Quer 
vestir alguma roupa especial? 
-Quero, sim. No peguei muita roupa quando sa apressada, mas 
fiz questo de trazer um vestido azul. 
-Por qu? 
- Quando o Neco me encontrou, eu estava vestida com um azul, 
no estava? 
-Estava sim, mas o que tem a ver? 
- Quero vestir um igual, ao menos na cor, para me lembrar bem 
daquela noite e no esquecer nada. 
Jurema abriu a maleta que estava no cho perto da cama e tirou o
vestido azul. Com ele na mo, disse:
-Este  mais bonito que o outro, mas a cor  a mesma.
-Acho que foi por isso que, quando o vi em cima da cama, me
365


Longa Espera
recordei daquela noite.
-Se a gente soubesse disso antes, voc ia andar com o vestido azul 
todo o tempo. 
-No sei, mas acho que no era a hora. No sei por que, mas acho 
que a hora  esta.
- mesmo, a gente no sabe nada da vida, no  mesmo? A vida da
gente vai de um jeito, de repente muda tudo. 
Ester levantou-se, beijou o rosto de Jurema. 
-  isso mesmo. A gente no sabe nada da vida...voc me ajuda a 
me vestir?
-Claro que ajudo. 
Em poucos minutos, Ester estava vestida e Jurema escovava seus 
cabelos. Quando ela ficou pronta, Jurema a olhou de cima a baixo e, 
rindo, disse: 
- Galega! Como voc  bonita! Vestida assim, ficou mais bonita 
ainda! Vamos, o doutor vai ama-l mais ainda. 
Saram abraadas e foram para a cozinha, onde todos j estavam 
sentados, em redor da mesa. 
366

 Difcil Deciso 
Almoaram. Em seguida foram para a sala de visitas. Sentaram-se 
nos sofs, Ester colocou-se em uma posio de onde poderia ver a todos, 
que a olhavam sem esconder a imensa curiosidade que sentiam. 
Assim que todos se acomodaram, ela comeou a falar. 
-Ao ver o vestido azul sobre a cama, recordei-me daquela noite e 
de tudo o que havia acontecido antes dela. 
Olhou para Vanda e Jandira, depois para os outros, continuou: 
-O que vou lhes contar vai ser difcil, pois eu mesma no consigo 
acreditar que tenha acontecido. Eu, Ernesto e o Incio nos dvamos 
muito bem. ramos como irmos, at que, um dia, sabendo que Vanda 
estava em uma situao difcil, levei-a para morar em nossa casa. No 
princpio, tudo correu bem, mas ela foi se envolvendo com Incio, a 
ponto de um dia ele me confessar o seu amor por ela. Fiquei revoltada, 
pois, s naquele momento, percebi que o amava. Na realidade, eu, sem 
perceber, sempre o amara. No tive coragem para lhe confessar o meu 
amor, mas tentei fazer com que ele mudasse de idia. Foi em vo, eles 
se casaram. 
-Nunca soube disso! 
- Eu sei, Incio, que nunca soube, e jamais saberia se aquilo 
no tivesse acontecido. No dia do casamento, fiz o possvel para me 
mostrar feliz, mas, na realidade, sentia um dio profundo por aquela 
mulher a quem eu havia ajudado, e recolhido e que me pagava com 
uma traio. 
-Eu tambm nunca soube que voc o amava! 
-Tambm sei disso, Vanda. Hoje, entendo a sua atitude, mas, na 
poca, para mim, voc no passava de uma aproveitadora, que s estava 
interessada no dinheiro dele, quer dizer, no nosso. Tudo ficou pior 
quando papai morreu, fiquei mais revoltada ainda. 
Ester estava emocionada, tinha dificuldade para falar. Precisava 
parar. Todos se entreolhavam, espantados com aquilo que estavam 
ouvindo. Ela continuou: 
-A minha revolta foi maior, quando percebi que, alm de ter ficado 
com o homem que eu amava, ficaria tambm com parte da herana do 
367


Difcil Deciso 
meu pai, pois ele o e pai de Incio eram scios no hospital. Eu precisava 
impedir que aquilo acontecesse, mas no sabia como, at que, um dia, 
ao entrar na cozinha, Leonora estava vendo um programa de televiso, 
desses que s falam de crimes. Ela estava chorando, perguntei: 
-Leonora! Por que est chorando? 
-Ela, enxugando as lgrimas, respondeu: 
-Estou vendo na televiso que um amigo meu de infncia foi morto 
pela polcia. No sei como ele se tornou um bandido. Crescemos juntos...
-No dei muita ateno. Aquilo no tinha nada a ver com a minha 
realidade. Eu tinha dinheiro, o que, para mim, naquela poca, era 
tudo o que algum precisava para ser feliz. Fui para o meu quarto. 
L, deitada, ruminando o meu dio, fiquei pensando em uma maneira
de me vingar. No sei por que me lembrei de Leonora e do que havia
acontecido com o seu amigo. Fui at a cozinha novamente. Ela estava
lavando a loua do jantar, eu disse: 
-Leonora, venha at o meu quarto, preciso fa lar com voc. 
-Agora no posso, dona Ester, estou terminando de lavar a loua e, se 
a dona Emlia vir que no terminei, ela vai brigar comigo. 
- A contragosto eu disse: 
- Est bem, assim que terminar, venha, o assunto que tenho para 
conversar com voc  grave. 
-Notei que ela ficou apavorada, pois eu sabia que, algumas vezes, 
ela pegava escondido uma de minhas roupas para sair. Isso no me 
incomodava, pois eu tinha muitas e, assim que descobria que ela havia 
pegado, alguns dias depois eu as dava para ela. Meia hora depois, ela, 
nervosa, entrou em meu quarto. Eu estava deitada na cama. Assim que 
ela entrou, puxei o travesseiro, sentei e me encostei sobre ele. Olhei 
bem firme para ela e disse: 
-Leonora, o que vamos conversar deve ficar s entre ns duas.  um 
assunto muito grave, por isso, no pode ser comentado com ningum e, se 
fizer o que vou lhe pedir, ser muito bem recompensada. Alm de lhe dar 
uma quantidade de dinheiro, que voc nunca imaginou ter em sua vida, 
lhe darei roupas, muitas roupas, no s as que voc escolher no meu
guarda-roupa,
mas outras que escolher em alguma loja...
-Eu sabia que ela gostava das roupas que eu vestia. Sabia tambm 
368


Difcil Deciso 
que era ambiciosa. J imaginava qual seria a resposta e no foi outra. 
-A senhora precisa me dizer que assunto  esse, e prometo que no 
conto nada para ningum. 
- Est bem, vou dizer. Voc falou que o rapaz que morreu era seu 
amigo, quero saber se conhece outros bandidos como ele. 
-Ela arregalou os olhos, dizendo: 
- Conheo uma poro, mas para que a senhora quer saber? 
- Quero que voc entre em contato com algum deles e diga que preciso 
que me faa um servio. 
- Que espcie de servio? 
-Por enquanto isso no tem importncia. Fale com ele e, se aceitar, 
marcaremos um encontro, a  direi que servio  esse. 
-Est bem, vou fa lar com um que conheo e que tambm  meu amigo 
de infncia. Assim como esse que morreu hoje, tambm se desviou e virou
bandido, faz parte de uma quadrilha muito perigosa.
Ester parou de falar, tomou um pouco de gua que havia em uma 
jarra sobre a mesinha de centro. Os demais no estavam acreditando
naquilo que ela dizia. Daniel quis interromp-la, mas ela, com as mos,
fez um sinal dizendo que no e continuou:
-Preciso contar tudo, pois, se hoje quero recomear a minha vida, 
no podem mais existir mentiras. Depois do tempo em que vivi aqui 
e conheci as pessoas que conheo hoje, no sou a mesma pessoa de 
antes. Todo esse tempo serviu para me ensinar que o dinheiro pode ser 
bom, mas pode tambm corromper a ns e aos outros. Trs dias depois, 
quando eu voltava do hospital, ela me disse: 
-Dona Ester, eu j falei com aquela pessoa que a senhora pediu. Ele 
ficou interessado e disse que a senhora pode marcar o encontro para quando 
quiser. 
Sorri, dizendo: 
-Venha at meu quarto. 
-Ela me atendeu prontamente. J no quarto, eu disse: 
- No posso encontr-lo em lugar algum. Vou lhe dizer o que quero 
que ele faa. Diga-lhe e, depois, me conte se ele aceitou. Diga que pagarei
muito bem. 
-Est bem, o que a senhora quer que eu diga? 
369


Difcil Deciso 
-Diga que preciso que ele desaparea com algum e que pagarei o que 
ele quiser. 
Ernesto, ao ouvir aquilo, no suportou mais. Incio olhou para 
Vanda que chorava sem parar. Ernesto, gritando, disse: 
-Ester! Est nos dizendo que encomendou a morte de algum? Da 
Vanda? 
Ela, plida, respondeu com a voz firme: 
-Foi isso mesmo o que fiz. Leonora se tornou uma visita constante 
em meu quarto. Mandei-a dizer para ele que ns quatro iramos para 
Salvador, dei a data em que chegaramos e a que retornaramos e o 
nome do hotel em que ficaramos. Eu s no sabia o nmero do quarto, 
por isso, naquele dia em que eu e voc, Ernesto, samos, e que a Vanda 
e o Incio foram para outro lugar, eu disse que ia ligar para a Emlia, 
menti. Liguei para Leonora e confirmei o nmero dos quartos em 
que estvamos. Passei todo o meu plano para ela, que transmitia a ele. 
Embora ela dormisse em casa, fiz com que inventasse para Emlia que 
sua me estava doente, por isso, ela precisaria ir para casa todos os dias. 
Ela ia, levava os meus recados e trazia os dele. Ele mandou me dizer 
que no poderia fazer o servio sozinho, que precisava ir para Salvador 
com um companheiro. Concordei. Alm do dinheiro combinado, dei 
uma quantia para que pudessem viajar de avio e se hospedarem em 
um hotel perto daquele em que ficaramos. Para que no houvesse 
confuso, eu disse que era loura e estaria vestida com um vestido 
azul e que Vanda era morena, que s oito e meia daquele sbado, ela 
estaria andando pelo corredor. Escolhi um quarto que ficava junto ao 
elevador de servio, por onde as malas dos hspedes eram levadas pelos
mensageiros at a garagem. s oito e meia, eles deveriam pegar a Vanda
e, com um algodo embebido em ter, deveriam lev-la dali e darem 
um fim nela. Perguntaram se era para mat-la, eu respondi que queria 
que ela desaparecesse da minha vida. 
Jurema, assustada, disse: 
- Cida, pelo amor de Deus, diga que est brincando, que nada 
disso  verdade! Essa no  a Cida que a gente conhece! No  mesmo, 
no  Neco? 
-Isso mesmo, Jurema! Essa  outra! Eu no conheo essa no!
370


Difcil Deciso
Incio, tambm estupefato, no conseguiu dizer nada, apenas
levantou-se, e sentou-se perto de Vanda, abraando-a com fora, como
se a quisesse proteger de toda aquela maldade. Ernesto olhava para
Ester, com os olhos cheios de gua, no conseguia acreditar que a sua
irm querida havia planejado e executado um crime como aquele. A
emoo era tanta, o desapontamento era tanto, que ele no conseguiu
dizer uma palavra. Ester, ignorando o que Jurema disse, continuou
falando, esforando-se para manter certa firmeza na voz:
-Ernesto, sei que est desiludido com tudo o que estou contando,
sei que no esperava por isso, mas preciso continuar. Havia combinado
com ele que, naquela noite, s oito e meia, Vanda estaria andando no
corredor. Quando voc foi ao meu quarto para irmos jantar, eu, de
propsito, estava atrasada e lhe disse para descer com o Incio e pedir
para a Vanda me esperar, pois eu tinha um presente para dar a ela. Voc
se lembra disso?
Sem poder responder, ele apenas acenou a cabea. Ester continuou:
-A minha inteno era fazer com que ela s sasse do quarto s oito
e meia. Ns sairamos juntas, eu a mostraria para eles, que a levariam,
e eu desceria e lhes perguntaria onde ela estava. Quando eram oito e
vinte e cinco, sa do meu quarto e fui at o dela, mas ela no estava l.
Procurei no banheiro, em todo o lugar, mas no a encontrei. Assim
que sa, senti um cheiro forte e desmaiei. Mais tarde, fui espancada
por eles dois. Em vo, tentei dizer que estavam enganados, que haviam
pegado a pessoa errada, porm, no acreditaram e me bateram muito,
at me deixarem desacordada. Acredito que houve alguma falha nas
informaes trocadas entre Leonora e os bandidos... o resto vocs j
sabem, s acordei no momento em que o Neco me encontrou.
Ela se calou, eles entreolharam-se e nenhum deles sabia o que dizer.
Incio, parecendo se lembrar de algo, disse:
-Vanda, voc sabia que tudo aquilo ia acontecer? Por isso, naquela
tarde pediu para ir ao cabeleireiro, tingiu seu cabelo de louro e comprou
um vestido azul?
Vanda olhou para Jandira, que disse:
- Acho que devemos contar tudo. Queramos evitar que voc,
Ester, ficasse mal diante da sua famlia e de seus amigos. Por isso, nos
371


Difcil Deciso
calamos, mas sempre soubemos o que havia acontecido naquela noite.
A nossa inteno era que, estando as duas de azul e sendo louras, eles 
no saberiam qual de vocs deveriam seqestrar e desistissem. Quando 
voc desapareceu, desconfiamos do que havia acontecido, mas fomos 
obrigadas a nos calar, com medo dos bandidos, que ameaaram a ns, 
ao Ernesto, ao Incio e at a voc, Messias. Quando eu e o Messias a 
encontramos aqui, nesta cidade perdida no fim do mundo, e ao ver 
que estava sem memria, telefonei para Vanda dizendo-lhe que, j que 
voc no se lembrava e estava bem, no deveramos contar nada. Voc 
voltaria a sua vida normal, se casaria e tudo ficaria bem. Quero que 
saiba que sofri muito com a sua atitude, pois a criei desde pequena. 
Voc e o Ernesto so os filhos que nunca tivemos, mas eu no podia 
deixar voc cometer uma maldade como aquela. Gostei da Vanda desde 
que ela chegou em casa, muito mais por saber o quanto ela gostava de 
voc e era agradecida por tudo o que tinha feito por ela. 
Incio perguntou para Jandira: 
-Como vocs ficaram sabendo de tudo isso? 
- Em uma manh, eu estava passando pelo corredor. Ouvi Ester 
e Leonora conversando. Eu j estava intrigada h algum tempo, pois 
Ester nunca foi de dar muita ateno para os empregados. Parei atrs 
da porta e fiquei ouvindo o que elas conversavam. Ester estava dando 
os ltimos detalhes para Leonora. Horrorizada, percebi o que estava 
acontecendo, conversei com a Vanda dizendo que iria descobrir tudo. 
Naquele mesmo dia, chamei Leonora no meu quarto. Ela foi achando 
que precisava de alguma arrumao. Assim que chegou, eu lhe disse: 
-Leonora, sei do plano da Ester para desaparecer com a Vanda, quero 
que me conte como e onde vai ser. 
-Ela, tremendo muito, tentou negar, mas eu a ameacei e fiz com 
que me contasse, dizendo que se no contasse eu a levaria at a delegacia 
e diria que ela era a mandante do crime. Ela, com medo, contou tudo. 
Eu prometi que Ester nunca ficaria sabendo, que eu s estava tentando 
proteger a Vanda de perder a vida e a Ester de ir para a cadeia. Ela relutou 
muito, mas eu lhe prometi que, se conseguisse salvar a Vanda, faria com 
que Ester no a mandasse embora e que ela continuaria trabalhando em 
casa. Ela, sem alternativa, contou tudo, deu at o nome dos bandidos e 
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Difcil Deciso 
me disse onde eles moravam. Faltavam dois dias para a viagem. Assim 
que ela saiu, eu respirei fundo, pois no estava acreditando naquilo 
que ouvira. Depois, telefonei para Vanda e lhe contei tudo. Planejamos 
que ela pintaria o cabelo e compraria o vestido azul e que no ficaria 
sozinha. Foi o que ela fez, assim que Ernesto lhe disse que Ester ia lhe 
trazer um presente. Ela disse: 
- No vou esperar; vamos descer juntos. Ela me dar l no 
restaurante. 
- Ela desceu ao lado de Ernesto e do Incio. A o plano de Ester 
comeou a falhar, pois os bandidos, ao verem Vanda acompanhada 
pelos dois e em seguida verem Ester saindo sozinha, julgaram que ela 
fosse a Vanda. Eles se confundiram e levaram Ester por engano. Depois 
eles obrigaram a Leonora a lhes dar o dinheiro que faltava. Eu e a Vanda 
arrumamos o dinheiro e mandamos para eles. Eles disseram que se 
contssemos para algum e se a polcia fosse atrs deles, nos matariam 
ou a um de vocs. Ficamos com medo e nos calamos. 
Ester, chorando muito, disse, olhando primeiro para Ernesto, depois 
para Incio e por ltimo para Daniel: 
- Esto vendo por que tive de fugir? De vir para c? Assim que 
descobri, fiquei envergonhada. Sabia que as nicas pessoas a quem eu 
poderia contar e que talvez me aceitassem eram Jurema, o Neco, a tia 
Laurinda e o tio Dorival, porque conheceram a outra Ester, aquela sem 
memria, que viveu ao lado deles por tanto tempo e que, com certeza, 
no  a mesma que est aqui agora, lhes contando tudo isso. 
Jurema se levantou, abraou-a e, chorando, disse: 
-Cida... a gente conhece, sim, e sabe que voc no  essa malvada, 
no! Se foi um dia, hoje no  mais!
Olhou para os tios e para Neco. Continuou:
- No  mesmo? Esta aqui sim  a nossa Cida. Pode ficar aqui 
quanto quiser. 
-Obrigada, Jurema, e a todos vocs. 
Passou o olhar por todos. Parou nos de Vanda e depois nos de 
Jandira. 
- Sei que o que fiz no tem perdo. Sei que jamais poderei ter a 
amizade de vocs novamente. Incio, pensei que amava voc, mas hoje 
373


Difcil Deciso 
sei que isso nunca aconteceu, o que sentia por voc, poderia ser tudo, 
menos amor. S conheci realmente o amor quando o encontrei, Daniel. 
O nosso amor foi puro e maravilhoso. Voc me amou mesmo sem saber
quem eu era e de onde vim. Hoje, me arrependo, sinceramente, de
tudo o que fiz, mas sei que  tarde demais... por isso, agora, vou at
o quarto e amanh bem cedo partirei para um lugar qualquer. Preciso 
de um local para refletir sobre tudo o que fiz e tentar encontrar paz, a 
mesma paz que eu sentia quando era apenas Cida. Em algum lugar a 
encontrarei. Isso , se voc, Ernesto, me der um pouco de dinheiro, 
pois no tenho nenhum. Gastei aquele que me deu vindo para c. S 
preciso de um pouco. No quero nada do que papai nos deixou, porque 
no o mereo. 
Ernesto ainda estava atnito. Chorando, abaixou a cabea. Ela 
levantou-se e, de cabea baixa, se encaminhou para a porta que dava no 
corredor, onde os quartos estavam. Antes de chegar nela, ouviu a voz 
de Daniel: 
-Cida, espere. 
Com lgrimas nos olhos,virou-se para ele, que continuou: 
- No sei para onde voc pretende ir, mas para onde for, eu irei 
tambm. Essa histria que nos contou  terrvel, mas no tem nada a ver 
com a Cida que conheci e pela qual me apaixonei e estou apaixonado 
ainda. No me importa o que voc fez no passado. Hoje, sei que  
diferente. Sei que me ama e que eu amo voc. Vamos continuar de onde 
paramos. No vou deix-la nunca! 
Ela continuou olhando para ele. Estava paralisada. Tambm no 
conseguia dizer qualquer coisa, seu corao batia forte. Vendo que ela 
no se movia, ele atravessou a sala e caminhou em sua direo. Abraou-a 
forte, aos poucos ela foi se entregando quele abrao. Esquecendo-se 
de que estavam diante de tantas pessoas, beijaram-se ardentemente. 
Depois, ela se afastou, dizendo: 
- Tambm amo voc, no sei como seria a minha vida sem a sua 
presena, mas no mereo o seu amor. 
- Vamos recomear. O nosso amor  mais forte que tudo, no 
importa o passado. Tudo o que foi feito, est feito e no podemos 
consertar, mas, daqui para frente  que interessa. Sei que voc mudou e 
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Difcil Deciso 
a amo muito mais por isso. Pela coragem que teve em nos contar tudo. 
Poderia ter continuado escondendo. No precisava contar a ningum 
que havia recuperado a memria. Mas preferiu ser honesta. Amo voc e 
nunca me afastarei nem permitirei que se afaste de mim. 
Ela, agora, chorava copiosamente, no conseguia dizer uma palavra, 
apenas aconchegou-se nos braos dele. Ficaram assim, at ouvirem a 
voz da Vanda. 
- Ester, quando a conheci, voc foi uma luz que iluminou o meu 
caminho, me deu abrigo e carinho. Nunca imaginei o que voc sentia 
pelo Incio, se soubesse, jamais teria me aproximado dele. Sofri muito 
quando a Jandira me contou o que voc estava planejando. Daniel 
tem razo, se voc continuasse dizendo que no havia recuperado a 
memria, eu e a Jandira nunca falaramos nada. Procuraramos ser sua 
amiga novamente, pois  isso que sou, sempre fui e quero continuar 
sendo. No vou lhe perdoar porque, no final, voc foi quem mais sofreu. 
Voc foi a sua prpria vtima. No quero que nos abandone. Quero 
que continue ao nosso lado. Vamos passar uma esponja em tudo o 
que aconteceu. Sei que hoje tudo mudou. Voc encontrou o verdadeiro 
amor e, por isso, poderemos continuar daqui para frente. 
Enquanto Vanda falava, Ester continuava abraada em Daniel. 
Assim que ela terminou de falar, caminhou na direo de Ester. Daniel 
soltou-a de seus braos e as duas trocaram um abrao sincero. Choravam. 
Ester por arrependimento, e Vanda por perdo e amizade. 
Ernesto tambm se aproximou dela, dizendo: 
-Minha irm, como sofri com a sua ausncia! Nunca imaginei que 
fora isso o que se passara, mas, de qualquer maneira, estou feliz por lhe 
ter de volta. Se Duarte e Emlia estivessem aqui, diriam que tudo foi 
uma lio que deveramos aprender. Acredito que tenhamos aprendido 
mesmo. Eles tambm diriam que estamos resgatando erros passados. 
No sei se existe mesmo uma outra vida, mas, se existir, lhe garanto 
que sempre a quis muito bem. Se a Vanda, que foi o alvo do seu dio, 
est lhe perdoando e propondo amizade, quem sou eu para no fazer 
o mesmo? Voc  a minha irm querida. Sei que teve esse deslize, mas 
que sempre foi boa. Vamos, sim, tentar esquecer o passado e recomear. 
Tenho certeza que conseguiremos. 
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Difcil Deciso 
Tambm se abraaram. Incio no disse nada, apenas a abraou. Ele 
sentia o mesmo que os outros, s que ainda estava um pouco confuso. 
Jandira e Messias tambm a abraaram. Jurema, Neco e os tios ficaram 
de longe vendo aquela cena de amor e perdo. Assim que todos se 
cumprimentaram, Jurema disse: 
-Cida, no vou lhe perdoar, porque nunca conheci essa tal de Ester. 
Voc  a minha amiga, que me trouxe de volta para a vida e que ajudou 
o meu Rafael a nascer.  s essa que a gente conhece-olhou para Neco 
e para os tios e perguntou: -No  mesmo? 
Laurinda, Neco e Dorival no responderam. Apenas se aproximaram 
de Ester e a abraaram. A paz voltou entre eles, porm o clima estava 
pesado. As mulheres choravam, os homens faziam fora para conter as 
lgrimas. Laurinda, para quebrar aquele clima, disse: 
- Gente! Conversamos tanto que nem vimos o tempo passar. 
Acho melhor a gente ir l para a cozinha e comer um lanche. Depois, 
a Jurema e a Cida vo me ajudar com a comida da noite, hoje quero 
comer muito! 
Eles olharam para ela e entenderam qual tinha sido a sua inteno. 
Jurema e Ester a acompanharam at a cozinha. Os demais continuaram 
conversando. Tomaram o lanche. Mais tarde, as mulheres foram preparar 
o jantar e os homens ficaram jogando cartas. Quem passasse por l no 
poderia imaginar tudo o que havia acontecido naquela casa.
A noite, aps o jantar, Ester e Daniel foram para a casa dele. Assim
que chegaram, ela disse: 
- Sei que todos me perdoaram, sei que o perdo foi sincero, mas 
no poderei mais voltar para casa. Conheci uma nova vida aqui e, sei 
hoje, que tenho dinheiro e que sou mdica. Sei tambm o quanto posso 
ajudar a gente desta cidade. Conheo os seus sonhos, a sua vontade de 
se especializar e de ter o seu prprio consultrio. Por isso, estou lhe 
liberando de qualquer obrigao que julgue ter para comigo. 
Ele olhou para ela e, admirado, disse: 
-No sei do que est falando! Meu sonho  ficar ao seu lado. Hoje, 
no me importa mais me especializar em nada. Se voc pode ajudar 
esta gente, eu tambm posso! Se voc tem dinheiro, eu tambm tenho. 
Podemos, sim, ficar aqui e trabalharmos juntos. No precisamos de um 
376


Difcil Deciso 
salrio alto, precisamos exatamente daquilo que a Prefeitura pode nos 
pagar. Para ser sincero, no gostei muito da cidade. L  tudo muito 
complicado. Prefiro a paz deste serto. 
Ela olhou para ele e, sorrindo, disse: 
- Voc no est dizendo a verdade! Est somente querendo me 
agradar! Mas no acho justo sacrificar os seus sonhos para ficar ao meu 
lado. Acho que voc tem de ir, sim, fazer a sua especializao. Eu ficarei 
aqui esperando por voc e trabalhando no pronto-socorro. Quando 
voltar, nos casaremos e, como dizem no fim das histrias de carochinha,
viveremos felizes para sempre.
- Se vamos ficar morando aqui, no preciso de especializao 
alguma. Eu a faria somente para ter um diploma, mas tudo o que eu 
preciso saber, aprendi no dia a dia na emergncia do hospital. No 
quero me separar de voc, nem por mais um dia. Alm do mais, se o 
Duarte estivesse aqui, diria que a nossa misso na Terra  continuarmos 
aqui, nesta cidade perdida no fim do mundo. Portanto, se essa  a nossa 
misso, vamos cumpri-la e posso lhe garantir que, da minha parte, ser 
com muita felicidade, porque estamos juntos e, juntos, estaremos felizes 
em qualquer lugar do mundo, porque nos amamos! 
Abraaram-se e beijaram-se. 
Voltaram para a casa de Dorival. Ao entrarem, foram para a cozinha, 
onde Laurinda, Jurema, Vanda e Jandira conversavam e tomavam caf. 
Pelo barulho, notaram que os homens estavam do lado de fora da 
casa. Realmente estavam sentados em uma mesa que havia embaixo de
um coberto, jogavam cartas e tomavam cerveja. Ester se aproximou,
perguntando para Laurinda:
-Esto todos ali fora? 
- Esto. S o Neco, est no quarto fazendo o Rafael dormir, o 
doutor Ernesto, o doutor Incio, o Dorival e o Messias esto jogando 
cartas l fora, mas por que est perguntando isso? 
- Eu e o Daniel tomamos uma deciso e queremos comunicar a 
todos. 
Jurema perguntou, curiosa: 
-Cida, que deciso foi essa? 
-Vamos l fora, contaremos para todos. 
377


Difcil Deciso 
-Ento, espera a, vou l no quarto chamar o Neco. 
Levantou-se e saiu apressada da cozinha. 
Eles foram para fora. Quando chegaram, Ernesto estava 
embaralhando as cartas para o incio de uma nova partida. Ester disse: 
-Ainda bem que no vamos interromper a partida. Eu e o Daniel 
queremos lhes comunicar uma deciso nossa. 
Todos olharam curiosos para os dois. Jurema e Neco chegaram, 
Rafael estava dormindo Ester disse: 
- Eu e o Daniel resolvemos que no voltaremos mais para So 
Paulo, ficaremos aqui nesta cidade, trabalhando no pronto-socorro. 
-No podem fazer isso! Precisamos de vocs no hospital! 
- No precisa, no Ernesto, existem muitos mdicos que podero 
trabalhar no hospital. Aqui no, a cidade  pequena, nenhum mdico 
quer vir para c sem um bom salrio. Eu e o Daniel no precisamos de 
dinheiro, mas a populao desta cidade precisa muito de um mdico. 
Por isso decidimos ficar aqui. 
-Ester, no pode fazer isso! Tem uma vida muito boa l na sua casa. 
Como poderia viver aqui? 
-Vanda, a verdadeira vida boa, eu conheci aqui nesta cidade e com 
meus amigos. A riqueza e o conforto no me atraem mais. Aqui tenho 
amigos, Daniel, e uma cidade inteira para me paparicar. No sei se 
sabem, mas o mdico em uma cidade de interior  considerado um 
rei.
-Voc tem certeza dessa deciso que est tomando? No est sendo 
levada pelos acontecimentos? 
-No, Incio, quando fugi para c, a minha inteno j era essa. 
No sabia que viriam at aqui. Sei o quanto esta cidade precisa de um 
mdico. Ficaremos aqui. 
- Louvado seja Deus! Que bom que vo ficar. A gente precisava 
mesmo de um mdico e agora vai ter dois! No  bom mesmo, Neco? 
Neco no respondeu, apenas sorriu satisfeito. 
-Est bem, se acha que ser melhor, fique, mas sabe que, a qualquer 
momento, poder voltar. 
- Est preocupado, porque no sabe o que  viver aqui, Ernesto. 
Eu sei, e gosto. 
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Difcil Deciso 
-Quando a seca vier? Quando a cidade ficar quase morta? Quando 
todos tiverem que partir? Vai ainda achar bom viver aqui? 
-Sei que no vai ser fcil, Neco, mas conseguiremos sobreviver, e a 
sim, para aqueles que insistirem em ficar aqui, nas suas casas, a cidade 
vai precisar mais de mdicos. Alm do mais, no sei o preo de um 
poo artesiano Ernesto, voc poderia ver e nos dizer, talvez possamos 
mandar fazer um ou dois, assim, quando a seca chegar, no ficaremos 
totalmente sem gua. 
- Sei que no mudar de idia. Est bem, assim que voltarmos, 
procurarei saber o preo do poo e faremos um, dois ou mais. J que  
isso que quer. 
- Obrigada, meu irmo. J que a minha misso  essa, tenho que 
cumpri-la bem. Preciso lhe pedir outra coisa, Leonora s cumpriu 
minhas ordens, ela  sim, ambiciosa, mas  uma boa moa. Por favor, 
no a castigue, nem a mande embora. Ela precisa do trabalho. 
- Est bem, quando chegar em casa, conversarei com a Emlia 
e falarei do seu pedido. Ela saber o que fazer com Leonora. Voc a 
conhece o suficiente para saber que ela lhe dar uma bronca e depois a 
mandar trabalhar. Falando em Emlia, precisamos telefonar e contar 
que voc est aqui e bem. Ela deve estar aflita! 
-Pode usar o telefone, doutor. 
-Obrigado, dona Laurinda, mas acho melhor Ester falar com ela. 
-Ester sorriu. Foi para a sala e telefonou para Emlia, dizendo que 
estava bem e a convidando para passar frias em Carim. Emlia suspirou 
aliviada ao saber que tudo estava bem e, em pensamento agradeceu a 
Deus. Ester no lhe contou detalhes, mas ela pde perceber, por sua 
voz, que estava feliz e era isso que lhe importava. 
-J que est tudo acertado, eu e a Ester iremos at a fazenda do 
meu pai, quero que ele conhea a sua futura nora. Sei que ele vai querer 
que o casamento seja realizado l, portanto j esto todos convidados. 
Ele tambm no vai entender quando eu lhe disser que vou continuar 
aqui, sabia que minhas intenes eram outras, mas, na realidade, ele 
sempre quis me ter por perto. Agora a sua vontade ser realizada, estou 
apenas a quatro horas da fazenda. 
-Jurema, acho bom a gente ir dormir, a gente tem que levantar 
379


Difcil Deciso 
cedo, tem muito trabalho l no stio. J que a Cida vai ficar por aqui, 
voc pode deixar a conversa para depois. 
-, Neco,  isso mesmo. A gente precisa dormir. 
- Boa-noite, Cida, se amanh quando eu for embora, voc ainda 
estiver dormindo, v at o stio para a gente conversar mais. 
Ester beijou-a, dizendo: 
-Irei sim, temos muito para conversar. 
-Vanda, acredito que ns tambm deveramos ir dormir, amanh 
bem cedo teremos que pegar a estrada de volta. 
Jurema e Neco despediram-se. Foram para o quarto. 
Vanda e Incio tambm foram para o quarto. Ela percebeu que ele 
estava triste e pensativo. Em p ao seu lado, junto  cama, perguntou: 
-Incio, por que est to pensativo e triste? 
-No consigo me perdoar por ter duvidado de voc, por ter julgado
que poderia ter algo a ver com o desaparecimento da Ester.
-Voc no teve culpa, eu sim, deveria ter confiado no nosso amor 
e lhe contado tudo, mesmo antes de acontecer. Fiquei com medo, pois 
ela poderia dizer que tudo era mentira, que eu estava inventando. Temia 
que voc no acreditasse que ela seria capaz de imaginar e executar um
plano como aquele. Foi por isso que, a princpio, me calei e depois
continuei calada, com medo do que aqueles bandidos pudessem fazer
contra ns todos.
-Voc realmente errou em se calar, mas eu, conhecendo-a como 
conheo, nunca poderia duvidar da sua integridade. No consigo me 
perdoar... 
-O importante  que tudo foi esclarecido e que o medo que sentia 
ao pensar que voc pudesse descobrir e no me perdoar terminou. 
Agora, est tudo bem e poderemos continuar a nossa vida. Tenho s 
mais uma coisa para lhe falar. No quis lhe dizer antes, mas h uma 
semana, obtive a confirmao de que estou grvida. 
Ele perguntou, admirado: 
-Por que no me contou antes? Sabe o quanto desejo um filho? Por 
quanto tempo estamos tentando? 
- Quando descobri, soube pela Jandira que Ester ia voltar, no 
sabia o que ela iria dizer, preferi esperar, mas agora que tudo terminou, 
380


Difcil Deciso 
j posso lhe contar. Estou feliz e sei que voc tambm est. O nosso 
amor foi mais forte que tudo. 
Abraando-a com carinho, disse:
-Amo muito voc...
Vicente fez um sinal com as mos para que os pais de Ester, Irene, 
Lencio e Durval sassem do quarto. Durante todos aqueles dias, 
acompanharam Ester na sua viagem. Foram para o quintal da casa de 
Dorival, sentaram-se embaixo do p de limo, onde Laurinda se sentava 
quando queria pensar. Feliz, Vicente disse: 
-Agora, sim, a nossa misso terminou. Podemos voltar para casa e 
eles nunca sabero a enorme luta que foi travada por ns para que tudo 
terminasse bem. 
- Entre todos os envolvidos, s Jurema e Neco tomaram parte da 
vida anterior de Ester, Raimundo e Isaura no renasceram com ela. 
Daniel a ama muito. Como se explica isso? 
- H vrias encarnaes, eles esto tentando se encontrar, ela veio 
sempre cercada de amigos, mas cometeu o mesmo erro de traio e 
suicdio. Na encarnao anterior, se ela no tivesse se suicidado por 
causa do Raimundo, teria encontrado Daniel, se casariam e seriam 
felizes, vivendo o que haviam escolhido, mas ela novamente fraquejou 
e se suicidou. Ele seguiu por outros caminhos e regressou para casa 
vitorioso. Quando retornou, encontrou-a convalescendo-se, pois ficara 
muito tempo no vale, perdida. Havia sido resgatada h pouco tempo. 
Conversaram, resolveram que nasceriam juntos novamente, e, quem 
sabe, dessa vez conseguissem ficar juntos. Ela novamente cometeu o 
erro de traio, mas dessa vez, conseguiu se redimir e evitar o suicdio. 
Por isso, ficaro juntos e cumpriro a misso que j, por muitas vezes, 
foi adiada. Seus amigos iniciais, embora estejam sempre por perto, se
preciso, iro socorr-la. Entre eles, est voc, Irene, que sempre foi sua 
amiga. Ela ficou para trs. Por isso, outros vieram, que ainda tinham 
algo para resgatar e suas prprias misses para cumprir. Dispuseram-se 
a renascer e a ajud-la. Foi o caso de todos os outros, inclusive Vanda. 
Finalmente, tudo terminou bem, agora seguiro seus caminhos e Deus 
queira que tambm voltem para casa, vitoriosos, Precisamos agradecer 
a Deus, por esta oportunidade que nos deu. Alm de a ajudarmos, 
381


Difcil Deciso 
aprendemos muito tambm. 
Irene abaixou a cabea. Ele continuou: 
- Irene, sua experincia foi importante para o nosso aprendizado. 
Sabe que no cai uma folha da rvore sem que Deus saiba ou permita. 
Se aquilo aconteceu com voc, foi porque alguns de ns ou todos 
precisvamos aprender. Por isso, agradeamos a Deus por nossos erros, 
pois  atravs deles que aprendemos. 
- Felizmente, conseguimos ajudar estes nossos irmos para que 
tudo terminasse bem. O que faremos agora? 
-Agora, voltaremos para casa. Outros viro e se encarregaro de 
dar a eles toda a assistncia de que precisam. 
Francisco, o pai de Ester, suspirando, disse: 
-Nunca estamos sozinhos mesmo! Mas por que no podemos ficar 
aqui com eles? 
-Poderemos voltar quando quisermos, mas o nosso trabalho no  
de guardies. Somos chamados sempre que precisarmos enfrentar uma 
batalha de amor, como essa que enfrentamos aqui, com Raimundo. 
Voc sabe que todos os espritos, inclusive ns, temos os nossos "anjos 
da guarda." Por isso, precisamos voltar para casa. Daqui a trs noites, 
quando todos estiverem dormindo, viremos busc-los para uma festa, 
onde comemoraremos mais um trabalho concludo, com xito. 
-Uma festa?! Onde e como pode haver uma festa? 
-Uma festa, sim, com direito a tudo, msica, canto, apresentao 
teatral e at dana, com um sambinha muito bom. 
O pai de Ester olhou para a esposa, depois para Vicente e, 
desconfiado, se perguntou: 
-Como pode ser? Uma festa! Imagine! 
Vicente riu e disse: 
-Voc no sabe que, quando a pessoa morre, leva com ela todos os 
defeitos e qualidades? Que no foi porque morreu que modificou e se 
tornou melhor ou pior? 
-Sei de tudo isso, mas at a ter uma festa? 
-Por que no? O esprito, para ser feliz, no tem de fazer o que gosta? 
A vida no  igual em qualquer lugar? Ns, espritos desencarnados, 
temos uma vida igual ao encarnado. Temos horas de muito trabalho, 
382


Difcil Deciso 
como aconteceu aqui, temos momentos de orao e agradecimento, mas 
tambm de descanso e lazer. O que seria dos cantores, compositores, 
atores, atrizes, msicos, bailarinas e bailarinos, se no pudessem fazer o 
que mais gostam? Acredita que seriam felizes? 
Ele pensou e respondeu: 
-Acho que voc tem razo. 
- Eu no! Deus  quem tem sabedoria! D a todos de acordo 
com as nossas obras! E os artistas, de qualquer categoria, possibilitam 
momentos de felicidade e descontrao queles que assistem a eles. Seria 
injusto, se no pudessem continuar .s porque morreram. Quando eles 
chegam aqui, encontram aqueles que vieram na sua frente. Quando isso 
acontece, existe muita festa e felicidade. Eles cantam, danam, atuam, e 
ns, que no somos artistas, aplaudimos. Agora, est na hora de irmos 
embora. Vamos? 
Deram-se as mos e saram voando. 
383




Eplogo
Como o combinado, trs dias depois, durante a madrugada, a equipe
chefiada por Vicente voltou. Todos os participantes da nossa histria
estavam dormindo profundamente. Foram acordados e retirados 
do corpo, um a um. Presos ao corpo por um fio prateado seguiram a 
equipe. Em poucos minutos, estavam em uma sala de espetculo, onde
uma pea teatral era exibida. Reconheceram alguns dos atores. Depois,
foram para um outro salo, onde um espetculo de dana estava tambm
acontecendo. Os bailarinos danavam o Cisne Negro. Vicente os
conduziu para outra sala, onde pares danavam com ricas vestimentas 
ao som de uma valsa. Depois, chegaram a uma grande quadra, onde 
havia uma roda de samba, com vrios pandeiros e violes, cantores e 
cantoras conhecidos. Todos estavam abismados, pois no imaginavam 
que algo como aquilo pudesse existir. Vicente sorriu ao ver o espanto
deles. Disse:
-Ainda no viram tudo. H um cantor se apresentando de quem
eu gostava muito. Venham!
Eles o seguiram, sentaram nas poltronas confortveis que havia no
teatro. A cortina do palco se abriu e luzes coloridas que pareciam sair
de holofotes invisveis, iluminaram um homem vestido com um fraque
preto, que entrou cantando uma msica conhecida por todos.
Lencio, entre todos, foi o que mais se emocionou. Com lgrimas,
disse:
-Vicente!  o meu filho que est cantando?  ele, a quem tenho
procurado tanto!
-  ele, sim. Voc o tem procurado, mas no nunca deixou de se
envolver em todos os trabalhos para os quais foi solicitado. Enquanto
trabalhava nos ajudando, equipes socorristas procuravam por seu filho. 
H alguns meses ele foi encontrado e resgatado por uma delas. Por 
ter deixado a vida por causa do vcio da bebida, estava em condies 
precrias. Foi tratado e agora est a, cantando como um passarinho. 
Assim que terminar o espetculo, voc ir at ele, que est tambm 
ansioso para v-lo. 
Lencio no se conteve e comeou a chorar violentamente. Vicente 
385


Eplogo
o abraou, mas os seus soluos eram altos. Uma senhora que estava
sentada atrs deles disse: 
-Psiu! Fiquem quietos, por favor! Quero ouvir o cantor! 
Lencio, secando as lgrimas com as mos, olhou para Vicente que, 
rindo e olhando para o pai de Ester, disse num sussurro:
-No lhe disse que aqui era tudo igual?
Todos riram e continuaram assistindo ao cantor entoar aquelas belas
msicas.
Fim

Editora Mensagem de Luz
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